O CERRADO PAULISTA: JÁ OUVIU FALAR?

Pequi

Sempre que se fala em Cerrado, é normal pensarmos em regiões do Centro-Oeste do país, em Minas Gerais, alguma coisa da Bahia e de Tocantins. Regiões do bioma no Maranhão e no Piauí, só bem recentemente começaram a ser divulgadas pelos meios de comunicação. Agora, uma pergunta: você sabia que existem regiões de Cerrado no Estado de São Paulo? 

O bioma Cerrado ocupava, originalmente, uma área correspondente a 14% do Estado de São Paulo – hoje em dia, restaram apenas fragmentos do Cerrado no Estado (são mais de 8.300 fragmentos), áreas que ocupam aproximadamente 1% da superfície paulista. Como se o altíssimo grau de devastação do bioma não bastasse, apenas 18% dessas áreas restantes são protegidas em 32 unidades de conservação e de reserva legal. O bioma é tão desconhecido entre a população do Estado de São Paulo que, caso você aponte para uma área com a vegetação típica de Cerrado para um paulista, e perguntar que tipo de bioma é aquele, o máximo que ouvirá de resposta é “mato” – ou seja, para a população em geral, o Cerrado é um tipo de vegetação sem a menor importância. 

Esse comportamento dos paulistas em relação ao Cerrado tem raízes históricas. Até meados do século XIX, São Paulo era uma província pobre e isolada, com a capital no alto da Serra do Mar, longe do litoral, e com uma população bastante rarefeita. Isso começou a mudar com a chegada do café à região do Vale do Rio Paraíba, no extremo Leste do Estado. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a rápida degradação dos solos da região tornou efêmeras as riquezas locais – cidades que surgiram no rastro do café, rapidamente se transformaram em “Cidades Mortas”, numa referência ao livro publicado por Monteiro Lobato falando da região. 

Com a grande valorização do café nos mercados internacionais da época, não demorou muito até que os grandes produtores descobrissem as férteis terras roxas do Oeste do Estado de São Paulo. Rapidamente, grandes trechos das matas passaram a ser derrubados para a formação de imensos cafezais e nada mais seria como era dantes. Comparado aos solos de terra roxa, as áreas de Cerrado com seus solos ácidos e pouco férteis se transformaram em uma espécie de “segunda divisão” para os produtores rurais e passaram a ser transformadas em áreas para a pastagem de gado ou para o plantio de culturas pouco exigentes em relação à qualidade de solos. 

Muito provavelmente, vem daí esse relativo desprezo ou desconhecimento dos paulistas em relação ao Cerrado. Populações de outros Estados, que sempre viveram e dependeram do bioma para sobreviver, como aquelas da região Centro-Oeste do país, tem um comportamento completamente diferente. Um exemplo é a utilização de toda uma gama de frutas típicas do Cerrado na sua alimentação – o pequi (vide foto) é um exemplo. Muito utilizado em culinárias como a do Estado de Goiás, o pequi está presente em diversos pratos salgados, bolos e doces. O pequizeiro é até encontrado no Estado de São Paulo, mas seus frutos apodrecem no pé porque a população nunca se habituou ao consumo desse e de outros frutos do Cerrado paulista. 

Pesquisadores de universidades e institutos paulistas correm contra o tempo e contra as distâncias para estudar toda essa infinidade de “ilhas de Cerrado”, com objetivo de conhecer e preservar um pouco do que restou do bioma no Estado de São Paulo. A rápida destruição de extensas regiões de Cerrado, especialmente por causa do avanço das fronteiras agrícolas, por todo o Brasil, poderá repetir o destino que o bioma teve em terras paulistas e acabar transformado em um sem fim de pequenas ilhas de vegetação nativa, cercadas por culturas de grãos por todos os lados. 

Como paulista, torço para que nada do que aconteceu com o Cerrado por aqui aconteça em outras regiões do Brasil.

A EROSÃO E A COMPACTAÇÃO DE SOLOS EM REGIÕES DO CERRADO

Vossoroca no Cerrado

O Cerrado é, atualmente, um dos biomas mais ameaçados do Brasil. Considerados improdutivos durante muito tempo, os solos do Cerrado, de uma hora para outra, se transformaram nos principais produtores de grãos do país. É claro que não houve nenhum milagre nesse processo – no final de década de 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu variedades de soja adaptadas ao clima e aos solos do Cerrado, o que abriu inúmeras possibilidades para a expansão das frentes agrícola por todo o bioma, que ocupa uma área total com aproximadamente 20% do território do Brasil. Pesquisando em postagens anteriores, você poderá encontrar informações bastante detalhadas desse processo.

Algumas projeções indicam que perto de 50% da área original do Cerrado já cedeu lugar para campos agrícolas – em algumas regiões, como no Estado de Minas Gerais, o grau de devastação do Cerrado já ultrapassa os 60%. Essa perda intensa de vegetação nativa está se refletindo na diminuição e até em ameaças de extinção de inúmeras espécies animais e vegetais. Outro problema, esse gravíssimo, se vê nitidamente na redução dos caudais de inúmeras bacias hidrográficas importantes como a dos rios Tocantins e Araguaia e do São Francisco. A vegetação nativa do Cerrado possui raízes desproporcionalmente longas, uma característica que contribui para a infiltração das águas das chuvas nos solos, recarregando assim aquíferos e lençóis subterrâneos, cujas águas são fundamentais na alimentação de nascentes de inúmeros cursos d’água.

A somatória de todos esses problemas e agressões ambientais tem um lado que é muito pouco explorado pelos meios de comunicação – esse avanço violento e rápido contra a vegetação do Cerrado já está criando imensos problemas de perda de solos por processos erosivos e também de compactação de muitas áreas. Em tempos onde a quebra sucessiva de recordes na produção de grãos, notadamente da soja, uma das commodities agrícolas de maior sucesso em nossa pauta de exportações, não é muito conveniente que as populações fiquem sabendo que a “galinha dos ovos de ouro da agricultura” está perdendo penas.

Os solos aráveis, conforme já apresentamos em postagens anteriores, são o resultado de um longo processo geológico, onde as rochas sofrem fragmentação e desgaste devido à ação do sol, das chuvas, do gelo e dos ventos, entre outros elementos. Os fragmentos de rocha se acumulam em partes baixas do terreno e com o crescimento de pequenas plantas, especialmente dos líquens, tem início um processo de acúmulo de restos de matéria orgânica. É a combinação dessas partículas de rocha, matéria orgânica, água e ar que vai permitir a formação do que chamamos de solo arável. Esse processo é extremamente lento – falamos aqui de centenas de milhares ou de milhões de anos.

