OS SERINGUEIROS DA AMAZÔNIA, OU SEGUINDO O CANTO DAS SEREIAS

Seringueiros da Amazônia

A indústria gomífera, nome dado a todo o ciclo de atividades ligadas à exploração e processamento do látex, trouxe muita riqueza e prosperidade para as elites locais da Amazônia. A riqueza dessa elite equatorial foi construída com o látex, chamado “leite das árvores”, expressão usada para se referir à seiva das árvores da espécie Hevea brasiliensis, a famosa seringueira, e com o sangue de dezenas de milhares de migrantes trazidos, majoritariamente, dos sertões do Nordeste e largados à sua própria sorte nos confins da floresta. Esses trabalhadores eram recrutados muitas vezes em suas próprias cidades por algum amigo ou parente, onde recebiam promessas de um bom trabalho e de exuberantes lucros. Acompanhem um desses casos:

João Gabriel de Carvalho e Melo, um cearense natural de Uruburetama, é um exemplo do aventureiro que largou tudo para se embrenhar pelas matas da Amazônia em busca das árvores produtoras do látex. Ele mudou-se para Belém do Pará em 1847. Trabalhando em Belém, João Gabriel começou a ouvir histórias sobre as riquezas geradas pela exploração do látex nas florestas. Ele acabou entorpecido com o sonho de fortuna e passou a buscar todas as informações disponíveis sobre as seringueiras, o corte e a extração do látex, a defumação para a formação das pélas, muitas vezes chamadas de pélas de borracha, e tudo mais que fosse possível aprender.

Em 1852, João Gabriel se embrenhou na Floresta Amazônica, navegando pelos imensos rios, quando acabou atingindo o rio Purus. Este rio, em particular, o deixou impressionado dada a quantidade de seringais nativos que possuía ao longo das suas margens. João Gabriel decidiu que seu futuro estava ali. Ele voltou primeiro para Belém e depois foi para o Ceará, onde começou a agregar familiares e conhecidos que estivessem dispostos a abandonar os sertões do Semiárido Nordestino e tentar a sorte na  Amazônia. As histórias de opulência da Floresta Amazônica que esses recrutadores de mão-de-obra contavam lembravam as antigas lendas das sereias, criaturas míticas que atraíam os marinheiros para uma morte certa através do seu irresistível canto. Os primeiros conquistadores da Amazônia, inclusive, imaginavam que os peixes-boi eram essas mitológicas criaturas.

Depois de vários anos de trabalho até que conseguisse reunir os recursos financeiros para essa grande empreitada, em 6 de fevereiro de 1878, João Gabriel e sua imensa comitiva de parentes e amigos parte de Belém a bordo do vapor Anajás, e seguem até a região conhecida como Boca do Acre, no alto rio Purus, nas proximidades da foz do rio Acre. É ali que é fundado o primeiro seringal do Acre – o Anajás. João Gabriel se tornou assim, uma figura importante na história local, tendo tido uma importante participação na chamada Independência do Acre e também na fundação de diversas cidades como Lábrea, no Estado do Amazonas. O Comendador João Gabriel de Carvalho e Melo faleceu em 1894 em seu seringal – o Anajás.

A história de sucesso desse pioneiro e empreendedor da indústria de exploração do látex amazônico, assim como a de muitos outros senhores da borracha, esconde toda uma grande estrutura de exploração da mão-de-obra dos seringueiros, que estava muito próxima da escravidão. Essa “escravização” começava com o processo de contratação dos trabalhadores em seus Estados de origem. O contrato de trabalho previa um “adiantamento” de salários para o pagamento das despesas de viagem, alimentação, ferramentas, alojamento e suprimentos para os primeiros meses nas áreas de exploração do látex. O trabalhador já chegava altamente endividado nos seringais e teria de trabalhar duro para realizar os pagamentos na forma de pélas de borracha.

Uma outra armadilha do sistema se dava através dos armazéns de secos e molhados dos seringais, que pertenciam aos senhores da borracha e que vendiam as mercadorias a preços exorbitantes. Os trabalhadores tinham uma “conta”, onde eram lançados todos os valores gastos em produtos – esses gastos seriam abatidos dos ganhos que conseguisse auferir com a produção das pélas de borracha. Por mais que estendessem suas jornadas diárias de trabalho extraindo látex das árvores e contassem com a ajuda de familiares para a defumação das pélas de borracha, as contas nunca fechavam e os seringueiros viviam eternamente endividados junto aos patrões. O segredo para esse endividamento contínuo, que prendia o seringueiro ao patrão, era o subfaturamento do valor das pélas pelos seringalistas.

De acordo com relatos da época, cada família de seringueiro recebia a cada três meses: 3 sacos de farinha, 1 saco de feijão, 1 saco pequeno de sal, 1 saco de arroz, 8 latas de banha e 20 gramas de quinino (usado para tratamento da malária). Carnes só eram consumidas quando se tinha a sorte de caçar ou pescar alguma coisa. Plantar ou produzir qualquer tipo de alimento nos seringais era absolutamente proibido – essa ocupação prejudicaria a produção do látex e concorreria com os produtos vendidos nos barracões. As famílias dos seringueiros costumavam ser muito grandes, com proles entre 10 e 15 filhos e era praticamente impossível sobreviver decentemente dentro dessas condições de trabalho.

Vinte anos depois da chegada pioneira de João Gabriel de Carvalho e Melo, o Acre contaria com cerca de 400 seringais no vale do rio Juruá e pelo menos 100 no vale do rio Acre – os brasileiros haviam invadido e colonizado o longínquo e isolado território que, naquela época, pertencia à Bolívia. Essa verdadeira invasão de seringalistas e seringueiros brasileiros no território boliviano gerou inúmeros problemas diplomáticos com o país vizinho – entre outros conflitos, como a Independência do Acre, uma questão que só seria resolvida em 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis, quando o Brasil pagou 2 milhões de libras esterlinas pelo território acreano, cedeu terras na fronteira do Mato Grosso para a Bolívia e assumiu a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré

Os seringalistas vendiam a sua produção para as Casas de Aviamento de Manaus e Belém, que pagavam parte em dinheiro e parte em alimentos, ferramentas, roupas, produtos de luxo para as casas dos Coronéis – é claro que estes produtos todos tinham seus preços superfaturados. Já as Casas de Aviamento, essas vendiam as pélas de látex para as Casas Exportadoras, que vendiam toda a produção para empresas nos Estados Unidos, Europa e Japão. Essa estrutura fez a fortuna de muita gente e transformou Manaus e Belém em cidades muito prósperas. No final do século XIX, Belém era uma cidade do tamanho de Madrid, com avenidas largas, jardins, iluminação elétrica, rede telegráfica e linhas de Bonde. Manaus não ficava atrás – em 1892, a cidade já contava com redes de água e esgotos, iluminação e bondes elétricos, cafés e restaurantes sofisticados – muitos chamavam a cidade de “a Paris das Selvas”.

