ÁGUA E GERAÇÃO DE ENERGIA

Itaipu

Em uma postagem recente, quando apresentamos um balanço sobre as chuvas de verão em São Paulo, falamos rapidamente sobre o baixo nível de parte dos reservatórios das usinas hidrelétricas, um problema que pode ameaçar o abastecimento de energia elétrica no Brasil. Como é do conhecimento de todos, a maior parte da energia elétrica usada no país vem das usinas hidrelétricas e dependemos sempre de boas temporadas de chuvas para encher esses reservatórios e garantir a geração contínua de energia. 

Nos últimos anos, entretanto, vem sendo difícil manter um adequado equilíbrio entre a oferta e a demanda de energia elétrica – o consumo de eletricidade pelos brasileiros não para de crescer, enquanto que a oferta de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas se mantém estagnada. Para conseguir atender a toda essa demanda, as usinas hidrelétricas precisam trabalhar a pleno vapor, “gastando” grande parte da água dos seus reservatórios. Nos períodos de seca, as autoridades do setor elétrico são obrigadas a ligar todo um conjunto de usinas termelétricas, alimentadas a carvão, gás e óleo combustível, para conseguir manter a produção de eletricidade no país até a chegada de um novo período de chuvas e o início do processo de enchimento dos reservatórios. 

O problema é que, de alguns anos para cá, o período anual de chuvas não tem sido suficiente para conseguir recuperar os níveis de grande parte dos reservatórios das usinas hidrelétricas. E como a geração de energia elétrica por outras fontes renováveis como a solar e a eólica ainda são muito pequenas no país, o Brasil tem ficado cada vez mais refém das usinas termelétricas, uma fonte de geração cara e muito poluente. Para completar o quadro, as restrições ambientais e as dificuldades para se conseguir o licenciamento de grandes usinas hidrelétricas com formação de lagos não é nada fácil. Esse é um assunto muito importante e vale a pena dedicarmos algumas postagens a esta questão. 

Vamos começar falando de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do Brasil, responsável pela geração de, aproximadamente, 15% de toda a energia elétrica consumida no país e por 90% do consumo do Paraguai, nosso vizinho e sócio no empreendimento. A energia de Itaipu é lançada no Sistema Interligado Brasileiro, sendo distribuída para todo o país através das empresas Furnas Centrais Elétricas e COPEL – Companhia Paranaense de Energia, sob coordenação do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. 

Itaipu iniciou suas operações em maio de 1984 e, em quase 35 anos de operação, já gerou mais de 2,6 bilhões de MWh, emergia que seria suficiente para iluminar todo o mundo por cerca de 40 dias. A produção anual média de Itaipu nos últimos anos está na casa de 98,5 milhões MWh – em 2016, a hidrelétrica atingiu a marca histórica de 103,1 MWh. A única outra usina hidrelétrica do mundo que consegue chegar próxima desses volumes de produção é a chinesa Três Gargantas, que ainda não está em plena operação. Quando estiver em pleno funcionamento, Três Gargantas terá uma produção de energia elétrica 60% maior que Itaipu.

A decisão para a construção de Itaipu se deu nos gabinetes de Brasília na década de 1970, no auge do chamado Período Militar. Preocupados com a demanda de energia do país na época e no futuro, os tecnocratas do Governo convenceram os Generais da viabilidade da construção de uma gigantesca barragem no rio Paraná, na divisa entre o Brasil e o Paraguai. Naquela época, questionar uma decisão com esta envergadura representava, no mínimo, uma longa estadia numa das muitas prisões nos chamados “porões da ditadura”. Falar em impactos e danos ao meio ambiente então, seria algo criminoso pelos padrões da época. 

A negociação com o Paraguai, país que compartilha com o Brasil as águas do rio Paraná no trecho da obra, foi um dos únicos obstáculos ao avanço do empreendimento. Também governado por uma ditadura militar e “dono” de uma eloquente pobreza, o Paraguai rapidamente foi dominado pelo “canto da sereia” dos brasileiros. O Brasil se comprometeu a pagar a conta da construção de Itaipu e, em troca da sessão de suas águas e território, o Paraguai se transformaria em “sócio”, com direito a 50% da usina hidrelétrica, o que foi um excelente negócio para os nossos vizinhos.  

Um dos momentos mais marcantes e dramáticos da história do rio Paraná, que foi justamente quando ele passou a ser conhecido brevemente por todo o mundo, se deu quando as comportas da Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas em 27 de outubro de 1982 e o enchimento do lago da represa encobriu o Salto das Sete Quedas após 14 dias. Consideradas as maiores cachoeiras do mundo em volume d’água, com o dobro do volume das Cachoeiras do Niágara na divisa dos Estados Unidos e Canadá, e com dez vezes o volume das Cachoeiras de Vitória, na Zâmbia, as Sete Quedas desapareceram sob as águas barrentas do lago.  

A comoção nacional criada pelo fim das Sete Quedas na época acabou resultando em um número crescente de visitantes ao Parque Nacional localizado na cidade de Guaíra. O público correu em massa para o rio Paraná para se despedir das famosas e inigualáveis cachoeiras. No dia 17 de janeiro de 1982, a superlotação de uma passarela de acesso a uma das quedas d’água, resultou na ruptura da estrutura de concreto e centenas de pessoas caíram nas águas – 32 pessoas morreram no acidente. A tragédia teve grande repercussão nos meios de comunicação, mas pouca coisa agregou ao inevitável drama final das Sete Quedas. 