Porém, caso a cobertura vegetal de uma determinada região seja retirada para a formação de campos agrícolas ou para exploração de madeira, os solos passam a ficar expostos às intempéries, as chuvas no caso do Brasil, e todo esse trabalho da natureza pode ser perdido em poucos anos. Tamanho o volume e a velocidade da destruição do Cerrado, são muitas as regiões do bioma que estão apresentando grandes problemas de perdas de solos, algumas já apresentando gigantescas vossorocas (vide foto). Os sedimentos carreados pelas chuvas estão assoreando e contaminando inúmeros rios e nascentes destas regiões.

Uma pesquisa realizada por um doutorando do CENA – Centro de Energia Nuclear na Agricultura da ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, indicou uma forma bastante interessante para analisar as perdas de solo, de acordo com os diferentes tipos de manejo: um caminho que abre inúmeras possibilidades para a correta gestão de áreas agrícolas.

O pesquisador Robson Clayton Jacques Arthur percebeu que, ao analisar as quantidades de Césio-137 presentes no solo, era possível determinar o volume de perdas ou de danos nos solos. O Césio-137 é um elemento químico radioativo liberado em testes e detonações de armas nucleares. Nas décadas de 1950 e 1960, as grandes potencias mundiais realizaram inúmeros desses testes, liberando grandes quantidades de Césio-137 na atmosfera. Os ventos se encarregaram de espalhar o elemento por toda a superfície do planeta e as chuvas levaram o elemento a ser depositado sobre os solos – ou seja, o Césio-137 está presente em solos de todo o mundo e medindo-se sistematicamente as quantidades do elemento em uma determinada área, é possível determinar o volume de perdas e de danos no solo.

Na pesquisa realizada foram colhidas amostras de solos em diferentes profundidades – 20, 40 e 60 cm, em intervalos de 3 anos, As áreas de onde foram retiradas essas amostras se dividiam em áreas de pastagens, de plantio convencional e de plantio direto. O acompanhamento dos níveis do Césio-137 nas amostras indicou claramente que as áreas de pastagens e aquelas usadas para o plantio convencional eram as que mais apresentaram variações, indicando que são essas as áreas mais propensas a erosão e perda de solos, além de problemas de compactação dos solos. Solos compactados, entre outros problemas, não permitem a infiltração da água das chuvas, problema que causa perda na produtividade agrícola.

Uma descoberta importante da pesquisa e que poderá ajudar na conservação e na gestão de áreas agrícolas é que o uso do plantio direto minimiza as perdas e a compactação dos solos. No plantio direto, toda a palha e resíduos de plantas produzidos no momento da colheita são depositados sobre o solo – o plantio é feito logo após a colheita e esses resíduos vão proteger os solos das intempéries até que as plantas cresçam. Uma ideia simples, que demonstra que, mesmo funcionando como o grande celeiro do país, os solos do Cerrado, se bem utilizados e protegidos, poderão produzir muito e com baixas perdas,  menor compactação, entre outros problemas.

Ou seja – quando a agricultura usa técnicas racionais e cuida bem dos solos, a natureza e o meio ambiente agradecem.

OS RISCOS DE EXTINÇÃO DE OUTROS ANIMAIS DO CERRADO

ONÇA-PINTADA Panthera onca

Nas duas últimas postagens falamos dos impactos da destruição de extensas áreas do Cerrado na população de aves do bioma – algumas espécies correm risco eminente de extinção enquanto outras fogem para outros biomas, reduzindo dramaticamente as populações em algumas regiões, um problema que poderá causar profundos impactos nas formações vegetais. Mas, além das aves, outras espécies de animais também estão sofrendo com a destruição da cobertura florestal nativa do Cerrado. Vejamos algumas: 

Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus): É um canídeo adaptado para a vida em ambientes abertos, com hábitos de vida noturna e com uma alimentação onívora, comendo qualquer coisa que encontre, especialmente pequenos roedores, ovos e aves, raízes e frutas, especialmente a lobeira, uma fruta silvestre do Cerrado muito parecida com o tomate e que pode representar até 50% da dieta do animal. Essa preferência por frutas torna o lobo-guará uma espécie com um importante papel na dispersão de frutos do Cerrado a partir das sementes não digeridas, que são expelidas junto com as fezes. Casais de animais da espécie ocupam sozinhos grandes extensões territoriais que podem ter mais de 120 km².  

O lobo-guará é considerada uma espécie-chave do Cerrado, sendo considerada uma das espécies que representam o bioma. A presença dessas espécies fala muito sobre as condições do meio ambiente, uma vez que esses animais ou plantas interagem direta ou indiretamente com todo o ecossistema, especialmente regulando as cadeias tróficas, que são os fluxos de matéria e energia do sistema. 

Onça-pintada (Phantera onca): É o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, só ficando atrás do tigre asiático e do leão africano. O felino (vide foto) ocupava um extenso território desde o Sul dos Estados Unidos até o Norte da Argentina, porém, com o avanço da colonização e com a caça predatória, o animal está extinto em diversas regiões – um exemplo são as regiões do Sul e do Sudoeste americano, onde o animal não é visto desde o início do século XX. Outra região onde a onça-pintada praticamente desapareceu foi na região antigamente ocupada pela Mata Atlântica. Com a destruição de mais de 90% do bioma, sobraram poucos habitats com capacidade para suportar um animal que pode chegar aos 150 kg de peso e até 1,85 metro de comprimento. 

A grande Floresta Amazônica e as extensas matas do Cerrado eram, até bem poucas décadas atrás, um dos últimos refúgios seguro para as populações desses animais em território brasileiro. Com o avanço da agricultura e com a redução das matas e das populações de outros animais predados pelas onças-pintadas, a espécie tem sofrido fortes reduções em suas populações. 

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla): Essa é outra espécie-chave do bioma Cerrado que está sofrendo fortemente os impactos ambientais resultantes da destruição dos campos. Os tamanduás-bandeira se alimentam exclusivamente de formigas e cupins, que eram encontrados em grandes quantidades nos campos – o animal chega a comer 30 mil formigas e cupins a cada dia, atuando no controle populacional desses insetos. Os ninhos de algumas espécies de cupins do Cerrado podem se apresentar na forma de montes de terra com até 2 metros de altura: os tamanduás-bandeira “abraçam” esses ninhos e o quebram com suas poderosas garras.  Com a abertura dos campos agrícolas, esses cupinzeiros são destruídos pelos tratores e os animais têm a sua fonte de alimentação comprometida. 