Essa grande infraestrutura que surgiu rapidamente e que permitia a exploração, produção e exportação de grandes volumes de látex desde os confins mais distantes da Floresta Amazônica até os grandes centros econômicos do mundo, só foi possível graças a imensa rede de rios da Bacia Amazônica. O tráfego das “modernas” embarcações a vapor pelos rios da Bacia Amazônica era tão importante há época, que o Governo Imperial se viu obrigado a alterar a legislação do país para facilitar o acesso das companhias internacionais de navegação. Com o objetivo de dinamizar ainda mais as exportações do látex da Amazônia, o Imperador Dom Pedro II assinou, em 1873, um decreto autorizando o tráfego de navios mercantes de todas as nações nos rios da Amazônia.

Nas últimas décadas do século XIX, as exportações do látex respondiam por 25% do total de exportações do país, só perdendo para o café, produto responsável por 50% de nossas receitas. Essa riqueza, é claro, estava nas mãos dos grandes seringalistas, donos de Casas de Aviamento e Exportadores. Contam-se algumas histórias de certos Coronéis da Borracha que usavam altas notas de Réis para acender seus charutos. Dizem até que estes Coronéis mandavam lavar as suas roupas nas lavanderias de Paris.

A opulência e a riqueza gerada pela exploração, processamento e exportação do látex começaram a ruir já em 1913, quando os seringais ingleses de territórios do Sudeste asiático superaram a produção brasileira. Com o desmonte brusco da indústria gomífera, centenas de milhares de seringueiros dispersos pelos quatro cantos da Amazônia foram, simplesmente, esquecidos e largados ao “Deus dará”. Montanhas de pélas de borracha, formadas com muito sangue e suor ao longo de vários meses de trabalho, passaram a valer nada e os carregamentos com as parcas rações de víveres nunca mais chegaram. Esses seringueiros e suas famílias chegaram à Floresta Amazônia com o objetivo de trabalhar alguns anos, juntar dinheiro e depois voltarem para suas terras de origem.

Mas, ao contrário do que imaginavam, a passagem foi só de ida…

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O MUNDO DESCOBRE O LÁTEX DA AMAZÔNIA NO SÉCULO XIX

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Nas postagens anteriores, falamos rapidamente do início da colonização da Amazônia, um processo que tinha como objetivo principal a ocupação do território como forma de evitar novas invasões de nações estrangeiras, como foi o caso da França Equinocial entre 1612 e 1615. Além de estimular a transferência de fazendeiros de outras regiões da Colônia, o que era feito mediante a promessa de sessão de grandes extensões de terra, as autoridades coloniais realizavam a “limpeza de territórios” com o uso de tropas militares. Ordens religiosas, principalmente os Jesuítas, se encarregavam da transferência de grandes contingentes indígenas para os seus aldeamentos, onde cuidavam da educação religiosa e formação profissional, tornando os índios “úteis” ao sistema colonial. 

Em 1759, um decreto editado pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello (1699-1782), expulsou os Jesuítas de todos os territórios de Portugal. Essa expulsão foi o resultado de longo desgaste entre os religiosos e as autoridades da Coroa – os Jesuítas eram grandes produtores e exportadores de produtos e matérias primas, sobre os quais não havia qualquer incidência de impostos. Outra fonte de problemas eram os atritos com os fazendeiros que, devido aos trabalhos de catequese dos índios, ficavam impedidos de caçá-los e escravizá-los.  

Sem os Jesuítas, os indígenas já aculturados perderam “o rumo”; muitos acabaram capturados e escravizados pelos fazendeiros – outros tantos voltaram para as matas e passaram a viver como ribeirinhos nos rios da Bacia Amazônica. A Região Norte do Brasil, que era completamente periférica dentro do restante da Colônia, acabou praticamente esquecida por várias décadas.

Um “único” sopro de maior atividade na Região foi o breve Ciclo do Algodão nas duas últimas décadas do século XVIII no Maranhão (que tem parte do seu território na Amazônia). A Revolução Industrial “corria solta” na Inglaterra e houve uma verdadeira explosão no consumo dessa matéria prima. Por esse breve período de tempo, o Maranhão se tornou o Estado mais rico do Brasil. Passada a euforia, a Região caiu novamente no esquecimento e só voltaria à “vida” em meados do século XIX, quando um produto da Amazônia chamou a atenção do mundo – o látex

O látex começou a ser utilizado por indústrias do segmento de confecção ainda no século XVIII, quando era pulverizado sobre capas de chuva com o objetivo de criar uma camada impermeável, que funcionava perfeitamente nos dias de chuva. Em dias de extremo calor, porém, a camada impermeável se tornava grudenta e em dias muito frios ela endurecia e se tornava quebradiça. Outros produtos da época feitos à base do látex apresentavam os mesmos problemas.  

Em 1839, o inventor americano Charles Goodyear, depois de inúmeros experimentos, desenvolveu o processo da vulcanização, onde uma mistura de látex e enxofre era submetida a pressão e calor, permitindo a modelagem das peças de borracha e tornando-as resistentes ao calor e ao frio. Após a invenção deste processo, as aplicações industriais e o consumo do látex no mundo explodiram. 

A borracha passou a ser a matéria prima de uma série de produtos inovadores: correias para máquinas, sapatos, luvas, chapéus, roupas impermeáveis, flutuadores, bandas de rodagem para rodas de carroças (mais tarde substituídas por rodas com pneus), mangueiras, entre outros produtos. Nas últimas décadas do século XIX, com o uso cada vez maior da eletricidade, peças isolantes à base de borracha ganharam enorme importância no mercado mundial.  

O látex é uma seiva natural produzida por várias espécies de árvores e plantas, com destaque para a seringueira (Hevea brasiliensis), uma espécie nativa da Floresta Amazônica. Detentor de uma parte considerável dessa Floresta, o Brasil rapidamente despontou como o maior produtor mundial de látex. Entre os anos de 1870 e 1920, as exportações de látex respondiam por 25% das exportações brasileiras, só perdendo para o café.

A forte demanda da matéria prima e a escalada internacional dos preços levaram a uma busca pelos seringais localizados em áreas cada vez mais isoladas da Floresta Amazônica. Esse importante ciclo econômico, conhecido como o Primeiro Ciclo da Borracha, entrou em declínio a partir de 1913, quando os seringais plantados pelos ingleses no Sudeste Asiático iniciaram a sua produção e passaram a oferecer látex mais barato e de melhor qualidade que aquele produzido na Amazônia

Essa concentração de seringais no Sudeste Asiático sofreu um grande revés com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O Japão, que em conjunto com a Alemanha e a Itália formava as chamadas “Potencias do Eixo”, iniciou um processo de conquista e ocupação de territórios por toda a Ásia e Sudeste Asiático, incluindo-se aqui a Malásia e a Indonésia, os dois maiores produtores mundiais de látex há época.