O lago que foi formado com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu tem espelho máximo de 1.350 km², mais que 3 vezes maior do que a Baía da Guanabara. Esse lago abrange áreas de quinze municípios paranaenses e um sul-mato-grossense, além de diversas cidades no lado paraguaio. O lago de Itaipu mudou radicalmente a geografia humana e econômica de uma extensa região. Infelizmente, a construção da barragem não inclui uma eclusa, algo que possibilitaria a interligação fluvial das hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná, algo que teria um profundo impacto econômico regional. Recentemente, a Itaipu Binacional contratou uma empresa francesa para realizar estudos para a construção dessa eclusa. 

Diferente da maioria das usinas hidrelétricas brasileiras, Itaipu é alimentada pelas águas do poderoso rio Paraná, um rio que tem grandes afluentes com nascentes em diferentes regiões brasileiras. A extensa área de drenagem envolvida garante que sempre haja grandes volumes de água chegando até as turbinas geradoras.

A grandiosidade de Itaipu contrasta com a situação de inúmeras pequenas e médias usinas hidrelétricas espalhadas pelos mais diferentes rios do Brasil. A partir da próxima postagem, vamos contar as histórias, desafios e os problemas de muitas delas.

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O CRESCIMENTO DOS CASOS DE DENGUE NO BRASIL EM 2019

Aedes Aegypti

O ano de 2019 começou com uma enxurrada de más notícias: foram enchentes catastróficas em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho, o ataque a tiros na escola Raul Brasil em Suzano, a prisão do ex-presidente Michel Temer, entre outras. A divulgação e os desdobramentos dessas notícias nos meios de comunicação ocuparam muito tempo e monopolizaram a atenção do grande público. Outras notícias importantes, mas não tão impactantes, acabaram esquecidas. 

A Dengue, com suas causas e consequências, foi uma dessas pautas deixadas em segundo plano pela grande imprensa. Como o mosquito transmissor da doença, o Aedes Aegypti, parece não ligar para o que é transmitido pelos telejornais, os casos de Dengue apresentaram um crescimento de 149% no mês de janeiro de 2019 quando comparado com os casos de janeiro de 2018. De acordo com o Ministério da Saúde, até o último dia 2 de fevereiro, foram reportados 54.777 casos prováveis de dengue em 2019 – uma incidência de 26,3 casos por 100 mil habitantes. Em janeiro de 2018, o número de casos prováveis foi de 21.992

De acordo com o relatório divulgado pelas autoridades, foram registradas 5 mortes provocadas pela doença em todo o país apenas em janeiro de 2019. Uma das mortes ocorreu em Tocantins, uma em São Paulo, duas em Goiás e uma no Distrito Federal. Em todo o ano de 2018, foram registradas 23 mortes associados a casos de Dengue. 

A Região Sudeste lidera em número de casos, concentrando 60% das notificações – foram 32.821 casos registrados. Na sequência aparecem as Regiões Centro-Oeste, com 10.827, a Região Norte, com 5.224 casos, o Nordeste, com 4.105 casos e, por fim, a Região Sul, com 1.800 casos de Dengue. Quando se considera a incidência da doença pela população de cada Região, o Centro-Oeste e o Sudeste se destacam, com 67,3 e 37,4 casos por 100 mil habitantes, respectivamente. 

Outro dado preocupante desse relatório são as taxas de crescimento dos casos de Dengue por Região entre 2018 e 2019. O destaque é a Região Sul, que apresentou um crescimento de 597,7%, passando de 258 para 1.800 casos. No Sudeste, houve um aumento de 472,6%, passando de 5.732 para 32.821 casos. Na Região, o crescimento foi de 233%, saindo de 1.569 para 5.224 casos. No Nordeste, esse crescimento foi bem menor: 37,6%, passando de 2.983 para 4.105 casos. A única Região brasileira que apresentou uma redução no número de casos de Dengue foi o Centro-Oeste – de 11.450 casos em 2018 para 10.827 casos prováveis em 2019, uma redução de 5,4%. 

Em dois Estados, Tocantins e São Paulo, as taxas de crescimento do número de casos de Dengue podem ser consideradas como “explosivas”. No Tocantins houve um aumento de 1.369%, com as notificações saltando de 210 para 3.085 casos prováveis. Em São Paulo, o Estado mais rico e populoso do país, o crescimento foi de 1.072%, passando de 1.450 para 17.004 casos prováveis. Aqui precisamos destacar a grande incidência de casos de Dengue na região de Bauru, uma importante cidade do interior de São Paulo, onde a Dengue praticamente virou uma epidemia

O levantamento do Ministério da Saúde também chama atenção para dois Estados da Região Sul, onde o crescimento do número de casos da doença foi muito grande – Paraná e Santa Catarina. No caso do Paraná, o aumento do número de casos sofreu um incremento de 648,6%, passando de 214 para 1.602 casos. Em Santa Catarina, o salto foi de 644%, saindo de 18 para 134 casos. Apesar de, em números absolutos, não serem tantos casos notificados, a alta taxa de crescimento é muito preocupante. 

Além da Dengue, o mosquito Aedes Aegypti também transmite outras doenças graves como a Zika e a Chikungunya. De acordo com os dados divulgados, foram notificados 630 casos de infecção pelo vírus da Zika em todo o país até o dia 2 de janeiro. Em relação aos casos ocorridos no mesmo período em 2018, 776 notificações, houve uma redução de 18%. Em termos regionais, a Região Norte liderou em número de casos, com 410 notificações. Na sequência aparecem a Região Sudeste, com 119 casos, o Nordeste, com 49 casos, o Centro-Oeste com 43 casos e o Sul, com apenas 9 notificações. 

No caso da Chikungunya, houve uma redução de 51%. Foram notificados 4.149 casos prováveis da doença até o dia 2 de fevereiro. No mesmo período de 2018, foram notificados 8.508 casos. A liderança em número de casos de Chikungunya também está na Região Norte, com 2.730 notificações. Na sequência aparece a Região Sudeste, com 789 casos, o Nordeste, com 446 casos, o Sul, com 94 casos, e a região Centro-Oeste, com 90 casos. 

