OS PROBLEMAS NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO AO LONGO DA HISTÓRIA

A expedição portuguesa de reconhecimento e exploração da costa brasileira comandada por Gaspar de Lemos entrou na Baía da Guanabara em 1° de janeiro de 1502. Segundo algumas fontes históricas, os exploradores imaginaram inicialmente que a baía era a foz de um grande rio e, por causa disso, a região foi batizada com o nome de Rio de Janeiro. A ótima profundidade e a excelente proteção contra o vento e as ondas do oceano tornavam a Baía da Guanabara um dos melhores lugares da costa brasileira para a construção de um grande porto. Isso atraiu primeiro os invasores franceses que, em 1555, fundaram a França Antártica. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro só seria fundada por Estácio de Sá em 1565, e os franceses só seriam expulsos em definitivo em 1570.

Sendo verdadeira ou não, a história da escolha do nome do Rio de Janeiro carrega uma grande ironia – não existem grandes rios desaguando na Baía da Guanabara, mas sim uma infinidade de pequenos cursos de água com nascentes nas encostas dos grandes morros e serras ao redor. Há época da seca, esses cursos d’água apresentavam uma forte redução nos seus volumes, um problema que se refletia no abastecimento de água para a população da cidade do Rio de Janeiro e de outros núcleos que se formaram na região. 

Um dos marcos arquitetônicos mais conhecidos da cidade do Rio de Janeiro, os Arcos da Lapa (vide foto), que também já foi conhecido como Aqueduto da Carioca, está relacionado diretamente aos antigos problemas de abastecimento de água da população. Construído entre 1725 e 1744 por ordem do Governador Gomes Freire de Andrade, o aqueduto permitia o transporte de água desde a nascente do rio Carioca até fontes públicas no centro da cidade, regularizando assim o fornecimento. A fonte mais importante ficava no Largo da Carioca. Nos bairros mais distantes da área central da cidade, o problema persistia. 

Um fator que contribuiu muito para a redução gradativa dos volumes de água dos riachos e ribeirões que existiam na região foram os desmatamentos para a abertura de campos para o cultivo da cana de açúcar, principalmente na Baixada Fluminense, uma atividade que vinha crescendo desde meados do século XVII. Em 1763, com a transferência da capital da Colônia de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro, a população da cidade passou a crescer mais rapidamente e os problemas no abastecimento de água só aumentaram. 

O caótico abastecimento de água no Rio de Janeiro passou para um novo patamar a partir de 1808, ano em que a Família Real portuguesa fugiu das tropas de Napoleão Bonaparte e veio se buscar refúgio na Capital da sua grande Colônia sul-americana. Junto com a nobreza, desembarcaram na cidade praticamente todos os membros da elite econômica, intelectual e cultural do Reino de Portugal, em um número estimado entre 15 e 20 mil pessoas. O Rio de Janeiro, que já era há época a maior cidade brasileira com cerca de 30 mil habitantes, viu sua população praticamente duplicar em um curtíssimo espaço de tempo. 

A chegada de toda essa massa de gente abastada criou uma forte demanda por mão de obra, onde se incluem escravos para os trabalhos domésticos, de construção civil e os prestadores de serviços, entre muitos outros. Também havia a necessidade de muitos braços para os trabalhos na agricultura, na criação de animais, no transporte de lenha e alimentos para os mercados, entre outros serviços pesados. Quando mais a população crescia, maior era a pressão por maiores volumes de água. 

Merece destaque aqui o aumento dos desmatamentos para a criação de novas áreas de produção agropecuária e também para o fornecimento de madeira para a construção civil e de lenha para as cozinhas. A Tijuca, região onde ficavam as nascentes do rio da Carioca, foi uma das mais impactadas por esses desmatamentos. E como consequência direta, a vazão do rio passou a sofrer uma redução gradativa dos seus volumes e a área central da cidade, onde vivia a elite do Rio de Janeiro, passou a enfrentar uma escassez ainda maior de água. As reclamações junto ao Rei e as mais altas autoridades da Corte não paravam de aumentar. 

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, com grande escassez de água potável e grandes problemas para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. As reclamações que antes ficavam restritas à elite econômica agora envolviam toda a opinião pública da cidade, com uma forte pressão sobre os Governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas produtores de água.  

Data dessa época a decisão de se desapropriar as primeiras terras na Tijuca para reflorestar as áreas das nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela exploração indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e criação de animais destinados ao consumo da crescente população. 

A partir de 1845 inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais. A partir de 1861, por ordem direta do Imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala.  

A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores. Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente mudas de espécies da Mata Atlântica que ainda resistiam em pequenos fragmentos florestais. Na região ressurgiu uma magnifica mata, conhecida atualmente como Floresta da Tijuca.

Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou. A partir do final do século XIX, novas fontes de água passaram a ser incorporadas ao sistema produtor de água potável, o que garantiu uma relativa estabilidade no fornecimento de água para a população. Em 1900, a população da cidade do Rio de Janeiro já superava a marca dos 800 mil habitantes, o que nos dá uma ideia dos volumes de água que já se faziam necessários. 

O ponto de inflexão na história do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro teve seu início em 1905, quando a empresa de geração e de distribuição de energia eletrica canadense Light and Power Company ganhou a concessão para operar na região. Nesse mesmo ano a empresa iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lages e da Usina Hidrelétrica de Fontes, obras concluídas em 1908. Esse sistema captava águas na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul e, através de estações de bombeamento, levava a água até os reservatórios da Light. Depois de passar pelos grupos geradores de eletricidade, essas águas eram lançadas na direção do rio Guandu

O rio Guandu, que até então era um pequeno ribeirão com nascentes nas encostas da Serra do Mar, teve sua vazão aumentada de 25 m³/s para até 160 m³/s após sucessivas obras de ampliação do sistema gerador da Light. Rapidamente, o rio Guandu deixou de ser apenas um riachão que atravessava a Baixada Fluminense em direção a sua foz na Baía de Sepetiba e se transformou no maior e mais importante manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Falaremos mais sobre a saga do rio Guandu na próxima postagem. 

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