Boto-do-rio-Araguaia (Inia araguaiensis): Durante muito tempo se acreditou que os botos que viviam nas águas dos rios Araguaia e Tocantins eram da mesma espécie  daqueles animais encontrados na bacia do Rio Amazonas. Em pesquisas bastante recentes, os cientistas descobriram que, na realidade, trata-se de uma outra espécie, com diferenças no tamanho e peso, no formato do crânio e no número de dentes. Apesar de recém descoberta pela ciência, a espécie já está na lista dos animais ameaçados de extinção

Uma das principais ameaças à sobrevivência desses botos são as sequências de barragens de usinas hidrelétricas construídas nos rios Tocantins e Araguaia, que isolaram populações e tornaram a espécie criticamente vulnerável. Outro problema grave para os botos-do-rio-Araguaia é a redução dos caudais dos rios, assunto que já tratamos em postagens anterior. Durante o período da seca, muitos trechos dos rios têm ficado com profundidade muito reduzida – muito botos acabam encalhados nos bancos de areia e morrem por desidratação e por ataque de outros animais. Essa redução dos caudais está diretamente associada à destruição das matas nativas do Cerrado para a formação de campos agrícolas. Sem as longas raízes dessa vegetação, os aquíferos e lençóis subterrâneos de água não recebem a recarga no período das chuvas, o que faz minguar a água nas nascentes e nos rios. 

Como se nota, matas, solos, rios e animais possuem uma interdependência muito maior do que nossa “vã filosofia” poderia imaginar. O desaparecimento de qualquer um dos elementos em qualquer uma das partes do sistema terá impactos em outras partes, aparentemente sem qualquer ligação – o grande cientista, escritor e ambientalista Fritjof Capra deixou isso muito claro em seu famoso livro “A teia da vida”. 

Essa é uma teia que envolve e abriga todos nós. 

A IMPORTÂNCIA DAS AVES E DOS BIOMAS

Beija-flor

Quem assistiu ao filme Jurassic Park, de 1993, com certeza deve se lembrar da cena do ataque de um Tiranossauro rex ao grupo de cientistas da instituição de pesquisa. Um dos meus sobrinhos era bem pequeno na época e ficou absolutamente impressionado com a imagem do animal: durante meses, sempre que ele se aproximava de algum adulto da família, ele assumia uma “postura de ataque” e afirmava ser o T-rex. Lembrei disso por que as aves, animais que vamos tratar nesta postagem, são alguns dos descendentes vivos dos extintos dinossauros. Inclusive, de acordo com estudos científicos bem recentes, sabemos que muitas das espécies de dinossauros tinham o corpo recoberto por penas, como ocorre com as modernas aves. Pode até soar hilário, mas o temível T-rex nada mais era do que uma “galinha” gigante.

As aves são um dos grupos animais de maior sucesso evolutivo do planeta – são encontradas em todos os continentes, inclusive na gelada Antártida; em ilhas das mais distantes, perdidas no meio do oceano, em selvas, desertos, estepes, montanhas e em qualquer ecossistema que você possa imaginar, sempre se encontrará alguma espécie de ave, residente ou migratória. Todo esse sucesso se deveu à incrível capacidade de adaptação das aves aos mais diferentes tipos de clima e ambientes – exemplos são os pinguins, aves exímias nadadoras que vivem em regiões do pólo Sul e em ilhas e continentes da região austral. Outro exemplo são os avestruzes, aves corredoras gigantes, encontradas nas savanas e em regiões semiáridas do continente africano. Finalizando, podemos citar os pequenos beija-flores (vide foto), pássaros minúsculos encontrados apenas no continente americano.

Cada uma das espécies animais e vegetais que encontramos vivas por todos os cantos do mundo são um triunfo da evolução – elas prosperaram e sobreviveram enquanto outras tantas, simplesmente, desapareceram ao longo da história. E muito desse triunfo se deveu à capacidade que essas espécies têm de trabalhar em conjunto.  Aves e plantas, particularmente, tem muito em comum.

Na última postagem nós falamos rapidamente do declínio populacional de muitas espécies de aves e do risco de extinção de muitas outras – o avanço das fronteiras agrícolas e a exploração madeireira estão entre as maiores responsáveis por esses problemas. Infelizmente, a redução populacional e a extinção de espécies de aves não são problemas isolados – eles repercutem de diferentes maneiras sobre as espécies vegetais, podendo levar todo um bioma à extinção. Vejam alguns exemplos do que pode acontecer:

Dispersão de sementes: as aves e pássaros (subgrupo onde entram todas as aves que conseguem voar) são fundamentais para dispersão de sementes de uma infinidade de espécies vegetais, o que as tornam fundamentais para a reprodução e manutenção da diversidade genética dessas plantas. Um exemplo que mostramos em uma das postagens dessa série mostrou a relação entre as araucárias e a gralha-azul, uma espécie de ave que come a semente da planta, o pinhão. A gralha-azul enterra os pinhões ou os coloca dentro de nichos de troncos mortos para um consumo futuro – muito desses pinhões são esquecidos e acabam dando origem a novas árvores. Sem a parceria com as gralhas-azuis, a araucárias não teriam prosperado e ocupado uma área tão extensa na região Sul do Brasil. Nas espécies vegetais que produzem frutos com polpa, as sementes são comidas pelas aves junto com a fruta. Após a digestão, quando essas aves já voaram para outros locais, as sementes são eliminadas junto com as fezes das aves, criando assim a possibilidade de germinação e desenvolvimento de novas mudas das plantas, uma outra forma de garantir a sobrevivência da espécie;

Polinização: plantas têm as células reprodutivas masculinas (núcleos espermáticos) e receptores femininos (estigmas) separados – a polinização é o ato de transferência dos grãos de pólen, literalmente os espermatozóides das plantas, para o receptor feminino localizado em uma outra flor ou em outro estigma. Insetos, morcegos, aves e algumas outras espécies de animais realizam esse trabalho para as plantas que, como uma estratégia de atração, oferece algum tipo de alimento como o néctar. Caso a população de aves de um determinado bioma entre em declínio, isso terá reflexos diretos nesse importante trabalho de polinização e muitas espécies vegetais também passarão a ter suas populações reduzidas;

Controle de pragas e de predadores: Além dos frutos, as folhas, caules e raízes das plantas servem de alimento para uma infinidade de seres vivos – caso uma árvore sofra um ataque maciço de cupins, por exemplo, ela corre o risco de desaparecer. As aves realizam um importante trabalho ecológico de controle desses predadores – existem muitas espécies especializadas no consumo de insetos como cupins e formigas, realizando assim um importante trabalho de controle dessas populações de insetos. Caso essas aves desapareçam de uma determinada região, as populações desses insetos se reproduzirão sem controle, ameaçando a sobrevivência de inúmeras espécies vegetais.

Esses três rápidos exemplos mostram a importância das aves para a sobrevivência de um bioma. No caso do Cerrado brasileiro, um bioma que ocupa cerca de 20% do nosso território e que está sofrendo profundos impactos com o rápido avanço das frentes agrícolas, nós não sabemos ao certo quais serão as consequências do desaparecimento de espécies vegetais e animais como as aves e os mamíferos, algo que já está ocorrendo e muito rápido. Grande parte dessa destruição está ocorrendo com espécies que ainda nem foram estudadas ou são conhecidas pela ciência.