Como já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, os casos de Dengue sempre estão associados aos criadouros de mosquitos que surgem ao redor de nossas casas e cidades. A fêmea do mosquito Aedes Aegypti busca locais com água limpa para depositar seus ovos. Entulhos da construção civil, restos de embalagens e recipientes plásticos, pneus velhos, entre outros resíduos, são descartados inadequadamente pelas populações em terrenos baldios, calçadas e ruas das nossas cidades. Com a chegada do verão e de suas abençoadas chuvas, esses resíduos passam a acumular água e se tornam locais ideais para a procriação dos mosquitos transmissores da doença. 

Além dos resíduos domésticos e da construção civil, vasos de plantas, calhas, caixas d’água e outros recipientes utilizados para o armazenamento de água nas residências, também tem grande potencial para serem transformados em “maternidade” para os mosquitos. A fêmea do Aedes Aegypti faz a postura dos ovos nas paredes do recipiente, exatamente na linha da água. Em cerca de 2 dois, esses ovos eclodem e as larvas do mosquito passam a viver na água. Em poucos dias, a pupa (forma larval do inseto) sofre uma metamorfose e surge o mosquito em sua forma adulta. Os ovos do mosquito são extremamente resistentes e podem sobreviver até dois anos longe da presença da água – basta chegar o período das chuvas para o ciclo ser reiniciado. 

Como ainda não existe uma vacina contra a Dengue, medidas preventivas de saneamento básico são fundamentais para o controle da doença. A correta coleta e destinação dos resíduos domésticos e da construção civil são a base do controle dos focos de reprodução dos mosquitos. A educação da população no sentido de dar uma destinação correta de seus resíduos domésticos e também em ações de limpeza e manutenção do espaço das suas casas também são fundamentais. Sem esses esforços de todos, basta chegar o período das chuvas para assistirmos essas explosões nos casos de Dengue.  

A Dengue e outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti somente serão erradicadas de nosso país com o esforço de todo. Faça a sua parte! 

IBA, UM QUASE “FURACÃO” BRASILEIRO

Iba

Nos últimos dias, o ciclone tropical Iba tem ocupado bastante espaço nos telejornais brasileiros. Localizado a cerca de 200 km da costa brasileira entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo, o Iba, nome dado pela Marinha e que significa “ruim” em tupi-guarani, ficou um passo de atingir a classificação de furacão – felizmente, ele perdeu força e entrou para a classificação de tempestade tropical. 

Os ciclones são sistemas onde a pressão do ar é menor em relação a áreas próximas. Nessas regiões, o ar quente, que é mais leve, tende a subir na atmosfera, gerando a formação de nuvens carregadas de unidade. Dependendo da região do globo terrestre onde os ciclones se formam, eles podem ser chamados de tropicais, subtropicais e extratropicais. Antes de atingir a classificação de ciclone, esses sistemas passam pela fase de depressão tropical, onde os ventos podem atingir uma velocidade de até 62 km/h, e de tempestade tropical, onde os ventos tem velocidade entre 62 e 117 km/h. 

A Marinha do Brasil, que é a responsável pelo monitoramento climático da área marítima do país, já trabalhava com a perspectiva de formação de um ciclone tropical nessa região neste início de outono. A Marinha possui uma lista de nomes para batizar os possíveis ciclones que se formem em águas marítimas brasileiras. Esses nomes, todos em tupi-guarani, incluem Jaguar (onça), Kurumi (menino), Mani (deusa indígena), Oquira (broto de folhagem) e Potira (flor). O nome Iba era o primeiro dessa lista e foi usado para batizar esse ciclone tropical.

Iba se formou no último sábado, dia 23, a cerca de 150 km da cidade de Porto Seguro, no Estado da Bahia, e começou a mostrar seus primeiros efeitos na costa na segunda-feira, dia 25, quando os ventos atingiram velocidade próxima dos 60 km/h na costa e superiores a 100 km/h em alto-mar. Esses ventos podem provocar ondas de até 4 metros de altura nas proximidades do litoral Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, o que levou a uma série de alertas da Marinha e da Defesa Civil para as embarcações, banhistas e populações das áreas costeiras

Em cidades do extremo Sul a Bahia, como em Mucuri e Nova Viçosa, as aulas foram suspensas preventivamente. A energia dos sistemas de iluminação pública dessas cidades também foi desligada, de forma a se evitar acidentes com eventuais quedas de fios e com curtos-circuitos. Esses tipos de medidas preventivas não são usuais aqui no Brasil, porém são praticadas adotadas em vários países em situações semelhantes e precisam passar a fazer parte dos protocolos de segurança de nossas cidades. 

Ciclones e tempestades tropicais que se formam em alto-mar podem ser devastadoras caso se desloquem em direção da costa. O ciclone Idai, que devastou extensas áreas de Moçambique, Botswana Malawi no último dia 15, fez exatamente isso e avançou por cerca de 500 km continente adentro. O nosso Iba manteve a sua posição em relação à costa e passou a se deslocar lentamente rumo ao Leste. 

A formação de ciclones tropicais e subtropicais no Oceano Atlântico Sul são fenômenos extremamente raros. A região possui forte ventos alísios, que impedem a formação desses sistemas, além de não existir perturbações tropicais ou uma zona convergência intertropical ao Sul da Linha do Equador. Outra característica dessa região é a presença de águas frias vindas do Sul do continente. Existem muitas divergências entre os meteorologistas quanto ao número exato, mas se considera que apenas 5 ciclones tropicais foram registrados no Atlântico Sul. O período de maior probabilidade para a ocorrência de um ciclone nessa região será no verão, quando as águas do Oceano estiverem mais quentes. 

