CERÂMICA: UM DOS PRODUTOS INDUSTRIAIS MAIS ANTIGOS DA HUMANIDADE

Ceramista

A produção de peças em cerâmica foi, ao lado da fabricação de ferramentas e utensílios em pedra lascada, uma das primeiras atividades de produção “industrial” da humanidade. A queima acidental da argila nas fogueiras dos caçadores-coletores pré-históricos foi, muito provavelmente, o embrião dessa marcante tecnologia. Não tardou a se iniciarem a produção de vasos, cuias, jarras, panelas, ídolos e imagens religiosas, materiais de construção e mais uma infinidade de outros objetos, modelados conforme a vontade do seu criador e depois queimados em fogueiras. A palavra cerâmica vem do grego “kéramos” e significa, literalmente, “terra queimada.” 

Um antigo ditado nordestino afirma com muita sabedoria: “O primeiro artesão foi Deus que, depois de criar o mundo, pegou o barro e fez Adão.” 

Sem nos perdermos em longas descrições históricas, a produção da cerâmica continua muito viva e presente em muitos objetos e materiais que utilizamos em nosso dia a dia. Um grande exemplo são diversos materiais construtivos como telhas, pisos e tijolos “baianos” usados na construção de nossos lares, que são modelados em argila amolecida em água e depois passam por um processo de queima em forno até que atinjam a forma e a resistência adequada para o uso. Materiais e técnicas semelhantes também produzem os vasos sanitários, as cubas e tampos de uma infinidade de modelos de pias. 

O que talvez você não saiba é que a produção dos diversos tipos de cerâmicas causa grandes problemas ambientais como a contaminação de cursos d’agua, desmatamentos e queima de lenha nos fornos, destruição de áreas agrícolas, alto consumo de energia elétrica e de água, geração de resíduos e rejeitos, riscos de acidentes de trabalho, ocupação informal com longas jornadas de trabalho, entre outros problemas. Como a produção de produtos cerâmicos está espalhada pelos quatro cantos do país, todas essas agressões ambientais são difusas e difíceis de serem percebidas sem maiores esforços. 

O Brasil figura na lista dos maiores produtores de cerâmica do mundo, ao lado de Espanha, Itália e China. Um exemplo da importância dessa atividade no país são os revestimentos cerâmicos, onde se incluem as cerâmicas para piso, parede, fachadas e porcelanatos. O Brasil é o segundo maior produtor mundial, ficando somente atrás da China. De acordo com dados da ANICER – Associação Nacional da Indústria Cerâmica, foram produzidos cerca de 753 milhões de m² de peças (dados de 2010). Existem cerca de 100 indústrias dedicadas a esse segmento, com fábricas em 18 Estados do Brasil. São Paulo e Santa Catarina concentram 80% dessas indústrias

Já o segmento da cerâmica vermelha, formado basicamente por indústrias pequenas e familiares, é formado por aproximadamente 5.500 empresas pulverizadas por todo o território nacional. Juntas, essas empresas produzem cerca de 76 bilhões de peças cerâmicas, principalmente telhas, tijolos, blocos, manilhas e lajotas, na área dos materiais de construção, além de vasos, panelas e vasilhames, imagens sacras e artesanato em geral, materiais vendidos nos mercados regionais

Os diversos tipos de argila, sedimentos muitos finos que formam a matéria prima da cerâmica, são encontrados facilmente em todo o território brasileiro. As argilas são formadas por fragmentos de rochas com partículas com diâmetros inferiores a 4 mícron, encontradas normalmente nas margens dos rios, onde formam os chamados barrancos. Dependendo da origem dos minerais, as argilas apresentam cores diferentes como vermelha (a mais comum), branca, amarela, verde, entre outras. De acordo com dados do Ministério das Minas e Energia, existem aproximadamente 417 minas de argila em operação no Brasil, com uma produção individual entre 1.000 e 20 mil toneladas/mês, sem se considerar a extração feita pelas pequenas empresas familiares e pelos artesãos

Os impactos da produção das cerâmicas começam com a retirada da matéria prima no meio ambiente, o que exige a remoção da vegetação e da camada superficial do solo fértil. A escavação dos solos para a retirada da argila produz alterações significativas na topografia dos terrenos, o que normalmente vai favorecer os processos erosivos e a contaminação e o comprometimento da qualidade dos corpos d’água, assoreamento da calha de rios, além dos impactos diretos na fauna local devido ao barulho e à movimentação de máquinas. A remoção das camadas de solo fértil vai impedir a regeneração da vegetação. 

No processamento da argila, grandes quantidades de energia elétrica são necessárias nos processos de moagem, dosagem e alimentação, controle de umidade, desintegração e laminação, conformação (extrusão das peças e corte) e, por fim, o tratamento térmico (secagem e sinterização). Parte desses processos também demandam grandes quantidades de água. Por fim, as peças precisam passar pelo processo de queima, onde diferentes fontes de energia térmica são utilizadas. A maior parte das indústrias utilizam o gás natural, um combustível fóssil que gera emissões de gases poluentes. Em regiões onde não existe o fornecimento do gás natural, as indústrias utilizam combustíveis derivados do petróleo como o óleo diesel, altamente poluente da atmosfera.  

Em indústrias menores, oficinas familiares e em ateliês artísticos espalhados por todo o Brasil, a queima da cerâmica é feita em fornos a lenha, o que incentiva o desmatamento de áreas florestais. No total, as indústrias de produtos cerâmicos são responsáveis pelo consumo de 3,8% de toda a energia consumida no país, somando-se a energia elétrica e a energia térmica, e por 7,7% do consumo energético industrial. São valores bastante significativos

Por fim e não menos importante, é a grande produção de resíduos. Durante o processo de moldagem e secagem, quando a argila ainda está mole, algumas peças sofrem deformações, problemas que muitas vezes só é detectado após a queima. Outro problema são as peças que sofrem danos como trincas e rachaduras durante a queima. Essas peças não podem ser reaproveitas e são descartadas como resíduos. Caso não haja um descarte adequado, muitas dessas peças passam a acumular a água das chuvas, transformando-se em verdadeiros criadouros de mosquitos como o perigoso Aedes Aegypti. 

Como se nota, não são apenas as grandes indústrias de segmentos como o do petróleo, da metalmecânica e da química, que produzem os grandes impactos ambientais. Aquele vaso de plantas que você comprou ou as telhas da sua casa, podem ter causado um grande estrago ao meio ambiente. 

OS GRAVES PROBLEMAS NO DISTRITO AREEIRO DE SEROPÉDICA-ITAGUAÍ

Extração ilegal de areia em Seropédica

Nas duas últimas postagens, falamos dos problemas criados pela extração de areia e de brita, duas matérias primas essenciais para a indústria da construção civil. Normalmente, as áreas onde esses minerais e sedimentos são extraídos ficam bem próximos dos centros urbanos consumidores. É frequente o abandono das áreas de mineração pelas empresas logo após o esgotamento dos recursos – grandes crateras das antigas cavas de areia e das áreas de extração de pedra inundam e criam todos os tipos de riscos para a população, que costuma usar essas áreas para o lazer, e também para o meio ambiente. 

Para entendermos melhor os impactos dessa mineração no meio ambiente, vamos mostrar um exemplo prático – o caso do Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, um dos maiores do Brasil. 

Seropédica e Itaguaí são dois municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distantes cerca de 60 km do centro da capital do Estado. Até 1995, eles formavam um único município – Itaguaí; o distrito de Seropédica foi então desmembrado, passando a constituir um município independente. Entre esses dois municípios encontramos o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, que ocupa uma área com aproximadamente 50 km², onde operam cerca de 100 empresas mineradoras, que fornecem quase 90% da areia e da brita usada pela construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Até a década de 1960, a economia dessa região tinha como base a agricultura, com destaque especial para a produção de laranjas. Com o crescimento das atividades de mineração, a agricultura foi perdendo relevância e a produção mineral passou a responder pela maior parte das receitas desses municípios. Esse crescimento descontrolado da mineração passou a criar uma série de problemas ambientais, sentidos especialmente nos recursos hídricos. 

O aquífero Piranema ocupa uma área de aproximadamente 180 km² (algumas fontes chegam a falar de 500 km²) entre os municípios de Itaguaí, Queimados, Japeri e Seropédica. Esse aquífero tem capacidade de fornecer até 1,6 m³ de água por segundo e tem como principal área de ocorrência o Distrito Areeiro. De acordo com estudos geológicos, o aquífero Piranema é uma reserva estratégica de água e tem potencial para atender o abastecimento de água de toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro por um mês.  

