A FEBRE AMARELA E OS MOSQUITOS: UMA LONGA HISTÓRIA

Mosquito no âmbar

Os mosquitos têm ocupado uma boa quantidade de minutos nos principais telejornais brasileiros nestes tempos de avanço da febre amarela em diversas regiões do país. Entre todas as dúvidas surgidas com o reaparecimento da doença em áreas urbanas, muitos se perguntam sobre as providências já tomadas para conter o avanço dos diversos surtos, que tem nos mosquitos um componente importante – são estes insetos, de espécies silvestres e urbanas, os principais responsáveis pela disseminação do vírus que provoca a doença. Gostaria de me ater hoje aos famigerados mosquitos.

Os mosquitos vivem no planeta Terra a, pelo menos, 170 milhões de anos. Para efeito de comparação, o fóssil mais antigo já encontrado de um primata, a grande família composta por macacos de todos os tamanhos e seres humanos, tem aproximadamente 65 milhões de anos – o gênero Homo, a linhagem dos humanos que evoluiu a partir dos primatas, têm algo próximo a 4 milhões de anos: os mosquitos dão de goleada sobre a nossa espécie.

Você, muito provavelmente, deve ter assistido ao ótimo filme Jurassic Park. Um rápido resumo do enredo: cientistas encontraram um mosquito do Período Jurássico (entre 199 e 144 milhões de anos atrás) preservado em âmbar (vide foto), uma resina de origem vegetal solidificada. Usando técnicas altamente avançadas, estes cientistas conseguem extrair fragmentos de sangue de dinossauros, picados pelo mosquito pouco antes deste ser coberto pela mortal resina do âmbar. Manipulando os resíduos de sangue, descobre-se que seria possível isolar o DNA (código genético) dos animais extintos e, assim, abre-se o caminho para a clonagem e o renascimento destas criaturas. A ficção pode até ter sido exagerada no filme, mas a sobrevivência dos mosquitos a tantas eras é um fato – é provável que a espécie humana entre em extinção em um futuro próximo, mas os mosquitos, muito provavelmente, ainda continuarão sobrevivendo por muitas e muitas eras. Imaginar que uma provável eliminação dos mosquitos poderá conter o avanço da febre amarela é uma utopia defendida por muita gente. Vou usar como exemplo a malária, uma doença que também é transmitida por mosquitos, para explicar minha afirmação:

Apesar de ser uma doença muito comum em áreas tropicais, a malária já foi endêmica em grande parte da Europa e dos Estados Unidos. Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.), sábio grego considerado o pai da medicina, foi o primeiro a fazer uma conexão entre água parada e a ocorrência de febres na população. Esse conhecimento foi passado aos romanos, que foram os pioneiros na drenagem de pântanos como forma de controlar as sucessivas epidemias na península itálica – além dos invasores bárbaros, foi a malária que quase provocou a queda do Império Romano em diversas ocasiões. A palavra malária deriva da expressão em italiano antigo mal aria ou ar ruim. Há relatos de grandes epidemias de malária na França, Espanha, Inglaterra, Holanda, Alemanha entre outros importantes países europeus – onde existissem pântanos e mosquitos, havia possibilidade de grandes epidemias de malária. A doença foi erradicada gradualmente a partir de melhorias na infraestrutura de saneamento das cidades e drenagem de áreas pantanosas, o que não elimina os mosquitos, mas controla a sua população. A Itália, para citar um exemplo, só conseguiu erradicar totalmente a malária em 1970.

A malária chegou aos Estados Unidos junto com os primeiros colonos, talvez passageiros do lendário navio Mayflower, muitos dos quais estavam infectados com os agentes Plasmodium vivax e Plasmodium malariae, comuns na Inglaterra. Posteriormente, com a importação dos primeiros escravos vindos do continente africano a partir de 1620, foi introduzido no país o agente Plasmodium falciparum.

As epidemias eram recorrentes nas antigas Colônias Anglo Americanas – em 1723 um colono escrevia para sua família na Escócia: “Estou sempre com febres e calafrios… este lugar só é bom para médicos e padres”. Com o avanço dos colonizadores rumo ao interior do país, a malária foi se disseminando e se tornando endêmica nas regiões Sul e Oeste. Consta que as epidemias de malária eram tão frequentes e custosas na antiga colônia francesa da Louisiane, que este foi um dos motivos que levou Napoleão Bonaparte a vender o território para os americanos em 1803, atualmente chamado de Estado da Louisiana. Nos estados do Sul dos Estados Unidos, aliás, a combinação do clima subtropical (o mesmo clima do Sul do Brasil a partir do Sul do Estado de São Paulo), da grande quantidade de áreas pantanosas e do sensível empobrecimento da região após a derrota dos Estados Confederados na Guerra Civil Americana (1861-1865), tornou a região propícia à presença de grandes populações de mosquitos e de uma alta incidência de epidemias de malária. Estudos indicam que até a década de 1930, um terço da população dos estados do Sul americano sofria de malária crônica.

O controle e a reversão das epidemias de malária nos Estados Unidos só foram possíveis a partir da massificação da infraestrutura de saneamento básico nas cidades, da aplicação de inseticidas para o controle das populações de mosquitos, da drenagem de áreas pantanosas e, principalmente, da obrigatoriedade da instalação de telas nas janelas e portas das residências. O governo americano também investiu pesadamente em campanhas educativas, mostrando à população quais eram os hábitos e os horários de maior incidência dos ataques dos mosquitos. Por volta do ano de 1950, a malária foi considerada erradicada dos Estados Unidos, restrita a alguns poucos casos anuais em regiões isoladas e densamente florestadas onde os mosquitos são e sempre farão “parte da paisagem”. É importante ressaltar que não existem vacinas homologadas contra a malária e que as medidas preventivas são as melhores alternativas para o controle da doença.

