A CHEGADA DAS BOIADAS E A DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO JEQUITINHONHA

O rio Jequitinhonha nasce nos contrafortes da Serra do Espinhaço, conhecida por muitos como a Cordilheira Brasileira, a cerca de 320 km de Belo Horizonte na localidade de Serro. Graças ao terreno acidentado e as dificuldades de acesso, as matas da região permanecem praticamente intocadas. Nos seus primeiros dez quilômetros de curso, o Jequitinhonha é um rio de águas limpas e cristalinas. 

A situação ambiental do rio muda drasticamente ao receber as águas do seu primeiro grande afluente – o Córrego Acabassaco. Esse corpo d’água recebe toda a descarga de esgotos domésticos do povoado de Pedro Lessa e despeja esses efluentes no rio Jequitinhonha, um drama que se repetirá inúmeras vezes em todos os rios da bacia hidrográfica até o encontro das suas águas com o Oceano Atlântico em Belmonte, no Estado da Bahia. 

Pedro Lessa, que é um distrito de Serro, surgiu no século XIX como um quilombo de escravos fugitivos. Conta a tradição oral dos locais que os escravos “fugidos” se embrenhavam nas densas matas da região, onde dispunham de muitas frutas e caça para subsistir – o rio Jequitinhonha provia água limpa e fresca para todos. A derrubada de matas e o avanço da agropecuária mudou completamente as paisagens da região e essa degradação é visível na situação atual do rio. 

Conforme já tratamos em diversas postagens anteriores, a região das Geraes ganhou uma enorme importância nacional nos primeiros anos do século XVIII após as notícias da descoberta de ouro na lendária Serra do Sabarabuçu por bandeirantes paulistas. Em pouco mais de cinquenta anos, cerca de 2/3 da população da colônia abandonaria as terras do litoral açucareiro de então e se embrenharia nos sertões das Geraes para tentar a sorte nos garimpos. 

Esse sonho dourado, que fez a fortuna de poucos e a ruína de muitos, mal conseguiu chegar vivo até o final daquele século – os veios de ouro se esgotaram e a produção caiu drasticamente. Sem a riqueza desse metal e com uma grande população para sustentar, os mineiros rapidamente passaram a se dedicar à outras atividades econômicas como a agricultura e a pecuária. No Vale do Jequitinhonha, os grandes rebanhos bovinos, vindos principalmente da Bahia, começaram a chegar nos últimos anos do século XIX. O auge desse processo, conhecido como “colonização baiana”, se deu entre 1890 e 1930. 

De acordo com registros de cronistas e viajantes do início do século XX, esses rebanhos se estabeleceram em regiões de chapadas e caatingas da margem esquerda do rio Jequitinhonha, em localidades como Santo Antônio das Salinas, atual Salinas, Comercinho do Bruno, atual Comercinho, e Santa Rita, atual Medina. Segundo consta, eram essas as localidades que apresentavam as maiores áreas de campos há época. As boiadas alcançariam as matas do rio Pampã, próximo da divisa com a Bahia, do rio São Mateus, já no Espírito Santo, além do Vale do rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e deságua no Sul da Bahia. 

No extremo Lesta do Vale do Jequitinhonha, onde existiam grandes planícies cobertas por densas matas, os criadores de gado passaram a derrubar e a queimar as matas, criando pastagens artificialmente, prática que já era feita nas áreas locais de caatinga. A pecuária se consolidou em localidades como Fortaleza, atual Pedra Azul, Salto Grande, Jacinto e Palestina, atual Jordânia. Os pecuaristas introduziram o gado zebu nessa região em 1920. 

Derrubar e queimar matas para a criação de pastagens já era uma pratica comum em toda a região do Semiárido Nordestino desde o século XVII. Conforme comentamos em outras postagens, as boiadas e os criadores de gado foram expulsos do litoral açucareiro do Nordeste – os animais invadiam as plantações e comiam os brotos adocicados da cana de açúcar. Após inúmeros conflitos, um Decreto Real proibiu a criação de gado a menos de 60 km da costa. 

As regiões do Agreste e do Semiárido Nordestino não dispunham da mesma abundância vegetal da Zona da Mata, nome dado à faixa de terras cobertas pela Mata Atlântica. Contando com pequenas faixas de campos entre trechos de vegetação arbustiva e os caatingais, essa região não tinha capacidade para sustentar grandes boiadas. Foi então que os criadores iniciaram a pratica das queimadas das árvores e arbustos, aumentando artificialmente as áreas de pastagens. 

Um depoimento importante sobre essa prática nos foi legado por Euclides da Cunha (1866-1909), militar e escritor brasileiro que, em 1897, foi mandado para os sertões da Bahia como jornalista correspondente da Guerra de Canudos.  

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do São Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.” 

Essa prática, que pode ter contribuído muito para a amplificação dos efeitos da seca no Semiárido Nordestino, foi introduzida no Norte de Minas Gerais pelos pecuaristas “baianos” e levou a uma enorme devastação de matas nativas, causando enormes problemas ambientais em toda a bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. 

Antes da chegada da pecuária, as terras do Vale do Jequitinhonha eram usadas para fins agrícolas, produzindo milho, algodão, arroz, feijão, fumo, mamona, cana-de-açúcar e batatas. Segundo os relatos deixados pelo naturalista e botânico Auguste de Saint-Hilarie, que fez expedições na região nos últimos anos da década de 1810: 

 “Nessa área o milho rendia duzentos por um, a cana se desenvolvia admiravelmente bem e começava-se a plantar café. O algodão também rendia bastante: o espaço que se semeava com um alqueire de milho, rendia cento e vinte arrobas de algodão, sendo que três e meia arrobas desse algodão bruto davam uma arroba de algodão limpo (descaroçado).” 

Os caboclos locais usavam a técnica do desmate a fogo, conhecido localmente como roça de toco. A mata era derrubada e queimada, e as cinzas ajudavam na fertilização do solo. Essa fertilidade durava poucos anos, quando então eram abandonados e outras áreas eram desmatadas para novos plantios. Com a chegada das grandes boiadas, que eram muito mais lucrativas que essa agricultura itinerante, o volume e a extensão das queimadas aumentou exponencialmente. 

Quando os terrenos degradados eram finalmente abandonados, as únicas plantas que brotavam nos solos ressequidos e calcinados eram ervas daninhas e capins com nomes populares como o “melão de São Caetano”, “mata-pasto”, “amargoso”, “pião roxo” e “rabo de raposa”. Como o gado bovino não aceitava esse tipo de alimento, essas áreas ficavam literalmente imprestáveis.

Esse uso inadequado dos solos e a destruição da cobertura vegetal tiveram reflexos diretos na quantidade e na qualidade das águas da bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha. Inúmeras nascentes dos seus rios formadores secaram e tantas outras tiveram reduções substanciais nos volumes de água. 