As cavas de extração de areia ficam inundadas com as águas do aquífero Piranema e assim ficam expostas ao contato com diversos poluentes, entre eles os combustíveis que vazam das bombas de sucção instaladas nas dragas e também pelos diversos rejeitos de mineração. Esses poluentes provocam uma deterioração na qualidade das águas, que são sentidas por moradores de diversos bairros vizinhos, que dependem exclusivamente da água retirada de poços para o abastecimento de suas casas. 

Outro foco de preocupação são os altos riscos de contaminação do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Conforme já tratamos em diversas postagens deste blog, a cidade do Rio de Janeiro sempre sofreu com problemas de escassez de água ao longo de sua história. Essa situação só mudaria em 1905 com a chegada da empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company. Na época, a Capital Federal tinha uma população maior que 800 mil habitantes e já havia uma forte demanda reprimida de eletricidade – experiências anteriores de geração em usinas termelétricas a carvão não foram bem-sucedidas. 

Após obter a concessão para operar no Rio de Janeiro em 1905, a Light iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lajes e da Usina de Fontes, inauguradas em 1908. Até a década de 1950, a Light realizou diversas obras visando aumentar sua capacidade geradora, inaugurando novos reservatórios, usinas e, especialmente, estações de bombeamento que captavam água da bacia do Rio Paraíba do Sul e, após a passagem por diversos grupos geradores de eletricidade, eram lançadas na bacia do Rio Guandu. Graças à todas essas obras de engenharia, a vazão do Rio Guandu passou dos históricos 25 m³/s para até 160 m³/s, passando a responder por 80% do abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro e de grande parte da Baixada Fluminense.  

Apesar de toda a sua importância, a bacia hidrográfica do Rio Guandu não recebeu a atenção necessária para a sua preservação ambiental.  As cidades cresceram sem planejamento e sem contar com sistemas de coleta e tratamento de esgotos – grandes volumes de esgoto in natura passaram a ser despejados diretamente nos rios. Também houve a má gestão da coleta do lixo e resíduos sólidos, com despejo inadequado em lixões a céu aberto e risco de contaminação da água com chorume e lixo. O desmatamento e ocupação irregular de margens, além do carreamento anual de milhares toneladas de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas para as águas completam o quadro de problemas ambientais. Calcula-se que a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba aproximadamente 4 bilhões de litros de esgotos todos os dias. 

O Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí está inserido dentro da bacia hidrográfica do rio Guandu e a intensa retirada de areia e brita acabou se transformando em mais um fator de poluição das águas. As atividades de mineração destroem grandes extensões de matas, expondo os solos a processos erosivos. Quando chega a temporada das chuvas, grandes volumes de sedimentos e rejeitos minerais são arrastados para a calha do rio, degradando ainda mais as já sofridas águas do rio Guandu. 

Além de todos os problemas que seriam considerados normais em atividades de extração de areia e produção de brita, o Distrito Areeiro também convive com um grande número de cavas de areia e minas de extração e produção de britas ilegais. Denúncias de esquemas de corrupção envolvendo autoridades locais e fiscais dos órgãos ambientais são frequentes, porém nunca chegam ao final esperado. 

Enquanto nenhuma providência real é tomada para controlar os problemas ambientais, a destruição corre solta no Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí. E como sempre acontece, a sociedade inteira vai acabar pagando pelo lucro de um pequeno grupo de empresários… 

AS PEDREIRAS ABANDONADAS E SEU USO PARA A CRIAÇÃO DE ESPAÇOS DE LAZER E CULTURA

Pedreira do Dib

Na última postagem tratamos dos problemas criados pela extração de areia nas proximidades das áreas urbanas do país. São centenas e mais centenas de cavas que, depois de esgotadas as reservas de sedimentos, são abandonadas sem que os responsáveis pela mineração realizem qualquer trabalho de recuperação ambiental. Essas cavas abandonadas criam inúmeros problemas ambientais, que vão da destruição de rios e cursos d’água ao afogamento de banhistas que buscam alguns momentos de lazer nos lagos formados pelas chuvas e águas do lençol freático. 

A areia é uma matéria prima essencial para a construção civil, onde é usada na preparação de argamassa para o assentamento de tijolos e blocos, chapisco e reboco de paredes, além de entrar na formulação do concreto. É justamente nessa composição que uma outra matéria prima essencial se faz necessária – a brita, pedras trituradas em medidas adequadas, que combinadas com a areia e o cimento, além do uso de barras de ferro e aço. formam o material estrutural mais usado em nosso país – o concreto armado. Outra aplicação das britas ou pedras britadas é a formação do lastro de ruas, avenidas e rodovias, acima do qual será feita a pavimentação. Também são usadas como base para o assentamento de trilhos de ferrovias, na construção de túneis e barragens, entre outras importantes aplicações. 

As britas são o resultado da fragmentação de rochas duras como o granito, gnaisse, basalto e calcário. Grandes formações dessas rochas são desmontadas por meio de explosões, o que reduz o tamanho das rochas. Para ficar no tamanho e no formato adequado para as diversas aplicações na construção civil, as pedras passam por processos de trituração em máquinas, conhecido como britagem, e também por processos de peneiramento. Ao final dos processos são produzidos o pó de brita e as pedras britadas em tamanhos que vão do 0 ao 4, específicos para diversos tipos de aplicações. 

De acordo com dados da ANEPAC – Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção, o consumo per capita de brita no Brasil corresponde a 1,5 tonelada por habitante a cada ano. Todo esse volume de brita terá como destino a construção de casas e edifícios, além de toda uma gama de obras de infraestrutura. Apesar de toda a sua importância para as nossas sociedades, a exploração e a produção da brita causa uma série de problemas ambientais, muito parecidos com aqueles criados pela exploração da areia. 

As fontes naturais para a exploração de pedras para a produção de brita são os afloramentos rochosos localizadas nas cercanias dos grandes centros urbanos. As empresas produtoras de agregados para a construção sempre buscam locais de fácil acesso para a instalação de suas pedreiras e das unidades de processamento das pedras, buscando assim reduzir os custos de transporte. Na cidade de São Paulo, a famosa Serra da Cantareira abrigou diversas pedreiras, que, por várias décadas, forneceram a brita que ajudou a construir a cidade. Uma dessas pedreiras, desativada há mais de 30 anos, fica localizada no município de Mairiporã e é conhecida como Pedreira do Dib (vide foto). 

Ocupando uma área com mais de 44 mil m², a Pedreira do Dib seguiu um roteiro bastante conhecido por esse tipo de atividade – após décadas de extração e fornecimento de pedras para a construção civil, o local foi subitamente abandonado. As antigas encostas da Serra da Cantareira, que eram cobertas por uma densa vegetação de Mata Atlântica, foram transformadas em áridos paredões de rocha estéril; no centro da área, uma gigantesca cratera com dezenas de metros de profundidade e que acabou transformada em um lago. 

O clima de abandono na Pedreira do Dib começou a mudar quando grupos de escaladores começaram a se aventurar nos paredões, alguns com mais de 100 metros de altura. Atualmente, a Pedreira possui mais de 50 trilhas para escalada, com diferentes graus de dificuldade para alpinistas de todos os níveis. As áreas no entorno da lagoa também atraem inúmeros grupos de visitantes, que passam ali seus momentos de lazer, intercalando banhos na lagoa com a preparação de churrascos. Infraestrutura e segurança, nenhuma.

Outro exemplo de pedreira abandonada, essa dentro do município de São Paulo é a Pedreira do Morro Grande, também conhecida como Anhanguera, localizada na Zona Norte da cidade. O Morro Grande é um pequeno serrote que se desgarrou do macio da Cantareira. Abandonada desde os anos de 1980 após a falência da empresa controladora, essa área foi largada ao “Deus dará” sem que nenhum tipo de recuperação ambiental fosse levado a cabo. Diferente da Pedreira do Dib, há uma remota chance da prefeitura de São Paulo transformar o local em um parque urbano. 

