OS PROBLEMAS DA POLUIÇÃO HÍDRICA DIFUSA EM CURITIBA

Parque Ibirapuera, São Paulo, Brasil

Na minha última postagem falamos da aparente incoerência entre a cobertura universal de redes coletoras de esgotos na cidade de Curitiba e o fato do rio Iguaçu ocupar a segunda posição no ranking dos rios mais poluídos do Brasil. Deixem-me explicar isto antes que curitibanos raivosos comecem a me mandar mensagens de protesto: a simples presença de uma rede coletora na porta dos imóveis de uma localidade não é garantia de que todos os esgotos do local estão sendo despejados de forma regular – muitos imóveis antigos, construídos antes da construção da rede pública de esgotamento sanitário, já estavam ligados a antigos sistemas particulares de manilhas que despejavam os efluentes do imóvel em algum curso d’água próximo. É muito comum que estes imóveis estejam no segundo ou terceiro dono, dono esse que desconhece a infraestrutura de tubulações do imóvel, escondida sob pisos cerâmicos ou de pedra, ou ainda sob vistosos jardins. A época da conclusão da rede coletora pública de esgotos, esses imóveis foram ligados à rede, porém, muitas vezes em condições onde não é possível afirmar que todos os efluentes gerados na rede hidráulica interna estão sendo lançados neste ramal de saída – efluentes de edículas nos fundos dos terrenos podem estar lançando esgotos nas águas de córregos e rios canalizados sem que os proprietários do imóvel saibam. Vou descrever uma situação que vivi aqui em São Paulo que ilustra muito bem esse problema:

Entre os anos de 2013 e 2014 trabalhei em um escritório no charmoso bairro do Jardim Paulista, a 300 metros de um dos portões do Parque do Ibirapuera – para quem não conhece a cidade de São Paulo, trata-se do parque urbano mais importante da cidade, com quase 1,6 milhão de metros quadrados, e listado como uma das melhores áreas verdes urbanas do mundo. Nesta área do Jardim Paulista não existem edifícios, mas apenas casarões e mansões centenárias da antiga elite da cidade. Na primeira semana de trabalho neste escritório, caiu uma daquelas famosas tempestades de fim de tarde, típicas do Verão paulistano. Terminada a chuva, na saída para a volta ao lar com o carro que estava estacionado na frente do escritório, observei que as duas rodas que estavam sobre a sarjeta pareciam estar cobertas com “lama” – ao me aproximar para conferir, rapidamente percebi pelo cheiro que aquilo, na realidade, eram resíduos de fezes. Outros carros estacionados ali apresentavam os mesmos resíduos – aliás, a rua ficou com o cheiro “característico” por vários dias. Prestando um pouco mais de atenção na inclinação da rua e na elevação dos terrenos, entendi rapidamente que existia ali um córrego canalizado e que inúmeras daquelas mansões estavam despejando seus esgotos nas suas águas.

As áreas de entorno do Parque do Ibirapuera, especialmente o Jardim Paulista e a Vila Nova Conceição, é onde se encontram os imóveis mais caros da cidade de São Paulo, com preços entre R$ 12 e R$ 14 mil por metro quadrado, em média – somente em áreas de Copacabana, Leblon e Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro, você vai encontrar imóveis mais caros. Esta região, mais conhecida como Jardins, é disparada a que tem a melhor infraestrutura da cidade, com ruas arborizadas, imóveis elegantes, restaurantes caríssimos e, algo que anda muito em falta nas nossas cidades: muita segurança. Mesmo com todos esses invejáveis pontos positivos, trata-se de uma região onde “fezes afloram” das redes coletoras de águas pluviais em dias de chuva forte. Para todos entenderem a complexidade do problema, vou citar o exemplo dos lagos do famoso Parque do Ibirapuera (vide foto) – esses lagos foram formados a partir do represamento do Córrego do Sapateiro. Esse corpo d’água se forma na área do Parque do Ibirapuera a partir da junção das águas de diversos córregos, hoje canalizados, que drenam os bairros do entorno. A Prefeitura de São Paulo, há várias décadas, vem tentando despoluir as águas destes lagos e ainda não conseguiu solucionar totalmente o problema – o motivo: os lançamentos irregulares de esgotos nos córregos da região pelas mansões e por muitos edifícios de luxo dos Jardins e da Vila Nova Conceição. A única forma possível de se identificar os imóveis irregulares é através do uso de corantes especiais, lançados nos vasos sanitários destes imóveis – após a descarga ser acionada, uma equipe de técnicos posicionada nas margens do lago verifica se a mancha de corante aparece na superfície – se isto acontecer, bingo: uma ligação irregular foi localizada. Mas, vai conseguir autorização de um destes “ricaços” para entrar no imóvel e fazer este teste…

Na cidade de Curitiba e dos muitos rios “invisíveis”, são esses lançamentos irregulares de esgotos, semelhantes aos da região dos Jardins em São Paulo, os “prováveis” responsáveis pela poluição difusa que se vê na rede de corpos d’água da cidade e que chegam ao rio Iguaçu. Como demonstrei no caso de São Paulo, a identificação dos imóveis e a localização dos pontos de descarga destes efluentes nos corpos d’água é um trabalho extremamente complicado, especialmente quando estão os córregos e rios receptores dos efluentes estão canalizados e esquecidos a muito tempo e, muitas vezes, nem a Prefeitura da cidade nem os moradores mais velhos sabem ao certo onde estão localizados.