Em muitas cidades brasileiras, onde as populações estão à “beira de um ataque de nervos” com medo do surto de febre amarela, temos: serviços deficientes de coleta e destinação de resíduos sólidos, que muitas vezes acabam sendo descartados em terrenos baldios e em cursos d’água – muitos destes resíduos acumulam água e se transformam em verdadeiros criatórios de mosquitos; faltam redes coletoras e estações de tratamento de esgotos – estes problemas, associados a outros nos sistemas de águas pluviais (ou de chuva), criam empoçamentos de água que propiciam a reprodução descontrolada de mosquitos; o crescimento desordenado das cidades avança rumo aos fragmentos de vegetação e áreas florestais remanescentes, aproximando populações humanas e grupos de macacos silvestres, que podem ter algum indivíduo portador do vírus da febre amarela – neste caso, um mosquito silvestre ou urbano que picar o macaco poderá se transformar num transmissor da doença. Estas populações também ficam expostas ao contato com espécies de mosquitos silvestres, portador natural do vírus, que se somam aos inúmeros mosquitos urbanos como os da espécie Aedes aegypti, que eventualmente também podem se transformar em um portador do vírus da febre amarela – percebem a complexidade da situação?

Dito tudo isso, minha pergunta: vocês continuam acreditando que os mosquitos são os únicos responsáveis pelo avanço da febre amarela em nossas cidades?

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“SIMIOCÍDIO”, ESTUPIDEZ E O AVANÇO DA FEBRE AMARELA EM ÁREAS URBANAS

Mico-leão-dourado

Eu fiz uma busca na internet e não achei nenhuma referência à palavra que estou usando no título deste post – “simiocídio”, que significa literalmente “o assassinato de símios”. Símio é a palavra usada em zoologia para definir as espécies da ordem dos primatas, a grande família composta por macacos de todos os tamanhos e seres humanos; cídio é o sufixo nominal de origem latina, que ocorre em substantivos e exprime a ideia de morte ou extermínio – juntando as duas palavras chegamos ao “simiocídio”. Como os seres humanos formam um grupo à parte, o gênero Homo, o termo usado há muito tempo é outro – homicídio. Ninguém parece ter dado muita atenção à matança de macacos ao longo da história – imagino que esta seja a razão para não existir um termo específico para esse ato. Nas últimas semanas, porém, a situação mudou radicalmente e os macacos foram transformados em alvos inocentes da fúria dos humanos.

Pessoas ignorantes, que fazem lembrar das histórias dos caçadores de bruxas da Idade Média, decidiram que os macacos são os responsáveis pela transmissão da febre amarela e, usando dos mais diferentes artifícios – iscas envenenadas, armadilhas, tiros, flechas e qualquer outro tipo de arma disponível, começaram a matar macacos em diversas cidades nas regiões onde a febre amarela parece estar se tornando epidêmica (favor não confundir epidemia com pandemia, que é uma situação muito mais grave). As autoridades, cautelosas como sempre, tem preferido dourar a pílula e chamar a situação de surto – surto da doença e também de bestialidade humana.

Para completar o quadro, órgãos da imprensa não conseguem passar corretamente as informações corretas sobre os acontecimentos paras as populações e ainda se sentem em condições de ficar questionando, inclusive, medidas acertadas como a vacinação em massa com doses fracionadas da vacina contra a febre amarela (melhor seria a vacinação com a dose completa – na falta desta, o fracionamento vem em boa hora). Como comentei em uma outra postagem, passamos a viver a “2ª Revolta da Vacina”. No futuro, imagino que alguém poderá eternizar esse momento negro de nossa história com um filme: Os Caçadores dos Macacos Escondidos, ou qualquer outro título nessa linha.

Macacos vivendo nas cercanias de comunidades humanas são um fato histórico. Em muitas partes do mundo, especialmente em regiões tropicais da Ásia, os macacos ainda hoje são considerados como animais sagrados. Na Índia, para citar um único exemplo, os macacos da espécie langur são considerados como divindades em muitas regiões do país, existindo até templos dedicados a estes animais. De acordo com a tradição, foram esses macacos que descobriram a manga no jardim secreto de um gigante chamado Ravana – os macacos roubaram a fruta e a deram aos seres humanos (lembra muito a lenda grega de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e o deu para os seres humanos).

Nas cidades brasileiras, saguis e micos, entre outras espécies de macacos, sempre habitaram ou são visitantes ocasionais de matas localizadas nas periferias. Aqui vale lembrar que o Brasil concentra a maior variedade de espécies de primatas do mundo – são, pelo menos, 118 espécies, distribuídas em 4 famílias e 19 gêneros; novas espécies são descritas com uma frequência impressionante. Lembro de uma matéria de capa de uma importante revista que afirmava que o “Brasil é o planeta dos macacos”. Em todas as regiões e cidades brasileiras, sempre haverá, pelo menos, uma espécie de primata vivendo nas proximidades de algum agrupamento humano. Se estes macacos fossem de fato transmissores de doenças, nosso país seria um deserto de matas tropicais – todos os seres humanos já teriam morrido com alguma doença supostamente transmitida por primatas.