Sem a interdependência multimilenar e a sobrevivência conjunta de plantas e animais, corremos um sério risco de transformar grandes áreas do Cerrado em verdadeiros desertos, onde nada viverá – nem plantas, nem animais.

OS IMPACTOS DA AGRICULTURA NA AVIFAUNA DO CERRADO

Pica-pau-do-parnaíba

Uma lembrança bastante nítida, que trago da minha infância, vem do dia em que eu e alguns primos encontramos um ninho de passarinho no meio de uma plantação de amendoim no sítio de um dos meus tios. De acordo com esses primos, que moravam no sítio, era um ninho de tico-tico – havia três ovinhos com uma casca totalmente coberta por pintas marrons. Durante muito tempo fiquei imaginando o destino daquele ninho e de seus ovos: será que eles vingaram e as aves sobreviveram? Os ovos foram destruídos na colheita do amendoim? Algum dos gatos ou cachorros do sítio atacou os filhotes, ou ainda, será que um dos muitos gaviões que viviam nas redondezas fez um lanche, tendo os passarinhos como prato principal do cardápio? Preocupações de criança, porém bastante relevantes. 

Essa história que eu vivi não é, nem de longe, um caso isolado – as fronteiras agrícolas avançam cada vez mais contra as áreas florestais remanescentes em todo o mundo e, com a destruição dos habitats, os animais fogem em busca de outros nichos ecológicos onde possam viver, se alimentar e se reproduzir. Cito um exemplo dessas fugas animais: poucos meses atrás, no município de Itapecerica da Serra, que faz limite com a Zona Sul da cidade de São Paulo, funcionários de uma empresa chegaram para trabalhar e encontraram uma onça parda dentro do escritório; casos semelhantes têm se multiplicado nos noticiários: são jaguatiricas, gambás, cachorros do mato, capivaras, cobras e jacarés que, “repentinamente”, resolvem se aventurar em áreas urbanas.  

Muitas espécies de aves também integram essa lista – na área urbana da cidade de São Paulo, aves como garças, corujas e gaviões, entre muitas outras que havia décadas estavam desaparecidas, agora são vistas na cidade: até os tímidos carcarás, aves de rapina típicas dos sertões, podem ser encontrados hoje nas margens dos poluídos rios paulistanos. E a razão para essa súbita “migração” de animais silvestres para as áreas urbanas de todo o Brasil é bem simples: a destruição dos seus habitats nas matas e florestas, especialmente pelos avanços da agricultura e exploração de madeiras. 

Um estudo recente da Bird Life Internacional, uma ONG – Organização Não Governamental britânica, intitulado “The state of the World’s Birds (O estado dos pássaros pelo mundo) nos dá uma dimensão dos impactos da devastação ambiental mundial na vida dos pássaros. De acordo com o estudo, uma em cada oito espécies de pássaros está em risco de extinção e 40% das espécies, estimadas em aproximadamente 11 mil variedades em todo o mundo, tiveram suas populações diminuídas em diferentes graus. De acordo com dados de uma outra organização, a IUCN, sigla em inglês da União Internacional para a Conservação da Natureza, a lista com as aves sob maior ameaça de extinção inclui um total de 1.469 espécies. A pesquisa da Bird Life, que levou 5 anos para ficar pronta, analisou as diversas interferências humanas no meio ambiente e os respectivos impactos nas populações de aves. A agricultura, tema que estamos explorando nas últimas postagens, é responsável por 74% desses impactos

A exploração madeireira, que muitas vezes precede a implantação de grandes projetos de agricultura, ocupa a segunda posição entre as atividades que mais causam impacto nas populações de aves: cerca de 50% das espécies sob ameaça se encontram nessas regiões. Entre as principais ameaças se incluem também: a caça predatória (35% das espécies), mudanças climáticas (33% das espécies) e a criação de áreas habitacionais e comerciais (28% das espécies). Uma outra frente gravíssima de problemas é a introdução de espécies exóticas de animais em outros habitats que, segundo o estudo, já foi responsável pela extinção de 122 espécies de pássaros. Outras espécies animais que tem causado fortes impactos nas populações de aves são os ratos e outros roedores, que ameaçam cerca de 500 espécies de aves, gatos, responsáveis por ameaças à cerca de 202 espécies, e cães domésticos, que ameaçam cerca de 79 espécies

As atividades agrícolas, como já mostramos, respondem de longe pelas maiores ameaças à sobrevivência das aves. A razão de todo esse impacto é bem conhecida – nos últimos 300 anos, a área total ocupada por atividades agrícolas aumentou cerca de 6 vezes em todo o mundo. Aqui no Brasil, país que tem uma colonização relativamente recente quando comparado a regiões ancestrais da África, Ásia e Europa, a velocidade dos desmatamentos para a formação de campos agrícolas foi bem mais intensa, com fortes reflexos nas populações de animais silvestres. Nas últimas décadas, as áreas do bioma Cerrado foram as mais impactadas pelo avanço das fronteiras agrícolas – no Estado de Minas Gerais, citando um dos exemplos mais críticos, o bioma perdeu cerca de 60% da sua área original nos últimos 50 anos. 

De acordo com estimativas de especialistas, o Cerrado possui, aproximadamente, 10 mil espécies vegetais e mais de 1.300 espécies de animais vertebrados – a área ocupada pelo bioma é muito grande e ainda faltam muitos estudos para que se realize a catalogação completa das espécies. Cerca de 130 das espécies animais do Cerrado, ou cerca de 10%, estão ameaçadas de extinção. Essa lista inclui anfíbios, aves, invertebrados aquáticos e terrestres, mamíferos, peixes e répteis. Segundo as estimativas, no Cerrado são encontradas entre 837 e 935 espécies de aves, conforme a fonte pesquisada, sendo que apenas 150 dessas espécies são específicas do bioma, um fator que reduz o número de espécies sob risco iminente de extinção – as demais espécies também podem ser encontradas em outras regiões e biomas do país

O pica-pau-do-parnaíba (Celeus obrieni), espécie nativa de áreas do Cerrado no Piauí, é exemplo de ave sob forte risco no bioma. A espécie (vide foto) tem hábitos alimentares bastante específicos, com nítida preferência por algumas espécies de formigas que vivem em áreas de taboca, uma espécie de bambu típica do Cerrado na região, e também em áreas cobertas por embaúbas. Com o desaparecimento dessas espécies vegetais devido aos avanços das fronteiras agrícolas, o pica-pau-do-parnaíba corre risco de extinção por falta de alimento. Outra espécie de ave bastante característica de áreas de Cerrado e que está sofrendo uma forte pressão ecológica é a ema (Rhea americana). Essa grande ave, a maior espécie das Américas, tem sofrido com a redução das áreas de campos naturais, seu habitat original. Apesar de conseguir se adaptar à vida em meio às grandes plantações, as emas sofrem com a caça predatória: o animal, que chega a pesar cerca de 30 kg, tem uma carne bastante apreciada pelas populações de algumas regiões. 