Os rios também passaram a sofrer com grandes volumes de sedimentos carreados pelas águas das chuvas, com a poluição e com os esgotos gerados por inúmeras cidades, entre outros problemas. Esse somatório de problemas transformou o Vale do Jequitinhonha numa das regiões mais pobres do Brasil. 

Felizmente, essa situação começou a mudar nas últimas décadas. O Vale do Jequitinhonha vem se destacando no plantio de florestas comerciais de eucalipto e na produção de carvão vegetal, um produto altamente valorizado pelas empresas siderúrgicas de Minas Gerais.

De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção da região em 2015 foi de 1.310.683 toneladas de carvão vegetal. Um dos destaques dessa produção é a microrregião de Salinas, onde encontramos os municípios de São João do Paraíso, Taiobeiras, Rio Pardo de Minas e Indaiabira. 

Além dos ganhos sociais e econômicos, esse reflorestamento está contribuindo para a melhoria das condições ambientais dos rios da bacia hidrográfica do Jequitinhonha. Ainda é pouco diante do grande estrago histórico feito na região, mas já é um ótimo começo. 

O “APAGÃO” DA REDE DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA DA REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO

Há muito tempo atrás, quando mal havia completado quinze anos de idade, comecei a frequentar uma escola técnica onde me formaria anos depois como técnico em eletrônica. Lembro bem que eu e muitos dos meus colegas de sala de aula tínhamos uma enorme dificuldade para entender os principais conceitos da eletricidade, uma forma de energia invisível e que era a base do nosso curso. 

Foi então que um dos nossos professores passou a fazer analogias entre redes de canos hidráulicos e de eletricidade. A caixa d’água representava a bateria ou a fonte de força, os canos eram os fios, as torneiras eram potenciômetros e assim por diante. Foi então que, como num passe de mágica, as dúvidas desapareceram e foi bem mais fácil acompanhar as matérias. 

Comecei relembrando essa antiga história por que dois eventos diferentes, em dois Estados brasileiros e ocorridos nesses últimos dias juntou essas duas áreas: um Estado enfrentou problemas ligados à distribuição de energia elétrica e em outro a população está com o abastecimento de água comprometido.

O primeiro problema aconteceu no Amapá, onde um incêndio ainda não totalmente explicado destruiu um transformador de energia de grande porte da principal subestação de energia do Estado. Um componente de uma rede elétrica ou de um circuito eletrônico queimar não é exatamente o fim do mundo – quando um profissional dessas áreas faz o projeto, ele sempre trabalha com uma margem de segurança para evitar “acidentes”. Só que, em situações excepcionais, algo dá errado e surge o problema – é preciso então substituir o componente danificado. 

No caso do transformador do Amapá isso não foi possível – a peça reserva estava danificada já havia bastante tempo e, sem ela, não havia como religar a rede elétrica. Cerca de 800 mil amapaenses ficaram por quase duas semanas no escuro até que uma grande força de trabalho federal, que envolveu civis e militares, conseguiu resolver o problema na última quinta-feira. As responsabilidades ainda serão devidamente apuradas e esperemos que os responsáveis sejam punidos de forma exemplar.

Um problema semelhante está acontecendo nesse exato momento em, pelo menos, 17 bairros da cidade do Rio de Janeiro e em alguns municípios da Baixada Fluminense. Cerca de 1 milhão de pessoas estão com o abastecimento de água em suas residências comprometido – um dos grandes motores elétricos de uma estação de bombeamento queimou e a CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, aparentemente não tem uma unidade de reserva para fazer a substituição. 

O problema ocorreu na Estação Elevatória do Lameirão, em Senador Vasconcelos na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com a queima do motor de uma das bombas, a Estação não consegue trabalhar com sua capacidade plena e falta pressão nas tubulações para fazer a água chegar em bairros mais distantes e mais altos. A CEDAE informa que tem feito manobras na rede para compensar essa perda, mas isso não está sendo suficiente para fornecer água para toda a população. 

Como sempre acontece nessas situações, a população está gastando um bom dinheiro para conseguir levar água para casa. Os preços das garrafas de água mineral disparou e há inclusive dificuldade em se encontrar o produto em muitos mercados. No bairro de Benfica, na Zona Norte da cidade, há notícias que o preço da carga de água nos caminhões-pipa saltou de R$ 250,00 para R$ 700,00

De acordo com informações divulgadas pela CEDAE, o problema só estará completamente resolvido dentro de 25 dias. Conhecendo o histórico de maus serviços da empresa, é bem possível que o problema dure muito mais tempo e que cariocas e fluminenses das regiões afetadas corram um sério risco de passar o Natal e o Ano Novo com as torneiras secas

Em tempos de pandemia da Covid-19, de desemprego, da chegada do forte verão e de todos os problemas econômicos, sociais e políticos vividos pelo Estado do Rio de Janeiro atualmente, não poderíamos esperar notícias piores. Quem sabe não seria possível mobilizar uma grande força de trabalho civil e militar como foi feito no Amapá, dando uma força para essas populações e resolvendo essa questão em um prazo menor. 

Fica aqui minha sugestão. 

O SOFRIDO E POUCO LEMBRADO RIO JEQUITINHONHA

Sempre que se ouve falar do Vale do Jequitinhonha, no Norte do Estado de Minas Gerais, a primeira lembrança que vem à mente das pessoas são as péssimas condições de vida e de pobreza de sua população. Apesar de estar inserido dentro da Região Sudeste, o Vale do Jequitinhonha tem características ambientais e sociais do Semiárido Nordestino. 

O coração do Vale é o rio Jequitinhonha, que tem suas nascentes em Serro, uma localidade na Serra do Espinhaço a cerca de 320 km de Belo Horizonte. A partir das encostas montanhosas, o rio segue por um curso de 1.090 km através do Norte de Minas Gerais e Sul da Bahia, até desaguar no Oceano Atlântico no município de Belmonte. 

A bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha ocupa uma área de mais de 70 mil km², se espraiando entre os biomas Mata Atlântica e Caatinga. Os primeiros habitantes do Vale do Jequitinhonha foram indígenas das tribos aranãs e tocoiós, entre outros grupos do Tronco Macro-jê. O baixo curso do rio no Sul da Bahia fazia parte do território dos temíveis índios Botocudos

A primeira expedição a penetrar no Vale do então chamado rio das Almas foi comandada por Francisco Bruza Espinosa em 1553, e chegou até aos sopés da Serra do Espinhaço. Uma segunda expedição em 1573, sob o comando de Sebastião Fernandes Tourinho, fez várias prospecções nos rios da região em busca de metais e pedras preciosas.

Em 1729 foram descobertos diamantes em Diamantina e, logo depois, em Grão Mogol. Há mesma época foram feitas descobertas de ouro em Minas Novas. Assim como já havia acontecido na lendária Serra do Sabarabuçu, multidões de aventureiros foram atraídos para a região em busca do sonho da riqueza fácil do garimpo. 