Mas o que temos visto em reportagens de TV são dezenas de macacos sendo mortos sistemática e impiedosamente em muitas cidades, por moradores assustados com os surtos de febre amarela. Numa destas reportagens, a imagem chocante de uma mesa de um centro veterinário com dezenas de macacos mortos, inclusive um mico-leão-dourado (vide foto), uma espécie sob forte risco de extinção nas matas brasileiras. Na base deste morticínio (ou “simiocídio”), a crença de muitas pessoas ignorantes sobre a responsabilidade dos indefesos e inocentes primatas na disseminação da febre amarela. Na cabeça destes “animais” (em referência às pessoas mal esclarecidas, é claro), eliminando-se os macacos de uma região, automaticamente se estará eliminando a origem do surto da doença.

Primatas e seres humanos (que bem por acaso são primatas um pouco mais evoluídos) convivem juntos em grande parte do planeta Terra a milhões de anos, em razoável harmonia – não será agora, de um momento para o outro, que eles passarão a ser considerados inimigos da raça humana e, portanto, passíveis de condenação à morte sem qualquer chance de defesa.

Macacos não são os responsáveis pela transmissão da febre amarela – seres humanos, sim, são transmissores da raiva e da estupidez, entre outros males.

FEBRE AMARELA: A 1ª E A 2ª “REVOLTA DA VACINA”

Rouxinol

Há exatamente um ano atrás, eu escrevi uma série de postagens falando de um surto de febre amarela que surgiu em alguns municípios do interior do Estado de Minas Gerais. Naquela ocasião, o Governo Estadual decretou situação de emergência em um total de 152 municípios das regionais de saúde de Coronel Fabriciano (Vale do Aço), Governador Valadares (Leste), Manhumirim (Zona da Mata) e Teófilo Otoni (Vale do Mucuri) onde havia uma alta incidência de casos de febre amarela. De acordo com dados da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, haviam 133 casos suspeitos de contaminação com a doença e foram notificados 38 casos de mortes, sendo que em 10 casos foi confirmada a febre amarela como causa mortis.

Apesar de todos os discursos das autoridades “competentes” da área de saúde afirmarem na época que aqueles eram casos isolados e que não havia motivo para pânico, eu fiz questão de afirmar que uma das causas mais prováveis para o reaparecimento da febre amarela em áreas urbanas era um problema ambiental: a presença de macacos nas proximidades dos bairros periféricos das cidades. E as razões para este fenômeno não eram uma exclusividade daquela região de Minas Gerais: de um lado, cidades crescendo sem planejamento e avançando na direção dos fragmentos florestais remanescentes; do outro lado, atividades agrícolas, pecuárias e de mineração expulsando os animais de seus habitats naturais, levando-os algumas vezes a ocupar pequenas matas em lotes dentro das áreas urbanas. Completando o quadro, um grande número de mosquitos silvestres e o Aedes aegypti, que infesta as nossas cidades, não sabendo diferenciar seres humanos de macacos, espalharam o vírus causador da febre amarela.  

Passados apenas um ano, os casos de febre amarela romperam as fronteiras do Estado de Minas Gerais e agora se multiplicam, por enquanto, em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Como as condições ambientais se repetem em diversas cidades e regiões do país, as coisas podem ficar bem piores. A incompetência combinada de autoridades das áreas de saúde e de meios de comunicação sensacionalistas também deixou suas marcas: assistimos o caos nos postos de saúde de várias cidades, com grandes filas e pessoas revoltadas pela falta de vacinas contra a febre amarela. Assistimos uma verdadeira repetição da Revolta da Vacina de 1904 – a única diferença é que, desta vez, a população está brigando para tomar a vacina: em 1904, a confusão generalizada que tomou conta das ruas da cidade do Rio de Janeiro, eram de turbas lutando contra a vacinação obrigatória. Um rápido resumo para que todos conheçam a história:

Francisco Franco Pereira Passos (1836-1913), prefeito indicado da cidade do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, iniciou uma série de obras que tinham como objetivo a modernização da cidade. Inspirado nas reformas urbanas da cidade de Paris décadas antes, Pereira Passos desapropriou grandes áreas para a construção de largas avenidas e praças, iniciou a modernização da área do porto da cidade e também a construção do Teatro Municipal, do Museu Nacional de Belas Artes e da Biblioteca Nacional. Consta que muitos cortiços foram demolidos e que os moradores se refugiaram nos morros, dando origem a algumas das mais famosas favelas cariocas.

Uma das ações polemicas do período foi a importação de 200 pardais (Passer domesticus) de Portugal em 1903. Alguns cientistas haviam afirmado ao Prefeito Pereira Passos que essas aves eram vorazes comedoras de insetos e que, uma vez introduzidas na cidade do Rio de Janeiro, atuariam como um agente biológico natural para o controle da população de mosquitos, transmissores de uma infinidade de doenças que assolavam a cidade na época. As aves foram soltas no Campo de Santana, em cerimônia com pompa e muito protocolo. A ideia iluminada, como não poderia deixar de ser, não funcionou e os problemas com os mosquitos continuaram. Era preciso deixar a “magia” de lado e passar para ações práticas de saneamento básico.

Mesmo com este deslize dos pardais, uma parte importante do legado de Pereira Passos foram os trabalhos na área de saneamento básico e de higienização da cidade, cuja coordenação foi confiada ao médico sanitarista Oswaldo Cruz, empossado como diretor do Serviço de Saúde. Muitas das ações de Oswaldo Cruz não foram muito bem recebidas pela população carioca – os agentes de saúde entravam nas residências, muitas vezes a força, buscando focos de mosquitos e de ratos.

