O SALTO DO SOBRADINHO E A CONSTRUÇÃO DE UMA DAS MAIS POLÊMICAS USINAS HIDRELÉTRICAS DO BRASIL

Sobradinho

Euclides da Cunha (1866-1909), foi militar, jornalista e escritor. Em 1897, ele foi enviado para os sertões da Bahia para cobrir, como correspondente de guerra, o conflito entre os sertanejos liderados por Antônio Conselheiro contra as forças militares do Governo Federal. Esse conflito passou para a história com o nome de Guerra de Canudos e foi imortalizado nas páginas do grande clássico de nossa literatura – Os Sertões, obra-prima de Euclides da Cunha. O livro narra detalhadamente todas as etapas do conflito, assim como a vida e o sofrimento do povo esquecido dos sertões do Nordeste. 

Em vários trechos do seu livro, Euclides da Cunha se foca em detalhes da geografia física e humana dos sertões, que em grande parte eram desconhecidos das populações do restante do Brasil e também de muitos cientistas e geógrafos da época. Muitos desses trechos são dedicados a belíssimas descrições do São Francisco, o rio mais importante da região Nordeste. Falando do Salto do Sobradinho, localizado no rio nas proximidades das cidades de Juazeiro na Bahia e Petrolina em Pernambuco, Euclides da Cunha o descreve como o início de um trecho de corredeiras, que impedia a navegação por um longo trecho do São Francisco. 

A história de Sobradinho começa no final da década de 1960, época em que o Governo Militar criou a ideologia do “Brasil Grande” e elaborou projetos de grandes obras e empreendimentos bilionários, que prometiam transformar o nosso país em uma das grandes potências mundiais. Entre rodovias, pontes e portos, os planejadores federais criaram planos para a construção de grandes usinas hidrelétricas, que forneceriam a energia necessária para o “país do futuro”. Com a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, a região Nordeste se tornaria autossuficiente em energia elétrica e teria condições plenas para o seu desenvolvimento econômico..  

Inicialmente, a ideia era a construção de uma barragem para armazenamento de água, que tinha como objetivo apenas o aumento e a regularização das vazões do rio São Francisco no período da seca, garantindo assim a geração contínua de eletricidade nas usinas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso. Um exemplo do uso dessa técnica foi a construção da Represa de Guarapiranga, na Zona Sul da cidade de São Paulo, com o objetivo de regularizar as vazões do rio Tietê e garantir o funcionamento contínuo da Usina Hidrelétrica de Parnahyba, a primeira hidrelétrica com reservatório do Brasil, inaugurada em 1901. Depois, os planos mudaram e optou-se pela construção de uma usina hidrelétrica no local. 

Sobradinho começou a ser construída em 1973, num trecho do rio São Francisco a 40 km a jusante das cidades de Juazeiro, no Estado da Bahia, e de Petrolina, em Pernambuco. A Usina foi projetada para gerar 1.050 MW de energia elétrica a partir de 6 unidades geradoras com potência unitária de 175.050 KW. A barragem teria um comprimento total de 12,5 km, com uma altura máxima de 41 metros. A usina entrou em operação em 1979

O lago formado a partir da construção da barragem de Sobradinho possui uma capacidade de armazenamento total de 34 bilhões de metros cúbicos de água, com um espelho d’água máximo de 4.214 km². É o maior lago artificial do Brasil em área ocupada e o segundo do mundo, só ficando atrás do Lago Volta na África. Quando o Lago atinge a sua cota máxima de armazenamento, o espelho d’água atinge um comprimento de 350 km e uma largura entre 10 e 40 km. Muitos sertanejos costumam lembrar da profecia de Antônio Conselheiro (1830-1897), que dizia que “o sertão vai virar mar e mar vai virar sertão” ao se referir ao Lago de Sobradinho.  

Diferentemente dos trechos encachoeirados e de cânion do rio onde foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Paulo Afonso I, II, III e IV, além da Usina de Moxotó, onde poucos ribeirinhos foram impactados pelas obras, a construção da barragem e a formação do grande Lago de Sobradinho impactaria na inundação de extensas áreas ocupadas por pequenas propriedades rurais e também trechos urbano e até mesmo cidades inteiras. 

De acordo com informações do Movimento Nacional dos Atingidos por Barragem (MAB), foram retirados das áreas alagadas cerca de 70 mil habitantes, sendo aproximadamente 80% deste grupo formado por pequenos produtores rurais e seus familiares. Sete municípios tiveram áreas inundadas: Casa Nova, Sento-Sé, Pilão Arcado e Remanso, que tiveram as suas sedes transferidas e foram bastante afetados; e mais Juazeiro, Xique-Xique e Barra, que sofreram menores impactos.  

Esses pequenos produtores ocupavam as férteis planícies ao longo das margens e ilhas, adubadas naturalmente pelas cheias anuais do rio São Francisco. Após a desapropriação compulsória, muitos desses antigos produtores foram reassentados em áreas da caatinga e com condições muito menos favoráveis para a produção agrícola. 

Além de todo o drama de abandonar suas terras ancestrais e ter de recomeçar a vida em outras localidades, muitos sertanejos ainda foram enganados por espertalhões com “bons contatos no Governo e na CHESF”. Com acesso a informações privilegiadas, especialmente as áreas que seriam alagadas e quais os valores que seriam pagos em indenizações, esses verdadeiros vigaristas se travestiam de “corretores de imóveis” e aplicavam “golpes” nos sertanejos. Com muita conversa fiada, eles informavam que esses sertanejos seriam desapropriados sem receber nenhuma indenização pelas suas terras e os convenciam a vendê-las por valores irrisórios. De posse da documentação das terras, esses corretores de imóveis” procuravam a CHESF e conseguiam receber o valor integral das indenizações. Muita gente ficou milionária aplicando esse tipo de golpe nos sertões. 

Uma das grandes reclamações dos desalojados pela construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho é qualidade dos solos das terras que compraram após serem desapropriados. Diferente dos solos aluviais das margens do rio São Francisco, enriquecidos por sucessivas camadas de sedimentos depositados pelas sucessivas enchentes, muitos desses sertanejos acabaram comprando terras baratas em áreas de solo empobrecido das Caatinga, onde se trabalha muito para colher quase nada. 