Felizmente, entre essas levas de “caçadores de fortuna fácil” chegaram também alguns artistas, estudiosos e naturalistas, que deixaram registros preciosos do ambiente natural original do Vale do Jequitinhonha. Um importante testemunho foi o deixado por José Joaquim da Rocha, um famoso pintor, dourador e restaurador especializado em arte sacra há época. No seu livro Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais, escrito entre 1780 e 1781, registrou: 

“O Rio Jequitinhonha, que tem o seu nascimento ao norte das serras de Santo Antônio e Itambé da Vila do Príncipe, é o tesouro mais precioso destas Minas; não só o Jequitinhonha, mas todos os mais rios e ribeiros que nele se metem, desde o seu nascimento” 

Outra figura ilustre que fez registros importantes das paisagens da região foi Johann Baptist Emanuel Pohl, integrante da Missão austríaca ao Brasil entre 1817 e 1822. Especialista em mineralogia e botânica, o austríaco Pohl acabou se desligando da Missão e empreendeu uma expedição por conta própria ao longo de quatro anos pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. As impressões e descobertas dessa expedição foram publicadas no livro Viagem ao Interior do Brasil Empreendida nos Anos de 1817 a 1821

As descrições do Vale do Jequitinhonha deixadas por Pohl falam das extensas chapadas que dominavam o cenário da região e também das inúmeras grotas de onde brotavam pequenos cursos d’água e se formavam pequenos vales. “Nas suas margens, matas úmidas e fechadas, chamadas capões, com árvores altas, produziam sombras e temperaturas amenas.” 

Já as regiões dos morros e das chapadas eram cobertas por uma floresta de árvores anãs conhecidas como carrasqueiros, e também por vegetação arbustiva e por capinzais. No período da seca, os solos ficavam esturricados e as folhas da vegetação caíam quase que completamente. O botânico francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire, que participou de expedições científicas no Brasil Colônia entre os anos de 1816 e 1822, atravessou o Vale do Jequitinhonha durante o período da seca em 1817 e deixou relatos semelhantes. Saint-Hilarie ressaltou que “viu poucas flores, aves e mesmo insetos, em razão da seca”. 

Os relatos desses dois cientistas também nos legaram muitas informações sobre a fauna local. Nas florestas de matas virgens perambulavam grandes manadas de veados, além de bandos de macacos, antas, capivaras, porcos-do-mato, tartarugas, lontras e aves como araras, tucanos, papagaios e mutuns. As narrativas dão destaques para as perigosas onças, pretas e pardas, e também para as serpentes como a sucuri, surucucu e cascavel. Pohl ficou impressionado com a jaritacaca, um pequeno mamífero que disparava um odor fétido ao ser atacado por algum homem ou animal. 

As paisagens bucólicas descritas por Pohl e Saint-Hilaire começaram a desaparecer já nas últimas décadas do século XIX devido ao aumento da criação de gado nessa região. Esse surto é chamado por muitos de “colonização baiana” e foi muito forte entre 1890 e 1930. A exemplo do que aconteceu na região do Semiárido Nordestino, onde grandes extensões da caatinga eram queimadas para a formação de campos para a criação do gado, matas das planícies do Vale do Jequitinhonha também passaram a ser derrubadas e queimadas para a abertura de fazendas e de pequenos sítios de produção de culturas subsistência. 

Em um relato de 1905, Leopoldo Pereira, um ex-agente executivo do município de Araçuaí, já alertava para o grande avanço do gado na região. Segundo ele, “os rebanhos bovinos então passaram a usar crescentemente os regatos para dessedentação e substituíram os porcos nos alagadiços da caatinga, bem como nas pequenas lagoas formadas a pouca distância das margens do Jequitinhonha durante as chuvas”. Num trecho mais a frente, Leopoldo Pereira faz um relato dramático da situação dos rios: 

“…que de 40 anos, e mais acentuadamente, de 20 anos a esta parte [1905], as águas do Norte de Minas têm diminuído de mais da metade. É convicção dos velhos residentes neste município que os próprios rios grandes e navegáveis, Jequitinhonha e Araçuaí, já não são volumosos como antigamente. 

…o machado do lavrador e o fogo das queimadas estão esterilizando o Norte de Minas 

As águas do rio Jequitinhonha formavam até então um importante eixo de comunicações e transportes entre o Norte de Minas Gerais e o Sul da Bahia. As populações do Vale em Minas Gerais transportavam sua produção de carne-seca e algodão na direção do litoral baiano, e de lá traziam artigos europeus e sal a preços bem melhores do que os encontrados em grandes cidades mineiras. 

Esse transporte era feito em canoas grandes, com 5 metros de comprimento, 1 metro de largura e 0,7 metro de profundidade. As melhores eram feitas com madeira de ipê, que “duravam muitos anos”. Também se utilizava a madeira da sapucaia, “que se prestavam apenas três ou quatro anos”. Essas canoas contavam com uma tripulação de três pessoas – um piloto e dois proeiros, que faziam o trabalho de remar.

Existem relatos de canoas que eram usadas exclusivamente para o transporte de passageiros. Como parete do serviço, esses passageiros tinham direito a duas refeições ao longo do dia – feijoada tradicional, arroz e peixe pescado à noite. As canoas faziam paradas nas margens para o pernoite nas praias de areia. 

Com o crescimento cada vez maior dos desmatamentos em todo o Vale do Jequitinhonha, os caudais do rio foram ficando cada vez menores, o que passou a inviabilizar a navegação em muitos trechos. E o antigo Vale, rico em biodiversidade, acabou sendo transformado em uma das regiões mais pobres do Brasil. 

Continuamos na próxima postagem. 

OS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS DO RIO ITAPEMIRIM NO ESPÍRITO SANTO

De acordo com informações do Atlas dos Ecossistemas do Espírito Santo, edição de 2008, quando a Vila do Espírito Santo, atual cidade de Vila Velha, foi fundada em 1535, cerca de 87% do território capixaba era coberto por florestas de Mata Atlântica. Este quadro se manteve praticamente inalterado até as últimas décadas do século XIX, quando o café chegou ao Espírito Santo e teve início um processo contínuo de desmatamentos.

No final da década de 1950, quando teve início a construção da cidade de Brasília, os desmatamentos ganharam um novo impulso: o Espírito Santo foi transformado no grande fornecedor de madeiras para a construção da nova Capital do Brasil. As densas florestas remanescentes da Mata Atlântica do Norte do Estado começaram a ser derrubadas e transformadas em tábuas, vigas, ripas e placas de madeira, deixando para trás terras desnudas, que passaram a ser ocupadas por pastos, plantações e por florestas comerciais de eucalipto. Nos dias atuais, as estimativas falam de uma cobertura vegetal remanescente de apenas 8%. 