Na época, o Rio de Janeiro era a maior cidade brasileira, com uma população de mais de 800 mil habitantes, e era constantemente assolada por surtos de febre amarela, varíola, peste bubônica, malária, tifo e tuberculose. Oswaldo Cruz implementou um ambicioso plano de saneamento e de higienização ambiental, além de criar um verdadeiro exército de matadores de mosquitos. A violência explodiu quando a população se revoltou contra a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Os embates resultaram em, pelo menos, 30 mortos, 110 feridos e 945 prisões. O mosquito Aedes aegypti, que foi um dos alvos prioritários do plano de higienização de Oswaldo Cruz, chegou a ser considerado como erradicado; nas últimas décadas, porém, o mosquito voltou a recolonizar o Rio de Janeiro e grande parte do país, trazendo em sua esteira, mais uma vez, os riscos de transmissão de várias doenças.

Passaram-se mais de 100 anos e o Rio de Janeiro atual é apenas mais uma gigantesca cidade ao lado de dezenas de outras, especialmente na região Sudeste do país. O crescimento planejado das áreas urbanas com sistemas de abastecimento de água potável, coleta e tratamento de esgotos, controle de águas pluviais, coleta e destinação de resíduos sólidos, entre outros sistemas de infraestrutura urbana ainda são um sonho distante para a grande maioria das cidades. São estas infraestruturas as principais aliadas da população para o controle de epidemias.

A polêmica da vez é a vacinação em massa contra a febre amarela que os Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro iniciaram no último dia 25 de janeiro. Órgãos de imprensa não param de questionar as autoridades dos Governos sobre a eficácia da aplicação de doses fracionadas da vacina, onde a proteção contra a doença é de aproximadamente 8 anos (validade ainda em estudos). A alegação das “autoridades” para o fracionamento é que não há doses de vacinas em número suficiente para atender toda a população.

Talvez, se as “autoridades” tivessem prestado um pouco mais de atenção ao quadro geral das condições ambientais das cidades, teria havido tempo suficiente para encomendar as vacinas em quantidade adequada para o uso da dose completa – um ano inteiro é tempo mais do que suficiente para isto.

Em último caso, a importação de rouxinóis poderá até ser uma alternativa – dizem que a bela ave do Velho Mundo (vide foto) é uma voraz comedora de insetos…

“SURFISTAS TÊM 3 VEZES MAIS CHANCES DE CONTRAIR BACTÉRIAS SUPER-RESISTENTES”

Surfistas

A contaminação de extensas áreas de praias do litoral brasileiro com resíduos de esgotos é uma triste realidade, que nas temporadas de Verão ganha contornos dramáticos – milhões de turistas buscam lazer e diversão nas praias, normalmente alheios aos riscos de contaminação.

Reportagem publicada pela BBC Brasil detalha uma pesquisa realizada no Reino Unido que comprovou que surfistas têm 3 vezes mais chances de contrair bactérias super-resistentes – a contaminação se dá pela maior ingestão de água do mar contaminada. Como o assunto está diretamente ligado ao tema das postagens que estamos publicando, optou por reproduzir aqui a matéria e tecer alguns comentários relevantes.  Vejam a matéria:

“Poucos sabem disso, mas a prática do surfe pode expor atletas a bactérias difíceis de eliminar.

Um estudo da Universidade de Exeter, no Reino Unido, aponta que os surfistas têm três vezes mais possibilidade de carregar bactérias super-resistentes a antibióticos que o resto da população.

Estudos anteriores já haviam demonstrado que os praticantes do esporte engolem dez vezes mais água que outras pessoas que nadam no mar habitualmente.

A partir disso, os autores dessa nova pesquisa quiseram averiguar se eles eram mais vulneráveis às bactérias que contaminam as águas.

 

Super-resistentes

A equipe de pesquisadores analisou as fezes de 143 surfistas e de 130 pessoas que nadam regularmente na costa do Reino Unido. O objetivo era examinar se seus estômagos abrigavam a bactéria E. coli resistente a cefotaxima, antibiótico muito usado clinicamente.

Os resultados, publicados na revista científica Enviroment International, revelaram que 9% dos surfistas tinham essa bactéria resistente, versus 3% dos demais nadadores que participaram do estudo. Isto significa que a E. coli continuaria em seus estômagos mesmo se eles tomassem o antibiótico mais usado para combatê-la.

A coordenadora da pesquisa, Anne Leonard, acredita que como os surfistas são “geralmente jovens, estão em forma e se sentem saudáveis, é pouco provável que se preocupem com sua saúde”.

A cientista acredita que as bactérias chegam até o mar sobretudo por meio de resíduos de esgotos e de fazendas em épocas de chuva forte.

Uma forma de evitar a ingestão dessas bactérias, recomenda ela, é que os surfistas e nadadores permaneçam fora da água durante dois dias, mais ou menos, de forma regular e que evitem entrar na água depois de uma chuva forte.

 

Alerta global

Segundo os pesquisadores, os riscos a que os surfistas estão expostos podem se estender para grupos mais vulneráveis da população, como idosos e crianças.

“(Os surfistas) têm o potencial de transmitir essas bactérias, caso não tenham uma boa higiene ou não lavem as mãos para preparar os alimentos”, diz Leonard.

No final do ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) advertiu que a resistência aos antibióticos é hoje uma das maiores ameaças para a saúde mundial, a segurança alimentar e o desenvolvimento. Trata-se de um problema que pode afetar qualquer pessoa, de qualquer idade, em qualquer país.

O uso indevido desses medicamentos no ser humano e nos animais está fazendo com que as bactérias fiquem cada vez mais resistentes, tornando mais difícil tratar infecções como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonela.

