O ACIDENTE NUCLEAR DE CHERNOBYL

Chernobyl

Na noite entre os dias 25 e 26 de abril de 1986, durante um desastrado teste de segurança, o reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl explodiu e criou o maior acidente deste tipo na história. Além de contaminar imediatamente centenas de pessoas e provocar a morte de algumas pessoas, a radiação e os materiais radioativos liberados na atmosfera contaminaram centenas de milhares de pessoas que viviam dentro de uma vasta região da Ucrânia, então uma das Repúblicas da União Soviética e sede da Usina, além de atingir áreas da Bielorrússia e da Rússia. 

Os ventos espalharam material radioativo para a Escandinávia e diversos países do Leste da Europa. O Governo Central soviético escondeu o acidente do resto do mundo por vários dias, porém, os países vizinhos começaram a detectar níveis de radiação anormais no ar e nos solos, o que forçou os russos a finalmente admitir o acidente. Alegando razões de segurança, os russos não permitiram o acesso imediato de especialistas internacionais e nem aceitaram ajuda de países estrangeiros. Até os dias de hoje existem inúmeras perguntas sem respostas sobre o que realmente aconteceu naquela noite. 

O programa nuclear soviético foi iniciado em 1943 e tinha como principal objetivo o desenvolvimento de uma bomba atômica para uso na Segunda Guerra Mundial. Assim como os americanos, os serviços de inteligência soviéticos já sabiam da existência do programa nuclear da Alemanha nazista. Os cientistas alemães chegaram muito próximos de concluir seus objetivos – alguns especialistas afirmam que ao terminar a Guerra, os alemães estavam a apenas seis meses de concluir sua bomba atômica, o teria mudado completamente os rumos do mundo. Com a derrota da Alemanha, muitos cientistas alemães foram capturados pelos russos e “convidados” a trabalhar em seus próprios projetos. 

O “Laboratório n° 2”, que em 1960 passou a ser conhecido como Instituto Kurtchátov, foi o berço de inúmeros avanços na área da energia nuclear da União Soviética: em 1944, construiu o primeiro ciclotron do país e em 1946 inaugurou o primeiro reator nuclear da Europa. Em 1949, construiu a primeira bomba termonuclear e também a primeira usina nuclear do mundo – Obninsk, em 1954. Nos anos seguintes desenvolveu pequenos reatores nucleares para uso em navios e submarinos da esquadra soviética. 

A Usina Nuclear de Obninsk, cidade localizada a 100 km de Moscou, foi transformada pela gigantesca máquina de propaganda soviética num dos maiores triunfos da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O tipo de reator usado nessa usina, RBMK – Reator Canalizado de Alta potência na sigla em russo, utilizava um sistema de refrigeração a água, que circulava através de canaletas dentro de blocos de grafite. Apesar de funcional, esse modelo de reator nuclear apresenta uma série de problemas de segurança, especialmente de instabilidade quando opera com baixos níveis de energia. O reator que explodiu na Usina Nuclear de Chernobyl era derivado desse projeto. 

O Complexo Nuclear Vladimir Ilich Ulianov – nome completo do grande líder russo Vladimir Lenin, mais conhecido no mundo como Usina Nuclear de Chernobyl, começou a ser construído nessa localidade da Ucrânia em 1972. Em função da construção da Usina, foi iniciada a construção da cidade de Pripyat nas proximidades, com o objetivo de alojar os trabalhadores e seus familiares. O primeiro reator nuclear começou a operar comercialmente em 1978. Os reatores nucleares 2, 3 e 4 iniciaram suas operações, respectivamente, em 1979, 1981 e 1983. O projeto original previa a construção de 12 reatores nucleares até o ano de 2010. Até 1986, ano em que ocorreu o acidente, a Usina tinha uma capacidade de produção de 1 mil MW e respondia por 10% da geração de energia elétrica da Ucrânia. 

Há um detalhe bastante importante – a decisão pela construção da Usina Nuclear nessa localidade da Ucrânia partiu dos planejadores estatais do Kremlin, que se baseavam em aspectos puramente econômicos e geográficos. Nenhum ucraniano foi consultado sobre o projeto ou qualquer estudo de impacto ambiental sequer chegou a ser cogitado. O Estado soviético precisava de recursos energéticos para o seu funcionamento e a República Socialista da Ucrânia “sentia-se honrada” em contribuir, cedendo “espontaneamente” seu território para a Mãe Rússia. Era mais ou menos assim que as coisas funcionavam dentro da chamada “Cortina de Ferro”. 