Essa perda maciça de florestas teve reflexos diretos e graves na “saúde” dos rios do Espírito Santo, particularmente no rio Itapemirim, o mais importante do Sul do Estado. Drenando uma área de quase 6 mil km², o rio Itapemirim abrange um total de 17 municípios capixabas com destaque para Alegre, Atílio Vivacqua, Cachoeiro de Itapemirim, Castelo, Conceição do Castelo, Ibitirama, Jerônimo Monteiro, Marataízes, Muniz Freire e Venda Nova do Imigrante. O curso total do rio é de aproximadamente 212 km

Até meados do século XX, o rio Itapemirim apresentava uma profundidade mínima de 3 metros em seu baixo curso, o que permitia a navegação de embarcações grandes desde a sua barra até a cidade de Cachoeiro de Itapemirim. Essa navegação, que durante muito tempo foi feita com embarcações movidas a vapor, transportava mercadorias e pessoas.  

Atualmente, a profundidade média nesse trecho é de apenas 1,5 metro e a calha do rio está cheia de ilhas e bancos de areia. Isso demonstra o mal uso e os fortes processos de erosão de solos, além de indicar uma grande perda de matas nativas, o que tem reflexos diretos na redução dos caudais do rio. Florestas são fundamentais para a recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos que alimentam as nascentes dos rios. 

Nos períodos de chuva, as mesmas causas se mostram em um problema diferente – as fortes enchentes do rio Itapemirim, que provocam todos os tipos de transtornos nas cidades atravessadas pelo rio. Com a redução das matas nas áreas das cabeceiras dos rios formadores da bacia hidrográfica e com a maior parte das terras ocupadas por pastagens e plantações, especialmente de café, a absorção das águas das chuvas pelos solos é pequena e a maior parte dessas águas corre rapidamente para a calha do rio, que sem espaço para absorver grandes volumes em pouco tempo, transborda. 

De acordo com um estudo feito em 2017, aproximadamente 42% das terras onde se localiza a bacia hidrográfica do rio Itapemirim estão ocupadas por pastagens; 16% estão tomadas por plantações e apenas 21% ainda estão cobertas por matas nativas. Cerca de 1% desses terrenos apresentam sinais avançados de desertificação, um problema aliás que poderá crescer muito. 

Em muitos trechos da bacia hidrográfica há uma superexploração das pastagens por rebanhos de animais. São locais onde a camada dos solos é muito fina e com alto teor de areia. Nesses terrenos, onde a carga ideal seria de um animal por hectare, uma situação que permite a recomposição natural das gramíneas em uma velocidade adequada, são encontrados até 5 animais pastando em cada hectare. Essa situação cria um descompasso entre a produção e o consumo de matéria orgânica, dando início ao processo de desertificação, que ocorre quando a camada de solo fértil é substituída por sedimentos inertes. 

Uma boa parte dos problemas ambientais da bacia hidrográfica do rio Itapemirim está ligada diretamente à exploração de rochas ornamentais. O Espírito Santo é o maior produtor de rochas ornamentais do Brasil, abrigando o maior parque de empresas especializadas na extração, corte e beneficiamento dessas rochas, com perto de 2 mil unidades registradas. O Estado produz anualmente cerca de 4 milhões de toneladas de rochas, sendo campeão absoluto na produção de mármore – 75% da produção nacional. Essa importante indústria extrativista mineral é responsável por 10% do PIB –Produto Interno Bruto, do Espírito Santo. 

A bacia hidrográfica do rio Itapemirim responde por parte considerável dessa produção. Nessa região são extraídos cerca de 550 tipos diferentes de rochas, grande parte destinada ao mercado internacional. A cidade de Cachoeiro de Itapemirim concentra 70% das empresas de beneficiamento e acabamento de mármores e granitos da região. 

Os problemas associados à extração das rochas começam com a necessidade de suprimir a vegetação e a camada fértil do solo para se conseguir atingir os veios rochosos do subsolo. Além do aspecto estético, a remoção da cobertura vegetal nessas áreas causa uma série de mudanças na dinâmica de escoamento das águas superficiais, além de prejudicar a infiltração de água nos solos, o que é fundamental para a recarga de reservas subterrâneas. 

Outro grave problema ambiental criado pela atividade é o consumo e contaminação de grandes volumes de água, especialmente nas etapas de corte e polimento das chapas. A água é usada para resfriar as ferramentas – em contato com o pó das pedras, essa água forma uma espécie de lama, que sem os devidos cuidados pode escorrer na direção dos corpos d’água e causar problemas de contaminação. Nas empresas maiores e melhor estruturadas, essa água passa por sistemas de tratamento e de reaproveitamento. A atividade também gera uma quantidade enorme de rejeitos minerais, que nem sempre tem uma destinação correta. 

Somado aos problemas criados pela mineração de rochas ornamentais, pecuária e agricultura, existem ainda os grandes problemas gerados pelas cidades, que vão da falta de tratamento dos esgotos domésticos à geração de resíduos sólidos de todos os tipos. Sem uma destinação final adequada, muitos desses resíduos acabam nas ruas e em terrenos baldios, sendo carreados para as calhas dos rios e, fatalmente, acabarão chegando no rio Itapemirim. Também existem problemas de despejos de efluentes industriais nos rios da bacia hidrográfica. 

Apesar de maltratadas e poluídas, as águas do rio Itapemirim ainda são de muita serventia para agricultores e pecuaristas, que captam essas águas para uso em sistemas de irrigação de plantações e para dessedentação de animais. Essas mesmas águas também são captadas para uso no abastecimento de algumas cidades. Como já afirmei muitas vezes, nós poluímos e destruímos os rios que fornecem as preciosas águas que precisamos usar no nosso dia a dia. 

O rio Itapemirim é mais um triste exemplo de rio da Mata Atlântica que vem sendo destruído pelo avanço da “civilização” (seja lá o que isso signifique) e que está desesperadamente precisando de mais atenção das populações e autoridades. 

A DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NA FOZ DO RIO DOCE E AS AMEAÇAS ÀS TONINHAS

O rompimento da Barragem de Fundão e o despejo de mais de 60 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais na calha do rio Doce provocou a maior tragédia ambiental da história do Brasil, tema que tratamos em postagens anteriores. Dezenas de cidades e vilas foram privadas do acesso às águas do rio, um drama que afetou mais de 1 milhão de pessoas. Passados cinco anos, a maior parte dos problemas ainda não foi solucionada e a vida de muita gente continua sem um rumo definido. 

Na postagem de hoje vou mudar um pouco o enfoque da abordagem e tentarei mostrar o problema a partir do Oceano Atlântico. Normalmente, não me atrevo a entrar em assuntos ligados às águas salgadas – se as águas doces já formam todo um mundo a ser explorado, os oceanos são uma verdadeira galáxia. Para não sair falando besteira, prefiro me ater à minha “ignorância”. 

Na imensa maioria dos casos, as águas doces dos rios sempre correm em direção ao mar. Como exceção a essa regra temos as bacias hidrográficas endorreicas, que são sistemas hídricos fechados, sem saída para o mar e onde as águas se “perdem” por evaporação. O grande exemplo que podemos citar é o Mar Morto, uma grande depressão no Oriente Médio que recebe as águas do famoso rio Jordão. 