Em todas as regiões do Brasil é comum se encontrar pedreiras e cavas de areia abandonadas, onde profundas lagoas se formaram. As populações que vivem nas proximidades costumam transformar os locais em áreas de lazer improvisadas, onde são comuns os casos de afogamentos. Algumas dessas lagoas, que podem ter profundidades de mais de 40 metros, facilmente podem se transformar em verdadeiras armadilhas para os nadadores. A água parada dessas lagoas também apresenta riscos para a saúde das populações – suas águas podem ser transformadas em criadouros de mosquitos como o perigosa Aedes Aegypti. Muitas vezes, esses locais acabam sendo transformados em áreas de descarte de lixo e de entulhos da construção, problemas que podem levar à contaminação do lençol freático e poluir a água de poços usados pela população.

Felizmente, existem algumas exceções e as áreas abandonadas de algumas pedreiras foram transformadas em áreas de lazer e cultura para as populações. Em Curitiba, temos o exemplo do Parque das Pedreiras, onde a prefeitura da cidade criou o Espaço Cultural Paulo Leminski e a Ópera de Arame. Ainda em Curitiba temos a Universidade Livre do Meio Ambiente. Essa antiga pedreira ficava em uma área isolada da cidade. O projeto de recuperação ambiental implantado na área foi focado na formação de lagos e na integração das instalações da universidade aos diferentes níveis do solo. 

Um outro exemplo, esse bem perto da cidade de São Paulo é o Parque Francisco Rizzo, da cidade de Embu. Na área desta antiga pedreira foram criados viveiros de mudas, um centro de eventos e convenções, um núcleo de educação ambiental, playgrounds, quadras, anfiteatro, além de áreas para a recuperação das matas nativas. Esses exemplos mostram que é possível reutilizar as pedreiras abandonadas com a criação espaços de lazer seguros para a população. Aliás, as próprias empresas que exploraram o local deveriam ser as responsáveis pela criação desses espaços, numa forma de compensação ambiental. 

Fica a proposta.

OS PROBLEMAS CRIADOS PELA EXTRAÇÃO DA AREIA USADA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Extração Ilegal de areia

O Parque do Ibirapuera é a mais famosa área verde da cidade de São Paulo, apesar de estar muito longe de ser a maior – o Parque Anhanguera, na Zona Norte da cidade, tem 9,5 milhões de m² e ocupa a primeira posição nesse ranking. Com menos de 2 km² de superfície, o Parque do Ibirapuera concentra matas, lagos, museus, planetário e muitas trilhas e pistas para pedestres e ciclistas. A área conhecida como Marquise do Ibirapuera, é um tradicional ponto de encontro de várias “tribos” urbanas. Com mais de 14 milhões de visitantes/ano, o Parque do Ibirapuera é o mais visitado e fotografado da América Latina. 

Esse grande orgulho paulistano surgiu em consequência de um verdadeiro “desastre” ambiental: os antigos terrenos alagadiços do Ibirapuera forneceram, durante décadas, parte da areia usada na construção civil da cidade. Na década de 1950, a Prefeitura da cidade resolveu transformar a região num parque urbano e grandes lagos foram incluídos no projeto, aproveitando assim as grandes crateras que foram deixadas pelas cavas de areia. Outros exemplos de cavas de areia dentro da cidade de São Paulo que puderam ser “reaproveitadas” são a Raia Olímpica da USP – Universidade de São Paulo, na Zona Oeste, e o Parque Cidade de Toronto, na Zona Noroeste. 

Infelizmente, casos onde antigas áreas de extração de areia foram reaproveitadas para outros usos são uma exceção. Normalmente, os chamados “areeiros” exploram os depósitos desse sedimento até o esgotamento, abandonando os solos devastados e as cavas inundadas à sua própria sorte (vide foto), sem realizar nenhum processo de recuperação ambiental, conforme está previsto na legislação ambiental. 

A areia é um tipo de sedimento formado por partículas de rochas degradadas, com tamanho entre 0,06 e 2 mm, encontrado principalmente em margens de rios, áreas alagáveis e em praias. É uma matéria prima essencial para a construção civil, onde é usada para preparação de massa para assentamento de tijolos e blocos, para o chapisco e reboco de paredes, além da preparação do concreto. Somente as chamadas “areias de rios” são recomendadas para uso na construção civil – a areia de praia costuma conter grandes quantidades de carbonato de cálcio, um mineral solúvel em água e que, se usado, vai proporcionar elementos construtivos de baixa resistência; o sal presente na areia de praia também atua como um corrosivo das ferragens usadas na armadura do concreto, reduzindo a sua durabilidade.  

Um exemplo dos problemas criados pelo uso de areia de praia na construção civil foi o desabamento do edifício Palace II, no Rio de Janeiro, em 1998. Entre outros problemas de projeto e de construção, a perícia realizada nos escombros encontrou vestígios de areia de praia em partes do concreto usado na obra. Um primeiro desabamento, ocorrido no dia 22 de fevereiro, destruiu 44 apartamentos, matando 8 pessoas. Cinco dias depois houve um segundo desabamento, onde mais 22 apartamentos foram destruídos. No dia 28 de fevereiro, por razões de segurança, a estrutura remanescente do edifício foi implodida. 

A extração de areia para a construção civil é um problema recorrente em todo o Brasil – todas as cidades precisam dessa matéria prima. O país consome perto de 500 milhões de toneladas de areia a cada ano. Grande parte das cavas é feita de maneira clandestina, sem contar com um projeto de licenciamento ambiental. Um estudo feito pelo Ministério Público de São Paulo em 2014 nos dá uma ideia do tamanho desse problema: 93% das cavas de extração de areia no Vale do Rio Paraíba, região no Leste do Estado, apresentavam irregularidades, especialmente quando aos limites da área de exploração. O Vale do Paraíba fornece a maior parte da areia consumida nas Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas

Os problemas da extração da areia começam com a remoção da mata das margens dos rios, matas essas que funcionam como uma barreira contra a entrada de sedimentos e lixo na calha do rio, protegendo a qualidade das águas. Essa vegetação marginal também tem um importante papel ecológico para as espécies que vivem nas águas dos rios – elas ajudam a formar pequenas lagoas e áreas de remanso, protegidas da correnteza, onde as espécies aquáticas – peixes, anfíbios, répteis e até mesmo aves, se reproduzem. As espécies se valem, conforme sua própria fisiologia, das raízes submersas, das áreas de solo protegidas pela vegetação e dos altos galhos dos arbustos e das árvores.  

A destruição das matas e a escavação das áreas nas margens altera completamente o ciclo de vida destas espécies e, pior, o assoreamento que é provocado na calha do rio, entre outros gravíssimos problemas, soterra as comunidades bênticas ou bentônicas do fundo rio – nestas comunidades vivem plantas, vermes, moluscos e crustáceos de tamanhos variados (a maioria muito pequena e microscópica). Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar (também chamada de cadeia trófica) do rio e sustentam todas as formas de vida superiores – inclusive a dos seres humanos (especialmente os ribeirinhos) que se alimentam com os peixes pescados no rio. 

Outro problema das cavas abandonadas é a formação de lagoas devido ao acúmulo da água das chuvas ou pela drenagem de água do lençol freático. Essas lagoas acabam sendo transformadas em “áreas de lazer” pelas comunidades que vivem nas suas proximidades. Todos os anos, centenas de pessoas, especialmente jovens e adolescentes, morrem afogados ao nadar nessas lagoas, locais que costumam ter dezenas de metros de profundidade. A precariedade ou, simplesmente, a falta de opções de lazer nessas comunidades transforma essas lagoas em atrações irresistíveis nos dias quentes de verão. 

A extração de areia é a atividade de mineração que está mais próxima de todos nós e um ótimo exemplo dos impactos negativos da mineração no meio ambiente. É preciso que as autoridades fiscalizem de perto essas atividades e que exijam o cumprimento da legislação ambiental, especialmente no que tange à recuperação das áreas degradadas após o esgotamento das reservas. Outro ponto a ser trabalhado é a reciclagem da areia a partir do aproveitamento da grande quantidade de entulhos gerados pela construção civil. 