Falando de uma forma muito, mas muito simplificada, as usinas nucleares funcionam a partir de um processo de destruição controlada de elementos radioativos como o urânio. Esse processo, chamado de “fissão nuclear”, libera grandes quantidades calor, que é usado na geração de vapor de água. Por fim, esse vapor aciona turbinas onde estão ligados os geradores elétricos. Todo esse processo depende de um sem número de dispositivos de segurança e controle, sistemas que evitam a ocorrência de uma catástrofe nuclear semelhante a explosão de uma bomba atômica. 

No modelo de reator nuclear usado na Usina de Chernobyl, o principal dispositivo de segurança era o sistema de circulação de água para o resfriamento das células de combustível, onde era necessária a circulação de 28 toneladas métricas de água a cada hora. As bombas que realizavam a circulação da água eram alimentadas pela energia elétrica gerada pelo próprio reator nuclear. Em caso de falha no funcionamento do reator, dois geradores diesel elétricos deveriam entrar em funcionamento, garantindo assim o resfriamento contínuo das células de combustível. 

Desde a inauguração do primeiro reator nuclear em 1979, os técnicos e engenheiros da Usina tinham dúvidas sobre o tempo de acionamento desses geradores diesel elétricos e a continuidade do bombeamento da água para refrigeração do reator. Foi justamente durante a realização de um teste nesse sistema em 1986, que houve uma falha geral no sistema de resfriamento do reator, levando a uma grande explosão. Essas falhas envolveram tanto erros no projeto dos equipamentos quanto nos procedimentos operacionais dos técnicos da Usina. 

As consequências do desastre de Chernobyl poderiam ter sido menores caso não tivessem acontecido atrasos na comunicação às autoridades superiores. O diretor da Usina demorou para notificar seu superior em Moscou, que por sua vez demorou a informar ao Conselho de Energia Nuclear Soviético. Esse último, por sua vez, adiou enquanto pode a comunicação ao supremo líder Mikhail Gorbatchov. Somente 36 horas após a explosão do reator é que foi dada a ordem de evacuação dos 50 mil moradores que viviam num raio de 10 km da Usina.  

Com as dificuldades para o controle do incêndio do reator, outras 68 mil pessoas que moravam num raio de 30 km de Chernobyl também tiveram de ser evacuadas. Com a dispersão de materiais radioativos pelos ventos, outras 135 mil pessoas tiveram de ser evacuadas ao longo de um ano. Até o ano 2000, cerca de 350 mil pessoas já haviam sido evacuadas de áreas contaminadas por radiação e reassentadas em outras regiões. A imagem que ilustra essa postagem, feita recentemente pelo fotógrafo Andrew Leatherbarrow nas ruinas de uma escola em Pripyat, mostra o acidente na visão de uma criança.

De acordo com informações oficiais, não muito confiáveis na minha opinião, 237 pessoas foram expostas a grave radiação por causa do acidente, sendo que 31 morreram nos primeiros três meses. Estimativas extra oficiais calculam que cerca de 4 mil dos 500 mil moradores que residiam nas áreas atingidas pela nuvem de radiação podem ter desenvolvido câncer. Estudos realizados pela ONU – Organização das Nações Unidas, estimam o número de mortes ligadas ao acidente entre 9 mil e 16 mil

Os trabalhos de evacuação de moradores, isolamento da usina e descontaminação de áreas envolveram mais de 500 mil trabalhadores, principalmente das forças armadas, e tiveram um custo de 18 bilhões de rublos soviéticos. Muitos analistas políticos internacionais afirmam que o acidente com a Usina Nuclear de Chernobyl ajudou a acelerar o desmoronamento da União Soviética. 

Cerca de 100 mil km² de solos da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram contaminados com “cinzas nucleares” de Chernobyl e ficarão imprestáveis para usos agrícolas e pastoris por milhares de anos. Níveis bem menores de radiação atingiram toda a Europa, a exceção de Portugal e Espanha. Eu lembro de notícias da época que falavam de traços de radioatividade encontrados em pacotes de leite em pó importados da Holanda e vendidos em supermercados aqui no Brasil logo após esse acidente. Isso nos dá uma ideia dos impactos da radiação no meio ambiente no médio e longo prazo. 

Continuaremos na próxima postagem. 

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