A localização, reabertura e a recuperação ambiental e paisagística destes rios invisíveis, e também dos inúmeros canais de córregos e rios poluídos em áreas urbanas, é um movimento interessante e que vem ganhando força nos últimos anos em importantes cidades mundo afora. É uma ideia que poderá ajudar muito na resolução deste grave problema em Curitiba. Exemplos que podem ser citados são o do rio Cheonggyecheon  em Seul, na Coréia do Sul, e do Córrego Pirarungáua em São Paulo – corpos d’água que estavam soterrados e esquecidos a várias gerações e que voltaram a vida e a luz do sol para o deleite das populações. Caso seja do seu interesse, neste link você encontrará um excelente artigo que trata deste atualíssimo e importante tema. 

Que “faça-se a luz” sobre as águas destes rios e córregos invisíveis da bela cidade de Curitiba. Continuamos no próximo post.

CURITIBA E SEUS RIOS “INVISÍVEIS”

Rio Água Verde

Ao longo do mês de outubro de 2016, publiquei aqui no blog uma série de postagens falando dos rios “invisíveis” da cidade de São Paulo e dos problemas de enchentes que surgiram ao longo de várias décadas, provocadas em grande parte pela canalização desenfreada destes cursos d’água. De acordo com informações do Professor Alexandre Deliajaicov, arquiteto e urbanista da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, somente na gestão do Prefeito Prestes Maia (1938-1945), foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, criando espaços para a implantação do seu famoso plano viário – o Plano de Avenidas de Fundo de Vale. Entre as justificativas, usadas desde o final do século XIX, citavam questões sanitárias, controle das enchentes e problemas ligados ao lixo e resíduos que a população despejava nos corpos d’água. Também se procurava esconder as águas já contaminadas pelos esgotos da cidade, que eram despejados descaradamente nos rios, riachos e córregos desde muito tempo atrás.

O município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000, se considerados os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem, pois, ao longo de décadas a fio, a cidade escondeu seus córregos e rios nas profundezas do subsolo. A cidade de Curitiba, que frequentemente aparece nos meios de comunicação sob a égide de “capital mais ecológica do Brasil”, também tem sua cota de rios invisíveis, que jogam para “debaixo do tapete” uma série de problemas de saneamento básico, que se manifestam explicitamente na poluição do rio Iguaçu nos “fundos” da cidade.

A cidade de Curitiba ocupa uma área de 432 km², o que corresponde a um quarto da superfície da cidade de São Paulo, e possui 6 bacias hidrográficas:

Rio Iguaçu: com uma área de drenagem de 68 km² dentro da cidade, ocupa o triste posto de segundo rio mais poluído do Brasil;

Rio Barigui: é a maior bacia hidrográfica da cidade, com uma área de drenagem de 150 km²;

Rio Passaúna: responsável pelo abastecimento de água da maior parte da cidade através da Represa do Passaúna, é a bacia hidrográfica com as águas mais limpas de Curitiba, com uma área de drenagem total de 38 km;

Ribeirão dos Padilhas: com área de drenagem de 39 km², está localizado na região com a menor quantidade de áreas verdes da cidade e com o maior número de construções e ocupações irregulares;

Rio Belém: localizada na área central de Curitiba, ocupa uma área de drenagem de 88 km² e é considerada a bacia hidrográfica mais poluída da cidade;

Rio Atuba: com uma área de drenagem de 23 km² em Curitiba, atravessa áreas densamente povoadas e recebe uma grande carga de esgotos domésticos e industriais.

Como aconteceu com São Paulo e outras grandes cidades brasileiras, conforme Curitiba foi crescendo, muitos rios e córregos da cidade foram sendo canalizados para liberar áreas para a construção de imóveis e avenidas. Na área central de Curitiba, para citar um exemplo, existem alguns rios e trechos de rios que foram canalizados e só são lembrados pela população quando alguma galeria desaba e suas águas são expostas à luz do dia – destaque para os rios Ivo, Belém, Água Verde (a foto que ilustra este post mostra a canalização deste rio em 1940) e Juvevê, além de uma infinidade de córregos já canalizados e há muito esquecidos.

Uma das funções mais elementares dos córregos, riachos e rios de uma bacia hidrográfica é permitir o escoamento das águas excedentes nos períodos das chuvas – a famosa drenagem das águas pluviais. Ao longo de milhões de anos, a erosão provocada pelas águas destes cursos foi a responsável pela construção de uma complexa rede de canais de drenagem, o que criou toda a “face” do relevo da região. Quando construímos as nossas cidades nestes terrenos, alteramos completamente a configuração destes canais de drenagem, eliminamos áreas de mata ciliar e impermeabilizamos os solos, o que em algum momento vai resultar nas famosas enchentes que vemos nas grandes cidades. A canalização desenfreada de cursos d’água nas áreas urbanas amplifica todos estes problemas, uma vez que as calhas não recebem trabalhos de limpeza e manutenção e acabam assoreadas com resíduos sólidos de todos os tipos, areia e pedras. Há um outro agravante – esses rios “invisíveis” recebem grandes despejos irregulares de esgotos, que dificilmente são detectados pelas autoridades responsáveis pelo saneamento básico.