Com a falta da matéria prima no mercado mundial, a Amazônia ganhou uma nova chance e experimentou um breve retorno aos tempos áureos dos grandes senhores da borracha. A descoberta da borracha sintética, muito mais barata e produzida em grandes quantidades a partir de uma matéria prima encontrada em diversas partes do mundo – o petróleo, e a expulsão dos japoneses por tropas aliadas dos territórios ocupados a partir de 1944, eclipsaram novamente o látex da Amazônia. 

A seringueira é uma árvore nativa da Floresta Amazônica, que nasce aleatoriamente por todos os cantos das diversas formações que compõem o bioma Amazônia. Para extrair o látex dessas plantas, é necessário se fazer uma espécie de mapeamento inicial da localização de cada árvore dentro de uma determinada região, criando-se depois um roteiro específico para que um seringueiro faça a “sangria” das árvores e a coleta do látex.

Esse látex, em estado líquido e com muita água em sua composição, precisa ser defumado, ou seja, transformado em uma massa sólida conhecida como péla, que nada mais é que o polímero natural concentrado (vide foto). Essas pélas precisam ser transportadas até o barracão do seringal, para depois serem transportadas para a comercialização final nas grandes cidades. Trata-se de uma “indústria” que necessita de muita mão-de-obra e de uma tecnologia bastante rudimentar.  

A Floresta Amazônica daqueles tempos não é muito diferente da atual – uma gigantesca extensão de terras com pouca gente. Foi preciso “importar” mão-de-obra de outras terras. A região Nordeste, tanto pela proximidade geográfica quanto pela grande população que possuía, se transformou na grande exportadora de “gentes” para os seringais. 

Há aqui uma trágica coincidência histórica: entre os anos de 1877 e 1879, justamente no início do Ciclo da Borracha, os sertões nordestinos enfrentaram uma das maiores secas de sua história – dados atuais calculam que essa seca matou mais de 500 mil pessoas. A cidade de Fortaleza, só para citar um exemplo, chegou a receber 100 mil flagelados – havia mão-de-obra de sobra a ser cooptada com falsas promessas de uma vida melhor nos “sertões verdes” da Amazônia. Começou assim uma segunda etapa do povoamento e colonização da Amazônia. 

Existem estimativas que falam que algo entre 500 e 700 mil trabalhadores foram cooptados em outras regiões do Brasil e internalizados na Floresta Amazônica para trabalhar como seringueiros. A mistura que surgiu a partir dessas populações migrantes com as populações de indígenas aculturados que viviam nas margens dos rios formou os ancestrais de grande parte das populações ribeirinhas que encontramos hoje na Bacia Amazônica. É fundamental conhecer toda a história do látex e de sua exploração para entendermos o que é verdadeiramente a Amazônia de nossos dias e todos os seus problemas. 

Vamos detalhar algumas das muitas histórias dessa saga a partir da nossa próxima postagem. 

A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS DO BRASIL E A CRISE NA COLONIZAÇÃO DA AMAZÔNIA

Marquês de Pombal

Nas últimas postagens temos falado do lento processo de colonização e incorporação da Região Amazônica ao resto do país. A Região, segundo as cláusulas do Tratado de Tordesilhas, pertenceu inicialmente ao Reino de Castela. Após duas grandes expedições espanholas terem fracassado de maneira estrondosa na busca pelo mítico El Dorado, ao custo de milhares de vidas, os castelhanos desistiram da Amazônia e abriram caminho para a posse da maior parte da Região por Portugal. Conhecer e entender todo esse processo é vital para uma compreensão plena dos problemas das populações da Região e para o estabelecimento de metas para a conservação de toda a floresta e garantir um desenvolvimento sustentável da Amazônia. 

Os Jesuítas foram os principais agentes das primeiras décadas da colonização do Norte brasileiro. Chegando na mesma expedição militar responsável pela fundação do embrião da cidade de Belém do Pará – o Forte Presépio, ainda em 1616, os Jesuítas rapidamente iniciaram o processo de catequização dos indígenas e de criação dos aldeamentos, mais conhecidos como Reduções Jesuíticas

Conforme comentamos na postagem anterior, esses aldeamentos gradativamente acabaram sendo transformados em fazendas mercantis, onde os indígenas tinham a sua mão-de-obra explorada pelos religiosos sem o devido pagamento de salários. Os índios, que além de educação religiosa também receberam treinamento e qualificação nos mais diversos ofícios, produziam móveis, portas e janelas, peixes salgados, embarcações, tecidos, artesanatos, entre outros produtos, que eram exportados pelos religiosos para outras regiões do país e também para Portugal. Os Jesuítas obtinham altíssimos lucros com a venda desses produtos e não precisavam pagar impostos ao Fisco Real, uma regalia que incomodava, e muito, a todos os demais colonos

Os atritos entre colonizadores e Jesuítas foram crescentes. Num segundo momento o desconforto ampliou-se para a esfera Governamental, uma vez que os religiosos detinham um poder político e econômico muito maior do que o Governador local. Essa verdadeira competição comercial somente terminou quando da expulsão dos Jesuítas de todos os territórios portugueses em 1759, por ordem do Marquês de Pombal (vide foto), Sebastião José de Carvalho e Mello (1699-1782), estadista e diplomata, ainda hoje, uma das figuras mais controversas e carismáticas da história de Portugal. 

Para que vocês tenham uma vaga ideia do poder econômico acumulado ao longo de dois séculos pela Companhia de Jesus (S.A. – grifo meu), leiam com atenção essa citação de Darcy Ribeiro: 

“O vulto do patrimônio jesuítico, ao tempo do seu confisco (1760) era enormíssimo. Estendia-se de Norte a Sul do país, na forma de missões e concessões territoriais concedidas pela Coroa, onde instalavam suas cinquenta missões de catequese, cuja base material eram engenhos de açúcar (dezessete), dezenas de criatórios de gado, com rebanho avaliado em 150 mil reses, além de engenhos, serrarias e outros bens. 

A Companhia seria também a maior proprietária urbana, pelo número de casas nas cidades que abrigavam os colégios, os seminários, os hospitais, os noviciados, os retiros, regidos por 649 padres e irmãos leigos. Só na Bahia, eles possuíam 186 casas, no Rio setenta e em São Paulo lhes restavam cerca de seis, e muitas mais no Maranhão, em Recife, em Belém e por toda a parte, das quais fluíam altas rendas de aluguel.” 

Outra fonte de consulta, a ‘História da Companhia de Jesus no Brasil’, escrita pelo mestre Padre Serafim Leite, apresenta números de engenhos de açúcar um pouco diferentes, afirmando que “os Jesuítas chegaram a possuir no Brasil 26 engenhos, assim como 30 engenhocas e alambiques de cana”. 