As fontes de água, como vimos, são as grandes vítimas da exploração descontrolada da areia – são inúmeros os rios que já tiveram as suas calhas assoreadas e destruídas devido a extração descontrolada de areia. Sem dispor de fontes de água para o abastecimento das populações, não faz muito sentido se gastar recursos, energia e matérias primas construindo mais casas e prédios nas cidades… 

O POLÊMICO PROJETO DA MINA CARMICHAEL NA AUSTRÁLIA

Grande Barreira de Coral

No início deste mês de fevereiro, a Justiça da Austrália proferiu a sentença final no processo de liberação da Mina Carmichael – por representar grandes riscos ao meio ambiente, o grande e polêmico projeto de mineração de carvão foi proibido, encerrando uma disputa que vinha se desenrolando desde 2015. Em sua sentença, o juiz responsável pelo caso, Sir Brian Preston, ainda escreveu: 

“A construção e operação da mina, e o transporte e a combustão do carvão da mina, resultarão na emissão de gases causadores do efeito estufa, o que contribuirá para mudanças climáticas” 

Em meio a tantos problemas ambientais criados por projetos de mineração em todo o mundo, essa decisão da Justiça australiana pode marcar um ponto de inflexão. Vamos entender o processo: 

Em 2014, as autoridades do Governo Central da Austrália e do Estado de Queensland haviam aprovado a implantação de um grande projeto de mineração de carvão encabeçado pela mineradora indiana Adani. O projeto, batizado de Mina Carmichael, previa a produção de 60 milhões de toneladas de carvão térmico por ano, a construção de uma ferrovia com 189 km, além da ampliação de um porto de carvão em Abbot Point. Havia a expectativa de criação de 10 mil empregos diretos e indiretos. O total de investimentos previstos era de 16,5 bilhões de dólares australianos, o equivalente a 11 bilhões de Euros. Após uma verdadeira chuva de processos movidos por ambientalistas, ONGs e população em geral, a Justiça australiana suspendeu a implantação do projeto. 

O principal argumento contra a instalação da Mina Carmichael eram os eminentes riscos de contaminação do oceano numa região próxima da Grande Barreira de Coral, um dos maiores e mais importantes ecossistemas marinhos do mundo. Outro ponto levantado pelos opositores do projeto são as grandes emissões de gases de efeito estufa liberadas pela queima do carvão e suas consequências ao meio ambiente. Um argumento interessante que foi usado na demanda judicial foram as responsabilidades difusas da Austrália como fornecedora desse carvão mineral, que seria utilizado em diferentes lugares do mundo: o país seria uma espécie de corresponsável por essas emissões de gases poluentes por terceiros. Também pesou na decisão o histórico de problemas ambientais nos projetos de mineração da Adani em outras partes do mundo. 

A Grande Barreira de Coral tem aproximadamente 2 mil km, se estendendo entre o Leste da Austrália e a ilha de Papua-Nova Guiné. Com uma largura que varia de 30 a 740 km, a formação possui o maior agrupamento de corais do mundo – cerca de 400 espécies, distribuídas em cerca de 2.900 recifes, 600 ilhas continentais e 300 atóis de coral. Cerca de 1.500 espécies de peixes, 4 mil variedades de moluscos, entre outras inúmeras espécies marinhas vivem nesse habitat (vide foto), que desde 1981 passou a ser considerada como Patrimônio Mundial da UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. 

Desde a década de 1990, as formações de coral vêm sofrendo um processo de branqueamento, uma anomalia provocada pela perda de pigmentos e de algas associadas aos tecidos dos corais. As razões apontadas como as causadoras desse branqueamento são o aquecimento anormal das águas do oceano e a poluição marítima. Estudos realizados em 2016 pela Universidade James Cook da Austrália, indicaram que cerca de um terço dos corais estavam mortos ou morrendo, colocando a Grande Barreira de Coral na lista dos ecossistemas em maior risco no mundo. Expor uma região que já convive com tal nível de stress às ameaças de poluição com resíduos de carvão mineral seria algo inadmissível, um argumento finalmente aceito pela Justiça da Austrália. 

As atividades mineradoras representam aproximadamente 6% do PIB – Produto Interno Bruto, da Austrália, gerando cerca de 300 mil empregos diretos e indiretos. Os primeiros achados minerais no país ocorreram na década de 1840, quando jazidas de prata e cobre foram descobertas na região Sul. Essas descobertas estimularam a imigração de mineiros e metalurgistas de outras partes do Império Britânico. Estima-se que metade do ouro produzido no mundo na década de 1850 veio de minas da Austrália. Sucessivas descobertas de depósitos de minério de ferro, carvão mineral e chumbo, entre outros minerais, só fizeram aumentar a importância da mineração na “Grande Ilha”. 

Nos dias atuais, a Austrália responde por 35% das exportações mundiais de carvão; é o terceiro maior produtor mundial de minério de ferro, com uma produção anual superior a 350 milhões de toneladas métricas, além de ser a maior produtora de bauxita, matéria prima do alumínio. O país ocupa também a posição de 2° maior produtor de níquel e responde por cerca de 11% da produção mundial de urânio, entre outros importantes minérios e metais. Os principais compradores dos bens minerais australianos são os países do Sudeste Asiático, com destaques para a China, Japão e Coreia do Sul. 

A atual produção de carvão mineral na Austrália está na casa dos 260 milhões de toneladas métricas anuais. Cerca de 85% da energia elétrica gerada no país vem de usinas termelétricas a carvão, o que demonstra a importância desse combustível fóssil para a economia interna do país. Após a decisão judicial do caso das Minas Carmichael ser divulgada, as autoridades do Governo Central da Austrália se apressaram em divulgar nota oficial, esclarecendo que aquela decisão não afetaria o restante da mineração no país, um posicionamento que trouxe algum alívio para os assustados empresários do setor. Em uma entrevista coletiva, um alto funcionário do Governo lamentou a decisão e afirmou, ironicamente, “que o país estava sofrendo uma grande perda e que os investimentos que seriam realizados na Austrália agora serão redirecionados para outros lugares do mundo”

O carvão é um dos mais importantes combustíveis do planeta, com uso intensivo em atividades industriais e em usinas termelétricas – cerca de 40% da energia elétrica usada no mundo é gerada a partir do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas/ano. Projeções econômicas indicam que, dentro de poucos anos, o uso do carvão deverá superar o uso dos combustíveis derivados de petróleo, o que não é uma das melhores notícias para o meio ambiente. 

Abolir totalmente o uso de combustíveis fósseis como o carvão, apesar da justificável pressão de muitos segmentos de nossas sociedades, é algo que só será possível a longo prazo, quando fontes alternativas de energia atinjam melhores patamares tecnológicos e tenham preços mais baixos. Enquanto isso, essa decisão da Justiça da Austrália merece ser comemorada – já que não podemos evitar a continuidade das atividades de mineração como a do carvão, pelo menos é possível evitar que ela seja feita de forma predatória e perigosa nas proximidades de ecossistemas sensíveis como a Grande Barreira de Coral Australiana. 

Essa é uma ideia que precisa ser perseguida por muitos países, especialmente por nós aqui no Brasil.

OS RISCOS AMBIENTAIS DA EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO E DO GÁS DE XISTO

Xisto

Nas últimas postagens falamos de uma série de problemas sociais e ambientais criados por diferentes tipos de mineração, especialmente problemas localizados e regionais. Falamos, inclusive de alguns problemas políticos e de conflitos armados que são financiados pela mineração ilegal de diamantes na África e de lápis-lazúli no Afeganistão. Apesar de ser uma atividade imprescindível na vida moderna, a mineração sempre causa impactos negativos. 

Na postagem de hoje, vamos falar de um processo de exploração mineral com alto poder de geração de impactos ambientais – a exploração do xisto pelo método do fraturamento hidráulico. Vamos entender isso: 

Xisto é um nome genérico que se dá a vários tipos de rochas metamórficas fortemente laminadas (vide foto). Essas rochas têm uma enorme importância econômica por serem uma fonte de combustíveis fósseis. Quando rochas como o xisto betuminoso são submetidas a altas temperaturas, elas liberam o chamado petróleo de xisto, um óleo mineral semelhante ao petróleo convencional. Utilizando-se diversos tipos de processos de beneficiamento, o petróleo de xisto produz nafta, óleo combustível, gás liquefeito de petróleo (GLP), óleo diesel e gasolina. As maiores reservas mundiais de xisto estão nos Estados Unidos, Brasil, China e na Argentina

A exploração dos depósitos de xisto passou a ganhar um enorme destaque nos noticiários nos últimos anos devido ao uso cada vez mais intensivo de uma técnica de extração conhecida como fraturamento hidráulico ou hydraulic fracking, em inglês. Os Estados Unidos, país que é um dos maiores consumidores de derivados de petróleo do mundo, se transformou no maior utilizador dessa tecnologia de exploração. A França, ao contrário, proibiu o uso dessa tecnologia em seu território devido aos riscos ao meio ambiente. 