O drama desses sertanejos foi imortalizado pela música de Sá & Guarabyra – Sobradinho, lançada em 1977 no período da construção da hidrelétrica: 

O homem chega, já desfaz a natureza 
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar 
O São Francisco lá pra cima da Bahia 
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar 
E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o Sertão ia alagar 

O sertão vai virar mar, dá no coração 
O medo que algum dia o mar também vire sertão 

Adeus Remanso, Casa Nova, Sento-Sé 
Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir 
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira 
Por cima da cachoeira o gaiola vai subir 
Vai ter barragem no salto do Sobradinho 
E o povo vai-se embora com medo de se afogar. 

Remanso, Casa Nova, Sento-Sé 
Pilão Arcado, Sobradinho 
Adeus, Adeus 

O grande sucesso dessa música de protesto, em pleno Regime Militar, chamou a atenção de todos para as obras e ajudou a popularizar, mais para o lado negativo, a Usina Hidrelétrica de Sobradinho.

AS USINAS HIDRELÉTRICAS DE PAULO AFONSO

Cachoeira de Paulo Afonso

A pioneira Usina Hidrelétrica de Angiquinho, que apresentamos na última postagem, foi a primeira do Nordeste e sua construção em 1913 só foi possível graças ao empreendedorismo do industrial e empresário Delmiro Gouveia. Em uma época em que a principal fonte de geração de energia na região era a lenha, Delmiro Gouveia teve a ousadia de construir sua pequena hidrelétrica nas proximidades da Cachoeira de Paulo Afonso (vide foto), no rio São Francisco, e assim alimentar com energia elétrica todo o seu complexo industrial na cidade de Pedras, nos sertões das Alagoas. Para infelicidade geral do Nordeste, Delmiro Gouveia foi assassinado em 1917 por causa de disputas políticas e seu sonho de industrializar o Nordeste foi interrompido. A ideia de explorar todo o enorme potencial para geração de energia hidrelétrica na região de Paulo Afonso, felizmente, permaneceu viva. 

Em 1921, durante o Governo do Presidente Epitácio Pessoa, foram realizados os primeiros levantamentos técnicos e topográficos da Cachoeira de Paulo Afonso e do rio São Francisco com vistas ao futuro aproveitamento para a geração hidrelétrica. Foi em meados da década de 1940, durante o Governo Getúlio Vargas, que foi criada a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, e foram iniciados os esforços para a construção das usinas hidrelétricas em Paulo Afonso. 

O rio são Francisco nasce na região Oeste do Estado de Minas Gerais, na Serra da Canastra, e percorre mais de 2.800 km até encontrar sua foz no Oceano Atlântico. Na região de Paulo Afonso, no Norte da Bahia e a cerca de 250 km da foz, as águas do rio passam a ser estranguladas por grandes paredões rochosos, formando um cânion com mais de 60 km de extensão. O início deste trecho é marcado por um forte desnível, com mais de 80 metros de altura, onde se forma a Cachoeira de Paulo Afonso. Foi a partir de estudos para o aproveitamento do potencial hidrelétrico desse trecho, que teve início o ciclo de construções das usinas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso

A primeira obra concluída pela CHESF na região na década de 1940, foi uma usina hidrelétrica piloto, com uma potência total de 2 MW, que tinha como objetivo fornecer energia elétrica para o futuro canteiro de obras. A Usina Hidrelétrica Paulo Afonso I teve suas obras iniciadas em 1949 e concluídas em 1954, com 3 grupos geradores e uma potência total de 180 MW. Foram construídos na época um total de 860 km de linhas de transmissão, dotadas de estações intermediárias em Angelim, em Pernambuco, e Itaparica, no Estado da Bahia, que passaram a levar a energia elétrica produzida em Paulo Afonso para as cidades de Recife e Salvador. 

Como já havíamos comentado na postagem anterior, quando falamos da construção da pioneira usina hidrelétrica de Angiquinho, as paredes escarpadas e a profunda depressão no fundo do cânion impunham enormes dificuldades técnicas para o andamento das obras. No caso de Angiquinho, consta que os técnicos estrangeiros contratados por Delmiro Gouveia se recusaram a descer até o fundo do cânion através de um improvisado elevador feito com cordas – os “gringos” tiveram de ser convencidos a descer por um grupo de jagunços armados. A barragem da Usina de Paulo Afonso foi construída em um arquipélago fluvial, ligada a uma barragem móvel no braço principal do rio São Francisco, num conjunto de obras de difícil realização. 

Além de fornecer energia elétrica para Recife e Salvador, a CHESF também passou a abastecer as cidades de João Pessoa, Campina Grande, Aracaju, Garanhuns, Pesqueira, Goiana, Itabaiana, Riachuelo e Maruím, além de assinar contratos para o fornecimento de energia elétrica para 8 empresas da região. Esses consumidores passaram a ser abastecidos com a produção inicial da Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso, que atingiu a marca de 202.572 MW/ano, o que foi um marco para o processo de eletrificação de toda a região Nordeste. 

Entre os anos de 1963 e 1968 foi construída a segunda unidade, a Usina Hidrelétrica Paulo Afonso II, que acrescentou mais 480 MW ao sistema, através de 6 grupos geradores. Entre 1969 e 1970 foram concluídas as obras de Paulo Afonso III, com 4 grupos geradores e potência instalada total de 864 MW. Em 1979, foi concluída a Usina Hidrelétrica Paulo Afonso IV. Essa unidade foi construída dentro de uma caverna, com extensão total de 210 metros, 24 metros de largura e 55 metros de altura, onde foi instalada uma unidade geradora com potência total de 410 MW

Em 1971, começou a ser construída a Usina Hidrelétrica de Moxotó, localizada a cerca de 3 km a montante da Cachoeira de Paulo Afonso. Essa usina, que foi inaugurada em 1975, está localizada no município de Delmiro Gouveia, já no Estado de Alagoas. Sua barragem formou um reservatório com uma área de aproximadamente 100 km² e sua potência instalada pode atingir até 440 MW. Em 1983, o nome da Usina foi alterado para Apolônio Sales. 