A expulsão pombalina de 1760, proibindo a presença dos Jesuítas em qualquer dos territórios de Portugal, foi um ato político, pelas razões apresentadas, sem qualquer tipo de conotação religiosa – todas as críticas contra a Companhia de Jesus são de ordem econômica e social. No campo da educação, por exemplo, o trabalho dos Jesuítas foi fabuloso e muito da unidade cultural e linguística do Brasil se deve a este trabalho. 

Sem nos atermos aos detalhes da expulsão dos Jesuítas e a todas as suas consequências, que foram muitas, vamos focar nas suas consequências para as populações indígenas dos aldeamentos, que de uma hora para outra ficaram “orfãs” de pai e mãe. Conforme comentamos anteriormente, a principal estratégia utilizada pelos religiosos para o aculturamento e conversão dos indígenas era a transferências de grandes grupos ou até mesmo de aldeias inteiras para as Reduções Jesuíticas. As tribos consideradas hostis aos colonizadores, que eram muitas, foram atacadas e exterminadas pelos contingentes militares da Coroa de Portugal, em “operações de limpeza” territorial. 

Nos aldeamentos dos Jesuítas, os indígenas passavam inicialmente por um processo para adoção do sedentarismo dos brancos – indígenas eram, tradicionalmente nômades e mudavam frequentemente em busca de novos campos de caça e pesca, além da busca de novas terras para as suas práticas agrícolas. Os indígenas também recebiam treinamento profissional, aprendendo a realizar tarefas “úteis” ao sistema colonial. Ao longo de todo esse processo, recebiam educação religiosa, deixando para trás uma vida pagã e selvagem, transformando-se em bons cristãos. Aqueles que conseguiam sobreviver às doenças trazidas pelos brancos, como a varíola e a gripe, transformavam-se em uma espécie de cidadãos de segunda classe da Colônia. 

Esse processo de aculturamento dos indígenas tinha um alto custo pessoal – todas as suas tradições culturais, religiosas e formas de vida dos seus tempos na floresta eram deixados para trás. Conforme nasciam as novas gerações de indígenas nos aldeamentos, essa antiga forma de vida “natural” ficava cada vez mais distante do seu dia a dia. Com a expulsão dos Jesuítas e com o fim dos aldeamentos, centenas de milhares de indígenas perderam, ao mesmo tempo, seu teto, seu trabalho e sua posição na nascente sociedade colonial da Amazônia. Muitos desses indígenas acabaram sendo aprisionados pelos fazendeiros e passaram a viver como escravos – aliás, a falta de mão-de-obra indígena por causa dos aldeamentos dos Jesuítas era uma das grandes reclamações dos fazendeiros e colonos da Amazônia daqueles tempos. 

Uma grande parte desses indígenas aculturados passou a viver nas margens dos rios da Bacia Amazônica, mesclando conhecimentos tradicionais ancestrais com novos conhecimentos adquiridos dos brancos. A partir de meados do século XIX, quando teve início o chamado Ciclo da Borracha, esses indígenas aculturados se juntaram aos seringueiros, grande parte de origem nordestina – a fusão desses grupos originou o chamado “ribeirinho amazônico”. 

Muitos dos antigos aldeamentos Jesuíticos acabaram transformados em cidades, onde destacamos Cametá, na foz do rio Tocantins; Airão, Carvoeiro, Moura e Barcelos, no rio Negro; Santarém, na foz do rio Tapajós; Faro, na foz do rio Nhamundã; Borba, no rio Madeira; Tefé, São Paulo de Olivença e Coari, no rio Solimões, e Itacoatiara e Silves, no rio Amazonas. 

Dentro de nossa área de interesse, o meio ambiente e os recursos hídricos da Bacia Amazônica, os impactos negativos dessa fase inicial da colonização da Floresta Amazônica foram muito pequenos, concentrando-se na superexploração de algumas espécies como o pirarucu e o peixe-boi

Continuaremos na próxima postagem.

A COLONIZAÇÃO DA AMAZÔNIA E A CRIAÇÃO DAS GRANDES FAZENDAS DOS JESUÍTAS


Aldeamentos JesuíticosA colonização da Região Amazônica ganhou forte impulso após a expulsão dos franceses, liderados por Daniel de la Touche e sua França Equinocial, no final do ano de 1615 e da fundação do Forte Presépio, embrião da cidade de Belém do Pará, no ano de 1616. Preocupada em ocupar a Região Norte e prevenir futuras investidas de nações rivais, a Coroa Portuguesa iniciou um forte processo de transferência de colonos de outras regiões do Brasil, oferecendo a esses grandes extensões de terras no Maranhão de no Grão-Pará, que há época representava a soma dos atuais Estados do Pará e do Amazonas. 

Conforme comentamos na postagem anterior, esses processos de colonização eram precedidos de “operações de limpeza”, feitas por tropas coloniais fortemente armadas. Tribos de índios consideradas hostis eram atacadas e massacradas; outras tribos eram “convidadas” a se mudar para regiões distantes, liberando assim os territórios para a colonização. Se esses trabalhos de desindianização não fossem feitos, colonizadores de outras regiões se recusariam a migrar para a Amazônia. 

Os religiosos da Companhia de Jesus, mais conhecidos como Jesuítas, desembarcaram na Amazônia junto com as tropas militares encarregadas da fundação do Forte Presépio em 1616. Desde os primeiros anos da colonização efetiva do Brasil, a partir da década de 1530, os Jesuítas realizavam o trabalho de contato e catequização dos indígenas. Um exemplo desse trabalho foi a fundação da Vila de São Paulo de Piratininga em 1554, que teve os religiosos dessa ordem, os Padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, à frente dos trabalhos. 

Entre outras importantes lideranças religiosas nessa fase de colonização da Região Amazônica, é destaque o Padre Antônio Vieira, que entre 1653 e 1661 esteve na liderança das missões da Companhia de Jesus no Maranhão e no Grão-Pará. Os trabalhos de colonização da Região Amazônica, onde se incluíam também áreas dos atuais Estados do Piauí e do Ceará, eram administradas diretamente por Lisboa e não tinham qualquer interferência do Governador Geral do Brasil. 

A estratégia usada pelos religiosos para a “conversão” dos indígenas em “vassalos úteis ao Reino e em bons cristãos” envolvia complexas mudanças no seu comportamento social, algo que as experiências realizadas em outras regiões do Brasil comprovaram ser impossíveis sem uma mudança para outros territórios. Os indígenas de tribos consideradas “mais dóceis” eram transferidos para aldeias conhecidas como Reduções Jesuíticas. Essas transferências ficaram conhecidas na história do país como descimentos

Nas aldeias, o trabalho dos religiosos começava com a eliminação do comportamento nômade dos indígenas, tradicionalmente habituados a mudanças frequentes em busca de novas áreas para a caça e a pesca, além de novas terras para a prática da sua agricultura de subsistência. Num segundo momento, os índios passavam a receber treinamento técnico e profissional para a realização de ofícios manuais úteis ao sistema colonial como carpintaria, construção civil, tecelagem, agricultura, entre outras funções. Por fim e não menos importante, o ensino religioso e a transformação dos antigos “selvagens pagãos” em bons cristãos, criando uma estrutura familiar baseada em novos valores éticos e religiosos. 

