ESGOTO CORRENDO A CÉU ABERTO – O PIOR DOS MUNDOS

Favela

Anos atrás, tive como vizinhos de porta no meu prédio um simpático casal de turcos islamitas. A princípio, estranhava os costumes das mulheres que entravam e saiam com o véu na cabeça e corpo totalmente coberto, a língua estranha soando pelos corredores, a fobia que a presença do meu cachorro provocava nessas pessoas e, principalmente, a pilha de sapatos que se amontoava na porta do apartamento – em hipótese alguma, os moradores e os visitantes entravam na residência calçados. Com o tempo, fiquei amigo deste casal e descobri finalmente o porquê dos sapatos na porta: muçulmanos rezam cinco vezes ao dia ajoelhados no chão, que tem de estar impecavelmente limpo.

Comecei descrevendo essa pequena memória afetiva para relembrar o meu último post, onde comentei sobre doenças associadas ao despejo de esgotos sem maiores cuidados e falando especificamente da diarreia, uma doença covarde que ceifa a vida de milhares de criancinhas ano após ano – os patógenos desta e de outras doenças são carregada para dentro das casas nas solas dos sapatos – nós, ao contrário dos meus amigos islamitas, chegamos das ruas e entramos em nossas casas carregando  em nossos calçados tudo de ruim dos lugares em que pisamos. Seguir este costume oriental seria algo bastante proveitoso aqui em nosso país.

Dos problemas criados pelos esgotos, o despejo em ruas e sarjetas, correndo a céu aberto, é de longe um dos mais maléficos para a saúde das pessoas. Além da contaminação ambiental e do solo, com os problemas já descritos associados aos pedestres, esses efluentes atrairão hordas de insetos, ratos, espalhará mau cheiro entre outros problemas sanitários. Em dias de chuva irão se misturar com as águas pluviais, aumentando ainda mais o alcance da contaminação e dos problemas associados.

Efluentes correndo a céu aberto são comuns em “comunidades”, nome politicamente correto que vem sendo usado para descrever “aglomerações de moradias subnormais” – favelas, mocambos e palhoças (dependendo da região), cortiços e outros conjuntos de moradias improvisadas, onde famílias de baixíssima renda constroem suas moradias. Essas comunidades normalmente ocupam terrenos ou imóveis invadidos, ou então encostas de morros e terrenos de áreas de várzea. As técnicas construtivas são das mais precárias, utilizando-se os materiais disponíveis – no caso das favelas, é muito comum um barraco se apoiar no outro, ocupando-se assim praticamente toda a área do terreno: não há sobra de espaços para a escavação e uso de fossas. Nessas localidades, raramente há condições técnicas e financeiras para a instalação de tubulações que permitam o afastamento dos esgotos de maneira adequada. Usualmente, é feita a escavação de um canal de drenagem no leito das vielas, de forma a facilitar ao máximo o escoamento dos efluentes e nada mais. Em comunidades que ocupam áreas alagadiças como várzeas, planícies de maré e manguezais, é comum as construções serem apoiadas em paliçadas de madeira – os esgotos são lançados diretamente no terreno abaixo, esperando-se que a correnteza ou a maré arraste os esgotos para longe. Nos demais casos, a correnteza de efluentes procurará sempre um corpo d’água terreno abaixo ou o sistema de drenagem de águas pluviais na busca de um “destino” final.

Dados do Censo 2010 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que 6% da população brasileira, ou 11 milhões de pessoas, vive nestas condições, o que torna o problema um desafio gigantesco, que extrapola a área do Saneamento Básico e avança na problemática do deficit habitacional. Essas populações se somam àquelas dos bairros “urbanizados” que não possuem redes de coletas de esgotos implantadas e que se utilizam de todos os tipos de improvisos para descartar seus efluentes

Existe muito, muito o que se fazer em infraestrutura básica neste nosso país.

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