Um desses raríssimos eventos foi o Furacão Catarina, um sistema que atingiu a região Sul do Brasil no final de março de 2004. O fenômeno climático teve início a partir do desenvolvimento de um ciclone extratropical de núcleo-frio em 12 de março. Cerca de uma semana depois, o sistema seguiu na direção Leste-Sudeste, até se estacionar no dia 22. Com a ação dos ventos e com a temperatura da água do mar acima da média, o sistema gradualmente passou a ganhar força, passando da classificação de ciclone extratropical para ciclone subtropical em 24 de março. Mantidas as mesmas condições ambientais, o sistema evolui para a classificação de ciclone tropical em 25 de março, com ventos bastante intensos. 

No dia 26 de março, o sistema passou a apresentar ventos de até 180 km/h e atingiu a categoria (ou tipo) 2 na escala de furacões Saffir-Simpson, ganhando o nome de Catarina, o primeiro registro de um ciclone tropical no Atlântico Sul. De acordo com análises de meteorologistas dos Estados Unidos, o Catarina foi na verdade um furacão, uma conclusão que não foi aceita pelos profissionais da área aqui no Brasil. 

O Catarina atingiu seu pico de intensidade no dia 28, data em que a tormenta atingiu a costa brasileira entre as cidades de Passo de Torres e Balneário Gaivota, em Santa Catarina. Cerca de 1.500 residências foram destruídas e outras 40 mil sofreram danos. O rastro de destruição deixou 11 mortos e 518 pessoas feridas. O Catarina também causou grandes prejuízos nas áreas rurais da região, destruindo cerca de 85% das plantações de banana e 40% dos campos de cultivo de arroz. Mais de 14 municípios da região decretaram situação de calamidade pública após a passagem do furacão/ciclone Catarina

Nos países mais desenvolvidos, as regiões propensas a riscos de furacões (denominação dada no Oceano Atlântico) e tufões (nome dado no Oceano Pacífico), contam com sofisticados sistemas de alerta que, conforme a gravidade da situação, permitem evacuar as áreas de riscos com antecedência, minimizando os riscos para as populações. Mesmo quando não há espaço para a evacuação, a população tem tempo de comprar mantimentos e água, além de conseguir reforçar portas e janelas com placas de madeira. São esses sistemas de alerta e toda uma infraestrutura de apoio que permitem minimizar os estragos e as vítimas dessas tragédias ambientais. E mesmo com tudo isso, tragédias como a que se seguiu ao furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans em 2005, ainda podem acontecer. 

Uma das prováveis consequências do Aquecimento Global será um aumento da temperatura das águas dos oceanos, algo que já pode ser observado no Oceano Índico. Esse eventual aumento na temperatura das águas do Oceano Atlântico Sul poderá tornar mais frequentes a ocorrência de ciclones como o Iba, aumentando consideravelmente a possibilidade de ocorrência de novos “furacões” como o Catarina. Vale lembrar que grande parte da população brasileira vive numa faixa estreita ao longo do litoral, em cidades que não estão preparadas para eventos climáticos dessa magnitude. 

Grandes cidades brasileiras como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, que fica a pouco mais de 60 km do litoral, mal conseguem conviver com as fortes chuvas de verão, quiçá à passagem de um furacão… 

Que os céus celestiais nos ajudem!

UM BALANÇO DAS CHUVAS DE VERÃO 2018/2019 EM SÃO PAULO

Enchente em São Paulo

Na última postagem, falamos do drama vivido por populações de Moçambique, Botswana e Malawi após a passagem do ciclone tropical Idai. Regiões inteiras desses países ainda se encontram completamente inundadas, mesmo passados 10 dias desde a catástrofe natural. Mudanças climáticas regionais, observadas em toda a região do Oceano Índico, podem ser as responsáveis pela extrema violência desse fenômeno climático. Ciclones tropicais são comuns no Oceano Índico durante os meses de verão, porém, tanto a violência quanto o avanço do Idai contra o Sudeste do continente africano são incomuns.  

Mudanças climáticas localizadas estão sendo sentidas em diversas regiões do mundo e servem como um sinal de alerta de grandes alterações nos padrões climáticos mundiais. No Estado de São Paulo e, especialmente, na grande Região Metropolitana de São Paulo, muitas dessas mudanças são facilmente perceptíveis.  

Qualquer paulistano com mais de 40 anos se lembra dos invernos rigorosos de um passado recente – em algumas regiões nos extremos da cidade as temperaturas em alguns momentos do inverno chegavam bem próximas de 0° C. Atualmente, na maior parte dos nossos invernos, é possível ir até a Baixada Santista para pegar uma praia. 

Outra mudança bastante visível nos padrões climáticos locais são as chuvas e as temperaturas acima da média no período do verão. De acordo com dados do balanço oficial divulgado pelo INM –Instituto Nacional de Meteorologia, a cidade de São Paulo teve chuvas em 54 dos 90 dias do verão. Essas medições foram feitas na estação de medição oficial da cidade, no Mirante de Santana

Outros dados interessantes desse relatório oficial: 

Choveu acima da média histórica em janeiro e em fevereiro, e em março, o total de chuva em 20 dias já estava próximo da média histórica

Um dos fatos mais marcantes do verão de 2019 foi o calor de janeiro, que em relação à média das temperaturas máximas foi considerado o janeiro mais quente em 76 anos de medições, igualando com janeiro de 2014

Fevereiro de 2019 também merece destaque, pois foi o fevereiro mais chuvoso em 15 anos

Com acumulado de 884,5 mm, o verão 2018/2019 ficou em 9º lugar na lista dos verões mais chuvosos na capital paulista; 

A média da temperatura máxima deste verão foi de 30,0°C, igualando ao ano de 2001, e ficou em 5º lugar no ranking do histórico de 1961 a 2018. O calor intenso que predominou em janeiro foi determinante para chegar a esta posição; 