Juntas, as Usinas Hidrelétricas Paulo Afonso I, II, III e IV e Moxotó, geram uma potência total de 4,2 mil MW, colocando o Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso na terceira posição entre as unidades de geração hidrelétrica do Brasil, ficando atrás apenas de Belo Monte, com mais de 11 mil MW, e de Tucuruí, com uma potência de 8 mil MW. A gigantesca Usina Hidrelétrica de Itaipu, com uma potência total de 14 mil MW, não entra nessa lista por se tratar de um empreendimento binacional. 

A construção de todo o Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso se estendeu de 1949 a 1979 e se transformou em um verdadeiro marco para a engenharia nacional. Controlar e desviar os caudais de um grande rio como o São Francisco, com a tecnologia e os equipamentos disponíveis à época, foi um verdadeiro desafio técnico, além de criar um ponto de inflexão no desenvolvimento da região Nordeste. Muitos críticos da época consideravam um exagero os gastos com a construção de todo esse grande complexo de usinas hidrelétricas, afirmando que a região não apresentava uma demanda tão grande por energia elétrica. Felizmente, essas vozes não foram levadas a sério: em 1955, o consumo per capita de energia elétrica na região era de 35 kW por habitante/ano – vinte anos depois, em 1975, esse consumo já havia subido para 220 kW por habitante/ano, um crescimento de 529%. 

Esse aumento explosivo do consumo de energia elétrica em um período de tempo relativamente curto, mostra quão grande era a diferença no nível de desenvolvimento sócio econômico do Nordeste em relação às regiões mais desenvolvidas do país. Eram milhares de cidades, vilas e pequenos povoados que sobreviviam a base da queima da lenha e do uso do querosene e dos tradicionais candeeiros, isso quando não contavam apenas com a luz de velas, para iluminar suas noites. O crescimento contínuo da geração de energia elétrica a partir das águas do rio São Francisco no Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso permitiu a construção de grandes extensões de linhas de transmissão por toda a região e a integração de um número cada vez maior de sedentos consumidores de energia elétrica ao sistema. 

Para garantir a geração contínua de energia elétrica nas usinas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, foi planejada a construção de uma grande barragem na região do Salto do Sobradinho, entre a Bahia e Pernambuco, ainda na década de 1960. Essa barragem funcionaria como uma reguladora da vazão das águas do rio São Francisco, especialmente no período da seca. Esse projeto acabou sendo modificado e optou-se pela construção de uma nova usina hidrelétrica, que seria batizada como Sobradinho, que será o tema da nossa próxima postagem. 

O PIONEIRISMO DE DELMIRO GOUVEIA E A CONSTRUÇÃO DA PRIMEIRA USINA HIDRELÉTRICA DO NORDESTE EM 1913

Delmiro Gouveia

Delmiro Gouveia, um ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros, foi um pioneiro da industrialização no Brasil, visionário e empreendedor. Entre suas realizações, destaca-se a construção do primeiro “shopping center do país – o Mercado Modelo Coelho Cintra, da cidade do Recife, inaugurado em 1899. Também foi o idealizador e construtor da primeira usina hidrelétrica do Nordeste – Angiquinho, inaugurada em 1913 no rio São Francisco. 

Delmiro Gouveia nasceu em Ipu, no Ceará, em 1863, mas sua família mudou para o Estado de Pernambuco em 1868. Ele começou a trabalhar como cobrador de trem urbano aos 15 anos de idade, chegando a ocupar posteriormente o cargo de chefe de estação no Recife. Depois passou a atuar como despachante em um armazém de algodão. Em viagem ao interior de Pernambuco em 1883, se interessou pelo comércio de peles de cabra e de ovelhas, atividade com a qual começou a obter grande sucesso comercial e assim pode iniciar a construção do seu império. Em 1896 fundou a empresa Delmiro Gouveia & Cia e passou a contratar os melhores funcionários das empresas concorrentes. Seu sucesso empresarial despertou a ira dos poderosos locais. Em 1900, por causa de disputas políticas com o Governador do Estado de Pernambuco, seu Mercado Modelo foi incendiado pela polícia e, temendo pela sua segurança, Delmiro Gouveia abandonou a cidade do Recife e mudou-se para a cidade de Pedras, no interior de Alagoas.

Em 1912, Delmiro Gouveia iniciou os planos para a construção de uma grande fábrica de linhas de costura, que até então eram importadas da Inglaterra e monopolizadas no mercado por uma única empresa com a marca Linhas Corrente. Ele negociou uma série de incentivos com o Governo de Alagoas, incluindo-se a posse de terras devolutas, isenção de impostos e a permissão para construir uma pequena usina hidrelétrica nas proximidades da Cachoeira de Paulo Afonso no rio São Francisco, num local conhecido como Queda do Angiquinho.  

O rio São Francisco, relembrando rapidamente a sua história geológica, surgiu a partir de uma grande depressão que se formou no solo entre os terrenos altos do Planalto Central, a Oeste, e a Cordilheira do Espinhaço a Leste. Essa depressão começou a receber as águas drenadas de uma extensa região geográfica, águas essas que passaram a correr rumo ao Norte. A história do rio também foi marcada pelo afundamento de um gigantesco bloco rochoso, num processo conhecido em geologia estrutural como graben ou fossa tectônica.  

Esses eventos geológicos criaram um grande lago interior, que durante vários milhões de anos foi uma espécie de “mar” nos sertões do Nordeste. Gradativamente, as águas desse lago encontraram um ponto de escoamento através de uma grande massa de rochas. O processo erosivo que se seguiu resultou na formação dos famosos cânions do rio São Francisco e da Cachoeira de Paulo Afonso, o caminho que as águas criaram na sua busca pelo Oceano Atlântico. 

Para coordenar o projeto da hidrelétrica, Delmiro Gouveia contratou o engenheiro italiano Luigi Borella, além de engenheiros e técnicos franceses. Segundo contam algumas histórias, esses estrangeiros ficaram assustados quando chegaram até o local da obra e se depararam com o profundo cânion onde seria construída a casa de força da usina. Dizem que os “gringos” tentaram debandar do local, mas foram “educadamente” convencidos por jagunços armados a embarcar em uma espécie de elevador de cordas e assim desceram a encosta para conhecer o local das obras. 