“A resistência a bactérias tem sido reconhecida como uma das maiores ameaças do nosso tempo. E há agora uma grande atenção ao fato de como a resistência pode se espalhar pelos ambientes naturais. Nós precisamos, urgentemente, saber mais sobre como os seres humanos estão expostos a essas bactérias e como elas colonizam nossos estômagos”, avalia a coordenadora da pesquisa com surfistas”.

Um detalhe importante da pesquisa merece destaque – as taxas de coleta e de tratamento de esgotos nas cidades do Reino Unido estão bem próximas de 100%: as maiores fontes de bactérias são os dejetos animais das fazendas da ilha, que são arrastados para as calhas dos rios nos períodos de chuva e, assim, conseguem chegar até o mar. No Brasil, como venho apresentando nas últimas postagens, os índices de contaminação das praias por esgotos é muito mais alto, especialmente nas cidades com fachada oceânica, o que, muito provavelmente, eleva os riscos de contaminação dos nossos surfistas e também de banhistas de um modo geral. Seria muito importante a realização de pesquisas similares em nossas águas por instituições brasileiras, avaliando os riscos de contaminação de nossas populações por bactérias super-resistentes.

As bactérias Escherichia coli (mais conhecida pela abreviatura E. coli), são encontradas no trato gastrointestinal inferior dos organismos de sangue quente (endotérmicos). A maioria das estirpes de E. coli são inofensivas, mas alguns sorotipos podem causar graves intoxicações alimentares nos seres humanos. O uso indiscriminado de antibióticos pelas populações, na forma de remédios e de produtos de limpeza, como os sabonetes com bactericidas, tem levado a mutações genéticas e ao surgimento de cepas de bactérias super-resistentes aos antibióticos, o que torna o tratamento dos pacientes muito difícil.

A descoberta da penicilina em 1928 por Alexander Fleming foi um dos maiores avanços da medicina no século XX e foi um marco na luta contra as infecções que surgiam nos pacientes e que resultavam na morte de milhares de pessoas. As superbactérias são um dos maiores desafios da medicina na atualidade, muitas vezes sendo necessária a combinação de até 20 diferentes tipos de antibióticos para o controle de um único tipo.

Todo o cuidado com as bactérias super-resistentes é pouco.

A ÁRIDA BELEZA DE FERNANDO DE NORONHA

Fernando de Noronha

O Arquipélago de Fernando de Noronha é formado por 21 ilhas e ilhotas, que ocupam a ínfima área de 26 km². Apesar de pequeno, o arquipélago é de uma beleza ímpar, cercado por um mar de águas transparentes e repleto de vida marinha, e de terras cobertas por densa vegetação, local de abrigo para uma enorme gama de aves migratórias e, pelo menos, duas espécies nativas. Em 2001, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, declarou Fernando de Noronha Patrimônio Natural da Humanidade. Tanta beleza e tanta vida, sem contar com uma única fonte de água potável.

Existem diversas hipóteses sobre a descoberta do arquipélago por diferentes expedições entre os anos de 1500 e 1504, porém nenhuma certeza absoluta sobre qual foi a data exata e a expedição responsável pela sua descoberta. Fernando de Noronha (ou Fernão de Loronha no original) foi um rico comerciante, empreendedor e armador português, que figurou entre os financiadores das primeiras expedições exploratórias dos recursos naturais das recém descobertas terras brasileiras, especialmente do pau-brasil. Em 1504, Dom Manuel I, o Rei Venturoso, doou para Fernando de Noronha a Ilha de São João da Quaresma, a primeira Capitania do mar do Brasil, em agradecimento aos seus serviços. Ele nunca visitou a ilha que acabou sendo rebatizada com seu nome: Fernando de Noronha.

Isolada do continente e sem fontes de água, o arquipélago ficou abandonado por muito tempo, tendo sido invadido sucessivamente por holandeses, franceses e ingleses, que também não se estabeleceram. Em 1700 a ilha foi integrada à Capitania de Pernambuco. Foi somente no final do século XVIII que o arquipélago ganhou uma função específica: foi transformado em um presídio, função que se manteve até o final da década de 1950. Durante a II Guerra Mundial, o aeroporto da ilha de Fernando de Noronha foi cedido aos Estados Unidos e utilizado como base de reabastecimento para os aviões americanos que se dirigiam para os campos de batalha na África. Resumidamente, essa é a história do arquipélago. O paraíso tropical com praias de areias maravilhosas e mares com águas transparentes é de uma história muito recente.

A ilha de Fernando de Noronha, a maior e a única ilha habitada do arquipélago, tem atualmente uma população com aproximadamente 3 mil habitantes, distribuídos em pequenas vilas – a Vila dos Remédios é a principal. O arquipélago dista 545 km da costa do Estado de Pernambuco, à qual é ligado por voos comerciais regulares, que realizam o transporte de passageiros e de cargas; o abastecimento geral da população é feito através de embarcações cargueiras.

O abastecimento de água sempre foi um dos grandes problemas para os parcos habitantes de Fernando de Noronha, que sempre recorreram à escavação de poços e construção de açudes para o armazenamento da água das chuvas, que caem com bastante intensidade entre os meses de fevereiro e julho. A ilha principal possui atualmente aproximadamente 40 poços e diversos açudes: Gato, Mulungu, Horta e Xaréu, o maior de todos. Recentemente, o Governo do Estado de Pernambuco instalou uma estação de dessalinização de água do mar, unidade que permite a produção de aproximadamente 290 mil litros de água potável por dia, volume suficiente para abastecer 40% da população de Fernando de Noronha. De acordo com dados da administração do arquipélago, 70% das casas contam com rede coletora de esgotos – as demais residências usam fossas sépticas.