A média da temperatura mínima do verão 2018/2019 foi de 20,3°C, empatando com os anos de 2003 e 2010 na 4ª posição dos verões mais quentes do histórico de 1961 a 2018; 

chuva de janeiro foi irregular e deficiente em grande parte do estado de São Paulo. A falta de chuva justifica o calor excessivo observado em janeiro de 2019. A chuva de fevereiro foi melhor distribuída pelo estado; 

Os acumulados de precipitação no estado de São Paulo no verão 2018/2019 variaram, em média, entre 500 mm e 800 mm. Os maiores volumes ocorreram na faixa leste, especialmente entre Planalto Paulistano e o litoral, com volumes até acima dos 1200 mm. Aqui merecem destaques algumas chuvas torrenciais que caíram em Bertioga, Iguape e São Sebastião, cidades do litoral de São Paulo, onde os volumes acumulados atingiram, respectivamente, 178,0 mm, 153,3 mm e 124,2 mm em um único dia; 

Antes de qualquer outro comentário, precisamos destacar que todo esse volume de chuvas, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, teve como consequências grandes enchentes (vide foto), alagamentos localizados de grandes proporções, desmoronamento de encostas e destruição de inúmeras casas. Infelizmente, esses eventos extremos resultaram na perda de inúmeras vidas humanas. Nossas cidades não estão preparadas para suportar os grandes volumes das chuvas de verão, um problema que não para de se agravar.

A combinação de chuvas e temperaturas acima da média combinadas com uma má distribuição territorial das chuvas no Estado de São Paulo gerou uma consequência preocupante – os níveis de água em dois importantes conjuntos de reservatórios estão ligeiramente abaixo da média, o que causa muita preocupação. O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, está com apenas 55% do seu nível (dado de 26/03/2019). Nessa mesma data, no ano de 2009, o Sistema Cantareira apresentava um nível de 85% – de lá para cá, os níveis máximos dos reservatórios vêm apresentando níveis cada vez menores, lembrando que entre os anos de 2014 e 2015, o Sistema entrou em colapso

Outro conjunto de reservatórios importantes estão localizados na Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Além de sua importância no abastecimento de cidades e populações dentro do Estado de São Paulo, as águas do rio Paraíba do Sul são essenciais para o abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense. Um complexo sistema de transposição entre bacias hidrográficas desvia até 60% das águas do rio Paraíba do Sul na direção da bacia hidrográfica do rio Guandu – 80% da água usada no abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de parte da Baixada Fluminense vem desse sistema. 

O volume útil do Reservatório Equivalente, que corresponde à soma dos volumes dos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, está com 55,3% do nível máximo. De acordo com dados da Ana – Agência Nacional de Águas, esse nível corresponde ao oitavo menor resultado desde 1998 e está abaixo dos níveis do Reservatório Equivalente nos dois últimos anos

A situação dos reservatórios da Região Centro-Sul do país, que tem seu período de chuvas no verão, apresentam problemas semelhantes aos observados nestes reservatórios do Estado de São Paulo – os níveis estão abaixo da média histórica. Aqui, as preocupações vão além das necessidades de água para o abastecimento de populações: parte considerável da energia elétrica consumida no Brasil vem de fontes hidrelétricas. Sem contar com níveis seguros para a geração da energia elétrica necessária ao funcionamento do país, as autoridades do setor elétrico serão obrigadas a acionar as poluentes usinas de geração termelétricas a carvão, gás e óleo combustível. 

Apesar dos insistentes alertas dos cientistas, que afirmam que essas e outras mudanças já observadas nos padrões climáticos de muitas regiões não podem ser debitadas somente na conta das mudanças climáticas globais, eu acho bastante improvável que não sejam. Nós, caipiras aqui do Estado de São Paulo, costumamos falar que quando se vê só o rabo do gato, é quase certeza que o que se vê é um gato inteiro – na pior das hipóteses, é um filhote de onça ou de jaguatirica. 

É preciso ficar em alerta e começar a planejar uma vida em um mundo novo, com padrões climáticos diferentes em todo o planeta. Isto é inadiável.

IDAI, O CICLONE QUE DEVASTOU REGIÕES DE MOÇAMBIQUE, ZIMBABWE E MALAWI

Idai Moçambique

Desde o último dia 15 de março, quando o ciclone Idai atingiu Moçambique, o Zimbabwe e o Malawi, o mundo inteiro tem se surpreendido com o número cada vez maior de vítimas dessa tragédia. O Idai é o ciclone tropical mais forte a ser registrado desde o ano 2000, quando a tempestade Eline passou por Moçambique e deixou um rastro de destruição, matando mais de 800 pessoas. Conforme as informações divulgadas, o número total de vítimas fatais do Idai já passa de 700. 

Essa região, conhecida entre os meteorologistas como Bacia Ciclônica do Sudoeste do Oceano Índico, é famosa por apresentar uma forte temporada de ciclones tropicais no período do verão. Nessa temporada, já foram registrados 7 ciclones na região e existe uma nova tormenta em formação. Normalmente, os ciclones se formam em uma extensa área do Oceano Índico ao largo da Ilha de Madagáscar – o Idai surpreendeu a todos ao avançar violentamente contra o continente, com ventos superiores aos 200 km por hora, velocidade que o coloca na categoria 3 da escala dos ciclones.  

Um exemplo da violência extrema desse ciclone foi a devastação deixada em Beira, a segunda maior cidade de Moçambique com 500 mil habitantes, que ficou totalmente destruída. Os ventos devastadores avançaram por cerca de 500 km continente adentro, atingindo regiões do Zimbabwe e do Malawi, completando o rastro de destruição. Essa é uma região extremamente pobre do continente africano, onde as populações vivem em habitações construídas com os materiais mais precários e sem infraestrutura básica, o que dificulta a chegada das equipes de resgate e dos carregamentos com alimentos e remédios. 

