A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS TROPICAIS NA INDONÉSIA E NA MALÁSIA

Destruição de florestas na Indonésia

A Floresta Amazônica costuma ocupar, frequentemente, as manchetes dos noticiários de todo o mundo quando o assunto em pauta é a destruição das florestas tropicais. Em 2019, celebridades e políticos oportunistas de todo o mundo chegaram a afirmar que a Amazônia estava sendo “transformada em cinzas” pelas queimadas. O Presidente da França, Emmanuel Macron, chegou inclusive a ameaçar o Brasil com um eventual uso de forças militares para conter o avanço dos desmatamentos na “Nossa Amazônia“. 

Essa verdadeira obsessão das nações desenvolvidas pela preservação da Floresta Amazônica, entretanto, costuma desprezar agressões muito mais graves a outros importantes sistemas florestais pelo mundo afora. A Floresta Boreal, também conhecida como Taiga, é um grande exemplo – ela vem sofrendo intensos desmatamentos, principalmente na Rússia, e ninguém ameaça Vladimir Putin

A Floresta Tropical da Indonésia é a terceira maior do tipo no mundo e, em termos percentuais, é o sistema florestal que mais vem sofrendo com os desmatamentos nos últimos anos. Essa floresta ocupava originalmente 60% da superfície total da Indonésia ou uma área equivalente a 1,14 milhões de km².

De acordo com estudos da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do World Resource Institute, os intensos desmatamentos já consumiram perto de 20% das florestas indonésias nas últimas décadas. A vizinha Malásia tem um território 6 vezes menor do que a Indonésia, porém abriga 20% de todas as espécies animais do mundo, o que é uma biodiversidade surpreendente.

Um dos grandes vilões dos desmatamentos na Indonésia, e também na vizinha Malásia, atende pelo nome de azeite de dendê, um produto muito conhecido aqui no Brasil, principalmente pela culinária da Região Nordeste. Um dos principais usos do dendê nas últimas décadas foi como biocombustível, adicionado ao óleo diesel. Os produtores do Sudeste Asiático conseguiram vender para o mundo a ideia que o dendê é um biocombustível renovável, que poderia auxiliar na redução da poluição do ar nas grandes cidades. Muitos países passaram a importar o dendê e adicioná-lo ao diesel numa proporção de 10%

A palma-da-Guiné ou dendezeiro é originária da costa Oeste do continente africano, no trecho entre o Senegal e Angola. De acordo com estudos históricos, o óleo da palma vem sendo utilizado pelas populações há mais de 5 mil anos. No Brasil, a espécie foi introduzida no Período Colonial, quando era intenso o trânsito de navios negreiros e mercantes entre a África e o Brasil. Uma extensa região no Estado da Bahia passou a ser dedicada ao cultivo da palma-da-Guiné. Na década de 1960, foram introduzidas as primeiras mudas da espécie no Pará, Estado que responde atualmente por 70% da produção brasileira.  

O azeite de dendê faz parte da culinária regional de diversos Estados brasileiros, sendo a culinária da Bahia uma das mais representativas – o dendê entra em inúmeras receitas como o acarajé e as moquecas. O azeite de dendê também está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros.  

A produção e o uso do azeite de dendê sofreram um enorme incremento a partir de 2005, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, um conjunto de metas negociadas e assinadas pelos países em 1997 para a redução das emissões dos gases de efeito estufa. Um dos principais compromissos assumidos pelos países signatários foi a redução das emissões de gases poluidores em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis emitidos em 1990. Entre as ações propostas destacam-se a reforma dos setores de energia e transportes, proteção das áreas florestais e a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, o que criou um grande mercado para o óleo de palma.  

O óleo de palma responde por cerca de 35% da produção mundial de óleos de origem vegetal. Uma das principais razões dessa forte participação do óleo de palma no mercado é a sua alta produtividade, que se situa entre 3 a 5 toneladas por hectare. Essa produtividade é 10 vezes maior que a obtida com a soja, 4 vezes maior do que a do amendoim e 2 vezes maior que o coco. Os baixos preços das terras agrícolas na Malásia e na Indonésia, os baixos custos para a produção do óleo, a farta disponibilidade de mão de obra e as fracas políticas de conservação das áreas florestais nesses países foram determinantes para o rápido crescimento da cultura da palma-da-Guiné nessa região .

Malásia e Indonésia, que já eram tradicionais países produtores e exportadores do óleo de palma, rapidamente viram as suas áreas de produção serem ampliadas e atualmente respondem por 90% da produção mundial. As primeiras mudas de palma-da-Guiné chegaram na Ilha de Sumatra, na Indonésia, em 1911; em 1917, foi a vez da introdução da espécie na Malásia. Em 1995, a produção mundial de óleo de palma foi de 15,2 milhões de toneladas – em 2020, essa produção deverá chegar a 60 milhões de toneladas. Cerca de metade dos desmatamentos nesses dois países tem como objetivo a ampliação das áreas de produção do dendê.  

Queimadas na Indonésia

A intensa devastação ambiental que foi criada pela expansão descontrolada das lavouras de palma-da-Guiné na Malásia e na Indonésia levou a Comunidade Europeia a criar mecanismos que impeçam ou reduzam a importação de óleo de palma desses países. Em abril de 2019, uma Comissão aprovou medidas para controlar e certificar os tipos de óleo de palma que podem ser utilizados como biocombustível no continente europeu, complementando uma legislação aprovada em 2018.  

Os países da União Europeia estão impondo restrições ao uso do óleo de palma por que sua produção, comprovadamente, causa desmatamentos e agrava o aquecimento global, uma realidade completamente oposta aos objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto. Outra questão seríssima é a ameaça que esses desmatamentos representam para uma infinidade de animais nativos dessas florestas como o tigre-de-Sumatra, o orangotango (vide foto no alto) e o rinoceronte-de-Sumatra, entre muitas outras. 

Desde o início de 2018, os preços do óleo de palma já caíram cerca de 15% e as expectativas a longo prazo não são nada otimistas. Os produtores da Malásia e da Indonésia temem que os países da Europa estejam planejando proibir todas as importações de óleo de palma de seus países a partir de 2021. Esses produtores estão protestando fortemente e exigindo que seus Governos adotem medidas retaliatórias contra os países da Europa. Essa é uma história que ainda vai dar “muito pano para a manga”.

Uma outra fonte de problemas para as florestas locais são as indústrias de papel e celulose, que também se aproveitam da legislação ambiental fraca e de políticos corruptos para derrubar florestas centenárias, plantando em seu lugar monoculturas de pinus e eucalipto. Aqui é importante lembrar que a Indonésia possui a segunda maior biodiversidade do mundo, só ficando atrás do Brasil em número de espécies, e a pequena Malásia não fica longe disso. 

Substituir uma floresta riquíssima por plantações comerciais de pinus e eucalipto é um crime ambiental inominável. 

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