Ambientes insulares são ecossistemas naturalmente sensíveis, com flora e fauna especializados, sujeitos a fortes impactos por povoamento e introdução de espécies exóticas. Na ilha de Fernando de Noronha foram introduzidas ovelhas, que causaram grandes estragos na vegetação original; também foram introduzidos lagartos da espécie teiú com o objetivo de combater os ratos que infestavam a ilha: a ideia não funcionou e os teiús são atualmente um dos grandes problemas ambientais da ilha, atacando ninhos das diversas espécies de aves que vivem nas ilhas ou que realizam paradas durante os voos migratórios. O famoso naturalista inglês Charles Darwin, autor da teoria da evolução das espécies, esteve em Fernando de Noronha em 1832, numa das paradas da famosa viagem do lendário navio Beagle – ele ficou admirado com a densa mata tropical que cobria todas as ilhas do arquipélago. O uso restrito de Fernando de Noronha como presídio foi fundamental para a preservação da flora e fauna da maioria das ilhas – em 1988, o Governo brasileiro elevou o arquipélago a parque nacional marinho e 70% de sua superfície passou a ser considerada área de preservação permanente.

Este status de área de preservação, associado aos limites físicos e ambientais da ilha, tem reflexos diretos no controle rígido do número de visitantes. Em 2017, a ilha recebeu mais de 94 mil turistas (aproximadamente 2 mil visitantes por semana), o que representou um crescimento de 3,2% no número total de visitantes em relação a 2016. Perto de 7% dos visitantes são estrangeiros, que ficam simplesmente encantados com a beleza local, especialmente com as águas mornas e transparentes do mar, considerado um dos melhores locais para mergulho do mundo, e com os imensos grupos de golfinhos rotadores que vivem na região. A culinária local, fortemente baseada em peixes e frutos do mar, é um destaque a parte. Uma especialidade da ilha é o bolinho de “tubalhal”– onde o bacalhau é substituído por carne de tubarão salgada.

Os limites turísticos de Fernando de Noronha constantemente provocam tensões entre os administradores do parque marinho, comerciantes, operadores de turismo e autoridades de meio ambiente de Pernambuco. Enquanto comerciantes e operadores de turismo pressionam pelo aumento do número de turistas no arquipélago, as autoridades ambientais têm conseguido manter as rédeas sob controle. Diversos grupos hoteleiros devem sonhar com a possibilidade de construir grandes hotéis em Fernando de Noronha, transformando o arquipélago num mini Hawai brasileiro – felizmente, o bom senso das autoridades ambientais tem prevalecido e o turismo continua sob controle. As pousadas existentes na ilha são bastante simples, muitas instaladas em casas dos ilhéus, mas tem funcionado perfeitamente até hoje. O interesse recente de celebridades por passeios até o arquipélago talvez crie novas pressões para o incremento e ampliação dos hotéis. Vamos acompanhar.

Que as belezas e os encantos de Noronha, enquanto possível, continuem como estão.

O TEMIDO “MONSTRO DO ESGOTO” DE GUARAPARI

Guarapari

Guarapari fica a aproximadamente 52 km ao Sul de Vitória, a capital do Estado do Espírito Santo. Apesar de ser uma autêntica cidade capixaba, Guarapari se transforma quando chega o Verão – a cidade chega a receber 1 milhão de visitantes, principalmente mineiros. Há quem diga que “mineiro que é mineiro tem de vir a Guarapari pelo uma vez na vida”.

Essa verdadeira “invasão” de turistas cria todo o tipo de problemas para a cidade, que na maior parte do ano conta com uma população de 120 mil habitantes. Começa a faltar água, sobram filas na padaria, no supermercado, nos postos de gasolina – tudo fica lotado. Em diversas ocasiões no passado, a Prefeitura de Guarapari sinalizou que estava estudando medidas para “limitar” o número de turistas que buscam a cidade nas temporadas de Verão. Um ex-prefeito, inclusive, chegou a cogitar alternativas para evitar a entrada de turistas de baixa renda na cidade. Na opinião dessa “autoridade” o “melhor para Guarapari seria receber 100 mil turistas de um nível econômico mais alto, ao invés de 1 milhão de turistas de baixa renda”. A proposta polêmica e discriminatória não caiu bem na cidade, gerando todo o tipo de reclamação, especialmente da parte dos turistas mineiros – a proposta, é claro, não avançou.

Durante as temporadas de Verão, esta superpopulação temporária também amplifica e expõe ainda mais uma série de problemas e deficiências na infraestrutura da cidade, particularmente os problemas de esgotos. E Guarapari tem sérios problemas nesta área. De acordo com dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, a cidade de Guarapari trata quase 90% do volume total de esgotos coletados. O problema é que apenas 32% dos domicílios da cidade estão ligados a redes coletoras de esgotos – 52% das residências usam fossas e 16% lançam os esgotos a céu aberto: são números muito ruins para uma cidade que tem no turismo a sua principal atividade econômica.