A “taxa de sucesso” desses trabalhos de conversão dos índios em “colonos civilizados” era extremamente baixa e preocupava líderes religiosos como o Padre Antônio Vieira, um notório defensor dos indígenas. Doenças como a varíola atacavam os indígenas, que sem ter em seus organismos os anticorpos necessários ao combate da doença, morriam a taxas que em alguns casos documentados chegavam a 50%. Muitos indígenas, especialmente os mais velhos, não se adaptavam a essa nova vida e morriam vítimas de doenças decorrentes da depressão. Muitos indígenas mais jovens acabavam fugindo dos aldeamentos para os confins da floresta em busca de uma vida de liberdade

Em uma carta escrita ao Rei de Portugal Dom Afonso VI em 1657, o Padre Antônio Vieira informava: 

“No espaço de 40 anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mais de dois milhões de índios e mais de 500 povoações como grandes cidades (…). No ano de 1655 se cativaram dois mil índios no Rio das Amazonas.” 

Os trabalhos de transferência dos indígenas “mais dóceis” para os aldeamentos dos religiosos foi crescendo progressivamente e avançando por toda a Região Amazônica. Um censo de 1751 afirma que existiam 63 aldeamentos na Amazônia, onde se abrigavam dezenas de milhares de indígenas. No total, existiam 80 aldeamentos em toda a Colônia, sendo que 66 eram administrados pelos Jesuítas e os demais estavam divididos entre os frades das Mercês, Capuchinhos, Santo Antônio e Franciscanos. O crescimento do número de aldeamentos e de indígenas reduzidos, infelizmente, foi seguido de uma total deturpação dos seus objetivos iniciais. 

Com o passar do tempo, a maior parte das missões religiosas dos Jesuítas acabou transformada em meros centros comerciais, dos quais a Companhia de Jesus (S. A. – grifo meu) auferia o melhor dos lucros e sobre os quais exercia grande domínio e soberania. As grandes fazendas, que foi no que se transformaram as missões, passaram a ser grandes produtoras de gêneros exportáveis de toda a ordem como açúcar, frutas, peixe salgado (várias espécies de peixes amazônicos eram vendidos nos mercados de Portugal como bacalhau salgado, principalmente o pirarucu), tartarugas, madeiras, especiarias e ervas medicinais coletadas na floresta, entre outros.  

Um produto que merece destaque é a gordura de peixe-boi, muito valorizada e utilizada há época na iluminação pública. O óleo extraído de baleias caçadas era muito usado para esse fim, mas o Brasil nunca foi um grande produtor – os baleeiros ingleses se instalaram nas Ilhas Falkland (as famosas Malvinas da Argentina) já no século XVII e abatiam a maioria das baleias no Sul do Oceano Atlântico antes que elas atingissem o litoral brasileiro. A mão-de-obra de artífices indígenas também era largamente utilizada nestas fazendas para a produção de móveis em geral, embarcações, portas e janelas, imagens e peças religiosas, sendo a maior parte dos artigos comercializados pelos missionários e exportados para o resto da Colônia e para Portugal. Em poucos anos, os Jesuítas se transformaram nos maiores exportadores da Região Amazônica, totalmente isentos do pagamento de impostos, em prejuízo aos demais colonizadores fixados nas províncias do Norte.  

Um grande ponto de atrito entre os habitantes locais e os religiosos (entre muitos outros) eram as disputas pela mão-de-obra do índio. O processo de catequese praticado pelos Jesuítas implicava em gigantescos descimentos, que eram os grandes deslocamentos de famílias ou de aldeias inteiras, de suas terras de origem para as aldeias reduzidas. Esses descimentos reduziam a disponibilidade de índios selvagens, os quais poderiam ser capturados e escravizados pelos demais colonos. Os colonos e povoadores eram obrigados a recorrer à mão-de-obra de escravos africanos importados, até cinco vezes mais caros que uma “peça” indígena, o que encarecia demais os seus processos de produção – ficava difícil concorrer com os estabelecimentos Jesuíticos. Outro ponto crescente de tensão eram os pesados impostos que os colonos eram obrigados a pagar ao Fisco da Coroa – os produtos dos religiosos eram isentos desses impostos

Continuaremos falando desse tema na próxima postagem. 

OS PRIMEIROS TEMPOS DA “COLONIZAÇÃO” DA AMAZÔNIA

Jesuítas no Brasil

A ocupação efetiva dos territórios da Região Amazônica brasileira começou a partir de meados do século XVII, com a instalação de diversas Missões Jesuíticas no Maranhão. Havia uma razão fortíssima para essa ocupação – a implantação da França Equinocial no Maranhão poucas décadas antes e sobre a qual falamos na postagem anterior. 

Aproveitando-se da relativa fragilidade da ocupação portuguesa nas Capitanias do Ceará e do Maranhão, uma expedição francesa sob o comando de Daniel de La Touche desembarcou no Maranhão em 1612. Para facilitar sua defesa, um total de 500 colonos franceses se estabeleceram na atual ilha de São Luís, capital do Estado do Maranhão, onde fundaram um povoado denominado Saint Louis, em homenagem ao rei da França Luís XIII. Essa ocupação durou até setembro de 1615, quando tropas coloniais portuguesas expulsaram os últimos franceses da região. 

Poucos meses depois, já em janeiro de 1616, um grupo de 150 militares portugueses, sob o comando de Francisco Caldeira de Castelo Branco, fundou uma fortificação na Baía de Guajará, batizada com o nome de Presépio. A vila que surgiu ao seu redor seria chamada de Belém. Entre esses militares encontrava-se um jovem alferes português que, anos mais tarde, realizaria uma heróica expedição até as nascentes do rio Amazonas e sobre o qual já falamos diversas vezes em nossas postagens – Pedro Teixeira. Junto com esse grupo de militares, desembarcaram também os primeiros Jesuítas, cujo propósito principal era a conversão dos índios “selvagens e pagãos” ao cristianismo

A presença de forças militares portuguesas na região reduziu gradativamente o acesso de outras nações aos grandes rios; as fortificações dos invasores foram destruídas uma após outra. No começo da década de 1630, os portugueses podiam afirmar que haviam libertado o baixo Amazonas da influência dos rivais estrangeiros. Todo este esforço militar, permitiu aos portugueses um completo mapeamento de extensas áreas no baixo Amazonas. Esse foi o primeiro passo para sua definitiva conquista.  