A técnica de exploração consiste na injeção sob alta pressão de uma mistura de água, propante (areia ou outro material similar) e produtos químicos nos substratos rochosos. Essa mistura pressurizada provoca um aumento controlado das fraturas e fissuras nas rochas, locais onde o petróleo de xisto e o gás natural está encerrado, trazendo-os na direção da superfície. De acordo com estimativas feitas no ano de 2010, cerca de 60% dos poços em atividade no mundo usavam essa técnica de extração

O uso intensivo da técnica do fraturamento hidráulico por empresas de petróleo e gás nos Estados Unidos vêm produzindo efeitos econômicos impressionantes nos últimos anos: a produção de gás aumentou perto de 50% e a de petróleo em 11%. O aumento de produção desses “óleos não convencionais” e do gás vai criar perto de 3,3 milhões de empregos e injetar cerca de US$ 468 bilhões na economia dos Estados Unidos até 2020. Um dos pontos mais comemorados dessa nova fase da exploração dos combustíveis fósseis no país é a redução na dependência da importação de petróleo, um problema que sempre foi classificado como o “calcanhar de Aquiles” dos Estados Unidos. 

Deixando de lado toda a euforia e os ganhos econômicos e políticos do “Tio Sam”, é preciso mostrar toda uma série de problemas e de riscos ambientais criados pelo fraturamento hidráulico, a começar pela poluição dos grandes volumes de água utilizados no processo. A água é injetada sob alta pressão nos substratos rochosos e fica rapidamente saturada com o petróleo e o gás de xisto, que por serem mais leves que a água, rapidamente são transportados para a superfície e são separados mecanicamente.  

A água usada no processo fica completamente poluída com resíduos de hidrocarbonetos, metais presentes nas rochas e também com os resíduos dos produtos químicos usados como solventes. Caso haja um erro na operação e essa água altamente poluída vaze para o meio ambiente, há sérios riscos de uma forte contaminação das fontes superficiais de água na região – algo parecido com os acidentes do rio Doce, em Mariana, e no rio Paraopeba, em Brumadinho

Vazamentos dessas águas residuárias são apontados como a causa da poluição de diversos rios no Estado do Kentucky próximos das áreas de exploração do xisto, locais onde foram observadas mortes de diversas espécies animais e vegetais aquáticas. Estudos realizados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos e pelo Serviço de Pesca e de Vida Silvestre comprovaram que os poluentes presentes nessas águas residuárias causam lesões nas guelras, no fígado e no baço dos peixes.

Um outro problema, este muito mais sério, é a contaminação direta dos depósitos subterrâneos de água. Caso os solos ao redor da área onde a exploração do xisto está sendo feita sejam constituídos de rochas permeáveis como os arenitos, é possível que parte dessa água pressurizada e dos gases liberados pelo processo se propaguem através das rochas (processo de percolação) e contaminem as reservas de água do subsolo da região. 

Estudos realizados pela Universidade Duke, na Carolina do Sul, comprovaram a ocorrência desse problema de contaminação das águas subterrâneas na Bacia de Gás de Xisto de Marcellus, situada entre o Nordeste da Pensilvânia e o Sul do Estado de Nova York. Os pesquisadores encontraram altos níveis de metano e etano em mais de 100 poços de abastecimento de água espalhados por toda a região. As medições mostraram que a concentração de metano dissolvido na água “potável” de poços situados a menos de 1 km dos locais de perfuração eram, em média, 6 vezes maiores do que em poços mais distantes. No caso do etano, essas concentrações eram 23 vezes maiores. O metano, caso seja inalado, é altamente prejudicial à saúde humana e o etano é um gás altamente inflamável

A injeção de água pressurizada nos poços de xisto também pode estar relacionada com o aumento de pequenos terremotos nas regiões Central e Leste dos Estados Unidos, conforme estudos do Serviço Geológico do país. Entre os anos de 2010 e 2012, foram registrados mais de 300 terremotos com magnitude acima de 3,0 graus na Escala Richter. Entre os anos de 1967 e 2000, a média de eventos dessa magnitude era de apenas 21 ocorrências por ano. Estudos realizados pelo Earth Observatory da Universidade de Columbia, em Nova York, indicaram que cerca de metade dos terremotos com magnitude superior a 4,5 graus na Escala Richter observados no interior dos Estados Unidos na última década ocorreram em regiões de exploração por fraturamento hidráulico. 

Encerrando os comentários desta postagem – grandes quantidades de gás metano estão sendo liberadas na atmosfera pelos poços que utilizam a técnica do fraturamento hidráulico. O metano, só para relembrar, é 20  vezes mais potente que o CO2 (dióxido de carbono) na formação do Efeito Estufa, o grande vilão do aquecimento global.

Os ganhos econômicos de curto prazo com a produção de petróleo e gás de xisto estão fazendo a alegria de muitas empresas e Governos; já a conta com os prejuízos ambientais que virão a longo prazo, como sempre, será paga por toda a população do mundo. 

LÁPIS-LAZÚLI: O “OURO AZUL” DO AFEGANISTÃO

Lápis-lazúli

Em 1922, o arqueólogo britânico Howard Carter encontrou um dos mais valiosos tesouros do Antigo Egito: a tumba intacta do faraó Tutankhamon. A região da descoberta, conhecida como O Vale dos Reis, em Luxor – Alto Egito, foi o local escolhido pela maior parte das dinastias reais do Antigo Egito para o repouso final dos seus soberanos. Imensas tumbas foram escavadas nos paredões rochosos, onde as múmias dos faraós, acompanhadas de todos os seus tesouros, eram caprichosamente encerrados com vistas ao início da jornada até o Mundo dos Mortos. Essa região também foi, desde os mesmos tempos antigos, um pólo de atração dos mais perigosos ladrões de tumba. Todos os locais onde existiam vestígios de antigas sepulturas reais foram profanados, escavados e os tesouros saqueados. 

A descoberta de uma tumba real intacta no Vale dos Reis foi notícia em todo o mundo e todo o processo de abertura foi acompanhado por jornalistas e autoridades. Quando a pedra que selava a tumba foi removida, todos ficaram perplexos com a quantidade e a beleza dos objetos ali encontrados. A surpresa maior da descoberta se deu com a abertura do sarcófago do faraó – a múmia de Tutankhamon usava uma máscara mortuária de ouro maciço cravejada por pedras de lápis-lazúli e outras gemas preciosas. Nenhuma outra múmia encontrada antes usava um objeto de tamanho esplendor! 

O lápis-lazúli é uma pedra preciosa de cor azul brilhante, conhecida desde a antiguidade  (os primeiros registros datam de 7.000 a.C.) e que desde sempre esteve associada à riqueza e ao poder. Os antigos faraós do Egito e os reis de todo o mundo antigo usavam jóias e artefatos adornados com lápis-lazúli. Essas pedras se formam no interior de rochas metamórficas em condições geológicas muito específicas, onde os minerais de lazurita, calcita e pirita se fundiram sobre o calor intenso. As maiores e mais valiosas reservas de lápis-lazúli do mundo são encontradas nas montanhas do Afeganistão, um país isolado no centro da Ásia. As pedras de lápis-lazúli são na sua maioria opacas – as variedades translúcidas são as mais raras e, consequentemente, as mais valiosas.

O Afeganistão ocupa uma posição estratégica na Ásia Central, tendo sido o ponto de passagem de importantes rotas comerciais da antiguidade, entre essas a famosa Rota da Seda. As incontáveis caravanas de mercadores, que atravessavam os estreitos caminhos entre as montanhas afegãs, disputavam as valiosas pedras brutas de lápis-lazúli, uma mercadoria que podia ser revendida por preços exorbitantes em todos os reinos do mundo antigo. 

A mineração do lápis-lazúli é o que se pode chamar de devastadora, para se dizer o mínimo. Para extrair pequenas quantidades dessas pedras é necessário fazer primeiro o desmonte de grandes paredões rochosos. No passado, essa etapa da exploração era uma das mais exaustivas, exigindo o trabalho de centenas de mineiros – em nossos tempos modernos, com o uso de explosivos, faces inteiras de montanhas são colocadas abaixo em poucos segundos. 

