A PIOR SECA NO NORDESTE EM UM SÉCULO

seca-no-nordeste-cid-barbosa

Enquanto milhares de brasileiros vão passar o Carnaval com as barras das calças levantadas e com os pés sujos de lama fazendo a limpeza de suas casas após os estragos das últimas enchentes, outros 33 milhões de brasileiros da região do Semi Árido continuam enfrentando as muitas agruras da maior seca registrada na região nos últimos cem anos.

De acordo com dados da ANA – Agência Nacional de Águas, que monitora 533 grandes reservatórios na Região Nordeste, 142 destes reservatórios estão secos. Com o volume de água armazenada em queda contínua desde 2012, os reservatórios operam hoje, em média, com 16,3% da capacidade – no Estado do Ceará, que está em pior situação, os reservatórios apresentam níveis de apenas 7% da capacidade armazenada. Segundo informações da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, desde 1910 não se registrava uma seca tão severa no Estado – lembrando que essa dramática seca foi imortalizada na obra “O Quinze” da escritora Rachel de Queiroz.

Enquanto centenas de municípios estão em estado de calamidade pública por causa da seca, as obras do alardeado Sistema de Transposição das Águas do Rio São Francisco estão com muitos trechos abandonados e outros com as obras a passo de tartaruga, com denúncias de superfaturamento e desvios de verbas de todos os tipos. As muitas promessas, repetidas desde os tempos do Império, mais uma vez não foram cumpridas e água que é bom, nada.

Concordando mais do que nunca com Euclides da Cunha – o sertanejo precisa ser um forte.

Anúncios

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS CHUVAS

enchente-em-sao-paulo

Nesta semana de Carnaval, quando todo mundo quer relaxar na praia ou no campo, preparei uma série de posts curtos, tratando dos contrastes climáticos que tomam conta das diferentes regiões do país. Vamos a eles:

Na última sexta-feira, dia 24 de fevereiro, enquanto milhões de pessoas faziam os preparativos e as malas para a tão esperada viagem de Carnaval – calcula-se que 2 milhões de veículos deixaram a Região Metropolitana de São Paulo rumo ao litoral e ao interior, a capital paulista viveu mais um dia de caos por causa das fortes chuvas.

Chuvas com intensidade de até 69 mm, registradas na região da Vila Prudente, colocaram a cidade inteira em estado de atenção e os distritos do Ipiranga, Vila Prudente, Aricanduva, Penha e São Mateus no chamado estado de alerta. Foi registrada queda de granizo em Itaquera, Artur Alvim e no aeroporto de Congonhas, que foi fechado para pousos e decolagens por duas horas. Como é usual nestas situações, dezenas de árvores caíram em bairros de toda a cidade. Na região de Cumbica, em Guarulhos, foram registradas rajadas de vento de 72 km/h.

No início da noite, quando muitos foliões tomavam rumo às estradas para a tão esperada viagem de Carnaval, se registravam 18 pontos de alagamento por toda a cidade. Chuvas fortes e enchentes fazem parte da paisagem e do calendário de Carnaval de muitas cidades e regiões do Brasil.

OS RESÍDUOS SÓLIDOS E A POLUIÇÃO DO AR: UM EXERCÍCIO

fumaca-caminhao-de-lixo

Na minha postagem anterior falei da Redução da produção de resíduos sólidos através da Reciclagem e Reutilização, visando a redução do volume de resíduos sólidos que acabam chegando aos aterros sanitários todos os dias. Usei como exemplo prático o caso do aterro sanitário da cidade de Caieiras, que recebe diariamente 700 caminhões de rejeitos da cidade de São Paulo – são 6 mil toneladas despejadas todo santo dia.

Para que todos vocês consigam entender a urgência da implantação plena da Política Nacional de Resíduos Sólidos, vamos realizar algumas projeções matemáticas para que você veja e sinta o tamanho do problema.