O passo seguinte para o completo domínio de Portugal sobre a Região Amazônica seria a colonização, um processo que, a exemplo de outras regiões das Américas, foi precedido pela desindianização. Enquanto os Jesuítas faziam os seus primeiros trabalhos de catequese, tropas coloniais fortemente armadas realizavam ataques aos grandes grupos indígenas considerados hostis, nas chamadas “operações de limpeza” ou, mais explicitamente, guerras de extermínio. A região entre Belém e São Luís foi arrasada, “extinguindo as últimas relíquias desse povo Tupinambá”, conforme o relato de um cronista da época. Fala-se da morte de 30.000 a 500.000 índios, conforme a fonte. 

Quando os primeiros Jesuítas, liderados pelo padre Manoel de Nóbrega, iniciaram as suas atividades missionárias no Brasil, o fizeram com o apoio do Governador-Geral Tomé de Sousa, de quem eram braço direito. Muito rapidamente perceberam que seria necessário arrancar os índios do seu meio ambiente natural, sua aldeia e suas terras, para melhor proceder no trabalho de catequização. Os primeiros aldeamentos Jesuíticos foram organizados a partir de 1550 e foram as sementes do que ficaria conhecido como as Reduções Jesuíticas. Nesses processos, os indígenas eram removidos de suas terras ancestrais e eram levados para novas “aldeias”, estruturadas como pequenas cidades europeias, com casebres alinhadas ao redor de uma igreja e de uma escola.

O sistema de aldeamentos ou Reduções Jesuíticas era benéfico para a Colônia, que poderia utilizar os índios aculturados e convertidos nas guerras contra os invasores estrangeiros ou em uma eventual contraposição aos escravos negros, cada vez mais numerosos, se algum dia viessem a se tornar uma ameaça. O sistema também era adequado aos interesses dos colonizadores europeus porque poderiam se servir da mão-de-obra indígena nos trabalhos em suas fazendas e plantações. Um sistema equilibrado em que todos ganhavam menos os índios. 

As “operações de limpeza” ou guerras de extermínio foram praticadas ininterruptamente ao longo de vários séculos. É impossível calcular o número total de vítimas de atrocidades de toda ordem que lhes foram dirigidas. Todas as barbáries praticadas contras as populações indígenas não devem ser creditadas apenas a uma “ruindade” do colonizador lusitano ou espanhol, mas sim como o resultado de todo um processo cultural e religioso da época. Esses homens rudes e supersticiosos estavam, na sua própria concepção, cumprindo a vontade de Deus. 

Na Idade Média (476 d.C. – 1492) e em grande parte da Idade Moderna (1493-1789), diversos grupos religiosos discutiam se homens negros e índios possuíam ou não uma alma. Oficialmente, a Igreja Católica nega essa doutrina, mas existem diversos registros que confirmam que essa era uma ideia disseminada entre os supersticiosos e, em grande parte, analfabetos europeus da época. O tratamento animalesco dado aos índios e negros na colonização das Américas e África seria, em grande parte, justificado por essa crença. 

Uma espécie de “carta branca” dada aos primeiros exploradores do Novo Mundo já aparecia na Bula Papal Romanus Ponfilex, assinada pelo papa Nicolau V em 8 de janeiro de 1454, que dava forma jurídica e canônica para a expansão do capitalismo comercial português, especialmente nas terras recém conquistadas no território africano:

“(…). Por isso, nós tudo pensando com a devida ponderação, por outras cartas nossas concedemos ao dito Rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, a de invadir, conquistar, subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes…”

Outro exemplo dessa ideologia pode ser vista no capítulo V do livro O Espírito das Leis, publicado em 1748, onde Montesquieu trata da escravidão dos negros: 

“Se eu tivesse que defender o direito que tivemos de tomar os escravos os negros, eis o que eu diria: tendo os povos da Europa exterminado os da América, tiveram de escravizar os da África para utilizá-los para abrir tantas terras. 

O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro. 

O autor dessa citação não foi nenhum dos colonizadores brutos e analfabetos, recrutados nas prisões da Europa e enviados para as colônias das Américas. Charles de Montesquieu (1689-1755) foi um aristocrata francês com sólidos conhecimentos humanísticos e jurídicos e que entrou para a história como um destacado político, filósofo e escritor de sua época. Muitos intelectuais o classificam como um dos precursores do Iluminismo, movimento filosófico que tirou a Europa da Idade das Trevas e a conduziu em direção à modernidade. Se Montesquieu, do alto de seu intelecto, tinha essa opinião a respeito dos negros, não poderíamos esperar nada muito melhor dos primeiros colonizadores americanos, mais de dois séculos antes, com relação aos índios e depois aos negros. 

Achados arqueológicos demonstram que Amazônia brasileira era densamente povoada por tribos e nações indígenas que possuíam uma indústria, comércio, agricultura e uma organização social e política invejável. Uma das evidências desta ocupação são as chamadas ‘terras pretas de índio’, grandes manchas, provavelmente artificiais, de solo fértil em locais isolados dentro da mata. Segundo alguns especialistas (não há unanimidade) essas áreas seriam resultado de intervenções feitas pelos índios para fins agrícolas com a combinação de carvão vegetal, cerâmica e matéria orgânica de origem vegetal e animal. Também existem vários textos e crônicas de época que deixam escapar algumas cifras destas grandes populações indígenas da Amazônia – os números vão de 968 mil a 4,8 milhões de índios.

Nós nunca teremos uma ideia exata do número de índios que morreram nesse processo de desindianização da Floresta Amazônica. A única certeza que temos é que somente depois da “limpeza” de extensas áreas é que foram iniciados os trabalhos de colonização. Falaremos disso na próxima postagem.

A FRANÇA EQUINOCIAL, OU O ANTIGO SONHO DE UMA AMAZÔNIA FRANCESA

São Luís

Nas últimas semanas, as queimadas na Amazônia ocuparam o foco dos noticiários e redes sociais de todo o mundo, mas uma fala de um líder europeu se destacou. O Presidente da França, Emmanuel Macron, utilizou a expressão “Nossa Amazônia” ao se referir à grande onda de queimadas que assolam a Região, especialmente no Brasil. Entre outras afirmações polêmicas, Macron defendeu a criação de mecanismos legais que permitam a “gestão internacional da Amazônia”. O Governo do Brasil, é claro, reagiu prontamente e reafirmou a soberania do país na posse e na gestão territorial do trecho brasileiro da Floresta Amazônia. 

Vista a partir de uma perspectiva mais ampla, a fala de Macron remete aos primeiros tempos da conquista do continente Americano, quando os Reinos de Portugal e de Castela receberam uma “concessão” do Papa Alexandre VI – o Tratado de Tordesilhas de 1494, que lhes permitia dividir entre si todos os novos territórios descobertos no Novo Mundo. Países como a Inglaterra, a Holanda e, principalmente, a França, regiram prontamente a esse favoritismo da Santa Sé pelos Reinos Ibéricos e, rapidamente, começaram a se movimentar para tentar garantir o seu próprio quinhão nas Américas. O avanço de movimentos ligados à Reforma Protestante nesses países, que, entre outras coisas, questionavam a autoridade Papal, impulsionaram essa rebeldia. 