Numa segunda etapa, os mineiros precisam quebrar as pedras em busca dos veios internos onde o lápis-lazúli se formou. Esse trabalho é feito inicialmente com marretas e ao custo de muitos golpes. Quando se identifica qualquer vestígio dos minerais que formam o lápis-lazúli, o trabalho passa a ser feito de maneira mais cuidadosa com um cinzel. São necessários vários dias de trabalho e a movimentação de dezenas de toneladas de rochas para se obter pequenas quantidades de lápis-lazúli. Algumas tribos afegãs vêm se dedicando a este trabalho a dezenas de gerações. 

Mas esses tempos e essas pacientes técnicas de mineração fazem parte de um passado distante. O Afeganistão vem sendo o palco de sucessivos conflitos militares há várias décadas, um problema que se tornou muito mais graves após o surgimento de grupos militares fundamentalistas, chamados genericamente de talibãs, que se orientam por leituras “ortodoxas” do Alcorão, o livro sagrado dos Ismaelitas (eles não gostam de ser chamados de muçulmanos). Lutando ora contra invasores russos, ora contra uma coalizão de países liderados pelos Estados Unidos na sua “guerra contra o terror”, esses grupos militares passaram a se valer das imensas riquezas minerais dos solos afegãos para financiar sua guerra e a compra de armas e equipamentos militares. 

Ocupando uma área com aproximadamente 650 mil km², o que equivale a uma área um pouco maior do que a soma dos territórios de Minas Gerais e do Espírito Santo, o Afeganistão abriga uma infinidade de províncias minerais. Entre os destaques minerais existem reservas de carvão mineral, cobre, minério de ferro, lítio, urânio, terra-rara, cromita, ouro, zinco, talco, barita, enxofre, chumbo, mármore, gás natural e petróleo, além é claro de imensas veios com gemas preciosas como diamantes e lápis-lazúli. Segundo uma estimativa feita pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos em 2007, os depósitos minerais inexplorados do Afeganistão valem entre US$ 900 bilhões e US$ 3 trilhões. Talvez seja por isso que tantas potências mundiais têm lutado nas últimas décadas pelo controle desse país rochoso e muito seco. 

A exemplo da exploração e exportação dos “diamantes de sangue” da África, sobre os quais falamos em postagens anteriores, os diversos grupos militares afegãos se valem de todas as “técnicas” de exploração mineral disponíveis, usadas da forma mais insustentável e brutal possível, para a obtenção de recursos minerais valiosos. Esses grupos têm interesse especial em recursos de fácil transporte e comercialização como ouro, diamantes e lápis-lazúli. Entre as técnicas de exploração utilizadas, existe uma versão afegã do Ruina Montium do Império Romano, onde ao invés de usar a força hidráulica da água para o desmonte de rochas, usa-se quantidades impressionantes de explosivos militares.  

Faces inteiras de montanhas são colocadas ao chão pela força das explosões e camponeses e pastores das aldeias e vilas das áreas montanhosas são “recrutados” para fazer o trabalho de separação dos minérios. Não é necessário falar que esses trabalhos são realizados sob condições ínfimas de segurança, com grandes rochas soltas em encostas de morros, que podem rolar sob a menor vibração. As montanhas de entulhos soterram vales inteiros, bloqueando antigas trilhas entre as montanhas, o que prejudica as comunicações e os transportes entre as populações espalhadas escassamente pelo território do país.  

Outro problema ambiental sério é o bloqueio dos canais de muitos rios temporários. O Afeganistão é um país extremamente seco e as principais fontes de água superficiais vêm do degelo da neve do alto das montanhas. Com o bloqueio dos canais, a preciosa água acaba evaporando ou se infiltrando nos solos cársticos (solos de rochas permeáveis, especialmente de rocha calcária, onde a água das chuvas e dos rios se infiltra facilmente e corre através de conjuntos de grutas e túneis subterrâneos), prejudicando o abastecimento de populações, rebanhos e demais usos na agricultura. 

Assim como acontece com os brilhantes “diamantes de sangue”, as preciosas pedras de lápis-lazúli vão passar por processos minuciosos de lapidação e polimento, passando depois pela sua montagem nos mais diferentes tipos de jóias (vide foto) e objetos. E como é de praxe, ninguém vai perguntar de qual lugar do mundo essas pedras vieram e qual foi o seu custo em vidas humanas. Simples assim. 

A MINERAÇÃO ILEGAL DE DIAMANTES NA ÁFRICA

Crianças trabalhando em garimpos na África

O Diário de Notícias, um dos mais importantes jornais matutinos de Portugal, fez uma reportagem bem interessante há cerca de dez anos, onde falava da África Ocidental, uma região onde o crime organizado impera. Os principais países que formam essa região são Gana, Libéria, Nigéria, Senegal e Serra Leoa, além de vários outros países menores. Na base dessa verdadeira indústria do crime estão governos, militares “compráveis” por preços módicos, funcionários públicos corruptos, a falta de controle nas fronteiras entre os países e uma localização privilegiada, com fácil acesso à Europa e América do Norte. As autoridades locais calculam que existem 30 grandes grupos criminosos operando na região, no controle de aproximadamente 2 milhões de armas – isso é coisa para “cachorro grande”, como dizemos na minha região. Pouca coisa mudou nessa região nesses últimos anos. 

As organizações criminosas que operam na região lidam com tráfico ilegal de pessoas, drogas, petróleo, tabaco, medicamentos falsos, resíduos industriais e diamantes, isso para não entrarmos em detalhes com atividades criminosas menos lucrativas. Citando alguns exemplos: criminosos da região fornecem cerca de 25% de toda a cocaína consumida na Europa; de acordo com cálculos da ONU – Organização das Nações Unidas, entre 50 e 60% dos medicamentos consumidos na região são falsos, assim como também são falsos cerca de 80% dos cigarros que circulam nos mercados. Outra área onde as organizações atuam é a do petróleo – calcula-se que os criminosos “desviem” cerca de 55 milhões de barris de petróleo a cada ano, especialmente da Nigéria. 

O lucrativo comércio dos diamantes não poderia ficar de fora desse verdadeiro portfólio de atividades criminosas. Em Serra Leoa, um dos grandes produtores de diamantes da região, calcula-se que 80% do comércio destas pedras esteja na mão desses grupos criminosos. Os dados oficias da produção de diamantes do país mostram claramente como anda o descontrole da atividade: em 1970, Serra Leoa produzia uma média de 2 milhões de quilates de diamantes por ano; nos últimos anos, essa produção está abaixo de 500 mil quilates por ano

A má fama dos diamantes de Serra Leoa atingiu o seu clímax durante a guerra civil que assolou o país entre os anos de 1991 e 2002. Um grupo revolucionário conhecido como FRU – Frente Revolucionária Unida, sob o comando de Foday Sankoh, tentou derrubar o Governo central do país. E para financiar a sua revolução e a compra de armas, esse grupo passou a se valer da exploração e exportação ilegal de diamantes. Esse conflito foi um dos inspiradores da expressão “diamantes de sangue” e teve sua história contada em livros, documentários e filmes. Ao longo de 11 anos de guerra, cerca de 2,5 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar para outras regiões do país – o número de mortos no conflito, a depender da fonte consultada, ficou entre 50 mil e 200 mil pessoas

Com a pressão crescente dos custos da guerra civil, os comandantes militares da guerrilha passaram a recrutar o maior número possível de pessoas nas cidades e aldeias sob controle da FRU para os trabalhos de garimpo de diamantes. Jornadas de trabalho excessivas, maus tratos, agressões físicas e sexuais, trabalho infantil (vide foto) – as crianças que conseguiam escapar da mineração acabavam transformadas em meninos soldados. Valia tudo para se encontrar as preciosas pedras. Com o final da guerra em 2002 e com a vitória do Governo central de Serra Leoa, as tropas revolucionárias foram desmobilizadas e muitos dos seus antigos comandantes acabaram se transformando em “senhores do crime organizado”. 

O comércio ilegal de diamantes também financiou, comprovadamente, conflitos armados em larga escala em Angola, República Democrática do Congo, Libéria, República do Congo e Costa do Marfim. Milhões de pessoas foram submetidas aos mesmos maus tratos em trabalhos nos garimpos ilegais. Outras tantas foram forçadas a se deslocar de suas cidades e regiões de origem por causa desses conflitos e centenas de milhares morreram. Muito sangue e muitos diamantes marcaram as suas histórias. 