Quem conhece a gigantesca cidade de São Paulo sabe que percorrer 50 ou 100 quilômetros pelas ruas e avenidas sem sair dos limites urbanos é coisa corriqueira e diária para milhares de pessoas. Vamos imaginar que cada um dos 700 caminhões que transportam resíduos até o aterro em Caieiras tenham de circular 50 quilômetros diariamente pelas ruas de São Paulo, fazendo a coleta porta a porta. Além disso, é preciso informar que a viagem entre São Paulo e Caieiras é de 40 quilômetros (distância entre os centros das cidades) – considerando as viagens de ida e volta, são 80 quilômetros: a distância total diária percorrida por cada um dos caminhões é, neste exercício, de 130 quilômetros ou 91.000 quilômetros para toda a frota.

Para efeito de cálculo do gasto de combustível pela frota de caminhões, vamos considerar um consumo médio de 1 litro de óleo diesel para se percorrer 5 quilômetrosserão necessários 18.200 litros de óleo diesel para mover a frota de caminhões pelos 91.000 quilômetros diários de percurso. A conta do posto de gasolina fica em mais de R$ 60 mil por dia (considerando um custo de R$ 3,30 por litro de diesel).

Para tornar esse nosso exercício mais dramático, preste atenção nestes números: a literatura técnica especializada nos informa que um motor de caminhão movido a óleo diesel emite entre 2,6 kg a 4 kg de CO2 (dióxido de carbono) para cada litro de diesel queimado na combustão, a depender do peso da carga que está sendo transportada. Para efeito deste exercício, vamos considerar o valor médio, que corresponde a 3,3 kg de CO2 para cada litro de óleo diesel queimado na combustão: são 58.240 quilogramas de CO2 lançados diariamente na atmosfera da cidade somente por essa frota de caminhões usada no transporte destes resíduos sólidos. Existem também óxidos de nitrogênio e de enxofre, hidrocarbonetos, material particulado e outros gases nocivos que não estão sendo contabilizados nessa conta.

A poluição do ar é um dos grandes problemas ambientais da região metropolitana de São Paulo e os motores à diesel têm grande responsabilidade nesse problema: são lançadas anualmente cerca de 22,9 mil toneladas de fumaça preta oriundas da frota de ônibus, caminhões e caminhonetes movidos à diesel, além de cerca de 1.029 mil toneladas ano de monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos e óxidos de enxofre. De acordo com dados da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – CETESB, corroboradas pelo médico e professor de patologia da USP, Dr. Paulo Saldiva, uma das maiores autoridades mundiais em doenças provocadas pela poluição do ar, até 20 pessoas morrem por dia na Região Metropolitana de São Paulo por causa da poluição do ar.

Se você tem uma boa memória, vai lembrar que no meu post anterior informei que a produção diária de resíduos sólidos na cidade de São Paulo é de 19 mil toneladas – os números apresentados neste exercício correspondem apenas às 6 mil toneladas que são descarregadas diariamente no aterro sanitário de Caieiras: para chegar aos números diários totais  da poluição do ar gerados pelos resíduos sólidos da cidade, multiplique tudo por 3.

Cada tonelada de resíduos sólidos que nossa sociedade deixa de produzir a cada dia representa uma redução na quantidade de viagens de caminhões em nossas ruas e avenidas, menor poluição atmosférica, menores gastos com a gestão, transporte e processamento, além de economia de espaço nos já saturados aterros sanitários. De quebra, como uma cereja no bolo, pode contribuir na redução do número de mortes causadas pela poluição do ar.

Viu como é urgente a redução do volume de resíduos sólidos?

REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR: ACHO QUE VOCÊ JÁ LEU SOBRE ISSO POR AQUI

reutilizacao-do-lixo

O aumento do volume do lixo é uma preocupação global e existem diversos movimentos nos países mais desenvolvidos no sentido de estabilizar e reverter essa situação. Entre outras iniciativas, esses países trabalham com os conceitos de Redução do volume de resíduos sólidos gerados, no estímulo à Reutilização de resíduos e materiais e também na Reciclagem, que é a transformação dos resíduos sólidos em matérias primas. Eu já escrevi sobre esses temas e você poderá consultar alguns destes posts a partir dos links indicados.

Para não ficar “chovendo no molhado”, vamos analisar o caso prático da cidade de São Paulo, onde todos os aterros sanitários do município estão saturados e já existe a “exportação” dos rejeitos para aterros localizados em outros municípios da Região Metropolitana, como Caieiras.