Depois de vencer enormes desafios técnicos, a Usina Hidrelétrica de Angiquinho foi finalmente inaugurada em 26 de janeiro de 1913. A casa de força recebia as águas que desciam de uma altura de 42 metros e acionavam 3 turbinas (vide foto) – uma de 175 kVA, a segunda de 450 kVA e a terceira de 625 kVA. A energia elétrica passou a alimentar a indústria têxtil de Delmiro Gouveia – a Companhia Agro Fabril Mercantil, e também um sistema de bombas hidráulicas que fornecia água para o abastecimento da cidade de Pedras, localizada a 24 km de distância. Nessa época, só havia algum abastecimento de energia elétrica nas principais capitais do Nordeste, com geração a partir de centrais termelétricas a carvão ou via queima de óleos combustíveis 

Ao redor da sua fábrica, Delmiro Gouveia construiu uma vila operária com 200 casas em alvenaria. A partir de seus contatos governamentais, o empresário conseguiu recursos que permitiram a construção de 520 km de estradas, ligando a cidade de Pedras a diversas cidades da região de entorno. Contando ainda com recursos financeiros vindos de sócios norte-americanos de sua empresa, Delmiro Gouveia comprou extensas áreas de terra ao longo das margens do rio São Francisco, garantindo assim a posse da Queda do Angiquinho e das instalações de sua usina hidrelétrica. Todo esse sucesso do empresário passou a gerar inúmeros conflitos e desentendimentos com diversos “coronéis” e grupos políticos da região. 

Da fábrica de Alagoas começaram a sair linhas de costura com a marca “Estrela” para o mercado doméstico e com a marca “Barrilejo” para os mercados da América Latina. Em 1916, a empresa de Delmiro Gouveia produzia cerca de 500 mil carretéis de linha por dia, que eram vendidos no mercado por preços muito inferiores aos carretéis produzidos na Inglaterra pela Machine Cotton, empresa que dominou esse mercado no Brasil e na América Latina por várias décadas. Os industriais ingleses, visivelmente incomodados com o sucesso empresarial de Delmiro Gouveia, fizeram diversas propostas para comprar a sua empresa, sem qualquer sucesso.  

Numa manhã de 1917, enquanto lia o jornal na varanda de sua casa, Delmiro Gouveia foi morto a tiros por pistoleiros. Esse crime até hoje não foi esclarecido, apesar de existir uma lista enorme de suspeitos. Pouco tempo depois, os familiares e herdeiros do empresário não resistiram às pressões e venderam a fábrica para a empresa Machine Cotton. Os ingleses não perderam tempo e rapidamente enviaram ordens para que se destruíssem todas as máquinas e se demolissem todos os prédios da Companhia Agro Fabril Mercantil – essa era a forma mais rápida de se acabar com a sua indesejável concorrência no mercado. Terminava assim o sonho de Delmiro Gouveia de industrializar o sertão do Nordeste. Restou a homenagem que lhe foi prestada pelo Governo de Alagoas – a cidade de Pedras teve seu nome mudado para Delmiro Gouveia.

Foram necessários quase 40 anos para a energia elétrica voltar a ser produzida nas águas da Cachoeira de Paulo Afonso, onde a CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, construiu as Usinas Hidrelétricas de Paulo Afonso I e II, sobre as quais falaremos na próxima postagem. Em 1957, a CHESF comprou a Usina Hidrelétrica de Angiquinho. 

Para se ter uma ideia do pioneirismo de Delmiro Gouveia, a primeira usina hidrelétrica da cidade de São Paulo, a Usina de Parnahyba, foi inaugurada em 1901, apenas 12 anos antes de Angiquinho. Além do curto espaço de tempo entre os dois eventos, é preciso ressaltar que um verdadeiro abismo dividia a efervescente cidade de São Paulo, que colhia na época todos os frutos econômicos gerados pela cafeicultura no Estado, da pequena Pedras, uma cidadezinha perdida nos sertões das Alagoas. Por trás da construção da Usina de Parnahyba estava a Light & Power Company, uma empresa de geração e de distribuição de energia elétrica de capital canadense, que mudaria para sempre os rumos econômicos das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Por trás de Angiquinho, apenas o visionário e empreendedor Delmiro Gouveia. 

Contando com a proximidade e com o grande potencial hidrelétrico do rio São Francisco e da Cachoeira de Paulo Afonso, quem é que pode saber o que estaria reservado para o futuro dos sertões nordestinos se Delmiro Gouveia tivesse tido mais tempo para realizar outros dos seus sonhos? 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

Seca no rio São Francisco

A água é um elemento fundamental para a nossa vida que, desgraçadamente, está se tornando cada vez mais rara e cara nesse nosso mundo. De múltiplos usos, a água sacia a nossa sede, torna possível a agricultura e a produção de alimentos, é essencial nas mais diversas aplicações industriais, é sinônimo de lazer e fundamental para os transportes, entre inúmeras outras aplicações e usos. Nesta atual série de postagens, estamos mostrando a relação entre a água e seus usos para a geração de energia hidrelétrica – já falamos de diversos rios brasileiros e das histórias de inúmeras usinas que foram sendo construídas ao longo dos últimos 130 anos. 

Existe aqui um paradigma – é essencial que esses rios continuem tendo água correndo em suas calhas para que as turbinas das usinas hidrelétricas continuem gerando energia elétrica. Por mais absurda que essa afirmação possa lhe parecer à primeira vista, é exatamente esse o principal problema do rio São Francisco – seus caudais diminuem ano após ano e a geração de energia elétrica em suas inúmeras usinas corre sérios riscos de entrar em colapso. Vamos entender essa questão: 

Conforme apresentamos na postagem anterior, o Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, uma região onde predomina o bioma Cerrado. Aliás, os principais tributários do São Francisco, que são os afluentes que contribuem com a água que forma os seus caudais, tem nascentes em áreas do Cerrado, principalmente dentro das fronteiras de Minas Gerais. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de todas as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. E o grande problema que estamos assistindo nos últimos 50 anos é a destruição das matas nativas do Cerrado para a expansão das fronteiras agrícolas. 

Em Minas Gerais, a cobertura vegetal vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. O avanço da fronteira agrícola nas últimas décadas, onde destacamos as culturas da soja e do milho, acelerou enormemente esse processo e os seus reflexos no rio São Francisco são evidentes. Dos três biomas originais do Estado de Minas Gerais, o Cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas do Cerrado e as acentuadas perdas de área dessa vegetação é o fator que mais produz reflexos negativos no rio, notadamente a redução dos volumes de água em nascentes desse bioma.  