Uma das técnicas de mineração mais usadas em regiões pobres para a mineração de ouro e de pedras preciosas é a exploração nos chamados aluviões, nome dados aos grandes depósitos de sedimentos clássicos como a areia, o cascalho e o silte. Estes depósitos se formaram ao longo do curso de rios, além de áreas alagáveis e deltaicas, onde os mais diferentes tipos de sedimentos foram se acumulando. Os diamantes, conforme comentamos em postagem anterior, se formam sob calor e pressão intensa dos solos profundos. Erupções vulcânicas, liberação de gases e de água desde altas profundidades, entre outros processos geológicos, trouxeram grandes quantidades de diamantes para a superfície do planeta ao longo das eras – as chuvas se encarregaram de carrear essas gemas até os cursos d’água, e a força das águas as depositaram nas áreas de aluvião. 

Para garimpar os diamantes, os trabalhadores costumam usar uma vasilha metálica ou de madeira, conhecida aqui no Brasil como bateia – pequenas quantidades de sedimentos são coletados e passam a ser lavados para se retirar os sedimentos mais finos. Os materiais que restam na bateia são vasculhados visualmente na busca das pedras preciosas e do ouro – diamantes e ouro costumam ocorrer nos mesmos solos. 

Conforme as buscas avançam, os solos começam a ser escavados para se atingir camadas de sedimentos mais antigas. Essas buscas começam a avançar na direção das margens dos rios, que rapidamente acabam sendo transformadas em uma sucessão de barrancos e de buracos despidos de qualquer vegetação. Como sempre existe pressa para a obtenção de grandes quantidades de diamantes, os trabalhadores não têm tempo a perder com a colocação de escoras de segurança nas escavações: dezenas de trabalhadores acabam morrendo soterrados em desmoronamentos, especialmente nos períodos de chuva. Rolagem de rochas, quedas de árvores, inundação de valas ou, simplesmente, a violência dos seguranças que acompanham todos os trabalhos de mineração com um fuzil nas mãos, completam o quadro da tragédia. 

Além da tragédia humana que é provocada por essa mineração caótica, onde dezenas de milhares de pessoas são forçadas a trabalhar em condições análogas à escravidão, ocorre também uma destruição sistemática dos riachos e rios onde os diamantes são procurados. Além dos grandes volumes de sedimentos finos que acabam sendo liberados na corrente dos rios e que já causam uma perda considerável da potabilidade das águas, a escavação dos sedimentos também pode liberar diversos tipos de metais pesados como chumbo, cádmio, mercúrio e zinco, acumulados ao longo de milhões de anos nos aluviões e que passam a ser espalhados pelas águas dos rios.  

A destruição das margens e de áreas alagáveis também cria enormes problemas ambientais – sem a proteção da vegetação, grandes volumes de sedimentos passam a ser arrastados pelas chuvas em processos erosivos e vão ser acumulados nos canais dos rios. Perde-se ao mesmo tempo grandes volumes de solo fértil e os canais dos rios, problemas que irão comprometer futuras atividades agrícolas nessas regiões.  

As guerras sempre acabam, mas as pessoas precisarão continuar vivendo, especialmente se servindo dos frutos da terra. Sem terras férteis e sem água, o futuro dessas populações será, cada vez, mais incerto. 

OS “DIAMANTES DE SANGUE”

Mineração na África

Diamantes são minerais de extrema dureza, constituidos basicamente por moléculas de carbono, forjados sob alta temperaturas e pressão extrema. A palavra diamante vem do grego adámas, que significa “invencível” Os primeiros registros históricos sobre os diamantes vem da Índia e da Mesopotâmia, por volta do ano 4.000 a.C., onde estas pedras brancas eram usadas na fabricação de artefatos rituais, especialmente em amuletos masculinos – o diamante era associado à virilidade. 

Consta que a primeira joia a ser adornada com um diamante foi o anel de noivado dado à duquesa Maria de Borgonha, uma nobre francesa, em 1477. O impacto que essa pedra brilhante provocou em meio aos nobres da época criou uma magia e um magnetismo que não pararam de crescer até os nossos dias. Nos dias atuais, diamantes de alta qualidade são vendidos a valores na casa de milhões de dólares – em alguns casos, esses valores superam a casa das dezenas de milhões de dólares. O recordista de preços da atualidade é o Oppenheimer Blue, um diamante azul que alcançou o valor de US$ 58 milhões em um leilão, sendo considerada a gema lapidada mais cara do mundo.

Os diamantes são classificados pelos especialistas pelo critério dos  “4 C’s”: color, clarity, carat e cut, que em português significa, respectivamente, cor, claridade, tamanho (peso) e corte (lapidação). Os diamantes mais raros e caros são os azulados e os rosados – diamantes amarelados são os mais comuns e, consequentemente, os menos valiosos. Uma das principais características dos diamantes é a sua leveza, algo importante para diferenciar uma pedra verdadeira de uma falsa. Um grande exemplo dessa leveza das gemas é o diamante Koh-i-Noor, da Coroa Britânica, que tem o tamanho de um limão galego e pesa menos de 22 gramas. 

Porém, por trás desse brilho e de todo o glamour, a mineração dos diamantes possui um lado negro e sombrio – parte considerável do garimpo mundial das gemas é feito ilegalmente, onde milhares de trabalhadores são levados aos limites da dignidade humana e trabalham, não raras vezes, sob a mira de fuzis (vide foto).  O comércio ilegal de diamantes é um dos principais financiadores de grupos armados, exércitos revolucionários, ditadores sanguinários e de grupos terroristas em todo o mundo, especialmente no continente africano.  

A mineração de diamantes é “barata”, custando entre US$ 2.00 e US$ 15.00 por quilate. As pedras brutas são facilmente comercializadas através de um seleto grupo com cerca de 150 compradores intermediários, onde os preços se multiplicam facilmente. Por fim, existem dois grandes compradores finais das pedras, que não fazem muitas perguntas sobre as suas origens – a De Beers, uma gigantesca empresa da África do Sul, e o multimilionário russo Lev Leviev. Juntas, essas duas “entidades” controlam perto de 80% do comércio mundial de diamantes

De acordo com alguns cálculos, mais ou menos precisos, a mineração mundial de diamantes movimenta um volume anual de 26 mil toneladas em pedras, ou 130 bilhões de quilates, o que representa algo como US$ 9 bilhões. Cerca de 20% dessas pedras serão lapidadas e transformadas em, aproximadamente 70 milhões de jóias – principalmente anéis, colares, brincos, braceletes, gargantilhas e relógios. Esses produtos vão gerar vendas totais no valor de US$ 58 bilhões. Uma das receitas para esse “aumento mágico” entre o valor das pedras brutas e o das joias prontas é o uso cada vez maior da mão de obra de crianças indianas nos trabalhos de lapidação das pedras – elas recebem cerca de US$ 0.23 por quilate trabalhado

Percebam aqui uma sutileza numérica – observem que há uma grande distância entre o volume de pedras brutas vendidas e o número de diamantes que são lapidados, polidos e transformados em joias caríssimas. Diferentemente do que dizem os comerciais das grandes empresas joalheiras, os diamantes não são tão raros na natureza. Os grandes  grupos monopolistas, que mandam e desmandam neste mercado, estocam imensos volumes de pedras todos os anos, numa estratégia clara de elevar, artificialmente, os preços dos diamantes. Segundo a famosa Lei da Oferta e da Procura, quanto menor é a oferta de um produto, maiores serão os seus preços.

O continente africano possui grande parte das lavras ilegais de diamantes do mundo, onde milhares de trabalhadores, escravizados ou semi escravizados, são submetidos a jornadas exaustivas de trabalho e sem as mínimas condições de segurança e de higiene. Parte considerável desse exército “invisível” de trabalhadores é formado por mulheres e crianças. A busca das pedras é feita tanto em rios e outros cursos d’água, na técnica conhecida como mineração de aluvião, quanto em escavações subterrâneas, onde as entranhas da terra são cortadas e reviradas num trabalho sem fim. 