São Paulo é a maior cidade brasileira, com uma população de 11 milhões de habitantes. Sua Região Metropolitana figura entre as dez mais populosas do mundo, com uma população estimada em mais de 21 milhões de habitantes. Em uma região onde vive tanta gente, como não poderia deixar de ser, geram-se volumes impressionantes de resíduos sólidos – verdadeiras montanhas de “lixo”. São Paulo é a cidade que mais produz resíduos sólidos no Brasil, com um volume com cerca de 19 mil toneladas diárias. A composição média desses resíduos pode ser conferida nesta tabela:

– Lixo orgânico (52%)
– Papel e papelão (26%)
– Plástico (3%)
– Metais: ferro, alumínio, aço, etc. (2%)
– Vidro (2%)
– Outros (15%)

Sem maiores esforços, você vai perceber que 35% dos resíduos sólidos são materiais recicláveis e reutilizáveis que, via de regra, não deveriam ser encaminhados para os aterros sanitários – a cidade de São Paulo, porém, é uma das que menos recicla e/ou reutiliza no mundo: apenas 1% dos resíduos sólidos produzidos são reaproveitados de alguma forma.

Chama atenção também o grande volume de lixo orgânico na composição dos resíduos orgânicos da cidade – 52%. Resíduos orgânicos, como todos devem saber, podem ser transformados em adubo orgânico a partir de processos de compostagem. Considerando que o Brasil é uma potência mundial na produção agrícola, seria bastante razoável imaginar que boa parte desses resíduos poderiam ser processados em escala industrial e vendidos posteriormente na forma de adubo orgânico para os produtores rurais, reduzindo-se substancialmente o volume de rejeitos orgânicos destinados aos aterros sanitários.

No item Outros, que corresponde a 15% da composição dos resíduos sólidos, encontraremos os resíduos da construção civil, restos de madeira, lixo eletrônico, além de outros resíduos diversos inclassificáveis. Resíduos da construção civil representam uma classe específica dos resíduos sólidos, com grande potencial de reciclagem e reutilização, e não devem ser misturados ao popular “lixo comum”. Resíduos de madeira, na pior hipótese, tem grande potencial na geração de energia através da queima. Lixo eletrônico, já falamos muito sobre ele, traz uma série de riscos ao meio ambiente e também apresenta grandes potenciais de reciclagem através de tecnologias apropriadas.

Usando de puro bom senso, você pode observar que é uma verdadeira “judiação”, como falavam meus avós, jogar fora tantos materiais e resíduos com potencial de reutilização, inclusive com perspectivas de ganhos econômicos. Segundo o Movimento Nossa São Paulo, enterramos R$ 750 milhões em produtos recicláveis e reutilizáveis todos os anos aqui na nossa cidade. Mas, por puro comodismo ou burrice, resistimos em mudar nosso entendimento sobre os resíduos sólidos e continuamos a enviar diariamente montanhas e mais montanhas de materiais para os aterros sanitários.

O aterro de Caieiras sozinho recebe diariamente 700 caminhões, que despejam nas valas 6 mil toneladas de resíduos sólidos todos os dias. Desde o ano de 2002, quando esse aterro começou a operar, já foram depositados ali 15 milhões de toneladas de resíduos sólidos. A vida útil estimada para este aterro é de 20 anos – quando estiver completamente saturado, ele deverá ser abandonado e as autoridades buscarão uma outra área em condições de ser transformada num novo aterro sanitário.

É por isso que, na minha opinião, a redução do volume dos resíduos sólidos é tão urgente e é um dos principais objetivos da Política Nacional dos Resíduos Sólidos.

Até o próximo post.

O LIXO QUE VIROU RESÍDUO SÓLIDO, OU OS NOVOS TEMPOS

lixeira

Falando numa linguagem bem popular, a Política Nacional de Resíduos Sólidos tem dois objetivos principais: a redução do volume de resíduos que efetivamente será encaminhado para os aterros e a eliminação dos aterros clandestinos – os famosos lixões. Existem outros desdobramentos e objetivos importantes, que trataremos em outras postagens, mas estes dois itens são na minha opinião os principais e mais urgentes. Vivemos num momento em que Estados e Municípios sofrem com a falta de recursos financeiros para tudo – falta dinheiro de um lado sobram resíduos sólidos por todos os lados: é preciso melhorar a eficiência da gestão, baixar custos e disciplinar a disposição final dos rejeitos nos aterros.