A destruição das matas em Minas Gerais tem suas origens na descoberta das primeiras jazidas de ouro nos últimos anos do século XVII, um evento que mudou os rumos da história do Brasil. Para dar uma dimensão dos impactos dessa descoberta, bastaram apenas 50 anos para que perto de 60% da população brasileira de então, abandonasse as terras do litoral e os trabalhos nas lavouras de cana e nas unidades de produção de açúcar, para se aventurar nos sertões das Geraes na busca do ouro. Essa busca começava nos rios, onde podia se encontrar o chamado ouro de aluvião, e depois se estendia para os barrancos das margens, onde a vegetação era suprimida e os solos passavam a ser revirados. 

As reservas auríferas das Geraes foram efêmeras e em menos de um século sua mineração entrou numa irremediável decadência, levando inúmeras cidades à ruína total. Os solos locais, entretanto, eram ricos em outros metais como ferro, cobre, estanho, níquel e zinco, o que permitiu uma gradativa reorganização econômica da mineração e o surgimento de uma próspera base siderúrgica e de indústrias dos segmentos da metalmecânica. Há aqui um grande problema – o processamento de minérios e a produção de metais requer grandes volumes de energia térmica, tradicionalmente fornecida pela queima do carvão mineral, um insumo que não é encontrado dentro dos limites de Minas Gerais. Aliás, o Brasil só possui reservas de carvão, e de baixa qualidade, nos Estados da região Sul. 

Na falta do carvão mineral, as matas mineiras começaram a ser derrubadas e transformadas em carvão vegetal, um insumo genérico que alimentou por décadas um sem número de altos-fornos em diversas regiões de Minas Gerais. Essa derrubada de matas não poupou nenhum dos biomas locais: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e até mesmo as Veredas dos contos de Guimarães Rosa. A expansão recente das fronteiras agrícolas veio consolidar uma devastação ambiental que se iniciou no século XVIII. 

A cobertura vegetal, especialmente nos domínios do bioma Cerrado, é essencial para permitir que as águas das chuvas infiltrem nos solos e realizem a recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, fonte da água que jorra nas nascentes dos rios. Uma das principais características da vegetação do Cerrado é a presença de raízes muito longas, adaptadas para capturar águas profundas nos meses de seca, que são fundamentais nesse processo de recarga das reservas subterrâneas. Com a supressão das matas, seja para agricultura, mineração ou produção de carvão mineral, esse processo de recarga fica enormemente prejudicado e os rios perdem caudais. É justamente esse o mal do rio São Francisco – seus inúmeros tributários têm cada vez menos água a oferecer. 

A redução do volume de água que corre na calha do rio São Francisco é desesperadora – até 20 ou 30 anos atrás, o volume de água que o rio lançava na sua foz no Oceano Atlântico chegava bem próximo de 3 mil m³ por segundo. Nos últimos 3 anos, existiram momentos em que a CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, foi obrigada a reduzir a vazão de suas hidrelétricas para apenas 500 m³ por segundo, como uma forma de evitar o colapso de suas barragens. No final de 2017, em função de uma grave seca, o nível do reservatório de Sobradinho atingiu o nível de 2,8% de sua capacidade, o menor da sua história, num colapso que ameaçava o abastecimento de várias cidades, a irrigação de lavouras e também a manutenção das operações de várias usinas hidrelétricas no médio rio São Francisco 

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas; são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Eles são, simplesmente, as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica. O rio São Francisco, um dos mais importantes do Brasil, lamentavelmente apresenta volumes menores de água em sua calha a cada dia. 

E sem água, simplesmente não há rio, vida e, muito menos, a possibilidade de se gerar energia elétrica. 

UM GRANDE RIO CHAMADO SÃO FRANCISCO

Foz do rio São Francisco

O Brasil está entre os cinco países do mundo com a maior disponibilidade de água doce em seu território. Nossa grande abundância de rios resulta também em um dos maiores potenciais para geração hidrelétrica do mundo, estimado em cerca de 260 GW. A gigantesca Bacia Amazônica, é claro, representa sozinha cerca de 40% deste potencial. A Bacia Hidrográfica do rio Paraná, que tratamos longamente numa série de postagens, vem logo a seguir, respondendo por cerca de 23% deste potencial. As bacias dos rios Tocantins e São Francisco vem na sequência, respondendo, respectivamente, por 10,6% e 10%. Nas próximas postagens, vamos falar um pouco do rio São Francisco e da sua bacia hidrográfica, a maior que ocorre totalmente em território brasileiro. 

O rio São Francisco nasce, oficialmente, no município de Medeiros, na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Em regiões de serra, especialmente nos domínios do Cerrado, existem inúmeros vertedouros de água ou nascentes nas encostas, que vão se juntando e formando diversos rios importantes do Brasil. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado por muitos de “berço das águas do Brasil”. 

A partir das encostas da Serra da Canastra, o rio São Francisco vai recebendo contribuições de inúmeros pequenos cursos de água e, conforme vai ganhando corpo e volume, vira para o Norte, na direção do Estado da Bahia. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de todas as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, o rio São Francisco percorrerá 2.830 km e receberá contribuições de um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda. Entre esses afluentes, destacam-se alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitaí, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia. A bacia hidrográfica do rio São Francisco ocupa uma área total de 641 mil km². 

As águas da bacia hidrográfica do rio São Francisco servem 521 municípios em 6 unidades da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do rio São Francisco, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Apesar de não ser o maior rio ou a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, o São Francisco tem a mais importante pelo “conjunto da obra”. Não é à toa que ele recebe o título de “rio da integração nacional”. 