Como todo bom rio que corre para o mar, o rio Doce nasce nas encostas das Serras da Mantiqueira e do Espinhaço em Minas Geras e depois segue por mais de 850 km por terras mineiras e capixabas até se encontrar com as águas do Oceano Atlântico em Linhares, no litoral do Espírito Santo. Desde tempos imemoriais, essas águas doces carreiam grandes volumes de matéria orgânica e nutrientes que alimentam uma rica biodiversidade em uma área de aproximadamente 120 km² ao redor da foz do rio Doce. 

As criaturas marinhas que melhor se beneficiam desse fluxo contínuo de alimentos na região são as chamadas comunidades bêntonicas ou dos bentos marinhos. São pequenas algas, bactérias, vermes e crustáceos, muitos deles microscópicos, que vivem sobre o leito marinho ou enterradas nos sedimentos até um metro de profundidade. Para que todos tenham ideia do tamanho dessas criaturas – alguns desses seres vivem na incrível densidade de até 5 indivíduos para cada grão de areia. Apesar de muito pequenas, essas criaturas formam a base da cadeia alimentar dessa região. 

Após o rompimento da Barragem de Fundão e com o carreamento de milhões de toneladas de sedimentos na direção da foz do rio Doce, essas comunidades bêntonicas foram, literalmente, soterradas e inúmeras espécies de criaturas marinhas que habitavam esse ecossistema perderam a sua fonte básica de alimentos. As criaturas que conseguiram sobreviver a essa avalanche de sedimentos, como crustáceos e invertebrados maiores, passaram a sofrer com a contaminação por metais pesados. 

Um simpático mamífero marinho que tem uma importante comunidade vivendo na região da foz do rio Doce e que está enfrentando sérias dificuldades é a toninha (Pontoporia blainvillei). As toninhas são uma espécie de cetáceo com parentesco próximo com os golfinhos e os botos. A espécie também é conhecida como franciscana, boto-amarelo, boto-cachimbo, boto-garrafa, manico e golfinho-do-rio-da-Prata. O animal pode atingir um comprimento máximo de 1,8 metro e tem um peso entre 36 e 50 kg. 

As toninhas tem um “bico” longo e fino (vide foto), nadadeiras peitorais curtas e largas, além de uma nadadeira dorsal pequena e triangular. Diferente dos golfinhos e dos botos, que adoram dar saltos e fazer piruetas acrobáticas, as toninhas são tímidas e discretas, subindo à superfície apenas para respirar. Esses animais tem seu habitat numa faixa costeira que vai do Espírito Santo até o rio da Prata, na divisa entre o Uruguai e a Argentina. 

Diferente dos seus primos, cetáceos que habitam as águas do mar aberto, as toninhas preferem as águas costeiras com profundidades entre 30 e 50 metros, uma característica que transformou a espécie numa vítima fácil das redes de pesca. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, perto de 1.500 toninhas morrem todos os anos presas em redes de pesca no Brasil. Como a espécie tem uma taxa de reprodução muito baixa – as fêmeas têm apenas um filhote a cada um ou dois anos, ela está classificada como “criticamente em perigo”. É a espécie de cetáceo mais ameaçada do Brasil e, possivelmente, da América do Sul

As toninhas costumam viver em grupos familiares entre 2 e 5 indivíduos e, em muitos casos, vivem solitárias. Sua alimentação é constituída por peixes, crustáceos e, principalmente, camarões, o seu “prato predileto”. É justamente aqui que começam os problemas das ameaçadas populações de toninhas da foz do rio Doce.

Além da brutal redução dos estoques de alimentos criada pela acumulação de sedimentos carreados pelas águas do rio, as espécies sobreviventes apresentam altos níveis de contaminação por metais pesados. Ao se alimentarem dessas espécies menores encontradas nessa região, as toninhas passam a sofrer com a bioacumulação de metais pesados. 

Estudos realizados em corpos de toninhas encontradas mortas em redes de pesca ou em praias têm constatado a presença de elevados níveis de substâncias organocloradas, que têm origem em resíduos de pesticidas e fertilizantes carreados pelas chuvas para as calhas dos rios, além de grandes níveis de metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e cobre.

Isso demonstra como a espécie já é naturalmente sensível a esses poluentes. No caso do rio Doce, onde estudos já demonstraram que os níveis atuais de metais pesados nas águas estão, em alguns casos, até 200 vezes superiores aos níveis observados antes do rompimento da Barragem de Fundão, a situação das toninhas é preocupante

Além da redução dos estoques e da contaminação das suas fontes de alimentos, as toninhas também estão sofrendo com a poluição das águas por resíduos sólidos, principalmente plásticos. As análises do conteúdo estomacal de toninhas mortas têarfm encontrado volumes cada vez maiores de detritos de todos os tipos.

Com a turbidez das águas devido à presença de grandes quantidades de sedimentos em suspensão, as toninhas podem estar confundindo facilmente pedaços de plásticos com peixes e crustáceos, um problema que tem afetado outras espécies da região da foz do rio Doce, em especial as ameaçadas tartarugas-de-couro. 

Como é bem fácil de observar, os problemas criados pelo grande vazamento de rejeitos de mineração e de lama extrapolam os limites geográficos da bacia hidrográfica do rio Doce e invadem os domínios do Oceano Atlântico. O risco de desaparecimento da população de toninhas da região da foz do rio poderá aumentar ainda mais a quantidade de problemas já enfrentados pelos pescadores da região, que já ressentem de uma grande redução dos estoques pesqueiros.  

Sem a presença de um predador de topo da cadeia alimentar, poderá ocorrer a proliferação de populações de outras espécies animais, o que poderá prejudicar ainda mais as comunidades de espécies de grande valor comercial como peixes e camarões. Um exemplo clássico foi o desaparecimento das lontras marinhas da Califórnia e a a redução drástica das populações des peixes numa extensa região décadas atrás.

Os pescadores matavam as lontras a tiros, imaginando assim diminuir a concorrência e aumentando a quantidade de peixes capturados. Porém, aconteceu justamente o contrário – sem as lontras, as populações de ouriços-do-mar cresceram exponencialmente e devoraram as florestas de algas gigantes (kelps) onde os peixes se abrigavam e se reproduziam. Sem as toninhas, algo parecido poderá ocorrer na região da foz do rio Doce. 

E os prejuízos ambientais da região, que já são grandes, poderão ficar gigantescos. Salvem as toninhas!

A CRISE NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA CRIADA PELO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS EM MARIANA

A água é um dos recursos naturais mais essenciais à vida. Seus múltiplos usos incluem o abastecimento de populações, agricultura, indústria, geração de energia elétrica, navegação, pesca e aquicultura, turismo e recreação, entre muitos outros usos. Em situações de emergência ou de escassez, porém, os usos prioritários da água passam a ser o consumo humano e a dessedentação de animais. O rompimento da Barragem do Fundão e a contaminação do rio Doce com toneladas de rejeitos de mineração em 2015 colocou todos esses conceitos à prova. 