Uma outra espécie de ave bastante emblemática é a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), espécie que num passado distante era encontrada em áreas de Cerrado no Piauí e no Tocantins, mas simplesmente desapareceu dessas regiões e, atualmente, só existem alguns poucos exemplares da espécie em áreas da Caatinga, bioma que também abrigava a espécie. De uma beleza singular, a ararinha-azul foi intensamente caçada para venda a criadores de pássaros de todo o mundo, o que, junto com a destruição dos habitats, foi a principal causa do declínio da espécie.  Entidades conservacionistas internacionais estimam que restaram apenas 160 exemplares da espécie no mundo (dados de agosto de 2018), a imensa maioria em coleções de zoológicos estrangeiros. Instituições brasileiras têm realizado intensos esforços para a reprodução de espécimes em cativeiro, com vistas ao repovoamento de antigos habitats em áreas de mata nativa. 

Torçamos para que sobrem algumas áreas nativas de Cerrado para receberem de volta essa magnífica espécie de ave e de muitas outras espécies do bioma ameaçadas de extinção. 

“TOILET”: UMA CRÍTICA DE CINEMA

Toilet

Quem está acostumado a acompanhar as postagens do blog, sabe que falamos dos problemas associados aos recursos hídricos e ao saneamento básico – na atual série de postagens, estamos tratando dos conflitos entre a agricultura e o consumo de água, mostrando os problemas de perda de solos, destruição de matas e avanço das fronteiras agrícolas. Esgoto sanitário, que é minha área de especialização, é um tema recorrente nas publicações. Falar de cinema é algo que foge à normalidade por aqui. Aliás, eu mantenho um segundo blog, NO FUNDO PROFUNDO DO BAÚ, onde falo de filmes, animações e documentários legais perdidos na internet – todos estão convidados a conhece-lo. 

“Toilet” é um filme indiano de 2017, sucesso de público e de bilheteria. A Índia é, de longe, a maior produtora cinematográfica do mundo. Com uma população na casa dos 1,3 bilhão de habitantes, gente essa apaixonada por cinema, o país tem um mercado fabuloso para a produção e lançamento de filmes. Outro fator que estimula uma grande produção cinematográfica é a diversidade étnica, cultural e religiosa da população – o país tem 22 idiomas oficiais e centenas de línguas regionais e dialetos: um mesmo roteiro de cinema é produzido e adaptado para diferentes grupos linguísticos, culturais e religiosos. Assim, a produção de filmes nunca para. 

A trama desse filme se passa numa vila de brâmanes tradicionalistas do Norte da Índia. Esse importante grupo religioso local faz uma leitura bastante ortodoxa dos livros sagrados do hinduísmo, especialmente do Código de Manu, um conjunto de regras que regula a vida religiosa, civil e pessoal dos fiéis. Uma dessas regras, de ordem higiênica, diz que a população não pode defecar nas proximidades de suas casas, uma norma que acaba impedindo a construção de banheiros nas residências (a vila não tem nenhuma casa com banheiro). Os moradores são obrigados a caminhar até as matas nas áreas de entorno da vila para se “aliviar”. Por mais absurdo que tudo isso possa lhe parecer, a trama é baseada em fatos e personagens reais. 

Keshav (Akshay Kumar), um morador local, se apaixona por Jaya (Bhumi Pedenekar), uma jovem universitária de uma outra vila. A família da jovem, apesar de professar a fé brâmane, faz uma leitura mais moderna das escrituras hindus e tem um banheiro em casa. Depois de muitas idas e vindas, Keshav consegue conquistar o coração de Jaya e os dois se casam. Na madrugada da noite de núpcias, já na casa da família de KeshavJaya é acordada por um grupo de mulheres da vila, que a convidam para ir até a mata para defecar (as mulheres locais fazem esse trajeto em grupo todos os dias de madrugada para evitar que sejam espionadas pelos homens e por razões de segurança: essa situação expõe as mulheres a ataques de maníacos sexuais). É nesse momento que Jaya descobre que a sua nova casa não tem um banheiro. Indignada e chocada com a situação, Jaya ameaça pedir o divórcio caso não seja construído um banheiro na casa. 

Filho de um sacerdote brâmane, que inclusive é um dos líderes da vila, Keshav vai ter de enfrentar toda uma sequência de problemas na sua luta para conseguir construir o banheiro e tentar salvar seu casamento. O jovem chega a construir um banheiro no quintal da sua casa – um grupo de religiosos liderados pelo próprio pai, que não aceitam a ideia, faz a demolição da construção. Sem outra alternativa, Keshav acaba recorrendo em petição às autoridades sanitárias do país que, de acordo com a legislação, têm autoridade legal para construir banheiros públicos nas vilas, independentemente da orientação religiosa dos seus líderes. Apesar da temática não ser uma das mais agradáveis, o filme mostra todo esse drama social com muito humor. 

A defecação a céu aberto é um dos grandes problemas de saúde pública na Índia e em muitos outros países do mundo. A ONU – Organização das Nações Unidas, calcula que cerca de 2,5 bilhões de pessoas no planeta não dispõem de instalações sanitárias e estipulou o dia 19 de novembro como o “Dia Mundial do Banheiro”, com o objetivo de destacar a importância do saneamento básico na vida das pessoas. De acordo com dados do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, 130 mil crianças indianas morreram de diarreia na Índia em 2013, o que corresponde a quase um quarto dessas mortes em todo o mundo. Hábitos culturais e religiosos, machismo e até mesmo o sistema de castas, que divide a população em diferentes estratos sociais, estão na raiz do problema no país.  

Na Índia, são muito comuns os casos onde a população até dispõe de banheiros públicos nas vilas, mas se recusa a utilizá-los, continuando a defecar nas matas. Em 2014, o Governo da Índia lançou um programa para a construção de 60 milhões de banheiros no país até 2019. Apesar de inúmeras denúncias de desvio de dinheiro nessas obras públicas (algo que nós brasileiros conhecemos muito bem), o programa prossegue. O Governo, inclusive, foi um dos grandes apoiadores da produção cinematográfica. E as repercussões e críticas ao filme foram as melhores – Bill Gates, fundador da Microsoft e presidente da Fundação Bill e Melinda Gates, declarou que Toilet” foi um dos melhores acontecimentos de 2017

Se você gosta de cinema e tem interesse na área de recursos hídricos e saneamento básico, vale a pena assistir “Toilet”. O serviço de streaming Netflix acaba de disponibilizar a produção, com áudio original em hindi e legendas em português. Você vai rir muito com as situações inusitadas e reconhecer muitos problemas ligados ao tema que também ocorrem aqui no Brasil. Também terá a oportunidade de conhecer o surpreendente e fascinante mundo do cinema indiano.