Dados oficiais da empresa responsável pelo saneamento básico de Curitiba afirmam que 100% dos esgotos da cidade são coletados por suas redes de esgotos e 91,26% deste volume é tratado (2016) – porém, quando analisamos a situação ambiental do rio Iguaçu, percebemos que existe alguma coisa errada com estes números. Considerando que o rio mais poluído do país, o Tietê, atravessa uma região metropolitana com 16 milhões de habitantes e com graves problemas de lançamento de esgotos in natura na extensa rede hidrográfica regional, é uma verdadeira façanha o rio Iguaçu ocupar o posto de segundo rio mais poluído do país. Se, numa conta rápida, se descontar o volume de esgotos tratados em Curitiba e se considerar, hipoteticamente, que todo o restante da população da Região Metropolitana (3,5 milhões de habitantes em 2016) não possui nenhuma coleta, são os esgotos gerados por pouco mais de 1,5 milhão de habitantes os responsáveis por toda a poluição do rio Iguaçu. Esse número me leva a uma dúvida cruel: ou os números do saneamento básico na Região Metropolitana de São Paulo são muito melhores do que se anuncia ou existe alguma coisa muito “estranha” com os dados divulgados da coleta e tratamento de esgotos em Curitiba – a conta não fecha!

Matemágicas” à parte, o mapeamento e o conhecimento da rede de rios “invisíveis” é o melhor caminho para a solução dos problemas de drenagem pluvial e de lançamento de esgotos de forma difusa e clandestina em uma cidade como Curitiba. Melhor ainda: seguindo uma nova tendência mundial – a reabertura ou, como costumo chamar, a “descanalização” de rios e córregos urbanos, é uma das melhores formas de expor os problemas das águas subterrâneas para a população e permitir que se realize a recuperação integral dos problemas ambientais que foram varridos para o subsolo das cidades.

Poluição que os olhos não veem, o nariz, normalmente, sente…

TODOS OS CAMINHOS QUE LEVAM A CURITIBA

Curitiba

No post anterior falamos rapidamente dos diversos rios formadores do rio Iguaçu, que ao atravessarem os municípios da Região Metropolitana de Curitiba recebem grandes cargas de esgotos sanitários domésticos e industriais. O rio Iguaçu surge oficialmente a partir da junção dos rios Atuba e Iraí na divisa dos municípios de Curitiba e Pinhais e, infelizmente, já recebe neste ponto o título nada honroso de 2° rio mais poluído do Brasil. Vamos tentar entender como se chegou a este ponto de degradação ambiental.

A cidade de Curitiba tem aproximadamente 1,9 milhão de habitantes, sendo o município mais populoso do Estado do Paraná e da Região Sul do Brasil, e o 8° município mais populoso do país. Oficialmente (há dúvidas sobre a data exata), a cidade de Curitiba foi fundada em 1693 a partir de um pequeno assentamento de bandeirantes paulistas. Como aconteceu com a imensa maioria das cidades brasileiras, um dos principais fatores para a escolha do local mais adequado para a instalação da vila foi a farta disponibilidade de cursos d’água, a começar pela proximidade com o importante rio Iguaçu. Os principais rios que atravessam a cidade de Curitiba são Birigui, o ribeirão dos Padilhas, o Atuba, formador do rio Iguaçu, o Belém e o Passaúna. Na área central de Curitiba existem alguns rios e trechos de rios que foram canalizados ao longo dos anos e muitos dos curitibanos nem sabem da existência sua existência – destaque para os rios Ivo, Belém, Água Verde e Juvevê, além de uma infinidade de córregos já canalizados e há muito esquecidos pela população.

A história de Curitiba, porém, remonta aos tempos mais antigos dos primeiros anos da colonização da costa brasileira. Relatos antigos informam que o comandante da expedição exploradora e fundadora da cidade de São Vicente, Martin Afonso de Sousa, tomou conhecimento da existência de diversas trilhas indígenas que levavam ao interior do continente. Um destes caminhos, a Trilha de Paranapiacaba, usada pelos índios nas comunicações e comércio entre o litoral e o Planalto de Piratininga, foi fundamental tanto para a fundação da Vila de São Vicente no litoral quanto da Vila de São Paulo de Piratininga e outras vilas no planalto. Mais ao sul, no local onde se encontra a cidade de Cananeia, havia uma outra trilha que, segundo os relatos dos índios, levava até às já famosas minas de prata do Potosí, na Bolívia, e aos tesouros do império Inca.

Martin Afonso de Sousa organizou uma primeira expedição sob o comando de Pero Lobo para explorar este caminho – uma das primeiras descobertas da expedição foram os Campos de Curitiba. A expedição de Pero Lobo conseguiu seguir a chamada Trilha do Peabiru até chegar ao rio Paraná, onde infelizmente ele e seus comandados morreram num ataque dos índios guaranis. Foi a partir do conhecimento legado por esta primeira expedição que as trilhas indígenas das terras paranaenses passaram a ser frequentadas por inúmeras expedições de bandeirantes paulistas na busca de ouro e pedras preciosas e também na “caça” de indígenas para a escravização. E foi no cruzamento de vários destes caminhos através dos tempos e dos Campos de Curitiba que aconteceu a fundação da vila que originaria a cidade de Curitiba. Existem várias interpretações para a etimologia da palavra Curitiba – para muitos autores, a palavra é derivada da língua tupi: “Ku’ri” que significa pinheiro e “tüba”, um sufixo coletivo que tem como significado “muito pinheiro, pinhal”, nome que combina muito com a localização da cidade.