Com aproximadamente 850 km de extensão, o rio Doce era o mais importante manancial de água do Leste de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo até o início do mês de novembro de 2015, quando aconteceu o rompimento da barragem de rejeitos minerais em Mariana. Em menos de uma semana, um trecho da calha do rio com cerca de 600 km foi totalmente tomado pela lama e pelos rejeitos minerais, comprometendo o abastecimento de água em dezenas de cidades e vilarejos, onde vivem cerca de um milhão de pessoas. 

De acordo com diversas fontes de consulta, a bacia hidrográfica do rio Doce possui entre 300 mil e 375 mil nascentes, espalhadas por uma área total de mais de 70 mil km² dentro dos domínios do bioma Mata Atlântica. Todas essas nascentes e pequenos afluentes do rio Doce se transformaram na tábua de salvação para as populações das cidades e vilas que captavam a água para seu abastecimento diretamente na calha do rio Doce e que foram obrigadas a suspender imediatamente esse serviço. 

Nas primeiras semanas após o desastre ambiental, o abastecimento das populações passou a ser feito por centenas de caminhões-pipa contratados pela empresa Samarco, a proprietária e operadora da Barragem de Fundão, e de forma emergencial pelas Prefeituras, Governo do Estado de Minas Gerais e também pelas Forças Armadas Brasileiras. Os custos dessas operações, que também incluíram a distribuição de água mineral para a população (vide foto), passaram a ser bancados depois exclusivamente pela Samarco. 

Passada essa fase inicial de emergência absoluta, cada um dos municípios atingidos passou a procurar alternativas técnicas para a purificação da água captada na calha do rio Doce ou na busca de fontes alternativas de água. Vejam alguns exemplos: 

O município de Barra Longa foi um dos primeiros a sofrer o impacto do vazamento da Barragem de Fundão. O rio Gualaxo do Norte, que corta o município e era a principal fonte de abastecimento da população de 5.200 habitantes, foi o caminho que a onda de rejeitos seguiu até atingir o rio Doce.

Durante os primeiros meses após o acidente, o abastecimento da população foi feito através de caminhões-pipa e pela distribuição de garrafas de água mineral, até que foi possível a conclusão de adutoras emergenciais que passaram a permitir a captação de água em diversos pequenos cursos no município.  

No início de 2020, foi inaugurado um novo sistema de abastecimento de água com dois reservatórios custeados pela Fundação Renova, uma organização sem fins lucrativos criada pela Samarco Mineração com o objetivo de gerenciar e mitigar os danos ambientais e sociais criados pelo vazamento. O caso de Barra Longa é muito parecido com o de outras pequenas cidades e vilarejos nos municípios de Mariana, Naque, Periquito e Resplendor, entre outros. 

Em Resplendor, município com população de 17 mil habitantes e com forte dependência da produção rural, a captação de água passou a ser feita a partir de dois poços de 120 metros de profundidade. Esses poços trabalham de forma interligada com uma estação de bombeamento e com uma adutora que leva a água até a ETA – Estação de Tratamento de Água, do município, que foi reformada e recebeu novos equipamentos. As obras foram realizadas em conjunto pela Fundação Renova e pela COPASA – Companhia de Saneamento de Minas Gerais. 

No município de Governador Valares, o mais populoso do vale do rio Doce, perto de 300 mil habitantes ficaram cerca de uma semana com as torneiras totalmente secas e dependendo exclusivamente dos caminhões-pipa e da distribuição de água mineral. Toda a água utilizada no abastecimento da população era captada no rio Doce

Após algumas adaptações nas cinco estações de tratamento de água, o SAAEE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, do município passou a usar uma substância coagulante natural produzida a partir da casca da acácia-negra, uma espécie de árvore de origem africana e cultivada no sul do Brasil. Esse polímero natural acelera o processo de decantação da água e permite a separação dos resíduos de lama e rejeitos minerais antes do tratamento. Apesar da desconfiança inicial da população, que se recusava a usar a água distribuída pela empresa, pouco a pouco o abastecimento foi normalizado. 

Uma adutora com 35 km de extensão está em fase de conclusão e passará a conduzir as águas captadas no rio Corrente Grande diretamente para as estações de tratamento da cidade. O investimento total nessas obras é de R$ 155 milhões e a cidade não vai mais precisar captar as águas do rio Doce. 

Em Galileia, município com 10 mil habitantes e que também captava toda a água usada no seu abastecimento no rio Doce, o uso do polímero da acácia-negra também foi a alternativa encontrada pelo SAAEE do município para regularizar o abastecimento. A população da cidade ficou cerca de 35 dias dependendo de caminhões-pipa e da distribuição de água mineral.  

Assim como aconteceu em Governador Valadares, a população também ficou receosa quanto a qualidade da água, mas aos poucos foi aceitando. Em 2019, a cidade inaugurou um reservatório de água com capacidade para armazenar 450 mil litros e passou a utilizar a água de fontes alternativas e de quatro poços artesianos. 

Um caso interessante foi o da cidade de Baixo Guandu, no Espírito Santo. Assim que as primeiras notícias sobre o vazamento da Barragem de Fundão foram divulgadas e ficou evidente que era apenas uma questão de dias até que o abastecimento de água fosse comprometido, a Defesa Civil local iniciou obras para a construção de um sistema emergencial de abastecimento. 

O rio Guandu, um afluente do rio Doce e que não tem qualquer relação com o rio homônimo do Rio de Janeiro, possuía uma barragem com um reservatório de água de uma antiga PCH – Pequena Central Hidrelétrica, desativada há cerca de 40 anos e que foi transformada em manancial de abstecimento da cidade. Trabalhando em mutirão com um grupo de voluntários da cidade, a Defesa Civil conseguiu construir três adutoras emergenciais em apenas 4 dias. Esse sistema passou a permitir o transporte diário de 100 mil litros de água para a estação de tratamento da cidade. Esse sistema foi substituído por adutoras definitivas ao longo dos meses seguintes. 

Uma outra frente de trabalho da Fundação Renova é o Programa de Recuperação de Nascentes, que faz parte de uma longa lista de compensações ambientais acordadas no TAC – Termo de Ajuste de Conduta, assinado pela Samarco Mineração e o Ministério Público do Meio Ambiente de Minas Gerais. Esse Programa prevê a recuperação de 5 mil nascentes de água ao longo de 10 anos. Ao redor dessas nascentes serão plantadas mudas de árvores nativas, que no final do projeto deverão totalizar aproximadamente 40 mil hectares de áreas verdes. 

A presença de vegetação nas áreas de nascentes, principalmente árvores, é fundamental para permitir a infiltração das águas das chuvas nos solos e possibilitar a recarga de lençóis subterrâneos e aquíferos, garantindo assim o volume dos caudais dessas nascentes. Essas mini florestas serão a garantia do abastecimento futuro das populações das cidades da região, que durante muito tempo ainda não poderão dispor do uso das águas do rio Doce.