Equipes da Organização Médicos sem Fronteiras, citando um exemplo, só conseguiram chegar aos locais atingidos pelo Idai no dia 19, o que mostra as dificuldades de acesso. Segundo os relatos dessas equipes, os hospitais e unidades de saúde que encontraram estavam sem energia elétrica e com telhados destruídos, problemas que só fizeram aumentar as dificuldades no atendimento das vítimas. Extensas áreas do interior dos países atingidos ainda se encontram alagadas, com dezenas de milhares de casas destruídas e com muitas comunidades e vilas ainda isoladas.  

A FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, que tem forte atuação nessa região, calcula entre 500 e 600 mil o número de pessoas diretamente afetadas pela catástrofe. Já para o UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, as consequências são ainda mais catastróficas – a entidade calcula que 1 milhão de crianças e adolescentes estão sendo diretamente afetadas. Só o tempo mostrará as reais dimensões dessa grande tragédia climática. 

Os cientistas têm sido muito cautelosos em associar a violência do ciclone Idai a todo um conjunto de mudanças climáticas que vem sendo observadas em todo o Oceano Índico, que tem resultado em fortes secas no Sul e no Leste do continente africano. Estudos conduzidos desde 1980 demonstram que o volume de chuvas em toda esta extensa região diminuiu em, pelo menos, 15%, ao mesmo tempo que o número de pessoas subalimentadas mais do que duplicou – em algumas regiões, a redução no volume de chuvas pode chegar a 48%. E a origem desta redução das chuvas está ligada ao aumento da temperatura das águas do Oceano Índico, problema que não se limita ao continente africano, mas a todos os países asiáticos localizados ao longo da extensa orla deste oceano.  

Conforme tratamos em uma postagem anterior, grande parte da África vem passando por fortíssimos ciclos de seca. Esses eventos climáticos, considerados como um dos piores dos últimos 35 anos, estão atingindo mais de 50 milhões de habitantes em áreas no Chifre da África, onde se encontram países como Somália, Etiópia, Quênia, Uganda e Djibuti. Mais ao Sul, estão sofrendo com a seca o Malawi, Moçambique, Zimbabwe, Madagáscar e África do Sul, além dos enclaves em território sul-africano do Lesoto e Suazilândia.  

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm apresentado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016.  Um evento que pode estar diretamente associado a toda essa elevação de temperatura nas águas do Oceano Índico é o desaparecimento da Ilha New Moore, no Golfo de Bengala, que mostra a extensão e a complexidade do problema.

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Pólo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica.  

Além de comprometer a dinâmica de distribuição de chuvas por uma extensa área da África e da Ásia, esse aumento das temperaturas das águas do Oceano Índico também pode resultar em um aumento da intensidade e do poder de destruição dos ciclones tropicais que se formam na região e, não só isso – catástrofes ambientais como o ciclone Idai podem se tornar cada vez mais frequentes por todo o Sul e Sudeste da África, ameaçando a vida de milhões de pessoas. 

As perspectivas para o futuro nessa região não são nada animadoras – os estudos indicam que essa tendência de redução ou aumento das chuvas persistirá e até se intensificará, uma vez que o aquecimento das águas do Oceano Índico é um fenômeno que está ligado diretamente ao aquecimento global, que tende a aumentar cada vez mais. E na esteira das mudanças dos ciclos de chuva, existem perspectivas de ciclones cada vez mais devastadores. Como diz um velho ditado popular – se correr a seca ou chuva pegam, se ficar o ciclone come… 

As mudanças climáticas regionais, já em andamento por todo o planeta, forçarão os países a investir cada vez mais em sistemas alternativos de produção de água como a transposição entre diferentes bacias hidrográficas, em sistemas de dessalinização da água do mar e também em sistemas de água de reuso – depender exclusivamente das chuvas será uma aposta cada vez mais arriscada. Também serão necessárias várias medidas em sistemas de defesa civil e em forças de resgate para situações de emergências. 

O grande problema é que os países que mais poluem o meio ambiente e que provocam as grandes mudanças climáticas no planeta são as nações ricas do Hemisfério Norte. E quem mais está sofrendo com os efeitos dessas mudanças climáticas são países miseráveis do Sudeste da África. 

A EXPLORAÇÃO DA CASSITERITA EM RONDÔNIA E SEUS MUITOS PROBLEMAS SOCIAIS E AMBIENTAIS

Cassiterita

A cassiterita é um minério de nome estranho para a maioria dos leitores, porém, ela está na origem de um metal indispensável no seu dia a dia – o estanho. Conhecido por ser um dos metais mais antigos utilizados pela humanidade, o estanho tem como principais características um baixo ponto de fusão e uma alta resistência contra a corrosão e a oxidação. Uma das mais importantes aplicações do estanho é a soldagem de componentes eletrônicos em produtos como smartphones, televisores, computadores, receptores de rádio, entre outros equipamentos eletro-eletrônicos presentes na sua vida cotidiana

Uma outra aplicação bastante popular do estanho é o tratamento superficial de peças metálicas como postes, tubulações e telas. Esse tratamento protege os metais dos efeitos da corrosão (ferrugem), especialmente em peças que ficam expostas a intempéries e ao contato frequente com a água. O estanho também tem largas aplicações industriais na produção de ligas metálicas, especialmente com o chumbo e o cobre. 