Muito do que se sabe sobre os antigos caminhos indígenas está envolto em lendas e mistérios e carecem de documentação escrita. Os peabirus (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado amassado) foram os antigos e extensos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos em suas intensas redes de comunicação e integração. Por esses caminhos eram feitas as migrações, o comércio, as guerras e os intercâmbios culturais e sociais entre os diferentes grupos indígenas. O Professor Reinhard Maack (1892–1969), um naturalista alemão e notório explorador do território paranaense, elaborou em 1952, um mapa mostrando o Caminho do Peabiru, tomando como base os manuscritos do aventureiro alemão Ulrich Schmidel, que percorreu este caminho em 1553. A área abrangida no mapa representa o território paranaense, parte de São Paulo, Santa Catarina, Paraguai, Argentina e Bolívia. Na década de 1970, uma equipe da Universidade Federal do Paraná, identificou cerca de trinta quilômetros remanescentes da trilha na área rural de Campina da Lagoa, no Paraná. Ao longo desse trecho, foram identificados sítios arqueológicos com vestígios de habitações. A maior parte destes caminhos acabou destruída pelo avanço das fronteiras agrícolas e a derrubada das antigas matas de araucárias.

A partir de 1853, com a emancipação da Província do Paraná (até essa data a Província estava integrada a Província de São Paulo), Curitiba assumiu o papel de capital provincial e os paranaenses assumiram as rédeas do seu destino. A cidade de Curitiba passou a receber imensos contingentes de imigrantes europeus, especialmente alemães, ucranianos, poloneses e italianos, transformando a cidade num dos mais vibrantes caldeirões multiétnicos do Brasil. Infelizmente, a infraestrutura básica por baixo de todo esse crescimento foi 100% nacional, com rios e córregos de todos os municípios da atual Região Metropolitana de Curitiba transformados em canais para o escoamento dos esgotos das populações e das empresas. O grau de deterioração que se vê no rio Iguaçu é um reflexo disto e mostra a necessidade urgente de mudanças.

Continuamos no próximo post.

IGUAÇU: O RIO MAIS POLUÍDO DO PARANÁ

Rio Iguaçu

Ele é o maior rio do seu Estado, com nascentes nos contrafortes da Serra do Mar na região Leste e curso seguindo na direção Oeste, até o encontro da sua foz com o grande rio Paraná. Ao atravessar a Região Metropolitana, as águas dos seus principais afluentes recebem grandes quantidade de esgotos domésticos e industriais in natura, transformando as águas límpidas num curso de esgotos a céu aberto. Ao longo do seu curso de mais de 1.300 km, a natureza se encarrega de depurar e recuperar a qualidade das suas águas, que lentamente voltam a se encher de vida…

Olhando rapidamente para esta introdução, um leitor mais desatento certamente irá se lembrar de outras descrições que fiz aqui falando do Rio Tietê, aquele que é considerado o rio mais poluído do Brasil, especialmente num trecho de aproximadamente 150 km entre a Região Metropolitana de São Paulo e o município de Itu. Mas hoje, como já denuncia o título do post, estamos falando do rio Iguaçu, o vice-campeão brasileiro na categoria “rios mais poluídos”. Os rios Tietê e Iguaçu são muito semelhantes por que foram formados no mesmo período geológico, quando a porção de terra que formaria a atual América do Sul começou a se separar do trecho que formou o continente Africano há, aproximadamente, 135 milhões de anos atrás – o movimento da Placa Tectônica Sul-Americana provocou o soerguimento de uma extensa faixa do litoral na borda Leste, levando a formação da Serra do Mar e forçando vários rios, como o Tietê e o Iguaçu, a correr no sentido Oeste.

Oficialmente, o rio Iguaçu surge a partir da junção dos rios Atuba e Iraí na divisa dos municípios de Curitiba e Pinhais. O rio Iraí, que tem as suas nascentes na Serra do Mar e é chamado inicialmente de rio Irazinho até a junção com o rio Palmital, atravessa os municípios de Piraquara e Pinhais na Região Metropolitana, onde recebe uma intensa carga de despejos de esgotos sem tratamento. O outro rio formador do Iguaçu, o Atuba, tem nascentes localizadas no município de Colombo e percorre 23 km até chegar em Curitiba, atravessando extensas áreas densamente povoadas e recebendo grandes despejos de esgotos neste trajeto. Um outro afluente, o rio Belém, também despeja suas águas repletas de resíduos nas águas do rio Iguaçu – pode-se afirmar então, com muita tristeza, que a nascente oficial do rio Iguaçu já apresenta um rio com águas mortas e sem condições de sustentar de vida.

A história da poluição no rio Iguaçu segue o mesmo roteiro da saga de outros rios que atravessam grandes áreas urbanas: além do já citado rio Tietê em São Paulo, podemos falar do rio Guandu, que atravessa a região da Baixada Fluminense no Estado do Rio de Janeiro; o rio das Velhas na Região Metropolitana de Belo Horizonte; o rio dos Sinos na Região Metropolitana de Porto Alegre e o pernambucano rio Ipojuca – não por acaso, todos estes rios entram na lista dos 10 rios mais poluídos do Brasil. No rio Iguaçu, a poluição está concentrada na Região Metropolitana de Curitiba, um aglomerado de cidades que concentra uma população na casa de 3,5 milhões de habitantes. Aproximadamente 80% da poluição do Rio Iguaçu é gerada por esgotos domésticos e poluição difusa e 20% por esgotos industriais. Se você navegar ou andar por este trecho inicial do rio, vai se deparar com todo o tipo de lixo e resíduos descartados pela população: móveis, entulhos e restos da construção civil, eletrodomésticos, pneus, carcaças de automóveis e tudo mais que puder imaginar.