Os indígenas chamavam o grande rio de Opará, palavra que significa, literalmente, “rio-mar”. Essa grandiosidade do rio foi rapidamente percebida pelos primeiros exploradores europeus comandados por Américo Vespúcio e André Gonçalves, que avistaram sua foz em 4 de outubro de 1501. Os incrédulos navegadores notaram que vestígios de água doce podiam ser encontrados a cerca de 4 km da costa, tamanha a força dos caudais despejados no Oceano Atlântico. O rio foi batizado em homenagem a São Francisco de Assis, santo padroeiro do dia da sua descoberta

O papel do rio São Francisco como uma via de integração nacional teve seu início com o processo de interiorização de populações e das grandes boiadas, que eu costumo chamar de “diáspora bovina”. Nos primeiros dois séculos de nossa história, a economia da então Colônia de Portugal estava baseada nas plantações de cana e na produção do valioso açúcar, um produto altamente valorizado nos mercados da Europa. Uma grande faixa litorânea da região Nordeste do país, que ia da Bahia até o Rio Grande do Norte, concentrava a maior parte da produção e estava coberta com enormes canaviais e grandes infraestruturas dedicadas ao processamento das canas e ao refino do açúcar. 

A criação de bois nessas regiões passou a resultar em sérios conflitos com os grandes senhores das casas grandes. Os pobres bois invadiam as plantações e se deliciavam com os brotos adocicados da cana-de-açúcar, causando enormes prejuízos à produção do açúcar. Paulatinamente, os criadores de gado passaram a ser expulsos da faixa litorânea e foram forçados a buscar pastagens nas áreas interioranas do Nordeste. Esse processo de expulsão foi seguido de uma Carta Régia, que proibia a criação de bois a menos de 60 km das plantações de cana-de-açúcar do litoral. 

As margens do rio São Francisco passaram a abrigar inúmeros currais de bois e, cada vez mais, os criadores seguiam o curso do grande rio buscando novas terras e espaços abertos para a criação de gado. Já no início do século XVIII, quando foram descobertas as grandes minas de ouro na região das Geraes, o rio São Francisco foi transformado num dos caminhos de acesso de gentes e suprimentos para os sertões. As grandes boiadas da Caatinga passaram a acompanhar as margens do rio na direção das inúmeras cidades e vilas que foram surgindo no futuro Estado de Minas Gerais, integrando cada vez mais os sertões com o litoral. O rio São Francisco assumia assim a sua grande vocação histórica. 

Apesar de toda a sua importância histórica e social, o rio São Francisco é atualmente um dos rios brasileiros que mais sofrem com a destruição de matas ciliares, mineração descontrolada, assoreamento de sua calha e redução cada vez maior dos seus caudais. A grandiosa foz do rio, que marca a divisa entre os Estados de Alagoas e Sergipe, que tanto impressionou os antigos navegadores, hoje é uma sombra dos tempos passados. Os caudais médios despejados no Oceano Atlântico, que chegavam a valores próximos de 3 mil m³ por segundo no passado, atualmente chegam a cair para valores próximos a 500 m³ por segundo nos períodos de seca. 

Entre outros problemas, essa redução dos caudais tem provocado uma intrusão, cada vez maior, de água salgada na calha do rio São Francisco. Em inúmeras cidades e pequenos povoados da região da foz (vide foto), as populações que sempre encontraram uma fonte confiável de abastecimento, agora só dispõe de água salobra. Mesmo em localidades onde existem sistemas de tratamento, o problema persiste – sistemas convencionais de tratamento de água não conseguem retirar o excesso de sal da água. Para obter pequenas quantidade de água fresca, os moradores precisam subir o rio de barco por dezenas de quilômetros ou percorrer longos caminhos por terra na busca das pequenas nascentes de água doce. 

Um exemplo da decadência e dos grandes problemas ambientais enfrentados pelo rio São Francisco é o desparecimento do surubim, peixe que já foi abundante em suas águas e que era um dos ícones da culinária regional. Cada vez mais, os restaurantes e as populações ribeirinhas precisam recorrer ao cachara, um peixe “importado” da Bacia Amazônica, para ser usado como um genérico do surubim. 

Além dos problemas na área ambiental, o rio São Francisco também enfrenta problemas sociais e, principalmente, econômicos, que afetam inclusive o enorme potencial de geração hidrelétrica do rio. Falaremos destes problemas na nossa próxima postagem. 

AS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO URUGUAI

Usina Salto Grande

Na última postagem falamos rapidamente do rio Uruguai, o mais importante do extremo Sul do Brasil. Assim como ocorreu com os rios Tietê e São Francisco, o rio Uruguai foi uma importante via para a interiorização e colonização de extensas áreas da Argentina, do Uruguai e da faixa Oeste do Rio Grande do Sul a partir de Buenos Aires, a principal cidade do Vice-Reino da Prata, possessão sul-americana da Coroa da Espanha.  

Como acontece com vários outros importantes rios brasileiros, o rio Uruguai é um ilustre desconhecido da maior parte dos brasileiros, apesar de sua extrema importância regional nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Nos últimos vinte e cinco anos, o potencial hidrelétrico do rio Uruguai passou a ser explorado e três grandes usinas hidrelétricas foram construídas em território brasileiro. No baixo curso do rio Uruguai, na divisa entre a Argentina e o Uruguai, esse aproveitamento começou bem antes, em 1979, quando a Usina Hidrelétrica Binacional de Salto Grande começou a operar. 

A primeira grande usina hidrelétrica brasileira a ser inaugurada no rio Uruguai foi Itá, entre os municípios de Itá, no Estado de Santa Catarina, e Aratiba, no Rio Grande do Sul. Inaugurada no ano 2000, a usina foi construída em uma região de relevo acidentado, aproveitando um desnível natural de 105 metros entre a foz dos rios Apuaê e Uvá, com uma capacidade instalada de 1.450 MW. A região de Itá apresenta fortes dobramentos, resultados de uma sequência de derrames de basalto, conhecidos como Derrame de Trapp, que foram os responsáveis pela formação geológica da Serra Geral

Os estudos para o aproveitamento energético deste trecho das águas do rio Uruguai remontam ao início da década de 1980; em 1983, a empresa estatal ELETROSUL – Centrais Elétricas do Sul do Brasil, obteve uma concessão de 30 anos para o primeiro aproveitamento do rio. Em 1987, a ELETROSUL concluiu uma subestação em Itá, construída inicialmente para reforçar o abastecimento elétrico de algumas regiões do Rio Grande do Sul e já visando o uso da energia elétrica que seria gerada futuramente na hidrelétrica de Itá. 