Um exemplo desta total falta de infraestrutura pode ser vista no Perocão, um bairro da Zona Norte de Guarapari. No ano 2000, a Prefeitura, em uma parceria com a FUNASA – Fundação Nacional de Saúde, iniciou a construção de uma estação de tratamento de esgotos no bairro. Infelizmente, como costuma acontecer com este tipo de obra, essa foi iniciada e paralisada diversas vezes e os despejos de esgotos no Rio Perocão continuaram. A indignação com o descaso das autoridades com os problemas de saneamento inspirou um cineasta local, Rodrigo Aragão, a produzir em 2015 o longa metragem “As Fábulas Negras”, dirigido e produzido com ajuda de amigos de infância do bairro. O filme conta diversas histórias do folclore brasileiro, onde foi incluído o “Monstro do Esgoto“, uma crítica às péssimas condições sanitárias do bairro Perocão. Curiosamente, existe um outro “Monstro do Esgoto” em “Saneamento Básico – o Filme”, de Jorge Furtado – sinal que sobra criatividade entre os cineastas brasileiros e que o país tem esgotos de sobra para usar como cenário.

Os problemas de despejo irregular de esgotos não se limitam ao rio Perocão – outros dois rios que cruzam a cidade têm o mesmo problema: os rios Jabuti e Una. As águas contaminadas atingem as áreas de manguezais e as praias, provocando mal cheiro, mortandade de peixes e oferecendo riscos à população e aos inúmeros turistas. A poluição não fica limitada apenas as águas do mar – as areias de Guarapari, famosas por suas propriedades terapêuticas, também são afetadas. Estudos que vem sendo realizados por biólogos desde 2013 em diversas praias do Espírito Santo, têm encontrado altas concentrações de bactérias dos grupos coliformes e enterococos, normalmente associadas a águas contaminadas por despejos de esgotos, nas areias das praias. Em Guarapari, foram realizadas análises microbiológicas na Praia do Morro, onde foram encontradas altas concentrações de bactérias de origem fecal na areia.

Em 2015, duas entidades ambientais, a ANAMA – Associação Nacional dos Amigos do Meio Ambiente e a ONG Juntos SOS Espírito Santo Ambiental, protocolaram na Justiça Federal uma ação civil pública pedindo a responsabilização das autoridades na fiscalização do lançamento de esgotos nas águas de Guarapari. A ação cobra o pleno funcionamento dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos sob responsabilidade da CESAN – Companhia Espírito-Santense de Saneamento, além de questionar a omissão da Prefeitura de Guarapari.

A ação cita, entre outros problemas, o emissário de esgotos construído pela CESAN no município. De acordo com as entidades ambientais autoras da ação, há problemas técnicos na estação de tratamento de esgotos e os efluentes tratados que estão sendo despejados pelo emissário ainda apresentam grandes quantidades de bactérias ativas. A ação questiona a eficiência dos serviços da CESAN e também sugere a corresponsabilidade das autoridades municipais pelo potencial crime ambiental, que pode resultar em grave dano à saúde da população e dos turistas. Como todos sabem, a tramitação de ações na Justiça é bastante lenta e há inúmeros recursos que permitem protelar as decisões judiciais.

A fama de Guarapari perde-se, literalmente, nas “areias do tempo”. As areias monazíticas radioativas das suas praias, em tons de amarelo, marrom e preto, possuem supostas propriedade terapêuticas que auxiliam no tratamento de uma infinidade de males: nevralgias, artrites, reumatismos, problemas musculares e digestivos, entre outros. Isto criou uma espécie de “turismo terapêutico” na cidade. O estudo destas propriedades terapêuticas das areias de Guarapari tem chamado a atenção de um número cada vez maior de pesquisadores científicos nos últimos anos.

Estudos científicos realizados ainda no final do século XIX comprovaram que as areias de Guarapari possuíam pequenas quantidades de tório e urânio, que são elementos radioativos. Inclusive, há relatos que falam da exportação clandestina de até 200 mil toneladas de areia monazítica de Guarapari e de outros municípios para países como Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha entre as décadas de 1890 e 1960. O elemento tório foi inicialmente utilizado na fabricação de luminárias a gás; depois, com o avanço dos estudos em energia nuclear, o tório e o urânio passaram a ser componentes fundamentais para o desenvolvimento das bombas atômicas e do combustível usado nas usinas nucleares para geração de energia elétrica. 

Apesar da fama internacional das suas inúmeras praias, das história e “teorias da conspiração” sobre o contrabando de suas areias radioativas, que também tem fama de milagrosas, Guarapari ainda precisa avançar bastante na área de infraestrutura.

ILHÉUS: TERRA DE GABRIELA, DE JORGE E DO CACAU

Ilhéus

A “Princesinha do Sul” e a “Capital do Cacau” são alguns dos carinhosos apelidos que você poderá encontrar ao buscar informações sobre a cidade de Ilhéus, na Bahia. Fundada em 1536, a cidade é uma das mais antigas do Brasil, com um grande patrimônio histórico e cultural, além de possuir o litoral mais extenso da Bahia. Ilhéus, que já foi a maior produtora de cacau do mundo e terra de poderosos coronéis, até hoje tem em suas ruas registros vivos das muitas histórias dos áureos tempos do cacau. Muito dessa história está registrado nos livros de Jorge Amado, talvez o mais famoso escritor baiano, em livros como Gabriela, Cravo e Canela; Terras do Sem Fim e Capitães de Areia. Infelizmente, muito dessa riqueza se perdeu: no final da década de 1980, toda a região produtora de cacau em Ilhéus e Itabuna foi varrida por uma doença vegetal conhecida como vassoura-de-bruxa-do-cacaueiro, causada pelo fungo Moniliophtora perniciosa, que ataca e destrói as plantas. No período entre 1991 e 2000, a participação do Brasil no mercado internacional do cacau caiu de 15% para apenas 4% – a economia da cidade de Ilhéus foi uma das mais prejudicadas com a crise que se seguiu.