A receita da tragédia ambiental é a mesma de sempre – as cidades passaram a crescer fortemente a partir da década de 1960, quando imensos contingentes de agricultores resolveram trocar a vida sofrida no campo pelas promessas de uma vida melhor nas cidades. A Região Metropolitana de Curitiba, da mesma forma que outras importantes cidades brasileiras, começou a experimentar taxas de crescimento urbano fortíssimas, que nem de longe foram acompanhadas pelo crescimento da infraestrutura urbana, especialmente com a criação de redes de abastecimento de água potável e redes coletoras de esgotos com estações de tratamento.

Diferente de outras grandes cidades brasileiras, que cresceram sem controle como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e se fundiram às cidades vizinhas formando uma única mancha urbana, a cidade de Curitiba se cercou de grandes áreas verdes para evitar o fenômeno da conurbação com as cidades vizinhas. Quem visita a cidade de Curitiba se surpreende com a grande beleza do lugar, se impressionando com a imensa quantidade de áreas verdes existentes e pelo fato de não encontrar um grande rio poluído como o Tietê ou um Ribeirão dos Arrudas cortando a cidade de um lado a outro. Mas o grande problema da poluição das águas existe e se mostra especialmente nos municípios vizinhos, onde grandes bairros surgiram sem a menor infraestrutura e a grande rede de cursos d’água da região acabou transformada num extenso sistema de esgotos a céu aberto. O rio Iguaçu, que corre discretamente nos limites do município de Curitiba, se transformou no destino de todo esse volume de esgotos como sempre acontece com o principal curso d’água de uma bacia hidrográfica. Também passou a receber grande parte do lixo e dos entulhos descartados em terrenos baldios e ruas, que sempre acabam sendo carreados para dentro dos canais de água pelas fortes chuvas.

O caminho para resolver o problema não requer nenhuma mágica ou habilidade especial: investimentos contínuos na implantação de redes coletoras de esgotos, construção de ETE’s – Estações de Tratamento de Esgotos, investimentos em coleta e disposição final adequada dos resíduos sólidos urbanos e programas de educação ambiental para a toda a população. Essa é a mesma receita que tem de ser replicada e aplicada na maioria das cidades brasileiras, em especial nas de grande e médio portes.

Vamos continuar a explorar os problemas do rio Iguaçu em nosso próximo post.

A CRISE NO RIO DOCE E O USO DE BARRAGENS PARA O ARMAZENAMENTO DE ÁGUA PARA ABASTECIMENTO DAS CIDADES: UMA OPINIÃO

Represa em Jundiaí

Como muitos de vocês devem se lembrar, a Região Metropolitana de São Paulo viveu uma forte seca entre os anos de 2014 e 2016, período em que o Sistema Cantareira, o maior conjunto regional de mananciais de abastecimento, entrou no chamado Volume Morto, operando nos mais baixos níveis de água de sua história e obrigando toda a população a um esforço sem paralelo para a economia de água. Muitas especulações foram feitas na época, especialmente durante o período eleitoral de 2014, com muitos “especialistas” falando dos cenários mais tenebrosos possíveis, inclusive sobre o eminente colapso total do abastecimento de água na Região Metropolitana. Felizmente, as “profecias dos capadócios” não se confirmaram e, a partir do Verão de 2016, as chuvas voltaram com uma ótima intensidade e os diversos mananciais que atendem a Região Metropolitana foram se recuperando lentamente – o colapso do abastecimento regional ficou para uma “próxima” ocasião.

Um fato que não ficou muito claro para a população, em parte graças à guerra de notícias eleitoreiras, é que haviam substanciais reservas de água nos reservatórios de outros Sistemas, especialmente no Rio Grande e no Guarapiranga – aliás, no auge da crise hídrica, o Sistema Guarapiranga passou a responder por 50% do abastecimento regional de água. O grande problema é que as autoridades responsáveis pela infraestrutura do saneamento básico “esqueceram” de construir sistemas de adutoras que permitissem a interligação e a transferência de água entre os Sistemas em casos de crises localizadas. A empresa responsável pelo abastecimento de água na maior parte da Região Metropolitana de São Paulo, a Sabesp, precisou realizar uma série de obras emergenciais para interligação de redes de abastecimento de água, inclusive com a montagem de uma grande adutora que permitiu a transferência de água da Represa Billings para o Sistema Alto Tietê, que também entrou em colapso e ameaçava o abastecimento da zona Leste da Região Metropolitana. A incompetência de umas poucas autoridades teve um alto custo para todas as populações das cidades afetadas pela crise.

Esta crise deixou muitos ensinamentos para todos nós – a construção e a manutenção de reservatórios de água para o abastecimento de cidades nos momentos de grandes crises, como a seca que se abateu sobre a região do Sistema Cantareira, foi o principal destes ensinamentos.