Veja o trailer do filme:

A REDUÇÃO DOS CAUDAIS DO RIO SÃO FRANCISCO

Seca no rio São Francisco

Uma das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras é a do rio São Francisco, ou simplesmente, o nosso bom e Velho Chico. Se você fizer uma pesquisa nos arquivos aqui do blog, vai descobrir que o Velho Chico é campeão absoluto em postagens, o que, de alguma maneira, demonstra a importância que damos a este rio. Entre outros problemas, como assoreamento, poluição, redução de espécies de peixes e obstáculos à navegação, a redução dos caudais do rio São Francisco é talvez o mais alarmante. A destruição de áreas do bioma Cerrado, especialmente pelo avanço das fronteiras agrícolas, está entre as principais causas dessa redução do seu volume de águas. 

A bacia hidrográfica do São Francisco, rio que tem uma extensão total de 2.830 km, abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica interessante da bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras. 

O Rio São Francisco nasce, oficialmente, no município de Medeiros na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Em regiões de serra, especialmente nos domínios do Cerrado, existem inúmeros vertedouros de água ou nascentes nas encostas, que vão se juntando e formando diversos rios importantes do Brasil. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado por muitos de “berço das águas”, assunto que tratamos em postagem anterior. 

Bem à moda mineira, o Rio São Francisco desce discretamente as encostas da Serra da Canastra recebendo contribuições de inúmeros pequenos cursos de água e, conforme vai ganhando corpo e volume, vira para o Norte, na direção do Estado da Bahia. Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, será um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda, com destaque para alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitaí, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia.  

No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco que já estão chegando ao Estado da Paraíba, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará  e do Rio Grande do Norte – apesar de não ser a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, o São Francisco tem a mais importante pelo “conjunto da obra”. 

A cobertura vegetal do Estado de Minas Gerais vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. O avanço da fronteira agrícola nas últimas décadas, onde destacamos as culturas da soja e do milho, acelerou enormemente esse processo e os seus reflexos no rio São Francisco são evidentes (vide foto). É importante lembrar que a preservação da cobertura vegetal é fundamental para a proteção das nascentes e essencial para a recarga dos aquíferos. Dos três biomas originais do Estado de Minas Gerais, o Cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas do Cerrado e as acentuadas perdas de área dessa vegetação é o fator que mais produz reflexos negativos no rio, notadamente a redução dos volumes de água em nascentes desse bioma. 

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas, são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Eles são, simplesmente, as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica – o Velho Chico, pela imensa população das cidades e regiões que dele dependem, pelo clima e aridez de grande parte das terras que atravessa e também pela sua importância na história e na economia do Brasil, merece destaque entre todos os demais rios brasileiros. 

Apesar de tudo isso, o Velho Chico é um dos mais maltratados rios brasileiros, sofrendo de todos os tipos de males: desmatamento de matas ciliares – especialmente a perda das famosas veredas dos contos de Guimarães Rosa, contaminação das suas águas com rejeitos de um sem número de mineradoras, despejo de esgotos in natura e de todos os tipos de resíduos, assoreamento intenso, represamento das águas para geração de eletricidade, além do uso cada vez maior de suas águas para alimentar sistemas de irrigação. Como se não bastasse isso tudo, observa-se nitidamente uma mudança climática que está alterando os padrões de chuva em parte da sua bacia hidrográfica, que recebe cada vez menos água para alimentar um rio cada vez mais explorado – o resultado é um corpo d’água cada vez mais seco e enfraquecido, cada vez mais necessário para o abastecimento e usos na região com menor disponibilidade de recursos hídricos do país. 

A sobrevivência do rio São Francisco dependerá, em grande parte, de trabalhos técnicos para a preservação e recuperação de áreas florestais em regiões de nascentes, de veredas, matas de galeria e ciliares – especialmente na região do Cerrado. Isso demonstra, de forma cristalina, o quão importante é o bioma Cerrado e serve de alerta para a sua preservação. 

OS RIOS INTERMITENTES DO NORTE DO ESTADO DE GOIÁS

Lata d'água na cabeça

Vamos começar a postagem de hoje com uma rápida definição para rio intermitente ou temporário: são corpos d’água que durante o período das chuvas (ou época das cheias) apresentam volumes de água normais em suas calhas e que, durante o período da estiagem ou de seca, apresentam-se completamente secos. Na região do Semiárido brasileiro existem inúmeros exemplos de rios desse tipo. Já os rios perenes, a imensa maioria dos rios brasileiros, são aqueles que nunca secam completamente, mesmo nos períodos de seca intensa. 

O bioma Cerrado tem como clima predominante o Tropical Sazonal, com temperaturas médias anuais próximas dos 23º C e precipitação média entre 1.200 e 1.800 mm. Nos meses de primavera e verão, entre outubro e março, a região apresenta um clima chuvoso. Já nos meses de outono e inverno, entre abril e setembro, o bioma apresenta um clima extremamente seco, porém, diferentemente da região do Semiárido, os rios do Cerrado são perenes, com rios apresentando bons volumes de água neste período seco. Essa característica hídrica do Cerrado está apresentando mudanças visíveis em algumas regiões. 

No Norte do Estado de Goiás, vários rios e córregos passaram a ficar completamente secos ou com níveis de água extremamente baixos no período das secas. Nesta região de Goiás, onde os rios sempre foram perenes, o fenômeno passou a ser observado nos últimos dez anos. Populações que sempre dependeram das águas destes rios e córregos, agora têm enfrentado sérios problemas. Um exemplo é o rio do Ouro, que atravessa o município de Porangatu. 

Considerado um dos mais importantes corpos hídricos da região, o rio do Ouro passou a apresentar seu leito completamente seco durante o período da estiagem, que mais parece um caminho de areia e pedras. Até o ano de 2010, o rio era considerado perene, apresentando água durante todo o ano. De lá para cá, todos os anos, o rio passou a secar completamente no período da estiagem. O fenômeno do rio do Ouro não é um caso isolado – existem ao menos dez rios no Estado de Goiás que estão apresentando exatamente o mesmo comportamento. O córrego Bom Sucesso, na mesma região do rio do Ouro, também tem se transformado num caminho de areia e folhas secas nos períodos de estiagem. Na cidade de Goiás, os rios Bacalhau e Bagagem estão se comportando como intermitentes desde 2008; desde a mesma época, os rios Santa Maria e Correntes, na região de Flores de Goiás, Formosa e Alvorada do Norte, também passaram a ser intermitentes. 

O abastecimento de água na cidade de Porangatu, apesar da situação crítica, ainda não foi afetado porque a captação é feita em um outro rio da região que ainda se mantém com características de um rio perene. Os moradores da região, que sempre contaram com água corrente durante todo o ano, agora esperam ansiosamente pela chegada do período das chuvas, algo comum entre os nordestinos da região do Semiárido e inédito no Cerrado. As temperaturas nos períodos da seca têm ficado próximas dos 40° C, as mais altas registradas no Estado de Goiás, e com níveis de umidade do ar próximos dos 10%, o que é considerado um clima de deserto.  