A primeira e única vez que estive em Ilhéus foi no réveillon de 2008. Confesso que fiquei assustado e decepcionado com a imensa quantidade de “línguas negras”, as inconfundíveis trilhas que as águas contaminadas por esgotos deixam nas areias das praias – os despejos de esgotos do hotel em que fiquei hospedado, inclusive, corriam caprichosamente numa linha reta até atingir as águas do mar. Numa das caminhadas que fiz seguindo as areias (entrar na água, nem pensar), fiz um registro fotográfico dos despejos de esgotos de diversos hotéis, todos em situação semelhante, lançando efluentes descaradamente na direção do mar. Numa das situações mais críticas que vi, os efluentes de um grande hotel seguiam por um trecho de uns 200 metros, num canal paralelo ao mar, formando uma espécie de piscina – dezenas de banhistas estavam dentro desta piscina “natural”, se refrescando.

A implicância com a situação da poluição das praias de Ilhéus não foi só minha: em 2012, o MPF – Ministério Público Federal, da Bahia ajuizou uma ação civil pública contra o município de Ilhéus e a EMBASA – Empresa Baiana de Águas e Saneamento, e também contra o INEMA – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia, e IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Um verdadeiro “pacote completo” em defesa do meio ambiente, na busca de medidas conjuntas para a eliminação dos despejos de esgotos nas praias, na ampliação da rede coletora e das estações de tratamento de esgotos, além de melhorias na rede coletora de águas pluviais.

A ação do Ministério Público foi iniciada a partir de uma denúncia feita por um morador sobre o lançamento de esgotos na Praia do Cristo, no centro de Ilhéus. Durante as investigações, o Ministério Público apurou que o problema se repetia em outras praias da região central da cidade e na área do Pontal. Também não demorou muito para que o MPF comprovasse o lançamento irregular de esgotos na rede de águas pluviais, problema bastante comum nas cidades brasileiras. Um outro problema apurado pelo Ministério Público Federal foram os jorros de esgotos que são vistos nas praias em dias de chuva. A origem do problema é bem conhecida pelas empresas de saneamento básico: redes de águas pluviais dos imóveis (saída de tubulações de calhas, por exemplo) são ligadas na rede coletora de esgotos, o que é proibido. Nos dias de chuva isso gera uma sobrecarga nas redes coletoras e nas estações de tratamento de esgotos, que são obrigadas a abrir completamente as suas saídas de efluentes, ou seja, deixam todos os efluentes que chegam saírem livremente.

Com relação a este último problema, é importante fazermos um rápido comentário: o tratamento dos esgotos nas estações é um processo natural, feito por grupos de bactérias aeróbias (que respiram ar) e anaeróbias (que obtém oxigênio a partir da putrefação da matéria orgânica). O trabalho conjunto destes grupos de bactérias transforma toda a carga poluente dos esgotos em matéria inerte, conhecida como lodo sanitário. Quando as estações de tratamento são abertas para escoar o excesso de águas pluviais e esgotos, a “enxurrada” que se forma arrasta junto as colônias de bactérias. Quando as estações de tratamento de esgotos voltam a funcionar, serão necessários vários dias até que as colônias de bactérias voltem a se formar e a atuar como decompositoras dos esgotos.

Pouco tempo depois desta ação, houve uma nova denúncia junto ao Ministério Público Federal, que numa perícia conjunta com a Polícia Federal constatou que os esgotos continuavam jorrando pelas praias de Ilhéus. Esta perícia concluiu que os sistemas de tratamento de esgotos da região central da cidade não estavam dimensionados corretamente para operar em capacidade máxima. Também foi comprovado que na região do litoral Sul não existiam quaisquer infraestruturas para o tratamento dos esgotos e que os efluentes eram lançados diretamente nos corpos d’água da região e acabavam sendo carreados até as águas do mar.

Numa segunda ação movida pelo Ministério Público Federal, foi feito o pedido para a interrupção imediata do lançamento de esgotos nas praias de Ilhéus pelo município e pela EMBASA; a EMBASA foi pedida a ampliação e modernização de toda a rede coletora e das estações de tratamento de esgotos, culminando com a ligação de todas as residências ao sistema, interrompendo assim o lançamento de esgotos nas redes de águas pluviais (lembrando que o serviço de manejo de águas pluviais é de responsabilidade da Prefeitura). Finalmente, a ação pede maior rigor do INEMA e do IBAMA na fiscalização dos despejos irregulares de esgotos e contaminação das praias, lembrando que, de acordo com a Resolução n° 274/2000 do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente, “cabem aos órgãos de controle ambiental a divulgação das condições de balneabilidade das praias e dos balneários, além da fiscalização destes locais“.

Considerando a lentidão da Justiça e uma infinidade de recursos e medidas protelatórias, a questão da poluição das praias de Ilhéus avançou muito pouco. Hoje mesmo, antes de iniciar a redação desta postagem, eu entrei no site do INEMA para verificar as condições de balneabilidade das praias de Ilhéus – dos 5 trechos avaliados periodicamente pelo órgão, 2 estão em condições inapropriadas para o banho de mar.

Agora, o que me chamou muito a atenção no site do INEMA foram os avisos:

– O banho de mar deve ser evitado em dias de chuva;
– É desaconselhável, ainda que em dias de sol, o banho próximo à saída de esgotos, desembocaduras dos rios urbanos, córregos e canais de drenagem.

Isso me pareceu uma grande brincadeira...