Um dos maiores avanços da nova Política é a mudança do conceito ancestral que nossa sociedade tem do que vem a ser lixo. Se você consultar qualquer dicionário da língua portuguesa, encontrará significados como esses para a palavra lixo:

  1. Aquilo que se deita fora por não ter utilidade ou por ser velho;
  2. Restos de cozinha e toda a espécie de resíduos desnecessários que resultam da atividade de uma casa;
  3. Pó e sujidade acumulado;
  4. Lixeira;
  5. Imundície; sujidade;
  6. Local onde se reúne tudo aquilo que é para deitar fora;
  7. Coisas inúteis, entre outros significados.

Há centenas de anos, quiçá milhares, nossa espécie vem tratando tudo o que é inútil, quebrado, velho, sujo, imundo e afins como lixo, independente da língua utilizada para expressá-lo. Repentinamente, o conceito de lixo muda e passamos a conviver com uma nova ideia que diz que nem tudo que compõe o dito cujo é inútil, quebrado, velho, sujo, imundo e afins – muitas coisas presentes no chamado lixo são resíduos que podem ser reutilizados, reciclados e reaproveitados: é uma mudança cultural grandiosa, que vai requerer muito tempo para ser absorvida por grande parte da população.

E por que essa mudança de conceito é tão fundamental nesse momento?

Porque, como venho comentando há algum tempo, o volume de resíduos sólidos vem aumentando de maneira dramática em todo o mundo. Nossa sociedade moderna se especializou na produção massificada de todos os tipos de produtos, que após um curto período de vida útil, são descartados e encaminhados para um lixão ou algum tipo de aterro. Esse descarte massivo de resíduos têm um custo de gestão cada vez maior, gestão que é cada vez mais ineficiente e necessita de áreas cada vez maiores para receber e “armazenar” esses resíduos inservíveis. É um sistema onde há muitas perdas: perda de recursos financeiros, perda de matérias primas, perda de áreas naturais e de mananciais de água, entre outras. É preciso dar um basta nesse círculo pernicioso e repensar uma série de paradigmas e procedimentos.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos redefine com muita clareza o conceito de lixo, deixando muito claro que grande parte do que é descartado tem sim utilidade e valor:

– Resíduo sólido é todo material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade, e cuja destinação deve considerar a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e o aproveitamento energético;

– Rejeito é todo o resíduo sólido que, depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequada em aterros sanitários;

Observe que antes de ser considerado como um Rejeito (que tem um sentido equivalente à nossa imagem atual do lixo), os Resíduos Sólidos gerados precisam passar por uma espécie de “peneira” para a separação e o reaproveitamento máximo, numa mineração moderna de matérias primas. Somente após todo esse reaproveitamento e separação de resíduos úteis é que os restos ou rejeitos serão encaminhados para disposição final em aterros sanitários devidamente regularizados e operados dentro dos critérios técnicos adequados, num volume bem inferior aos volumes atuais. Com isso temos como resultado final a redução no volume de rejeitos que serão encaminhados para os aterros, que passam a ser áreas tecnicamente adequadas e preparadas para receber os rejeitos – há um enorme ganho ambiental e econômico em todo o processo: toda a sociedade sai ganhando.

Continuaremos no próximo post.

O AUMENTO DOS CUSTOS DA GESTÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS – UM PROBLEMA EM POTENCIAL

coleta-automatizada-de-lixo-no-canada

Quando nossos ancestrais, há milhares de anos atrás, decidiram abandonar a vida nômade de caçadores-coletores e passaram a viver em sociedades organizadas em vilas e cidades, assumiram intuitivamente o compromisso de dividir o trabalho e os custos para a manutenção desse novo estilo de vida. Viver em comunidade era mais seguro, porém, de alguma forma os habitantes teriam de pagar por essa proteção financiando a construção de muralhas ao redor da cidade; contar com uma fonte de água confiável e permanente no centro da vila era muito confortável, porém, era preciso pagar pela escavação de um poço ou pela construção de um aqueduto que trouxesse a água das montanhas até uma fonte; contar com a justiça para arbitrar polêmicas era fundamental, mas alguém teria de arcar com a construção de um fórum e com os custos dos processos, dos juízes e dos advogados. E para que se gerenciasse tudo isso surgiram nas sociedades os reis e suas cortes, os exércitos, a administração pública e toda a burocracia estatal com seus serviços e inúmeros funcionários e, principalmente, criaram-se os mecanismos de cobrança dos impostos para se financiar a chamada “vida em sociedade”. Num resumo do resumo do resumo, esse é o conceito: quer viver em sociedade – então pague sua parte da conta!