No primeiro documento conhecido com um descritivo das riquezas naturais de nosso país, a carta escrita por Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor da esquadra de Pedro Álvares Cabral, o autor deixou um claro registro da abundância de fontes de água em nossas terras: “Águas são muitas; infinitas.” E foram essas águas abundantes (especialmente ao longo da faixa litorânea, onde se concentra até hoje a maior parte da população do nosso país), a referência maior para a construção de nossas cidades – antes da construção de qualquer vila ou assentamento, era preciso que se comprovasse a existência de uma fonte de água permanente e com boa qualidade, para que se garantisse o atendimento das necessidades atuais e futuras da população. Em São Paulo, assim como em todas muitas outras cidades, aconteceu exatamente isso: a Vila de São Paulo de Piratininga foi fundada sobre um morro, exatamente ao lado do rio Tamanduateí, corpo d’água que garantiu o abastecimento da população até meados do século XIX, quando a poluição das águas por esgotos tornou inviável seu uso. Na antiga cidade de São Paulo, foi o crescimento desordenado e sem infraestrutura de saneamento básico o que impediu a continuidade da captação de água diretamente dos rios urbanos – desde as últimas décadas do século XIX, a cidade vem captando água em mananciais distantes do núcleo central urbano, usando inicialmente as fontes de água da Serra da Cantareira e, depois, construindo ou alterando o uso de reservatórios para a função específica de armazenamento de água para abastecimento. A Represa de Guarapiranga é um exemplo desta preocupação: criada inicialmente para regularizar o fluxo de água do rio Tietê para fins de geração de energia elétrica, a represa foi declarada manancial de abastecimento da cidade na década de 1920.

Diversos vazamentos de produtos químicos e de rejeitos de mineração em ocasiões diferentes no rio Paraíba do Sul e, mais recentemente, o grande desastre com a barragem de rejeitos de mineração na cidade de Mariana, que contaminou uma extensão de aproximadamente 700 km do rio Doce e provocou a suspensão da captação de água para o abastecimento de dezenas de cidades nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, vêm demonstrar a necessidade da construção e manutenção de reservatórios estratégicos de água para o abastecimento das cidades. Os prejuízos sistemáticos à quantidade e qualidade das águas dos grandes rios, resultado de diferentes agressões ao meio ambiente e a possibilidade de ocorrência de grandes acidentes industriais ou de mineração, tornam a dependência da captação direta de água dos rios pelas cidades um grande risco para as populações. No caso do rio Doce, por exemplo, uma das primeiras consequências do desastre foi a interrupção da captação de água para o abastecimento de, pelo menos, 500 mil pessoas e uma fonte de incertezas para mais de 1,5 milhão de pessoas que vivem nos municípios atravessados pelo rio Doce. O que se viu a seguir foram improvisos de todos os tipos para se garantir, ao mínimo, as necessidades de abastecimento da população – em diversos relatos, para citar um exemplo de amadorismo, diversos carregamentos de água foram descartados por apresentar cheiro e gosto de combustíveis como gasolina e querosene, o que demonstra o uso de caminhões e tanques inadequados para o transporte de água potável.

A construção de represas, por outro lado, gera uma série de problemas onde se incluem: os altos custos para a compra e a desapropriação de terras, os prejuízos econômicos provocados pela inundação de áreas produtivas, as alterações na dinâmica natural das águas e das espécies que nela vivem, a necessidade de derrubada de matas de galeria (muitas vezes as únicas remanescentes florestais de uma região), entre outros problemas. Os estudos de impacto e de licenciamento ambiental para esse tipo de obra também são complexos e demorados. Por outro lado, estamos falando da segurança hídrica de grandes populações e de grandes impactos econômicos que podem ser gerados com acidentes de grandes proporções em rios e outras fontes de abastecimento. É preciso que se encontre um ponto de equilíbrio entre o meio ambiente, as sociedades e a economia, e que se garanta o suprimento contínuo de água de boa qualidade.

Agora, o que não é possível é que continuemos de braços cruzados esperando o rompimento de uma outra barragem como a de Mariana (o que é muito provável dada as condições de inúmeras barragens de rejeitos espalhados pelo país), quando improvisos de todos os tipos precisarão ser feitos para que se garanta o abastecimento de cidades afetadas por rios de lama tóxica.

A DESTRUIÇÃO DOS ECOSSISTEMAS NA CALHA E NA FOZ DO RIO DOCE

Pesca Colatina

O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da empresa Samarco em Mariana, Minas Gerais, ocorrido no dia 5 de novembro de 2015, despejou 62 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos de metais pesados, contaminando um trecho de 700 km do rio Doce.

Você conhece bem estas cifras, citadas inúmeras vezes aqui neste blog e nos meios de comunicação. Deixem-me apresentar os números num formato um pouco diferente, de forma que todos entendam perfeitamente o que este desastre significou para todas as comunidades de seres vivos da calha e da região da foz do rio Doce.