A cassiterita (vide foto) é um dióxido natural e principal minério do estanho. Como é comum na natureza em relação aos metais, o estanho ocorre sempre combinado com outros minerais como quartzo, feldspato, muscovita, estanita, topázio, volfranita, turmalina, entre outros. O Brasil possui, aproximadamente, 7,5% das reservas mundiais de estanho, concentradas na Região Amazônica. De acordo com dados da ANM – Agência Nacional de Mineração, os Estados de Rondônia e do Amazonas concentram, respectivamente, 47% e 50% da produção nacional de estanho, que é estimada em cerca de 14 mil toneladas anuais

Em Rondônia, as reservas do metal estão concentradas na região central do Estado, na chamada Província Estanífera, distante cerca de 220 km da cidade de Porto Velho. A mineração da cassiterita no Estado foi iniciada em 1952, quando pequenas empresas de mineração se instalaram na região e levaram à formação de diversos núcleos populacionais como a Vila Massangana, no município de Monte Negro. Esse assentamento cresceu e se consolidou em função das atividades mineradoras da cassiterita e do beneficiamento e produção do estanho. 

Os grandes resultados econômicos dessa produção do estanho, infelizmente, não se traduzem em ganhos sociais para a população e, muito pior, geram gravíssimos problemas ambientais na região. Além de todos os problemas tradicionais da mineração, que incluem a supressão da vegetação, destruição e contaminação dos corpos d’água, além da produção de grandes volumes de rejeitos minerais, a exploração da cassiterita em Rondônia tem algumas particularidades que merecem destaque. 

A mineração da cassiterita em Rondônia é feita a céu aberto, o que expõe os trabalhadores ao fortíssimo sol equatorial e tem como resultado inúmeras lesões na pele e riscos de desenvolvimento de câncer de pele. A proximidade das cavas de mineração de áreas florestais também expões esses trabalhadores a todo um conjunto de doenças infecciosas e parasitárias típicas das áreas florestais da Amazônia, especialmente a malária, o cólera e a leishmaniose. Outra fonte de insalubridade é o contato frequente dos trabalhadores com grandes volumes de água, que é utilizada para desmoronar os barrancos e assim facilitar a extração da cassiterita. Essa água sofre contaminação com diversos metais pesados que ocorrem junto com a cassiterita, metais esses que podem contaminar, direta e indiretamente, os trabalhadores, gerando uma série de doenças. 

As condições precárias dessas cavas expõem os trabalhadores a uma série de riscos a acidentes de trabalho, particularmente a desabamentos de barrancos e soterramento. Também há notícias de trabalhadores sem vínculos formais de trabalho e registro em carteira, jornadas de trabalho excessivas e curtos períodos de descanso semanal, excesso de esforços físicos e exposição a altos níveis de ruído, baixos salários, falta de água potável e fornecimento de alimentação de baixa qualidade, entre outros problemas. Os dramas vividos pelos trabalhadores nas áreas de mineração têm reflexos nas suas vidas nos assentamentos urbanos. 

Os efluentes contaminados por metais pesados nas cavas de mineração afetam os mananciais e poços usados pela população das vilas no seu abastecimento, um problema que expõe essas pessoas à contaminação com metais pesados. Essas vilas, formadas por habitações precárias construídas com folhas de babaçu e lonas plásticas, não possuem as mais precárias obras de infraestrutura como calçamento de ruas e redes coletoras de esgotos. Serviços básicos como coleta de lixo, transportes, educação e saúde, quando existentes, são os mais precários possíveis. Há inúmeros relatos de problemas fundiários, onde propriedades particulares foram invadidas pelas empresas de mineração sem qualquer tipo de autorização. Também são frequentes as acusações de obras para o represamento e desvios de corpos d’água, procedimentos que não podem ser feitos sem estudos de impacto ambiental e aprovação dos órgãos governamentais. 

O estanho e seus compostos, assim como acontece com a contaminação com outros metais pesados, podem causar uma série de problemas de saúde, especialmente no sistema imunológico, neurológico e hematológico, além de causar danos em órgãos como o fígado e rins. Os resíduos desse metal podem entrar no organismo humano por ingestão de alimentos contaminados, especialmente através do consumo de carnes e peixes. Outra fonte de contaminação se dá através da inalação – nesse caso, trata-se de trabalhadores que ficam expostos aos vapores gerados durante os processos de beneficiamento e fundição do metal. Todos esses problemas de saúde pública exigiriam a criação e implantação de uma série de programas e ações preventivas por parte das autoridades locais, com vistas à melhoria das condições de vida e de saúde da população. Desgraçadamente, tudo isso está muito longe da realidade dessas comunidades rondonienses. 

O principal destino do estanho processado e semiprocessado da Região Amazônica é São Paulo, o Estado mais industrializado do país. Nas indústrias paulistas, o estanho é utilizado como matéria prima de uma série de produtos com alto valor agregado, destinados ao mercado interno e também para exportação. Outro grande consumidor do estanho é o Pólo Industrial de Manaus, que concentra um grande número de indústrias elétricas e eletrônicas. Ou seja, enquanto as regiões produtoras arcam com os altíssimos custos ambientais e sociais criados pela extração, beneficiamento e produção do estanho, um grupo pequeno de empresas, produtoras e consumidoras finais do metal, são as que lucram de verdade. 

Infelizmente, essa é uma realidade da mineração – alguns ganham muito dinheiro e o resto do mundo “paga a conta”. 

AS ROCHAS ORNAMENTAIS DO ESPÍRITO SANTO E SEUS IMPACTOS AO MEIO AMBIENTE

Rochas ornamentais no Espírito Santo

O Brasil é um grande produtor e exportador de rochas ornamentais. De acordo com dados da entidade que representa o setor, o SINDIROCHAS, a produção oficial no ano de 2015 chegou a 9,5 milhões de toneladas, das quais perto de 2,5 milhões toneladas foram exportadas. O consumo interno desses produtos chegou a cerca de 72 milhões de m² – as projeções indicam que em 2020, esse consumo será superior a 100 milhões de m². O grande destaque são os nossos granitos, classificados entre os mais bonitos do mundo. 