Finalizando, todas essas ações fazem parte de um dos mais importantes princípios do Direito Ambiental: o poluidor/pagador – qualquer pessoa, empresa ou entidade que provocar prejuízos ao meio ambiente será obrigado a reparar todos os danos. Então, que assim seja!

OS RISCOS DOS METAIS PESADOS PARA AS ÁGUAS E COMUNIDADES DO RIO DOCE

Uma das grandes preocupações ambientais de nossos tempos é o acesso cada vez mais complicado às fontes de água. Apesar de vivermos em um planeta onde mais de 70% de sua superfície é coberta por grandes extensões de águas dos oceanos, menos de 2,5% dessas águas – conhecidas como águas doces ou frescas, são adequadas ao consumo de animais, plantas e de nós seres humanos. 

Existe ainda um grande complicador – a maior parte dessa água doce é praticamente inacessível à maioria dos seres vivos. São águas que estão congeladas nas geleiras dos Polos Sul e Norte e também no alto de grandes cadeias montanhosas como os Andes e as Himalaias. Também são as águas subterrâneas de aquíferos e outros reservatórios à centenas, ou até milhares de metros de profundidade. As águas frescas e facilmente acessíveis para o consumo em rios, lagos e outros cursos d’água representam menos de 0,5% de toda a água disponível no planeta. 

Além da baixa disponibilidade e do difícil acesso, as fontes de água vêm sofrendo já há muito tempo com os impactos criados pela poluição, onde precisamos destacar os problemas criados pela mineração e, sobretudo, pelos rejeitos minerais. Conforme já comentamos em postagens anteriores, os metais extraídos dos solos quase nunca são encontrados em estado puro – eles sempre vêm acompanhados de uma série de impurezas ou elementos sem valor comercial como rochas não metálicas, que acabam sendo segregados nos chamados aterros de rejeitos minerais

Os rejeitos minerais sempre possuem em seu meio os chamados metais pesados, elementos químicos que, em altas concentrações, são altamente nocivos para a vida animal. Dentro da química, os metais pesados formam um grupo de elementos entre o cobre e o chumbo na Tabela Periódica. São elementos que têm um peso atômico entre 63,546 e 207,2, e uma densidade superior a 4 gramas por centímetro cúbico. Falando de um jeito mais simples: tratamos aqui de metais e semimetais como o antimônio, arsênico, cádmio, cromo, cobre, chumbo, mercúrio, níquel, selênio, telúrio e estanho

Um dos metais pesados mais conhecidos pelos grandes problemas ambientais que provoca nas águas é o mercúrio, um elemento muito usado por garimpeiros em todo o mundo. O mercúrio é misturado aos sedimentos com traços de ouro encontrados nos garimpos, onde passa por um processo de aquecimento a partir da chama de um maçarico.

Com a alta temperatura, o mercúrio se liga ao ouro formando uma amálgama. Essa amálgama é então separada dos demais sedimentos e submetida mais uma vez ao calor do maçarico, o que faz o mercúrio evaporar e deixa apenas o ouro. Quando o vapor de mercúrio esfria, uma parte do metal acaba caindo sobre os solos e as águas, onde vai criar uma série de problemas para os seres vivos. 

O ciclo de contaminação do mercúrio se dá em cadeia e começa com a absorção por micro algas, insetos, vermes e pequenos moluscos, que formam as comunidades bênticas ou bentônicas dos corpos d’água. Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar e sustentam peixes, crustáceos, anfíbios e répteis menores, que por sua vez serão predados por espécies maiores.

O mercúrio acompanha todo o ciclo da cadeia alimentar, passando de um organismo para outro, se acumulando em quantidades cada vez maiores ao longo do tempo. O mercúrio presente no organismo de peixes fatalmente contaminará qualquer ser humano que consuma suas carnes. 

Esse mercúrio se acumula no organismo humano e pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que comprometem os sistemas sensoriais e motores. Os outros metais pesados citados também atuam de forma semelhante no meio ambiente e causam uma série de outros problemas à saúde de todos os organismos vivos, inclusive os seres humanos. 

Um dos casos mais graves de contaminação de um corpo d’água com grandes volumes de metais pesados e outros rejeitos da mineração se deu com o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. Nesse “acidente” (uso aspas por que há fortes indícios de descaso e omissão dos responsáveis pela operação da barragem) houve o vazamento de aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais.  

Para que todos tenham ideia do que foi esse desastre, esse volume de rejeitos minerais corresponde a 10 vezes o volume da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro ou 80% do volume da Represa Guarapiranga em São Paulo. Também permitiria cobrir toda a cidade de Vitória no Espírito Santo com uma camada de lama com espessura de 1,7 metro. Em meio a toda essa lama, encontramos várias toneladas de metais pesados tóxicos

O rio Doce não era exatamente um curso de águas cristalinas antes do trágico rompimento da Barragem de Fundão. Desde os primeiros anos do século XVIII, quando teve início o chamado Ciclo do Ouro, todos os cursos e margens de todos os riachos, córregos e rios da então conhecida Região das Geraes foram vasculhados e remexidos por inúmeros aventureiros.

Primeiro, esses homens buscavam as “pretas”, pedras de coloração escura onde encontravam o ouro de aluvião. Esgotados esses recursos, os mineradores passavam a escavar os barrancos e as encostas dos morros, destruindo as matas ciliares e lançando milhares de toneladas de sedimentos dentro das calhas dos rios. Grandes volumes de metais pesados começaram a ser carreados para as águas a partir dessa época.

Apesar dos problemas pré-existentes, as águas do rio Doce podiam ser usadas sem maiores problemas, após um tratamento, no abastecimento de cerca de 1 milhão de pessoas que vivem nas cidades ao longo do seu vale. Inúmeras propriedades agrícolas também se valiam dessas águas para a irrigação de plantações e dessedentação de rebanhos animais. 

Um verdadeiro exército de “trabalhadores das águas” do rio – pescadores, barqueiros, oleiros, artesãos, marisqueiros, catadores de caranguejos, entre outros, se valiam dos recursos das águas e das margens do rio Doce para sobreviver. Após o acidente e com a contaminação das águas e margens com metais pesados, esse grupo acabou sendo um dos mais prejudicados – eles perderam, literalmente, sua fonte de sustento. 

Passados cinco anos desde o rompimento da barragem de rejeitos, as águas do rio Doce já não têm o mesmo aspecto lamacento (vide foto), mas a sua situação ambiental ainda continua crítica. Um trabalho recém divulgado por pesquisadores da UFES – Universidade Federal do Espírito Santo, indicou que 123 espécies de micro-organismos subaquáticos que vivem na região do estuário do rio Doce apresentam uma contaminação crônica por metais pesados.