Os planos para a construção da usina começaram efetivamente em 1994, quando a ELETROSUL publicou o edital de licitação do empreendimento sob o regime de concessão. A primeira fase das obras foi concluída ainda em 1997, quando as águas do rio Uruguai foram desviadas por um conjunto de 5 túneis; o enchimento do lago foi iniciado no ano 2000 e inundou uma área com aproximadamente 103 km². 

A ELETROSUL foi totalmente privatizada pelo Governo Federal ainda no início das obras da Usina Hidrelétrica de Itá, um período que marcou o fim do monopólio estatal no setor elétrico. As Usinas Hidrelétricas de Machadinho, inaugurada em 2002, e Foz do Chapecó, inaugurada em 2010, foram construídas por consórcios formados por empresas privadas. 

A Usina Hidrelétrica de Machadinho fica localizada entre os municípios de Piratuba, em Santa Catarina, e de Maximiliano de Almeida, no Rio Grande do Sul. A hidrelétrica conta com 3 grupos geradores, que fornecem uma potência instalada total de 1.140 MW, o suficiente para atender cerca de 37% do consumo de Santa Catarina ou 23% da demanda elétrica do Rio Grande do Sul. 

O lago da hidrelétrica inundou uma área com aproximadamente 80 km², o que, segundo dados do Consórcio construtor forçou o deslocamento de mais de 2 mil famílias e a desapropriação de 1.272 pequenas propriedades rurais. Diferente de outras regiões brasileiras, onde são comuns as grandes propriedades rurais ou latifúndios, nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul são muito comuns os minifúndios, pequenas propriedades rurais compartilhadas por vários membros de uma mesma família. 

A Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó foi o último empreendimento energético concluído no rio Uruguai em terras brasileiras. A hidrelétrica possui 4 grupos geradores, que fornecem uma capacidade instalada total de 855 MW. Está instalada entre os municípios de Águas de Chapecó, em Santa Catarina, e Alpestre, no Rio Grande do Sul. Um detalhe construtivo dessa usina foi o uso de um núcleo de asfalto na vedação da sua barragem, uma tecnologia utilizada pela primeira vez no Brasil e já aplicada em centenas de usinas hidrelétricas ao redor do mundo. 

Os estudos para a construção da usina começaram ainda na década de 1960, mas foi apenas em meados da década de 1980 que se confirmou que o aproveitamento no rio nessa região era uma das alternativas de menor impacto ambiental se comparado com outros trechos da calha. O lago formado pela usina hidrelétrica ocupa uma área com menos de 80 km², dos quais, cerca da metade correspondem à própria calha do rio Uruguai. Essas características tornam a Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó uma das mais eficientes em termos de potência gerada versus área inundada. 

A Usina Hidrelétrica de Salto Grande (vide foto) é um empreendimento conjunto da Argentina e do Uruguai, que reforça a importância regional do rio Uruguai. Localizada entre as cidades de Salto, no Uruguai, e Concórdia, na Província de Entre Rios na Argentina, a hidrelétrica foi construída para aproveitar um forte desnível do rio Uruguai, conhecido como Salto Grande, uma formação geológica que, para variar, acabou encoberta após a formação do reservatório, que alagou uma área de aproximadamente 780 km². A potência instada total da usina, que conta com 14 grupos geradores, é de 1.890 MW. 

Os planos para a construção e operação da Usina Hidrelétrica de Salto Grande tiveram início em 1946, quando foi criada uma comissão técnica mista argentina e uruguaia para iniciar os estudos desse empreendimento binacional. As obras foram iniciadas em 1973 e totalmente concluídas em 1982. O primeiro grupo gerador entrou em operação em 1979. 

Como sempre ocorre em um empreendimento de grande porte como esse, a construção da Usina Hidrelétrica de Salto Grande provocou enormes impactos ambientais e sociais. Além do alagamento do Salto Grande, o lago da usina encobriu grandes áreas naturais e ilhas fluviais, além de forçar a mudança de toda a população da cidade de Federación, na Argentina, e das cidades de Belén Constitución, no lado uruguaio. Só relembrando, tanto o Uruguai quanto a Argentina eram governados por juntas militares nessa época, que colocavam os interesses estratégicos e econômicos de suas nações acima de qualquer interesse social ou ambiental. 

O potencial hidrelétrico do rio Uruguai ainda não foi totalmente explorado e os estudos de viabilidade técnica e econômica de outras duas usinas hidrelétricas em território brasileiro encontram-se suspensos por ordem da justiça por causa dos profundos impactos sociais e ambientais envolvidos. Um desses empreendimentos, a Usina Hidrelétrica de Panambi, poderia resultar no desaparecimento ou comprometimento parcial do Salto do Yucumã, citado na postagem anterior

Mesmo com todas as cautelas e estudos de impactos ao meio ambiente, a construção de novas usinas hidrelétricas sempre são problemáticas, o que requer o acompanhamento de toda a sociedade. Excesso de cautela e de caldo de galinha, como diz um velho ditado, não fazem mal a ninguém. 

SALTO DO YUCUMÃ: A MAIOR QUEDA D’ÁGUA HORIZONTAL DO MUNDO, OU FALANDO DO RIO URUGUAI

Salto do Uycumã

O Salto do Yucumã (vide foto) no rio Uruguai, localizado entre o município brasileiro de Derrubadas, no Estado do Rio Grande do Sul, e o município argentino de El Sobierbo, na província de Missiones, é considerada a maior queda d’água longitudinal do mundo. Os saltos se estendem ao longo de 1,8 km, com alturas de até 20 metros

O local também recebe os nomes de Tucumã, Grande Salto de Yocomá e também Saltos del Mocon. Todos esses nomes derivam da palavra guarani “moconá”, que significa “que tudo engole”. Apesar de ser muito pouco conhecido no restante do Brasil, o Salto do Yucumã é uma importante atração turística local, que oferece inúmeras opções de lazer para os turistas: travessia com veículos 4 x 4, cavalgadas, caminhadas, canoagem, entre outras atrações. O Yucumã é uma das muitas surpresas do rio Uruguai, o mais importante do extremo Sul do Brasil. 

O rio Uruguai tem aproximadamente 1.770 km desde suas nascentes na Serra Geral, na divisa entre os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Como ocorre com diversos rios brasileiros como o Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul, o rio Uruguai nasce a apenas 65 km do Oceano Atlântico, porém, ao invés de seguir pelo caminho mais fácil até o mar, as águas do rio fluem primeiro no sentido Oeste, em direção ao interior do continente, e, depois, no sentido Sul até desaguar na região do Delta do rio Paraná, onde tem início o  rio da Prata. 