Entre os Estados brasileiros, o discreto Espírito Santo é o grande destaque, abrigando o maior parque de empresas especializadas na extração, corte e beneficiamento de rochas ornamentais, com perto de 2 mil unidades registradas. O Estado produz cerca de 4 milhões de toneladas de rochas, sendo campeão absoluto na produção de mármore – 75% da produção nacional. Essa importante indústria extrativista mineral é responsável por 10% do PIB –Produto Interno Bruto, do Espírito Santo

Porém, como acontece em todas as atividades de mineração, a produção de rochas ornamentais causa uma série de problemas ao meio ambiente e, especialmente, aos recursos hídricos locais. Vamos entender isso: 

Os problemas associados à extração das rochas começam com a necessidade de suprimir a vegetação e a camada fértil do solo para se conseguir atingir os veios rochosos do subsolo. Em publicação recente, nós falamos dos impactos dessas atividades na destruição de trechos da Mata Atlântica em Ubatuba, litoral Norte do Estado de São Paulo, durante o ciclo de exploração do granito verde. Além do aspecto estético, a remoção da cobertura vegetal nessas áreas causa uma série de mudanças na dinâmica de escoamento das águas superficiais.  

Durante o período das chuvas, uma parte significativa das águas pluviais é absorvida pelos solos e pela vegetação, reduzindo o volume e a velocidade das enxurradas que chegam aos corpos d’água. Sem essa proteção natural, os fluxos de água que atingem os rios aumentam em volume e violência, com grande potencial para a produção de grandes enchentes e carreamento de grandes volumes de sedimentos para a calha dos corpos d’água. Outro lado desse problema se dá quando as pedreiras são abandonadas e não existe nenhum trabalho para a recuperação dos solos e reflorestamento. 

Outro grave problema ambiental criado pela atividade é o consumo e contaminação de grandes volumes de água, especialmente nas etapas de corte e polimento das chapas. A água é usada para resfriar as ferramentas de corte e polimento – em contato com o pó das pedras, essa água forma uma espécie de lama, que sem os devidos cuidados pode escorrer na direção dos corpos d’água e causar problemas de contaminação. Nas empresas maiores e melhor estruturadas, essa água passa por sistemas de tratamento e de reaproveitamento.  

Após o uso, a água é recolhida em tanques de decantação, onde os sedimentos são acumulados no fundo por força da gravidade. Em unidades mais sofisticadas, a água passa por processos de tratamento similares aos utilizados nas ETAs – Estações de Tratamento de Água, que fornecem água potável para abastecimento de populações. Infelizmente, a maioria das empresas não toma esses cuidados e libera esses efluentes diretamente no meio ambiente. 

A produção excessiva de resíduos é outro grande problema da indústria das rochas artesanais. Entre a produção de sedimentos gerados pelo corte e polimento e as sobras de rochas após o corte, calcula-se que um volume entre 20 e 25% dos blocos de rochas extraídos acabam transformados em resíduos. Os rejeitos minerais estão entre os maiores problemas ambientais e sociais criados pelas atividades mineradoras – o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana, em 2015, e, mais recentemente em Brumadinho, causaram a morte de centenas de pessoas e gravíssimos danos ao meio ambiente. 

São frequentes as denúncias de despejos de resíduos da produção de rochas ornamentais em terrenos baldios, margens de rios e córregos, áreas de várzeas, terras públicas e em áreas de conservação. Normalmente, as empresas envolvidas nesses ilícitos são de pequeno e médio porte, que operam às margens da legalidade e sem as respectivas licenças de lavra e ambiental, além de não contar com um plano para a gestão dos resíduos, algo fundamental para se operar nesse setor. 

Os principais gerados são a granalha de cal, a rocha moída e os fragmentos de rochas, materiais com grande potencial de reaproveitamento, especialmente na produção de produtos e insumos para a construção civil. Um experimento interessante que vem sendo feito por algumas associações de proteção ambiental do Espírito Santo como a AAMOL – Associação Ambiental Monte Líbano, é o uso da lama gerada pelo corte e polimento das rochas na produção de blocos estruturais, que podem ser utilizados para a construção de prédios e casas com até 3 andares. Apesar de terem um custo superior ao dos blocos convencionais, esse produto usa um sistema de encaixes e intertravamento, o que resulta numa economia de argamassa e de ferragens estruturais. 

Outro produto interessante que pode ser criado a partir desses resíduos são argamassas para assentamento de blocos, tijolos e reboco de paredes. Os minerais presentes nos rejeitos podem substituir, com vantagem, parte do cimento e da areia usadas na produção convencional das argamassas. A lama seca, resultante dos processos de decantação da água usada nos processos de corte e polimento, passa por um processo de moagem, sendo transformada em um sedimento fino semelhante a cal.  

Os resíduos de rocha também passam por um processo de moagem e são transformados em um sedimento particulado similar à areia. Aqui há uma particularidade – os granitos são ricos em quartzo, uma rocha dura e extremamente resistente, que proporciona excelentes características mecânicas para as argamassas produzidas. Essa argamassa produzida atende todas as normas técnicas da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, e já foi testada e aprovada por grandes construtoras capixabas. Além desses usos, os resíduos gerados na produção das rochas ornamentais podem ter outras inúmeras outras aplicações na construção civil – basta ter boa vontade e senso de preservação ambiental. 

Em resumo – a exploração das rochas ornamentais é um grande negócio para muita gente. Falta agora uma conscientização para se transformar os resíduos dessa produção em uma florescente e lucrativa indústria complementar de produtos e insumos para a construção civil. 

 

PS: Hoje é o Dia Internacional das Florestas

FAO