Uma das primeiras tentativas dos franceses de estabelecer uma colônia em terras americanas se deu na Baía da Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Entre os anos de 1555 e 1570, existiu na região a chamada França Antártica, uma colônia francesa que contava com o apoio dos índios Tamoios. Essa colônia foi comandada por Nicolas Dante de Villegagnon, que pretendia instalar ali uma base naval e militar, permitindo assim que o Reino da França controlasse o tráfego de embarcações em todo o Oceano Atlântico Sul e, consequentemente, todo o comércio marítimo com as Índias. Tropas portuguesas conseguiram expulsar os franceses da região em 1570. 

Outros esforços franceses foram vistos na América do Norte e no Caribe. Em 1599 foi fundada a cidade de Tadoussac, na costa Leste do Canadá, e em 1608, Samuel de Champlain fundou um porto comercial que se transformou no embrião da cidade de Quebec. Essa região do Canadá ficaria conhecida como Nova França. Em 1682, os exploradores franceses viajaram pelo delta do rio Mississipi e estabeleceram ali o Território de Louisiana, numa homenagem ao rei Luís XIII da França. Também se estabeleceram em ilhas do Caribe como o Haiti, Guadalupe, Martinica e Santa Lúcia. 

Um dos mais importantes esforços franceses para a conquista de um grande território em terras americanas foi a chamada França Equinocial, onde se englobavam áreas ao longo da Linha do Equador, chamada na época de Linha Equinocial. Desde 1594, franceses mantinham uma feitoria na Ilha de Upaon-Açú, atualmente conhecida como Ilha de São Luís, onde encontramos a capital do Estado do Maranhão. Essa feitoria era comandada por Jacques Riffaut Charles Dês Vaux, franceses que mantinham ótimas relações com as comunidades indígenas locais. 

Esses franceses conheciam em detalhes toda a região e sabiam de todas as fragilidades da falta de uma presença militar do Reino de Castela que, de acordo com as cláusulas do Tratado de Tordesilhas, era o mandatário legítimo desse território. Os franceses também perceberam a concentração de portugueses n faixa Leste do litoral do Nordeste Açucareiro. Esse vácuo deixado pelos Reinos Ibéricos representava uma excelente oportunidade para a ocupação de uma extensa região pela França. 

Charles Dês Vaux retornou a França, onde teve contatos com Daniel de la Touche, um nobre local que já havia feito viagens de reconhecimento pela região das Guianas e era um grande entusiasta da ocupação dessa região pela França. Os planos efetivos para o início da colonização foram adiados devido a morte do Rei da França, Henrique IV, em 1610. Em 1612, de la Touche recebeu a concessão para a colonização da região das mãos da Rainha Maria de Médicis, Regente da menoridade do príncipe herdeiro, Luís XIII. 

No comando de 500 colonos e de 3 navios, Daniel de la Touche tomou o rumo do Maranhão, com planos para ocupar rapidamente a maior quantidade possível de territórios. Em 8 de setembro de 1612, frades capuchinhos realizaram a primeira missa na Ilha de Upaon-Açú, onde foram iniciadas as obras de construção do Forte Saint Louis, batizado em homenagem ao futuro Rei da França. A implantação da colônia contou com o apoio dos indígenas da região que, segundo informações da época, somavam 12 mil índios, distribuídos em 27 aldeias. 

Apesar da presença de religiosos católicos, a maioria dos colonizadores franceses era formada por protestantes huguenotes que fugiam da forte perseguição religiosa em seu país. Um exemplo dessa perseguição foi a conhecida Noite de São Bartolomeu, um grande massacre de protestantes que ocorreu nas ruas de Paris na noite entre 23 e 24 de agosto de 1572. Os registros falam da morte de 5.000 a 30.000 mil pessoas – alguns cronistas da época afirmaram que “o sangue dos protestantes correu pelas sarjetas e ruas da cidade”. 

Os franceses não perderam tempo e sistematicamente ocuparam todo o Leste do atual Estado do Pará, o Norte do Tocantins e uma parte expressiva do Amapá. Essas conquistas colocavam os franceses no controle da foz do rio Amazonas, uma posição estratégica que permitia a ocupação e o controle de toda a Bacia Amazônica. 

Ciente do avanço dos franceses dentro de seus territórios, os espanhóis pediram socorro ao Reino de Portugal, que entre 1580 e 1640 esteve unido à Coroa de Espanha. Tropas coloniais estacionadas em Pernambuco, sob o comando de Jerônimo de Albuquerque, foram deslocadas para o Maranhão, onde enfrentaram os franceses em sucessivas batalhas. Os franceses se renderam em novembro de 1615, quando tentaram negociar uma saída gradual da região. Essa proposta não foi aceita pelas autoridades portuguesas e os franceses foram expulsos sem qualquer compensação financeira. Uma curiosidade desses combates foi a presença de um jovem oficial português que faria história e mudaria os destinos de toda a Região Amazônica – o alferes Pedro Teixeira

Em 1626, em mais uma tentativa em se estabelecer no continente, os franceses ocuparam a Guiana e em 1635 fundaram a cidade de Caiene, a partir da qual conseguiram finalmente obter êxito na colonização. A Nova França no Canadá acabou sendo conquistada e ocupada pelos ingleses e a colonização da Luisiana foi um fiasco – o território foi ocupado pela Espanha entre 1763 e 1800, sendo depois reconquistado pela França e vendido para os Estados Unidos em 1803. O sonho dos franceses em conquistar grandes territórios no Novo Mundo acabou limitado ao território da Guiana Francesa e a um punhado de pequenas ilhas no Mar do Caribe. 

O Forte Saint Louis foi ocupado pelos portugueses e passou a ser chamado de São Luís, sendo transformado no embrião da simpática cidade de São Luís, a única capital brasileira francesa de nascimento. Para impedir novas invasões de nações estrangeiras, colonos de outras regiões do Brasil, especialmente da Capitania de Pernambuco, passaram a ser transferidos para o litoral do Maranhão. Esse foi o primeiro passo para a futura ocupação de toda a Região Amazônica, que, com o devido respeito a Monsier Emmanuel Macron, é Nossa! 

PEDRO TEIXEIRA E SUA INCRÍVEL EXPEDIÇÃO PELO RIO AMAZONAS EM 1637

Forte Presépio

O fracasso retumbante de duas expedições espanholas através do coração da Floresta Amazônica, primeiro com Francisco de Orellana em 1541, e depois sob o comando de Pedro de Ursúa em 1559, fez o Reino de Castela desistir em definitivo da posse da Região Amazônica. A incapacidade dos espanhóis em conquistar e colonizar esta parte tão importante e, por que não dizer, tão traumática de seus domínios, a Amazônia, permitiu que outros conquistadores o invadissem. Ingleses, irlandeses, flamengos e franceses montaram diversas fortificações e postos de comércio na região da foz do Rio Amazonas, no Arquipélago do Marajó, ocultando-se entre uma infinidade de canais entre as centenas de ilhas e ilhotas.