Imagine que a largura do fundo da calha do rio Doce seja equivalente a 250 metros (a largura do rio varia bastante ao longo do leito total e este seria uma espécie de valor médio) – observe que não estou falando da largura entre as margens, que seria medida em linha reta entre dois pontos nas margens. Estamos falando de uma linha imaginária que segue por toda a superfície do fundo do rio, acompanhando o sobe e desce de todas as reentrâncias e pedras depositadas no leito. Se multiplicarmos esta largura de 250 metros pelo comprimento total da calha do rio comprometida pelo vazamento da lama tóxica – 700 km aproximadamente, nós encontraremos uma superfície total equivalente de 175 km², ou simplificando mais, uma área igual a de um quadrado com laterais de 12,25 km. Considerando que, devidamente convertido, vazaram 62 bilhões de litros de lama tóxica sobre esta superfície, nós podemos calcular que cada quilômetro quadrado recebeu um volume de lama equivalente a 354 milhões de litros. Simplificando ainda mais este raciocínio, cada metro quadrado da superfície do fundo do rio Doce foi, teoricamente, encoberto por um volume equivalente a 354 litros de lama – traduzindo isto para um equivalente métrico: uma camada de lama com 35,4 cm cobriu cada metro quadrado do fundo do rio Doce. É evidente que este cálculo é especulativo – muita lama ficou em suspensão na água e foi arrastada na direção do Oceano Atlântico; grandes volumes ficaram nas margens ou presos na barragem da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves. O ponto chave do raciocínio é que uma camada substancial de lama encobriu instantaneamente o fundo do rio Doce (estou considerando aqui o tempo geológico, calculado em dezenas de milhões de anos).

Complementando esse rápido raciocínio matemático, deixem-me expor uma definição biológica: as comunidades de organismos bentônicos:

A palavra bentos (usada sempre no plural) é de origem grega e significa profundidade ou inferior. Ela é usada para definir as comunidades de organismos bênticos ou bentônicos formadas pelos seres que vivem associados ao substrato do solo do fundo, seja em ambientes marinhos, salobros ou dulcícolas (de água doce). Esses organismos vivem no interior e na superfície dos sedimentos e incluem bactérias, fungos, plantas e animais, com tamanhos indo desde valores microscópicos até algumas espécies de algas com vários metros de comprimento. Para que todos entendam a complexidade destes ecossistemas, algumas criaturas marinhas microscópicas têm a incrível densidade de 5 indivíduos vivendo em um único grão de areia. Apesar de, na maioria das vezes, não serem notados por olhos não treinados, esses organismos representam uma parte importante da cadeia trófica aquática.

Falando de uma forma bem direta – a maior parte das comunidades de organismos bentônicos que vivia nas áreas do fundo da calha e na região da foz do rio Doce foram “instantaneamente” encobertas por uma camada de lama tóxica com espessura média de 35,4 cm e, simplesmente, se viram extintas. Sem a presença destes organismos, que estão na base da cadeia alimentar das águas do rio e de influência na foz, os predadores superiores – peixes e crustáceos especialmente, que conseguiram sobreviver à onda de lama, ficaram sem suas fontes de alimentos; se não conseguiram encontrar fontes alternativas de nutrientes, todas essas criaturas ou morreram de fome ou, com muita sorte, migraram para outras regiões. Pior – sem a recuperação destas comunidades, a recolonização das águas do rio Doce por novas criaturas ficará bastante prejudicada ao longo do tempo.

As notícias referentes aos estoques pesqueiros na região da foz do rio Doce e que vêm sendo divulgadas confirmam isso: espécies de peixes que eram capturados em grandes quantidades como robalos, tucunarés e bagres amarelos praticamente desapareceram. A presença de tainhas e tilápias diminuiu muito e, quando são avistadas, apresentam a pele deformada e cheia de machucados. Em situação um pouco melhor se encontram espécies como cascudo, manjubinha e carapeba. Apesar de não ser respeitada por muitos pescadores, a Justiça Federal do Espírito Santo mantém a proibição da pesca na região da foz do rio Doce, entre Aracruz e Linhares. Na calha do rio Doce em Minas Gerais, o governo estadual liberou em maio último a pesca de espécies exóticas, mantendo a proibição da pesca das espécies nativas da bacia hidrográfica.

Testes laboratoriais que vem sendo feitos sistematicamente em peixes e camarões coletados nas áreas afetadas pelo derrame de lama apontam para uma redução nas concentrações de chumbo, cromo e arsênico, metais pesados que estavam misturados na lama que vazou – os níveis de ferro encontrados, ao contrário, aumentaram. Isto indica que a recuperação biológica plena dos ecossistemas aquáticos das águas do rio Doce e também da região de influência na foz no Oceano Atlântico, incluindo-se a recolonização de extensas áreas “mortas”, vai demorar bastante. O drama de comunidades e grupos de pescadores que, tradicionalmente, retiravam seu sustento das águas do rio e da foz vai continuar…

Os relatos de algumas testemunhas, que acompanharam de perto a ruptura da barragem em Mariana, falam que a tragédia levou menos de 60 segundos para acontecer – alguns especialistas afirmam que a recuperação do rio Doce poderá levar até 100 anos. São números e dados demais para descrever, simplesmente, a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil.

Resumindo: as águas vão continuar ruins para peixes e pescadores ainda por muito tempo.

OS PROBLEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO TRECHO CAPIXABA DO RIO DOCE

Foz do Rio Doce

A partir do rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco em Mariana, no dia 5 de novembro de 2015, uma mancha de lama e metais pesados começou a se espalhar pela calha do rio Doce e, como uma doença contagiosa, passou a destruir ecossistemas e a matar todo o tipo de ser vivo encontrado nas águas; cidades e comunidades, num processo que lembra uma fila de peças de dominó caindo em sequência, sistematicamente suspenderam os serviços de captação de água do rio até que se entendesse, com alguma clareza, o que estava acontecendo.

