RIO YANGTZÉ: A HIDROVIA DOURADA DA CHINA

Rio Yangtzé

O Yangtzé (ou Yang-Tzé) é o maior rio da China e também o maior rio da Ásia. Com nascentes nas montanhas do Tibete e foz no Mar da China, onde forma um imponente delta, o Yangtzé percorre um caminho com 6.300 km pelo país no sentido Leste-Oeste. Ao lado do rio Huang He, ou Huang Ho, conhecido entre nós como rio Amarelo, o Yangtzé, o rio Azul, é o berço da civilização chinesa há milhares de anos. Fornecendo água para o abastecimento de populações e para a irrigação de plantações, para o transporte de pessoas e de mercadorias por toda uma imensa região do grande país, trabalho para pescadores, artesãos, barqueiros e tantos outros, o Yangtzé pulsa como uma verdadeira artéria ligada ao coração da China. 

Nestes tempos de modernidade e de forte crescimento econômico da China, o Yangtzé também faz a sua parte como bom filho da pátria – as margens dos rios de sua imensa bacia hidrográfica, que cobre uma área superior a 1,8 milhão de km², abriga mais de 10 mil indústrias de todos os segmentos, além de plantações e fazendas de criação de animais. Dados oficiais do Governo da China indicam que o PIB – Produto Interno Bruto, das 11 províncias atravessadas pelo rio Yangtzé respondem por 41% das riquezas do país. A região do delta do rio, onde fica a importante cidade de Xangai, responde sozinha por 20% do PIB chinês. 

Mas o rio Yangtzé também paga o preço por tamanha importância econômica – é um dos rios mais poluídos do país, recebendo todo o tipo de descarga de efluentes e de resíduos, que vão desde o lixo doméstico descartado pelas cidades em suas margens até os perigosos efluentes industriais gerados pelo grande número de indústrias químicas instaladas em toda a sua bacia hidrográfica. Curiosamente, o Yangtzé também é o destino final de corpos – de animais e de humanos, problema que causa enorme preocupação entre as autoridades. 

O transporte de cargas no rio Yangtzé, que os chineses chamam de a “Hidrovia Dourada”, ou ainda a “Hidrovia de Ouro”, é de vital importância econômica para o país. O volume de cargas transportadas por esse modal em rios chineses alcançou a impressionante cifra de 6,66 bilhões de toneladas em 2017 – estima-se que mais de um terço deste volume circula através das águas do rio Yangtzé, o que coloca a hidrovia, com muita folga, como a mais movimentada do mundo, superando as cargas transportadas em importantes hidrovias como a dos rios Mississipi, Reno e Danúbio

O volume total de cargas transportadas em toda a China, onde se inclui o transporte rodoviário, ferroviário, aéreo e hidroviário atingiu a marca de 47,15 bilhões de toneladas em 2017 – a participação das hidrovias neste volume total de cargas correspondeu a 14%; no Brasil, para efeito de comparação, o transporte de cargas pelas hidrovias do país mal chegou a 1,8% do volume total transportado. Como a extensão de rios navegáveis aqui em nosso país é maior do que a existente nos rios chineses, verificamos o quanto esse modal tem potencial de crescimento no Brasil e o quanto estamos perdendo em produção e exportação de produtos e commodities por dependermos quase que exclusivamente do transporte rodoviário. 

Possuir um sistema hidroviário com o potencial do rio Yangtzé encheria qualquer povo de inveja – com a palavra, o povo brasileiro. Mas as autoridades chinesas perceberam nos últimos anos que a vocação do Yangtzé para o transporte de cargas pode atingir patamares ainda maiores. E a principal responsável por esta constatação foi a Represa das Três Gargantas

Inaugurada em 2003, a Represa é parte do mega projeto da Usina Hidrelétrica das Três Gargantas, concebida para ser a maior do gênero no mundo. Com a sucessiva instalação das turbinas geradoras de eletricidade, em breve irá superar o potencial gerador da Usina Hidrelétrica de Itaipu, um dos maiores projetos já realizados pela engenharia brasileira (o Paraguai é sócio do empreendimento, mas o trabalho e o capital ficaram por conta do Brasil). Com a formação do lago da Represa das Três Gargantas, que cobre uma área total superior a 1.000 km², as autoridades chinesas passaram a observar um aumento progressivo do volume de cargas que passavam através da eclusa da Represa. Aqui cabe um parêntese – a barragem da Usina de Itaipu não possui eclusa ou outro dispositivo de transposição para a passagem de barcaças de cargas, o que é um dos obstáculos para a ampliação e o desenvolvimento da  Hidrovia Tietê-Paraná. 

Com o enchimento do lago das Três Gargantas, a profundidade do espelho d’água aumentou por um longo trecho do rio Yangtzé a montante da represa, o que resultou num aumento da segurança para a navegação com as barcaças de carga. Outra mudança visível foi o maior controle da velocidade das águas do rio, que nos períodos de chuva formava correntezas ameaçadoras. Essas mudanças nas condições de navegação de carga e na segurança neste trecho do rio estimulou os empresários do setor a realizarem maiores investimentos e a aumentar a tonelagem de cargas transportadas. 

Os responsáveis pelo planejamento central da China agora preveem realizar maiores investimentos em toda a calha do rio Yangtzé, de forma a aumentar a segurança da navegação e aumentar o controle das enchentes e correntezas nos períodos de chuva, claramente com o objetivo de reproduzir as condições que levaram ao aumento do volume de cargas transportadas na área da Represa das Três Gargantas. Mas a visão de longo prazo dos chineses não para aqui. 

O crescimento explosivo vivido pelas regiões da faixa Oeste do país, mais próxima do oceano, é fonte de preocupação para os Governantes locais. A região de Xangai, exemplo que já citamos, concentra 20% do PIB da China, enquanto que regiões de áreas interioranas ainda sobrevivem da agricultura, especialmente dos campos alagados de produção de arroz. Essa concentração econômica excessiva em alguns poucos centros financeiros e industriais do país, causam uma série de problemas como superpopulação, poluição, demanda por transportes, habitação, saneamento básico, serviços de saúde e de educação, entre outros problemas. Através de todo um conjunto de obras para melhorar ainda mais o transporte de cargas através das hidrovias, particularmente no rio Yangtzé, as autoridades chinesas pretendem descentralizar a economia e estimular a migração de empresas e de negócios para o interior do país. 

Entre os planos já tornados públicos estão a construção de novas ferrovias, rodovias e aeroportos integrados com a “Hidrovia Dourada”, que receberá uma série de novos portos e terminais de carga integrados com os outros modais. Como os chineses não costumam brincar em serviço, é só esperar para ver as coisas acontecerem. 

Enquanto isso aqui no país dos caminhões, não temos certeza nem da data em que será concluído o asfaltamento da Rodovia Cuiabá-Santarém, um dos maiores eixos para o transporte da soja produzida no Estado de Mato Grosso. Dá até medo de imaginar quando é que nós teremos alguma coisa parecida com a Hidrovia do Yangtzé por aqui.

7 Comments

  1. […] Já nos países mais desenvolvidos do mundo, o modal de transportes por ferrovias não só foi mantido, como passou por um intenso processo de modernização – exemplos disso são os trens bala do Japão (Shinkansen) e os TGV – Trens de Grande Velocidade, da Europa. Outro ponto chave do sucesso econômico desses países se deu a partir da integração dos modais de transportes: ferrovias, hidrovias, rodovias e transportes aéreos. Em postagens anteriores, você poderá conferir esse sucesso em países como Estados Unidos, Canadá, França, Holanda, Alemanha e China.  […]

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