Ao Portugal, que na época estava sob domínio da Espanha (de 1580 a 1640) foi solicitada a defesa da região da foz do rio Amazonas e assim proteger a região da nação “amiga” e co-irmã dos invasores. Em janeiro de 1616, um grupo de militares da colônia portuguesa fundou na baía de Guajará um forte, batizado com o nome de Presépio. A vila que surgiu ao seu redor seria chamada de Belém (vide foto). De acordo com o relato do historiador Capistrano de Abreu em seu livro Capítulos de História Colonial:

“Trazia Alexandre de Moura instruções para expulsar os franceses do Pará e ir até o Amazonas. Como no Pará não existisse estabelecimento francês e o Amazonas estivesse desocupado, mandou em seu lugar Francisco Caldeira de Castelo Branco com cento e cinquenta homens, dez peças de artilharia e três embarcações… 

A 35 léguas do mar, na margem direita do (rio) Pará, Francisco Caldeira de Castelo Branco fundou a fortaleza, e chamou-a Presepe (o nome oficial da construção é Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém)

Estava dado o primeiro passo para a ocupação do Amazonas.” 

A presença de forças militares portuguesas na região reduziu gradativamente o acesso de outras nações aos grandes rios e as fortificações dos invasores foram destruídas uma após outra. No começo da década de 1630, os portugueses podiam afirmar que haviam libertado o baixo Amazonas da influência dos rivais estrangeiros. Todo este esforço militar, permitiu aos portugueses um completo mapeamento de extensas áreas no baixo Amazonas. Esse foi o primeiro passo para sua definitiva conquista.

Em 1637, uma grande expedição portuguesa partiu de Belém, rumo às nascentes do grande rio, com o objetivo de explorar e mapear toda a região. Compunha-se de 47 canoas, com cerca de 1.200 índios e negros, além de 70 soldados portugueses. No comando desta expedição estava o capitão Pedro Teixeira, o terceiro personagem da saga de conquista da Amazônia. Depois de quase um ano da partida, lutando contra a força da correnteza do rio, índios e toda a sorte de dificuldades, o pequeno exército surpreendeu os espanhóis quando entrou na cidade de Quito, no Vice-Reino do Peru (atualmente, capital do Equador). Duas expedições espanholas fracassaram na conquista e nos objetivos ao descer o rio Amazonas e, agora, um grupo de rivais portugueses consegue vencer o caminho contra a correnteza – era uma situação de completo constrangimento.

Houve muita ponderação do Governador local sobre o que fazer com estes portugueses. Finalmente, o Governador entendeu que a nova rota de ligação ao Oceano Atlântico não era adequada aos interesses espanhóis para o transporte das riquezas conquistadas – a rota através do Panamá era mais curta e muito mais segura. Ao liberar Pedro Teixeira e seus homens para o retorno a Belém, a única exigência feita foi à presença de cartógrafos espanhóis na frota, o que prontamente foi aceito. Finalmente, depois de mais de dois anos de sua partida, a expedição chegou a Belém no dia 12 de dezembro de 1639. Capistrano de Abreu comentou:

“Pedro Teixeira, incumbido desta missão, partiu a 17 de outubro águas a riba do rio-mar, em 15 de agosto de 1638 alcançou o Paiamino, afluente do Napo, e seguiu para Quito. Depois de receber as ordens do vice-rei do Peru, regressou e chegou ao Pará em 12 de dezembro do ano seguinte. Já de volta, a 16 de março de 1639, na barra do Aguarico, tomou posse em nome da coroa de Portugal das terras que para o Oriente se estendiam até beira- mar. Bento Maciel, então Governador do Estado, recompensou estes e outros serviços durante mais de quatro lustros prestados por seu companheiro de armas, concedendo-lhe por três vidas a encomendação de trezentos casais de índios.” 

Os cartógrafos espanhóis chegaram a concluir um atlas: Nuevo Descobrimiento del Gran Rio de las Amazonas, publicado em 1641, exatamente um ano depois de Portugal e Espanha terem se separado. Infelizmente, para os espanhóis, era tarde demais: o Amazonas passou definitivamente para o controle de Portugal; a língua predominante na grande bacia hidrográfica passaria a ser o português e o tempo se encarregaria de legalizar a posse, primeiro para os Lusos, depois para os brasileiros.

Eu tenho certeza quase que absoluta que a maioria dos leitores, nunca tinha ouvido falar dessa história, nem jamais suspeitou que nós devêssemos quase metade da atual extensão territorial do Brasil ao português Pedro Teixeira. Eu confesso que só tomei contato com essa saga durante as pesquisas que fiz no início da redação de um dos meus livros e depois, em visita a Belém do Pará, encontrei referências interessantes sobre esse grande explorador e militar. Vivendo e aprendendo.

Como eu sempre comento em meus textos, tenho uma predileção pelas narrativas das expedições espanholas, que contam as aventuras dos hidalgos. Caso você tenha lido as duas postagens anteriores, onde falei das expedições de Francisco de Orellana de Pedro de Ursúa (que foi assassinado e a expedição passou ao comando do sanguinário Lope de Aguirre), há uma loucura explícita, uma insanidade em cada ato destes homens na busca das riquezas. Não demonstram o menor interesse pela conquista ou o reconhecimento dos territórios, muito menos pelas gentes que neles viviam. Analisando a expedição de Pedro Teixeira você percebe claramente o pragmatismo do português – na pior condição possível, ele e seus homens subiram o rio Amazonas, lutando contra a correnteza de um dos mais poderosos rios do mundo.

É evidente que eles não tinham um mapa da bacia Amazônica e conforme avançavam, eles precisavam entrar em cada um dos rios tributários para fazer um levantamento cartográfico. Ao atingirem o sopé dos Andes, os portugueses tiveram que localizar nativos e interrogá-los sobre os espanhóis e descobrir o melhor caminho para a cidade de Quito, aonde chegaram sem o convite dos espanhóis. Foi uma expedição de conquista e não uma aventura de conquistador como no caso dos espanhóis – porém, com o mesmo grau de loucura, só que era uma loucura implícita.

Os espanhóis ficaram com o ouro inca; os portugueses e, depois, nós brasileiros, ficamos com a maior parte da bacia Amazônica – no longo prazo, nós brasileiros saímos ganhando, e de goleada! – Algo, talvez, como um 7 x 1 contra a Espanha.

Esses aspectos históricos da conquista da Região Amazônica são um tópico importante que não costuma fazer parte dos estudos de história do Brasil nas escolas. Foi graças a todos os esforços desses primeiros exploradores, mais positivos para os portugueses do que para os espanhóis, que mais de 60% da área da Amazônia ficou com o Brasil – a Nossa Amazônia.