Começando em regiões do Estado de Minas Gerais, onde se concentra a maior parte da bacia hidrográfica do rio Doce, a temida mancha de lama levou alguns dias para atingir o Espírito Santo, onde os males provocados pela contaminação das águas também foram terríveis para as populações, que dependiam das águas para seus próprios usos. Um total de 317 mil pessoas nas cidades de Baixo Guandu, Colatina e Linhares passaram a sentir na pele as incertezas já vividas pelas populações de regiões do trecho mineiro do rio Doce.

A primeira cidade capixaba atingida pela mancha de lama e de rejeitos foi Baixo Guandu, no dia 16 de novembro. A captação de água do rio Doce foi imediatamente interrompida e 31 mil moradores passaram a depender do abastecimento através de uma frota de 13 carros-pipa, entre unidades da própria Prefeitura e unidades enviadas pela Samarco. De acordo com informações divulgadas, 170 mil litros de água foram distribuídos diariamente, priorizando-se o abastecimento das populações e a dessedentação de animais – os agricultores foram instruídos a não utilizar a água do rio Doce para irrigação das plantações. Também foi iniciada a distribuição de garrafas de água mineral para a população.

Como a infraestrutura do município de Baixo Guandu era totalmente dependente da captação de águas do rio Doce para o abastecimento da população, foi necessária a construção emergencial de três adutoras, permitindo a captação e o transporte de água do rio Guandu às Estações de Tratamento de Água do município. O rio Guandu (que não tem qualquer ligação com o rio Guandu fluminense) tem aproximadamente 150 km de extensão, com nascentes na região serrana do Espírito Santo.

Em Colatina, cidade com mais de 120 mil habitantes, os problemas foram bem maiores. Com a chegada da lama, a captação de água foi imediatamente interrompida e a população ficou sem o serviço de abastecimento de água por cinco dias. Uma frota de 168 carros-pipa passou a realizar o atendimento emergencial da população, sendo que aproximadamente 100 destas unidades passaram a captar água bruta da Lagoa do Limão. Devido ao tamanho da população de Colatina, que estava habituada a um consumo diário de 30 milhões de litros, o abastecimento emergencial de água pelos carros-pipa só conseguia atender a 20% da população, o que causou muitos problemas. Após este período crítico, o SANEAR – Serviço Colatinense de Meio Ambiente e Saneamento Ambiental, retomou a captação de água do rio Doce. Da mesma forma que aconteceu em Governador Valadares, o SANEAR realizou testes laboratoriais e passou a utilizar o polímero da acácia-negra que, conforme já comentado, é um polímero natural com alto poder de aglutinação e floculação de resíduos em suspensão na água, permitindo a retomada dos serviços de abastecimento da população a partir de 23 de novembro.

Como aconteceu em outras cidades que tinham o rio Doce como seu principal manancial de abastecimento, a Fundação Renova, entidade criada pela mineradora Samarco, passou a implementar um projeto para a construção de um sistema de três adutoras, sistema que tem como finalidade permitir a captação e o transporte de água dos rios Santa Maria, Pancas e da Lagoa do Limão para as ETA’s – Estações de Tratamento de Água do município. Essas obras, que representam uma parte da compensação pelos danos ambientais provocados, garantirão o fornecimento de metade da água necessária ao abastecimento local, reduzindo assim a total dependência das águas do rio Doce. Além das adutoras, cinco poços artesianos foram escavados e suas água passaram a ser misturadas com as águas captadas do rio Doce, uma manobra que permite diluir as partículas em suspensão e facilitar o tratamento nas ETA’s.

Das cidades capixabas afetadas pela mancha de lama tóxica, o município de Linhares foi o que teve menos problemas nos serviços de abastecimento de água. O SAEE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, de Linhares não teve problemas para manter o serviço de abastecimento de água devido à captação ser feita no rio Pequeno, um afluente do rio Doce. Uma das primeiras providências do SAEE foi a construção emergencial de uma barragem na foz do rio Pequeno, como garantia contra uma eventual contaminação pela lama tóxica carreada pelo rio Doce.

Como parte das compensações ambientais devidas pela mineradora Samarco ao município de Linhares, a Fundação Renova realizou trabalhos para a construção de uma adutora para a captação e o transporte de água da Lagoa Nova para a ETA da cidade, aumentando a oferta de água e reduzindo a dependência da captação do rio Pequeno, sistema que continuará em uso. As compensações também incluem a construção de uma adutora para o transporte de água entre a área urbana de Linhares e o distrito de Regência e a instalação de uma Estação de Tratamento de Água móvel neste distrito, onde fica a foz do rio Doce, garantindo o fornecimento de água para a população local durante os trabalhos de reforma da ETA distrital, uma outra compensação por danos ambientais negociada com a Fundação Renova.

Essa rápida exposição mostra os problemas criados pela contaminação do rio Doce no Estado do Espírito Santo e as providências emergenciais que tiveram de ser tomadas. E olhem que não falamos dos problemas criados para a agricultura, para a pesca (registros do INCAPER – Instituto Capixaba de Assistência Técnica e Extensão Rural, mostram que 1.438 pescadores cadastrados em associações e colônias de pesca foram afetados no Estado) e para o turismo local. Também mostra como o grau de dependência de uma única fonte de abastecimento de água é problemática. Com a ocorrência de um desastre como o da barragem de Mariana, populações inteiras podem ficar sem acesso aos serviços de abastecimento de água de uma hora para outra.

Continuaremos na próxima postagem.