AFINAL DE CONTAS: POR QUE AS FLORESTAS SÃO TÃO IMPORTANTES?

Na atual sequência de postagens temos falado bastante sobre os problemas ambientais decorrentes do aquecimento global, mais especificamente sobre os riscos de desaparecimento das geleiras de altitude em montanhas de todo o mundo. Essas geleiras formam nascentes de importantes rios. A nascente mais distante do rio Amazonas, citando apenas um exemplo, está localizada em uma geleira na Cordilheira dos Andes. 

Depois de séculos de grandes emissões de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), as temperaturas de nosso planeta começaram a aumentar gradualmente e estão ameaçando a vida em muitos ecossistemas. Um outro problema ambiental grave de nossos dias é a devastação de grandes áreas florestais para aproveitamento das madeiras e aumento de áreas para agricultura e pecuária. 

Sobre essa questão, apresentamos na última postagem informações de um relatório da Forests & Finance, uma coalizão global de organizações não governamentais, onde foram analisados os financiamentos concedidos pelo sistema bancário da China a operações de desmatamento em todo o mundo. 

Falando de forma muito simplificada, as florestas têm um papel importantíssimo na regulação dos padrões climáticos mundiais. Florestas em crescimento absorvem grandes volumes de carbono e liberam o valioso oxigênio, um gás fundamental para a vida no planeta. As florestas também são essenciais para o ciclo da água, absorvendo parte da água das chuvas e ajudando na infiltração de outra parte nos solos, água essa que vai recarregar lençóis e aquíferos, fontes que alimentam a maior parte dos rios de nosso planeta. 

Os processos de evapotranspiração das árvores, por outro lado, lançam grandes volumes de vapor de água na atmosfera e auxiliam na formação de nuvens, que por sua vez serão arrastadas pelos ventos e cairão na forma de chuva sobre outras regiões. Um exemplo desse processo são os chamados “rios voadores” da Amazônia – grandes massas de nuvens que se formam sobre a floresta e que são arrastados para o Sul, provocando chuvas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. 

As florestas também abrigam parte importante da biodiversidade do planeta, onde se incluem as mais diferentes espécies de plantas, animais, bactérias e vírus, que ali vivem em perfeito equilíbrio há milhões de anos. Ações humanas estão degradando rapidamente esses ambientes, o que acaba se voltando contra a própria humanidade.  

Cito o exemplo do Corona, o vírus responsável pela grande pandemia que o mundo inteiro está enfrentando. Esse vírus, muito provavelmente, foi retirado de seu ambiente natural em uma floresta do Sudeste Asiático (há suspeitas que isso se deu a partir do consumo da carne de um animal silvestre) e acabou infectando pessoas, primeiro na China, depois em todo o mundo. 

Apesar de fundamentais, a situação das florestas é crítica. Vejam: 

Nosso planeta, como todos devem saber, tem cerca de 2/3 de sua superfície coberta pelas águas dos oceanos. As áreas continentais e insulares, que respondem pelo 1/3 restante, somam um total de pouco mais de 149,7 milhões de km². De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, aproximadamente 30% das terras de nosso planeta já foram cobertas por florestas. 

Cerca de metade das chamadas florestas primárias – formadas por vegetação com mais de 8 mil anos de idade e que ainda não foram modificadas por ações humanas, já foram destruídas. No total, restam apenas 36% das florestas primárias do mundo, o que nos dá uma ideia do quão mal as coisas andam

Um grande exemplo das tragédias que envolvem as florestas – 99,7% das florestas primárias da Europa Ocidental já foram destruídas. Os fragmentos florestais que muitos países da região costumam apresentar com orgulho são fruto de programas de reflorestamento. Na França, do “combativo” defensor do meio ambiente Emmanuel Macron, a cobertura florestal remanescente (considerando bosques, florestas nacionais, praças e pequenos fragmentos florestais) é de apenas 30%. 

A situação das florestas francesas só não é pior devido as ações de um grande personagem histórico: Napoleão Bonaparte. Grande imperador da França entre 1801 e 1814 (além de 100 dias em 1815), Napoleão tinha planos para conquistar grande parte da Europa, uma tarefa que exigia um grande exército e uma poderosa marinha. E foi justamente para garantir o suprimento de madeiras para a construção naval que Napoleão ordenou o plantio de milhares de mudas de árvores na região dos Pirineus, na divisa da França com a Espanha. Os planos de conquista de Napoleão foram frustrados, mas as florestas sobreviveram. 

Já na Rússia, o grande país euroasiático, a situação das florestas ainda é bem confortável – cerca de 49% do país ou algo como 8,5 milhões de km² ainda são cobertos por florestas. Falo aqui da taiga ou floresta boreal. Todo esse território, que corresponde a área total do Brasil, representa 22% de toda a cobertura florestal do planeta. 

Esses números grandiosos escondem problemas igualmente grandes: de acordo com dados do Global Forest Watch, a Rússia desmatou cerca de 37 milhões de hectares de florestas entre 2001 e 2013. Somente na Floresta de Dvinsky, uma importante região florestal no Noroeste do país, foram derrubados quase 100 mil hectares entre 2002 e 2013. De lá para cá, as coisas só pioraram

Além dos desmatamentos, as florestas da Rússia vêm sofrendo cada vez mais com os incêndios florestais. De acordo com dados do Copernicus – Serviço Europeu de Observação das Mudanças Climáticas, os incêndios florestais, principalmente na região da Sibéria, consumiram cerca de 15 milhões de hectares da floresta boreal em 2019. Segundo o Greenpeace da Rússia, esses incêndios destruíram 13,5 milhões de hectares em 2020. O aumento das temperaturas na Rússia por causa do aquecimento global estão por trás desses incêndios. 

A lista dos países com grandes áreas cobertas por florestas apresenta logo após a Rússia o Brasil, os Estados Unidos, Canadá, Indonésia, China e República Democrática do Congo. Os problemas enfrentados pelas florestas nesses países não são muito menores. Um estudo publicado pela revista PNAS – Proceedings of the National Academy of Science, comparou os desmatamentos nesses países entre os anos 2000 e 2005. 

O Brasil, famoso mundialmente pela “destruição” da Floresta Amazônica, perdeu nesse período cerca de 165 mil km² de florestas. Na segunda posição, pasmem, vem o Canadá com 160 mil km² de florestas derrubadas ou 5,2% de sua cobertura nativa original. Na terceira colocação vêm os Estados Unidos, com uma devastação de 120 mil km² ou 6% de suas florestas remanescentes

Para que todos tenham ideia da situação crítica das florestas do nosso planeta, aqui vão mais alguns números: 90% das florestas do México já foram derrubadas. No paupérrimo Haiti, país mais pobre das Américas, esse índice já atingiu a marca dos 98%. Em Madagascar, algo entre 85 e 90% das florestas já foram destruídas. Outro campeão no quesito desmatamentos são as Filipinas – conforme a fonte consultada, entre 75 e 90% da cobertura vegetal do arquipélago já desapareceu. 

Estabelecer datas em que países atingirão a neutralidade das emissões de gases de efeito estufa e assinar acordos ambientais são ótimas iniciativas e merecem todo o nosso apoio. As questões ambientais, entretanto, vão muito além desses tópicos e necessitam do apoio irrestrito de todos os países. 

Ficar falando apenas da “destruição” da Floresta Amazônica, que aliás tem cerca de 85% de sua área preservada, como a “tábua de salvação” para o clima do mundo não vai nos levar muito longe. 

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