Na nossa vida moderna, em nossas casas e locais de trabalho ou dirigindo nossos carros pelas ruas e avenidas, não percebemos com tanta clareza que nosso conforto e bem-estar em sociedade têm seus custos, que pagamos na forma de uma infinidade de impostos e taxas. Em troca, recebemos água potável, energia elétrica, serviços de telefonia, educação, segurança, saúde, infraestrutura viária e uma infinidade de outros serviços, nem sempre com uma qualidade à altura do valor que foi pago em impostos e taxas (nós brasileiros sabemos disso como ninguém). Todos arcam, direta ou indiretamente, com sua parte nos custos e todos usufruem, em maior ou menor grau, dos benefícios da vida em sociedade.

Um dos serviços fundamentais que todos pagamos e que gera inúmeras reclamações é a gestão dos resíduos sólidos. Em países com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), essa cobrança resulta em um serviço de qualidade: há um esforço muito grande na conscientização pela redução da produção de resíduos e um grande empenho em soluções de reciclagem e reutilização. Nos países em desenvolvimento como nosso, é essa “bagunça” que vemos por todos os lados, com lixões e aterros clandestinos, lixo nas ruas e em terrenos baldios, resíduos hospitalares e industriais descartados sem os mínimos cuidados com a segurança dos “trabalhadores do lixo” e a sustentabilidade ambiental, proliferação de vetores sem qualquer controle etc. – um verdadeiro caos!

Muita gente dá seus palpites e esboça suas soluções, imaginando formas de se melhorar as coisas. Mas um dos problemas fundamentais é o aumento contínuo dos custos da gestão dos resíduos sólidos. É preciso coletar, transportar e processar os resíduos – alguém tem de pagar pela mão de obra, caminhões, máquinas e combustível; pela compra do terreno onde esses resíduos serão depositados e pelo projeto de licenciamento ambiental e assim por diante. Governos não criam recursos: os diversos impostos e taxas cobradas em cima de tudo (salários, produtos, serviços etc.) são usados para financiar todas as operações e serviços públicos em todos os níveis, inclusive pela gestão dos resíduos sólidos.

Como eu demonstrei em posts anteriores, um dos grandes problemas enfrentados por nossas cidades é o crescimento do volume dos resíduos sólidos numa taxa muito maior que o crescimento da população – um problema muito parecido com o que está acontecendo com a previdência social: o número de idosos cresce a cada ano e as fontes de financiamento da Previdência Social para as aposentadorias não conseguem acompanhar esse crescimento. A diferença é que resíduos sólidos podem ter suas fontes de geração reduzidas ou controladas e o que for gerado pode ser em grande parte reciclado ou reutilizado – é um caminho que nossa sociedade precisa aprender a seguir o mais rápido possível. Precisamos baratear e tornar a gestão mais eficiente.

Caso não consigamos fazer isso, vamos todos ter de arcar com os inevitáveis aumentos dos custos de gestão dos resíduos sólidos – aumento de impostos e taxas é coisa que ninguém gosta de ver.

Pense nisso.

O CRESCIMENTO DO VOLUME DE RESÍDUOS SÓLIDOS, OU RELEMBRANDO “SIMPLESMENTE AMOR”

simplesmente-amor

Nos últimos posts eu apresentei uma série de argumentos sobre os problemas dos resíduos sólidos, notadamente no tange ao aumento dos custos de coleta, processamento e destinação dos resíduos – a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a meu ver, precisa ser precedida de soluções para a questão do financiamento da gestão antes de ver lograr os avanços previstos no texto. Se a sociedade não encontrar uma solução para o financiamento desse aumento nos custos, poucos avanços na questão dos resíduos sólidos serão conseguidos.