O rio do Ouro se forma a partir de pequenos cursos de água que nascem em regime de enxurrada na Serra do Paranã, que sem as chuvas, desaparecem. De acordo com as autoridades locais, este é um fenômeno natural que se repete em intervalos regulares – a intensidade deste fenômeno, porém, está preocupando muita gente. Especialistas afirmam que a derrubada de matas no campo e nas margens dos rios da região estão na raiz do problema. Conforme já comentamos em postagem anterior, são as raízes da vegetação do Cerrado que favorecem a infiltração da água no solo – a vegetação dificulta o escoamento superficial da água durante o período das chuvas, facilitando e aumentando o tempo que a água tem para infiltrar no solo.  

Com o avanço da fronteira agrícola nessa região de Goiás nas últimas décadas, grande parte da vegetação nativa foi derrubada para a implantação de grandes plantações de soja e milho, além da formação de pastagens para o gado. Essa “nova” vegetação é muito rala e apresenta raízes muito superficiais, o que vem dificultando cada vez mais a infiltração da água e reduzindo cada vez mais a produção de água nas nascentes. Vale lembrar que o Cerrado é o “berço das águas” do Brasil – as mais importantes bacias hidrográficas brasileiras têm nascentes na região: rios Tocantins/Araguaia, Paraná e São Francisco. 

O Professor Altair Sales Barbosa, diretor do Instituto do Trópico Subúmido e professor da PUC – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, reitera estas informações, afirmando que, com o desmatamento e a redução da vegetação nativa, a água não está conseguindo alcançar as regiões mais profundas para reabastecer os aquíferos, que chegaram ao nível mínimo e não estão conseguindo abastecer as nascentes: 

“A quantidade de água existente nesses aquíferos já chegou ao seu nível mínimo. É como se fosse uma caixa d’água com vários furos. Os furos são as nascentes. Quando ela está cheia, a água sai por muitos furos. Conforme vai esvaziando, vai saindo nos furos mais inferiores, até chegar ao último furo e há um momento em que não sai mais. Estamos em um momento em que [a água] está saindo, mas de maneira muito rudimentar, menor do que saía há 20, 40 anos.” 

A agricultura intensiva causa um outro forte impacto nos rios da região – grandes quantidades de água são retiradas dos rios para a irrigação das lavouras. Sem uma gestão adequada dos volumes retirados, existem grandes desperdícios e uma parcela importante da água se perde por evaporação. Com quantidades cada vez menores de caudais nos rios e com retiradas de água cada vez maiores para os mais diversos usos, acontece o óbvio: os rios secam (literalmente, ficam zerados). 

Essa situação “inédita” está tendo um forte impacto entre os sitiantes e moradores das margens, que sempre dependeram e contaram com a água desses rios para sobreviver e que agora precisam procurar outras fontes de abastecimento. Para a fauna local, não acostumada com o desaparecimento da água, a seca pode significar a morte. Espécies de animais da região do Semiárido, onde é comum a presença de rios intermitentes, estão melhor adaptadas para estas situações e tiveram milhares de anos para desenvolver mecanismos de adaptação para períodos de seca extrema – as espécies do Cerrado são adaptadas para tolerar o clima seco dos períodos de estiagem, porém, como sempre dispuseram de fontes de água permanentes, não se adaptam à falta contínua de água. 

É um fenômeno preocupante que, dada a contínua e intensa destruição dos últimos fragmentos de matas originais do Cerrado, tende a se agravar e passar a ser observada em outras regiões do bioma. 

O RISCO DE “DESAPARECIMENTO” DO RIO ARAGUAIA

Rio Araguaia

Conforme estamos comentando em nossas postagens, o bioma Cerrado vem sofrendo uma intensa devastação nas últimas décadas. Um dos principais responsáveis por toda essa devastação ambiental foi o avanço da fronteira agrícola no bioma. Entre as culturas agrícolas que mais prosperaram na região, uma tem nome e sobrenome: a soja Doko. E uma das vítimas mais evidentes desse intenso processo de devastação ambiental são os rios da região – o rio Araguaia, o mais importante curso d’água do Brasil Central, é uma prova viva das consequências desastrosas desse grande problema. 

O rio Araguaia nasce no Estado de Goiás, onde faz a divisa com o Estado de Mato Grosso. Depois, o rio segue rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso, e depois a divisa dos Estados do Maranhão e do Pará, até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Um estudo publicado em 2014 pela DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado, o que vem ocorrendo desde a década de 1950, mas que aumentou substancialmente nos últimos anos devido ao avanço das fronteiras agrícolas.  

Os solos do Cerrado sempre foram considerados muito pobres e extremamente ácidos para o cultivo em larga escala. O primeiro passo para a solução desses problemas foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. O grande salto da agricultura na região se deu mesmo em 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. A estimativa de produção da safra 2018 da soja é de mais de 118 milhões de toneladas, com uma área plantada de aproximadamente 34 milhões de hectares, o que mantém o Brasil como o segundo maior produtor mundial da oleaginosa, muito próximo de alcançar o primeiro colocado, os Estados Unidos

Todo esse sucesso, que faz a alegria dos grandes produtores e proporciona enormes saldos comerciais na balança de exportações do país, teve um alto custo ambiental, que pouco a pouco começa a enviar a “fatura” para todos nós: calcula-se que metade da vegetação nativa do Cerrado sucumbiu ao avanço da agroindústria – a forte redução dos caudais que passamos a observar nos rios da região no período da seca, inclusive com alguns rios secando completamente, é uma das consequências mais visíveis de todo este desmatamento. As árvores e arbustos raquíticos do Cerrado, conforme comentamos em postagem anterior, não nos impressionam à primeira vista, especialmente quando comparados à vegetação de grande porte da Amazônia e da Mata Atlântica; é inclusive corriqueiro se confundir a vegetação do Cerrado com a Caatinga. Essa vegetação nativa, porém, é fundamental para a recarga dos aquíferos da região. 