Em seu longo caminho, o rio Uruguai inicialmente marca a fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Depois, o rio marca a divisa entre o Brasil e a Argentina, e depois a fronteira entre a Argentina e o Uruguai. Na língua guarani antiga, Uruguai é a junção de “uruguá”, o nome de um caracol de água doce, e “y”, que significa rio. O nome acabou sendo usado para definir tanto o rio quanto o país vizinho ao Sul. 

O rio Uruguai teve um importante papel na colonização do extremo Sul do Brasil. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o território brasileiro foi dividido entre as Coroas de Portugal e da Espanha pelo Tratado de Tordesillas, assinado em 1494 pelos dois reinos. Pelo Tratado, toda a bacia hidrográfica do rio Uruguai ficava dentro das possessões da Espanha na América do Sul. 

A colonização da região teve início em 1626, quando o padre jesuíta espanhol Roque Gonzalez de Santa Cruz parte de Buenos Aires e sobe o rio Uruguai até atingir o atual território do Rio Grande do Sul para fundar, na atual cidade de São Francisco Xavier, a primeira missão dos Jesuítas. Até o ano de 1634, os Jesuítas fundariam um total de 18 missões no chamado 1° Ciclo Missioneiro no Rio Grande do Sul. Todo esse esforço de catequização dos indígenas, porém, não alcançou os objetivos pensados inicialmente pelos religiosos – os sucessivos ataques dos bandeirantes paulistas aos núcleos religiosos forçaram os Jesuítas a fugir para a margem Oeste do rio Uruguai em 1637. Calcula-se que os paulistas aprisionaram ao todo cerca de 200 mil indígenas, sendo que perto de 60 mil vieram dos assentamentos da região do rio Uruguai

A partir de 1682, os Jesuítas resolveram voltar para suas antigas terras e retomaram seu antigo projeto de catequização dos indígenas. Esse foi o início dos chamados Sete Povos das Missões, um ciclo que começou com a fundação de São Francisco Borja, seguido por São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Miguel Arcanjo. Esse projeto de retomada das reduções Jesuítas no atual extremo Sul do Brasil tinha pleno apoio da Coroa da Espanha, que via com extrema preocupação o avanço e a ocupação das terras por colonos portugueses. 

Em 1690 foi fundado São Lourenço Mártir, seguida por São João Batista e Santo Ângelo Custódio. Esse novo ciclo das reduções dos Jesuítas, porém, não teve uma vida muito longa – em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, que tinha por objetivo resolver as questões fronteiriças entre as suas colônias sul-americanas. Pelo novo Tratado, Portugal cederia a região de Colônia do Sacramento na região Oeste do atual Uruguai em troca da região Oeste do Rio Grande do Sul. A transição não foi das mais pacíficas, uma vez que os padres Jesuítas não queriam abandonar as suas reduções e nem os índios queriam que os padres fossem embora. Sem uma solução amigável, a questão acabou sendo resolvida a bala, em uma série de confrontos armados que ficaram conhecidos como a Guerra Guaranítica

A consolidação final do território do Rio Grande do Sul só ocorreria em meados do século XIX, quando a região se consolidou como grande produtora de gado e de muares, que eram exportados para outras regiões do país. Também merecem destaques as charqueadas, que desde os tempos do Ciclo do Ouro em Minas Gerais, no século XVIII, era abastecida com a carne seca produzida no extremo Sul do país. Também foram fundamentais as sucessivas levas de imigrantes, especialmente açorianos, alemães e italianos, que fundaram inúmeras novas cidades em todo o Rio Grande do Sul, especialmente no Oeste gaúcho, ao longo das margens do rio Uruguai. 

Além de toda a sua importância histórica, o rio Uruguai também sempre demonstrou uma importância ímpar como uma importante fonte de abastecimento de água para cidades, irrigação de plantações, dessedentação animal e fonte de pescados. O primeiro aproveitamento das águas do rio Uruguai para geração de energia elétrica teve início no ano 2000, com a inauguração da Usina Hidrelétrica Itá, a maior do Rio Grande do Sul. Na sequência foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Machadinho e Foz do Rio Chapecó. Cerca de Metade da energia elétrica gerada no Rio Grande do Sul vem das águas do rio Uruguai. No baixo curso do rio Uruguai, na divisa entre a Argentina e Uruguai está localizada a Usina Hidrelétrica Binacional de Salto Grande, com potência instalada de 1.890 MW. Falaremos do aproveitamento hidrelétrico do rio Uruguai na próxima postagem

Por hora, gostaria de encerrar falando do projeto de uma usina hidrelétrica que, felizmente, não deu certo. Na década de 1970, durante o ciclo de construção de grandes usinas hidrelétricas por todo o país, foram feitos estudos para a construção de uma hidrelétrica na região do Salto do Yucumã, projeto esse que se tivesse sido levada a cabo, provavelmente teria encoberto todo o conjunto de cachoeiras, a exemplo do Salto das Sete Quedas, encoberto pelas águas do lago de Itaipu, e da Cachoeira do Índio no rio Grande, que foi inundada após o enchimento do lago da hidrelétrica de Água Vermelha. 

Felizmente, os custos ambientais de mais esse desastre envolvendo uma grande cachoeira e a construção de uma usina hidrelétrica foi evitado – esse projeto acabou engavetado. Para preocupação geral, entretanto, ainda há quem continue com a ideia de construir uma represa na região – a usina hidrelétrica Panambi, que segundo consta, não afetaria as cachoeiras. De acordo com as informações disponíveis, uma decisão judicial de 2015 suspendeu os estudos de viabilidade técnica dessa usina, e também de outra, a hidrelétrica de Garabi. 

Como já comentei antes, nada contra a geração da energia a partir de fontes hidráulicas, desde que os devidos estudos e impactos ambientais sejam adequadamente realizados e avaliados, com as devidas compensações ambientais e sociais efetivamente realizadas. O que não dá é ficar assistindo parado a destruição de patrimônios naturais devido a construção de mais uma usina hidrelétrica. Chega!