A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS DO SUDESTE ASIÁTICO

Destruição de florestas no Sudeste Asiático

Nas últimas postagens publicadas aqui no blog falamos de um dos mais graves problemas ambientais dos países da área continental do Sudeste Asiático – a péssima gestão dos recursos hídricos, onde o grande destaque (no sentido mais negativo da palavra) é o rio Mekong. Infelizmente, os problemas ambientais da região extrapolam a questão das águas e avançam cada vez mais na direção das florestas. Os desmatamentos para a ampliação de áreas de produção agrícola e para a extração de madeira são cada vez mais recorrentes em toda região. 

A exceção de Mianmar, nome atual da antiga Birmânia, que é uma país bastante fechado e que ainda mantém a imensa maioria de suas áreas florestais bem conservadas, a situação das florestas nos demais países do Sudeste Asiático é, no mínimo, caótica. Uma das causas recentes dessa acelerada perda de cobertura florestal na região são as importações de madeira para a China, país que está entre os maiores consumidores desse recurso no mundo. Indonésia e Malásia estão entre os maiores exportadores de madeira para a China. Também entram nessa conta e expansão das plantações de palma da Guiné, cujo fruto é usado na produção do azeite de dendê, e de seringueiras produtoras do látex

Apesar de Mianmar escapar da lista dos grandes destruidores de florestas locais, o país vive um gravíssimo problema social, e por consequência ambiental, ligado às populações hohingyas, um grupo étnico que pratica a religião muçulmana e que fala um idioma de origem bengali, uma das línguas oficiais da Índia. Para entender a situação desse grupo étnico, é preciso apelar para a geografia física – o continente asiático é divido “ao meio” pelas Montanhas Himalaias.  

Do lado oriental dessas Montanhas, a população é de origem mongol – são chineses, coreanos, japoneses, vietnamitas, entre outros. Do lado ocidental, as populações são de origem indo-europeias – são indianos, afegãos, iranianos, árabes, turcos, caucasianos e eslavos, entre outros. Ou seja, a divisão territorial criada pela grande cadeia das Montanhas Himalaias criou uma divisão na geografia humana e cultural entre os diferentes povos da Ásia. 

Em Mianmar, essa divisão física dos territórios não existe, o que permitiu a migração dos povos indo-europeus do grupo rohingya ainda na Idade Média. As populações nativas de Mianmar, de origem mongol, nunca aceitaram completamente a presença desses “estrangeiros” em seu território. Nos últimos anos essa discriminação partiu para o campo da violência e centenas de milhares de rohingyas foram obrigados a fugir para a fronteira com Bangladesh (vide foto abaixo), criando uma gigantesca onda de refugiados que ainda está longe de ser resolvida. 

Rohingyas

As atividades de exploração intensa dos recursos florestais no Sudeste Asiático são antigas e começaram na época das grandes navegações, quando os primeiros exploradores europeus chegaram na região em busca das “especiarias do Oriente”. Além dos valiosos temperos, pimentas, pedras preciosas e corantes orientais, esses exploradores/mercadores também tinham grande interesse nas ótimas madeiras da região como o sândalo e o aloé, usadas tradicionalmente na construção de móveis e objetos de luxo. Depois passaram a ganhar importância as madeiras para a construção civil e naval. 

Países como Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra rapidamente foram conquistando seus espaços na região e estabeleceram suas colônias, entrepostos comerciais e protetorados. Falando de maneira bem resumida, surgiram as colônias portuguesas em Gôa, Damão e Diu na Índia, Macau na China e Timor no Extremo Leste do arquipélago indonésio; as Filipinas da Espanha, o vice-reino da Índia da Inglaterra, a Malásia da Holanda e a Indochina da França. Todas essas nações europeias usaram e abusaram dos recursos naturais da região por muito tempo.  

Citando um único exemplo: a criação dos grandes seringais produtores de látex nas colônias inglesas da região, que foram os responsáveis diretos pelo fim da demanda do látex da Amazônia a partir do final do século XIX. Milhares de quilômetros de florestas nativas do Sudeste Asiático foram derrubadas para a introdução das seringueiras “inglesas” (lembrando aqui que os ingleses roubaram as sementes da seringueira na Amazônia). 

Em décadas mais recentes, foi a expansão das plantações da palma da guiné a grande vilã do desmatamento regional, principalmente na Indonésia e na Malásia. Conforme comentamos em postagens anteriores, o óleo da palma, mais conhecido aqui no Brasil como azeite de dendê, foi elevado à falsa condição de “combustível renovável”. O óleo de palma passou a ser exportado em grande escala para ser usado como aditivo no óleo diesel em muitos países, principalmente na Europa. 

Destruição de florestas

Nos últimos anos, a faixa de “grande vilã” dos desmatamentos no Sudeste Asiático passou para as mãos da China. Na condição de uma das economias que mais cresce no mundo, a China se transformou numa voraz consumidora de minerais, combustíveis, madeiras e outras matérias primas essenciais para o seu desenvolvimento. Pela proximidade geográfica, os países da região foram transformados em grandes fornecedores de muitos desses produtos. 

As importações de madeira pelos chineses tiveram um grande aumento a partir de 1998, quando a região central do país sofreu com as fortíssimas inundações do rio Yangtzé. A fim de prevenir futuras tragédias, o Governo Central da China passou a impor fortes restrições à exploração de madeira nas florestas dessa região. Até 1998, as importações de madeira pela China eram da ordem de 4 milhões de toneladas métricas – em 1999, logo após o início das restrições, essas importações saltaram para 10 milhões de toneladas métricas e não pararam de crescer desde então

Grupos empresariais chineses possuem grandes concessões para exploração de áreas florestais na Malásia, Indonésia e em Papua Nova Guiné, países que possuem legislações ambientais muito fracas e altamente permissíveis, onde praticamente “tudo pode”. Os longos tentáculos chineses também se estendem para a Tailândia, Camboja, Laos e Vietnã. Em anos recentes, grupos empresariais vietnamitas passaram a avançar na direção dos paupérrimos Laos e Camboja, buscando terras para a implantação de seringais e plantações de palma da Guiné. Grandes áreas florestais nesses países também passaram a sofrer com os desmatamentos. 

No arquipélago das Filipinas, a situação é um pouco diferenciada – por causa de antigos laços comerciais e pela proximidade geográfica, o país foi transformado no grande fornecedor de madeiras para o Japão, nação que durante várias décadas foi a grande potência econômica da Ásia. Conforme comentamos em postagem anterior, as Filipinas ocupam a nada honrosa posição de país com um dos maiores percentuais de destruição de florestas nativas do mundo

Essa destruição massiva de recursos florestais e hídricos se junta aos enormes problemas sociais das populações desses países, transformando o Sudeste Asiático numa das regiões mais insustentáveis do mundo. O moderno conceito de Sustentabilidade é formado pelo equilíbrio das áreas Social, Econômica e. Ambiental. No Sudeste Asiático, infelizmente, o que mais se vê é uma busca frenética e selvagem apenas pelos ganhos econômicos de curto prazo

Sem um cuidado maior com os aspectos Sociais e Ambientais, essa região não vai conseguir chegar muito longe… 

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s