Os “senhores” dessas minas contratam seguranças armados para a fiscalização do trabalho – qualquer pedra preciosa encontrada deve ser, imediatamente, entregue a qualquer um deles. Caso haja qualquer desconfiança de desvio de gemas (alguém, por exemplo, engolir uma pedra), esses seguranças poderão abrir a barriga do suspeito a faca para se comprovar o roubo. Para as mulheres, os maiores riscos estão ligados aos abusos sexual, uma violência que também não costuma poupar as crianças. Graças a todo esse conjunto da obra, que mata e mutila incontáveis seres humanos, essas pedras costumam ser chamadas pelo nada agradável nome de “diamantes de sangue”. Destaques de uma lista de países que encabeçam a mineração ilegal de diamantes são Angola, Congo, Zimbábue, Libéria, Costa do Marfim e Serra Leoa, na África, além de países com grandes áreas controladas por guerrilheiros como a Colômbia e o Afeganistão. 

Para encerrarmos essa postagem, uma pequena amostra da violência oculta no comércio mundial de diamantes: Osama Bin Laden, milionário saudita que passou a financiar grupos terroristas islâmicos como a Al Qaeda , financiou parte da sua rede através da compra e venda diamantes ilegais. O ditador da Libéria, Charles Taylor, foi um dos principais fornecedores dos diamantes comprados por Bin Laden. De acordo com o escritor e jornalista americano Greg Campbell, autor do livro Blood Diamonds (Diamantes de Sangue), essa rede negociou US$ 20 milhões entre 1998 e 2001. Entre outras ações terroristas, esse dinheiro financiou o ataque ao World Trade Center em Nova York (as Torres Gêmeas), em 2001.

Na próxima postagem, vamos falar dessa “mineração” de diamantes na África e de todos os problemas político, sociais e, especialmente, ambientais criados por elas. 

A PROBLEMÁTICA MINERAÇÃO DO CARVÃO EM MOÇAMBIQUE

Moçambique

Moçambique é um grande país localizado no Sudeste da África, possuindo uma área com mais de 800 mil km² e com uma população de aproximadamente 20 milhões de habitantes. Ex-colônia de Portugal, Moçambique também tem o português como língua oficial – metade da população utiliza o português como língua oficial do dia a dia e parte da outra metade o tem como 2ª língua, ao lado de uma infinidade de outras línguas e dialetos africanos. 

Moçambique também é um país muito pobre. A renda per capita da população é de apenas US$ 1.50 por dia, o que equivale a R$ 5,60 (na cotação do dia 14/02/2019). O país ocupa atualmente a posição 180° no IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Esse Índice é elaborado pela ONU – Organização das Nações Unidas, e avalia a Saúde, a Educação e a Renda das populações. O IDH de Moçambique figura entre os dez mais baixos do mundo e só não é pior porque a sangrenta guerra civil que assolou o país terminou em 1992

Nos últimos vinte anos, as perspectivas de ganhos econômicos com a exploração das diversas reservas de carvão do país, passaram a representar a esperança de um futuro melhor para a população de Moçambique. Uma dessas reservas está localizada na província de Tete, na região central do país. Chamada de Bacia Carbonífera de Moatize, essa reserva mineral possui uma das maiores jazidas de carvão do mundo, com volumes estimados em, aproximadamente, 2,5 bilhões de toneladas. Diversas empresas multinacionais do setor de mineração implantaram grandes projetos na região. Entre elas, uma velha conhecida de todos nós: a Vale do Rio Doce

O projeto de mineração de carvão da Vale em Moçambique foi iniciado em 2008, sendo que 85% das ações pertencem à empresa brasileira, 5% ao Governo de Moçambique e os 10% restantes estão pulverizados entre investidores locais. A Vale trabalha com a expectativa de operar a mina ao longo de 35 anos, com a meta de produzir 11 milhões de toneladas de carvão por ano. Os investimentos previstos ao longo do projeto são de US$ 8,5 bilhões, um volume de recursos correspondente a mais da metade do PIB – Produto Interno Bruto de Moçambique. Entre os financiadores do projeto estão a multinacional IDC, ligado ao Banco Mundial, e o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, do Brasil. 

As expectativas criadas pela chegada do projeto ao município de Moatize, uma localidade com menos de 30 mil habitantes, e também na capital da província, a cidade de Tete com seus 155 mil habitantes, foram muito grandes. De acordo com dados de 2011, o projeto teria gerado cerca de 3 mil empregos, sendo que 90% das vagas foram ocupadas por trabalhadores locais

Infelizmente, as boas notícias para a população acabam por aqui. A implantação simultânea de vários projetos de mineração na região não tardou a mostrar seus impactos negativos no meio ambiente e na vida das pessoas, que passaram a sofrer com a contaminação das fontes de água, desapropriação de suas terras e convivência diária com uma atmosfera saturada por pó de carvão, entre outros graves problemas. 

Na área onde foi implantado o projeto de mineração da Vale viviam cerca de 1.360 famílias, que viviam da agricultura de subsistência há várias gerações. Nas negociações para a desapropriação dessas famílias, a empresa brasileira construiu dois assentamentos, um vizinho à área de mineração e outro em Cateme, uma vila a quase 40 km de distância.  

De acordo com informações de ONGs – Organizações Não Governamentais, locais, essas famílias reclamam da qualidade das terras que receberam, que, segundo seus relatos, são de uma qualidade muito inferior e pouco adequadas para a agricultura. Essa é uma reclamação muito comum entre famílias reassentadas e, em diversas postagens aqui no blog, falamos dos problemas vividos por populações deslocadas para a formação de barragens como a de Sobradinho, na Bahia. 

Uma outra reclamação, recorrente entre os reassentados, diz respeito às promessas feitas pela Vale para o emprego de muitos desses trabalhadores numa empresa de construção, algo que nunca aconteceu. Também existem problemas de infraestrutura nas vilas, especialmente a falta de energia elétrica. A mineradora também havia assumido o compromisso de fornecer cestas básicas aos reassentados ao longo de cinco anos, mas cessou o fornecimento após apenas um ano. Essa quebra sistemática dos compromissos, que representam gastos insignificantes para o porte do empreendimento, tem causado indignação entre os locais e já gerou inúmeros protestos e manifestações, algumas reprimidas com violência pelas forças policiais. 

Um outro problema grave, este criado pela mineradora indiana Jindal, está afetando a saúde de 6 mil famílias em vários distritos da cidade de Moatize. A mineradora instalou uma grande área para o depósito temporário de carvão nas proximidades de vários bairros, onde vive uma população estimada em 30 mil habitantes. A Jindal opera uma mina em Chirodzi, uma localidade a cerca de 120 km de Moatize. Diariamente, centenas de caminhões chegam ao terreno para descarregar o carvão, que depois será embarcado nos vagões da ferrovia que segue rumo ao litoral, para embarque no porto de Maputo. Essa intensa movimentação de carvão gera uma gigantesca nuvem de pó, que está afetando a saúde de toda a população. 

A inalação contínua do pó de carvão pode provocar uma doença conhecida como pneumoconiose dos carvoeiros ou “pulmão negro”, resultante do acúmulo de pó ao redor dos brônquios pulmonares. Nos casos mais graves da doença, que atingem entre 1 e 2% dos doentes, a pneumoconiose se transforma em fibrose maciça progressiva, onde os tecidos pulmonares e os vasos sanguíneos entram num processo de destruição devido a formação de grandes cicatrizes. Nos casos mais simples, a inalação do pó de carvão causa crises alérgicas e irritação das vias respiratórias, além de provocar complicações em pessoas com doenças pulmonares pré-existentes como asma e bronquite. 

Por fim, e não menos graves, são muitas as reclamações sobre a contaminação das fontes de água usadas para o abastecimento das populações. A mineração do carvão expõe rochas e rejeitos ricos em sulfetos, que liberam grandes quantidades de metais pesados e acidificam as águas. Metais acumulados nos sedimentos dos corpos hídricos passam por processos de bioacumulação em vegetais e, posteriormente, são transmitidos por toda a cadeia alimentar.  

Metais pesados altamente tóxicos como o cádmio, chumbo e mercúrio podem, através desse processo, contaminar seres humanos. Esse processo de transferência de metais entre os seres vivos é chamado de biomagnificação. Apesar das muitas negativas quanto aos problemas de contaminação das águas, as mineradoras costumam enviar caminhões pipa com água potável para as vilas. Isso é, no mínimo, uma confissão informal de culpa. 

Apesar de toda essa série de problemas, entre muitos outros, as autoridades de Moçambique parecem olhar para o outro lado – graças a todos esses grandes projetos de mineração, o PIB do país vem crescendo a taxas de 7% ao ano.  

Então, para que perder tempo se preocupando com a vida e com a saúde da população que vive nas áreas de entorno das minas de carvão?