Deixe-me relembrar uma cena de uma ótima comédia inglesa de 2003, Simplesmente Amor, para entendermos como vem se dando o crescimento do volume de resíduos sólidos em nossa sociedade:

O personagem vivido pelo saudoso Alan Rickman (o eterno Professor Severus Snape da saga Harry Potter) quer comprar um colar dourado para sua amante – o vendedor é Rowan Atkinson, mais conhecido pelo seu personagem Mr. Bean: é claro que só poderia acabar em confusão. Apesar da pressa do comprador, o vendedor insiste em embalar devidamente o presente: primeiro, o colar é colocado em uma pequena caixinha de papelão, fechada com um laço dourado; depois, a caixa é colocada em um saco plástico transparente, onde são colocadas mini rosas desidratadas, folhas de pinheiro e pedaços de canela para perfumar – ao final, todo o conjunto ainda seria colocado em uma caixa especial de Natal, forrada com papel dourado. A cena é interrompida pela chegada da esposa do comprador, vivida pela excelente Emma Thompson. A divertida cena, que você pode conferir neste link, mostra os exageros de nossa sociedade na produção dos resíduos sólidos – a simples caixinha de papel, que seria mais do que suficiente para embalar o presente, é envolvida por outras “embalagens” redundantes: o resultado é um volume de resíduos muito maior do que seria razoável.

Quem é da minha faixa etária (ou “otária” como costumo brincar) e viveu sua infância nos idos das décadas de 1960 e 1970, deve se lembrar dos empórios e mercadinhos de bairro, que ainda resistem em alguns lugares, que vendiam cereais e farinhas a granel: arroz, feijão, farinha de mandioca e de milho, lentilha, ervilha, fubá, milho de pipoca e outros – os produtos eram colocados e pesados em saquinhos de papel pardo e, ao se chegar em casa, eram transferidos para latas ou vidros. Outros produtos eram embalados em folhas de jornal. Comprava-se o necessário, na hora certa e gerando-se um mínimo de resíduos, aliás, de fácil decomposição na natureza. Em um período de tempo relativamente curto em termos históricos, houve uma mudança radical nessa forma de se comprar esses produtos: embalagens plásticas lacradas em fábrica, algumas vezes colocadas dentro de uma caixa de papelão, são colocadas à venda nas prateleiras de um supermercado. Uma pessoa que mora sozinha, fato aliás cada vez mais comum, que precisaria de uma pequena quantidade de um cereal ou farinha, é obrigada a comprar um pacote fechado de 500 gramas ou 1 kg – não é incomum ter de se jogar fora uma parte destes pacotes, que acabam estragando nos armários pela demora no consumo. Essa mudança na apresentação dos produtos ao consumidor ilustra o crescimento no volume de resíduos gerados em nossas casas – inclusive com uma porcentagem cada vez maior de materiais plásticos.

Pesquisas recentes vêm mostrando um crescimento do volume de resíduos sólidos numa taxa superior ao crescimento da população: entre 2003 e 2014 houve um aumento de 29% na geração de resíduos no Brasil, enquanto o crescimento da população no mesmo período foi de apenas 6%. Atualmente, cada brasileiro gera em média 1,062 kg de lixo por dia. Em termos bastante simplistas, cada prefeitura brasileira viu o volume de resíduos sólidos crescer aproximadamente 29%, com o crescimento proporcional dos respectivos custos, enquanto que o número de potenciais pagadores de impostos e de taxas cresceu apenas 6%. É fácil perceber que há um descompasso entre receitas e despesas, que terá de ser de financiado de alguma maneira: ou se aumenta o valor dos impostos e taxas para compensar o aumento dos custos ou se reduz o volume de resíduos gerados. Melhor que tudo, seria procurar aumentar a eficiência do sistema como um todo, fazendo todas as engrenagens trabalharem melhor na coleta, processamento e destinação dos resíduos sólidos: é capaz até de começar a sobrar recursos…

Existem poucas coisas imutáveis em nosso mundo – as operações matemáticas de soma e multiplicação são algumas delas: quando a conta não fecha é sinal que ocorreu algum erro na operação.