As árvores e arbustos do Cerrado possuem enormes e profundos sistemas de raízes, adaptadas para captar a água em grandes profundidades no subsolo – é esse sistema radicular o responsável pela infiltração de grandes volumes de água no solo no período das chuvas, contribuindo assim para a recarga dos depósitos subterrâneos. Quando a temporada das chuvas se encerra, serão estes lençóis e aquíferos que fornecerão a água para as nascentes dos riachos e rios que brotam por todos os cantos do Cerrado, acertadamente chamado de Berço das Águas do Brasil

Com o corte sistemático da vegetação do Cerrado e o plantio da soja, do milho ou da grama usada na formação das pastagens para os rebanhos, grande parte desse mecanismo de recarga dos aquíferos foi interrompido – essas plantas possuem raízes muito curtas e não permitem a infiltração de grandes volumes de água no solo. O resultado é um aumento na velocidade superficial da água das chuvas sobre o solo, carreando grandes volumes de sedimentos e areia, que acabam lançados nas calhas dos rios, e uma redução contínua do volume de águas armazenados no subsolo. No período das chuvas, os rios ficam sujeitos a fortes enchentes; na época da seca, pela grande redução dos volumes de água armazenada no subsolo, os rios definham – alguns rios do Norte do Estado de Goiás, inclusive, passaram a se comportar como rios intermitentes como aqueles do Semiárido nordestino. 

Com nascentes na Serra do Caiapó, o Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior (vide foto). Com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no sul do Estado do Pará em 1984, que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem peixe a rio sem água, foi um “pulo”. A redução sistemática dos caudais do rio, que na época da seca mais parece um córrego do que um rio em muitas regiões, tem afetado a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. Agora, com o rio apresentando bons volumes de água apenas nos períodos das chuvas, vivem numa espécie de “trabalho em meio período”, o que não é bom para ninguém. 

Preocupações com a devastação ambiental no Araguaia existem desde o final da década de 1970, quando o rio tinha o apelido de “lixão” devido ao despejo de grandes quantidades de resíduos sólidos, tanto pelas cidades quanto pelos turistas, que corriam para a região em busca dos peixes e deixavam todo o seu lixo nos locais dos acampamentos. Uma das primeiras iniciativas com fins de preservação do rio Araguaia foi a criação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (hoje ligado ao ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que mantém, entre outros, o Projeto Quelônios do Araguaia. Também surgiu Projeto Araguaia Sustentável, realizado há mais de 27 anos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, além de inúmeras iniciativas de organizações não governamentais em toda a bacia hidrográfica.  

Todas essas maravilhosas iniciativas, infelizmente, correm o risco de se tornar inócuas caso o rio Araguaia continue em sua marcha rumo ao desaparecimento. 

OS GRANDES AQUÍFEROS DO BIOMA CERRADO

Aquíferos do Cerrado

Em nossa última postagem falamos da importância da vegetação do bioma Cerrado na recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos de água. Caracterizada por possuir grandes sistemas de raízes, muitas vezes bem maiores do que a parte visível da planta na superfície, a vegetação do Cerrado passou por um longo processo evolutivo, adaptando-se perfeitamente às condições dos solos e às reservas de água subterrâneas. Nos períodos de seca, essas raízes longas permitem que as plantas captem a água armazenada a grandes profundidades no solo; quando chega o período das chuvas, essas raízes facilitam a infiltração da água no solo, permitindo a recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos. Esse sistema natural de armazenamento de água no Cerrado brasileiro é fundamental para a alimentação de algumas das mais importantes bacias hidrográficas do país

Aquíferos são formações ou grupos de formações geológicas constituídas por rochas porosas e permeáveis que permitem o armazenamento de grandes volumes de águas das chuvas – essas águas alimentam as nascentes de rios e também podem ser captadas em poços semi-artesianos e artesianos para abastecimento de populações humanas. Apesar de serem apresentados sempre no singular, essas formações são agrupadas na forma de sistemas de aquíferos interligados, que se estendem por grandes áreas geográficas. A região do Cerrado brasileiro possui três grandes e importantes aquíferos: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani.  

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais, porém, sua área natural de recarga abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. Está inserido dentro da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, alimentando nascentes de importantes afluentes do rio. As águas desse aquífero são consideradas de boa qualidade e se encontram em profundidades entre 50 e 100 metros. Poços de captação retiram grandes volumes de água deste aquífero para uso no abastecimento de diversos municípios no Norte de Minas Gerais e no Sul da Bahia. 

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². Este sistema de aquíferos têm importância fundamental na regularização da vazão de rios que nascem na região e que correm na direção do Rio São Francisco e que são fundamentais para o abastecimento de cidades e uso em sistemas de irrigação. 

As águas dos aquíferos Urucuia e Bambuí são estratégicas para a Região do Semiárido, pois são elas que garantem a perenização de importantes rios da região em épocas de seca prolongada, quando diversos rios menores literalmente secam. Uma característica importante deste sistema de aquíferos é que suas águas se concentram em baixas profundidades e estão sujeitas a contaminação por atividades agropecuárias e destruição da vegetação nativa, o que também compromete a recarga de águas. Outra fonte importante de problemas é a superexploração das águas para fins de irrigação, especialmente na região do Cerrado baiano, uma das frentes agrícolas que mais tem crescido nos últimos anos. 

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da região amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos

Oito Estados brasileiros abrigam trechos do aquífero Guarani: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas áreas de ocorrência do aquífero no Brasil, que compreendem 70% da área total da formação, vive uma população estimada em, pelo menos, 30 milhões de habitantes (o mapeamento da área total do aquífero é atualizada constantemente). O aquífero tem 50% de sua extensão em terras brasileiras concentrada em áreas do Cerrado.

Cidades do interior de São Paulo são as maiores utilizadoras de águas captadas no aquífero Guarani, a exemplo de Ribeirão Preto, cidade que retira toda a água utilizada para seu abastecimento de poços alimentados pelo aquífero. Aqui eu coloco um testemunho pessoal: meus avós e tios eram sitiantes em Lutécia, um município da região Oeste do Estado de São Paulo, região onde existem inúmeros afloramentos do aquífero Guarani: no sítio do meu avô existiam, pelo menos, 5 nascentes de água, que saía do solo aos borbotões – era uma imagem maravilhosa (uso o tempo passado por que meus avós são falecidos e o sítio foi vendido para um vizinho). 

Os aquíferos são reservas de água estratégicas, responsáveis pelo fornecimento de até 90% das águas que formam os caudais dos rios da região do Cerrado, especialmente na época da estação da seca. Apesar de serem aparentemente abundantes, as águas dos aquíferos dependem da recarga periódica nas estações das chuvas, quando a vegetação natural do Cerrado permite a infiltração da água no solo. A substituição intensa da vegetação nativa por plantações, especialmente de soja e milho, aumenta grandemente o fluxo de águas na superfície do solo, levando à grandes perdas por evaporação em prejuízo aos aquíferos, provocando reduções importantes na produção de água nas nascentes das bacias hidrográficas da região.  

É fundamental que se encontre um ponto de equilíbrio entre as atividades agropecuárias e a preservação das matas nativas do Cerrado como forma de se garantir a tradicional abundância das águas na região. A redução das reservas de água desses aquíferos colocará tanto a produção agropecuária quanto a vazão de importantes bacias hidrográficas no mais completo colapso. 

Infelizmente, alguns sinais desse colapso já são visíveis – nós falaremos disso na próxima postagem.