Esses micro-organismos, que formam as chamadas comunidades bentônicas do rio e estão na base da cadeia alimentar, são um forte indicativo da contaminação de todos os demais seres vivos que vivem nessas águas. Conforme já comentamos, os metais pesados presentes no corpo de um ser vivo passam para o corpo do seu predador e assim sucessivamente – esse processo é conhecido na ciência como bioacumulação.

Em alguns casos, as concentrações de alguns compostos como chumbo, arsênico, cobre e cromo estavam até 200 vezes acima dos níveis que foram encontrados em estudos feitos na mesma região pouco antes do acidente em Mariana. A comparação entre o antes e depois permite afirmar, com toda a certeza científica, que o aumento da contaminação do estuário do rio Doce foi provocado pelo vazamento da barragem de rejeitos de mineração de Mariana. 

Esse estudo também permite concluir que ainda existem grandes volumes de metais pesados acumulados nos sedimentos depositados ao longo da calha do rio e que ainda vai levar muito tempo (falamos aqui de alguns séculos) até que a força da correnteza carregue esses contaminantes em direção do estuário do rio no Oceano Atlântico.

Até lá, o consumo de peixes, camarões e outros crustáceos capturados nas águas do rio Doce apresentará grandes riscos de contaminação por esses metais pesados. A manipulação de barro e argila retirados das margens dos rios por oleiros e artesãos também implicará em riscos à saúde. 

É uma grande tragédia ambiental que será sentida ainda por inúmeras gerações de mineiros e capixabas. 

A SURPREENDENTE LIGAÇÃO ENTRE AS MOQUECAS CAPIXABAS, AS PANELAS DE BARRO E OS ESGOTOS DE VITÓRIA

Na última postagem relembrei o trágico rompimento da Barragem de Fundão em Mariana, Minas Gerais, e suas gravíssimas consequências para o rio Doce. No último dia 5 de novembro, o “desastre” completou 5 anos. 

Com nascentes nas encostas das Serras da Mantiqueira e do Espinhaço, a bacia hidrográfica do rio Doce ocupa uma área total 71 mil km², sendo que aproximadamente 86% dessa área fica dentro do território mineiro e o restante em terras capixabas, o que equivale a 25% do território do Espírito Santo. A devastação ambiental provocada pelo rompimento dessa barragem de rejeitos minerais afetou diretamente 1 milhão de pessoas

Além de comprometer o abastecimento de água de dezenas de cidades e a captação de água em milhares de propriedades rurais, a poluição acabou com o ganha pão de inúmeros trabalhadores que dependiam do rio para sobreviver. São pescadores, catadores de caranguejos e outros crustáceos, barqueiros, entre muitos outros. Uma categoria pouco comentada e que está sofrendo com as consequências ambientais do “desastre” (uso aspas por que tenho dúvidas se foi mesmo um acidente) são os artesãos que trabalham com o barro, especialmente no Norte do Espírito Santo.  

Com a contaminação das águas, há o receio da argila retirada do rio estar contaminada com metais pesados e outras substâncias tóxicas como o mercúrio, o cromo e o arsênico, todos nocivos à saúde humana. Na dúvida, esses trabalhadores tem buscado outras fontes de argila, nenhuma que produza um barro de tão boa qualidade como o do rio Doce. 

A dúvida que logo surgiu na mente de alguém de fora do Espírito Santo ao saber disso: esse problema afetou de alguma forma a produção das famosas panelas de barro capixabas? 

Após uma pesquisa cuidadosa, ficou claro que as melhores e mais tradicionais panelas de barro são feitas na região de Vitória, bem distante do rio Doce. Um dos mais importantes centros dessa produção fica no Manguezal das Goiabeiras, onde centenas de “paneleiras” – como são chamadas as mulheres que fazem as panelas, sustentam suas famílias a partir do barro. E não falamos aqui de um barro qualquer – a fonte da matéria prima dessa produção é retirada de um local muito especial: o Vale do Mulembá, que fica no bairro Joana D’Arc em Vitória. 

Existem notícias da fabricação de panelas de barro em Vitória há mais de 400 anos. A técnica de produção foi criada pelos indígenas que viviam na região e foi aperfeiçoada ao longo dos tempos, recebendo inclusive contribuições feitas pelos escravos africanos que foram trazidos para o Espírito Santo. As panelas são modeladas manualmente, queimadas a céu aberto e depois recebem a aplicação de uma tintura de tanino, substância retirada das cascas de árvores dos mangues vermelhos. 

O segredo da qualidade e da beleza das panelas produzidas no Manguezal das Goiabeiras está nas argilas amarelas e cinzas utilizadas. Estudos químicos feitos nessas argilas encontrou misturas de diversos tipos de sedimentos fino-arenosos, matéria orgânica e pouca sílica livre. Essas argilas são formadas por partículas muito pequenas e com altos teores de silicatos hidratados de alumínio e ferro, contendo ainda elementos alcalinos e alcalinos terrosos. Ou seja – é um tipo de argila muito especial! 

Existe aqui um problema preocupante: a exploração contínua dessas argilas num mesmo local há centenas de anos está levando a uma situação crítica – o esgotamento do recurso está muito próximo. Sem as argilas especiais do Vale do Mulembá, a produção das famosas panelas de barro ficaria comprometida e muito pior – o preparo das tradicionais moquecas e da torta capixaba poderia estar ameaçado. 

A surpreendente salvação da lavoura, ou melhor, das cozinhas, veio do lugar menos improvável que se poderia imaginar – da ETE – Estação de Tratamento de Esgotos, Mulembá, operada pela CESAN – Companhia Espírito Santense de Saneamento, e que fica muito próxima das áreas de extração das argilas. Durante os trabalhos de sondagem no terreno para a ampliação das instalações da estação em 2009, os técnicos encontraram veios de argila, sendo duas amarelas e uma cinza com aspecto muito similar àquelas usadas na produção das panelas de barro. 

Amostras dessas argilas foram encaminhadas para análise no CETEM-ES, Centro de Tecnologia Mineral do Campus Avançado de Cachoeiro de Itapemirim. Duas dessas amostras, uma argila amarela e a cinza, se mostraram compatíveis com as argilas já usadas pelas paneleiras. Ou seja, graças à necessidade de ampliação do tratamento dos esgotos da cidade de Vitória, foi encontrada uma nova fonte de matéria prima no terreno da estação, que poderá ajudar a suprir as futuras necessidades de produção das paneleiras do Manguezal das Goiabeiras. 

Os mais tradicionais pratos da culinária capixaba e a sobrevivências de centenas de paneleiras estão garantidos por muito tempo. Bom demais!

Moral da história: saneamento básico faz bem ao meio ambiente e também para a cultura.

O ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS EM MARIANA, OU ERA UMA VEZ UM RIO DOCE

Passava das 15h30 daquela tarde de 5 de novembro de 2015. 

As equipes técnicas contratadas que trabalhavam nas obras de alteamento da Barragem de Fundão, nos arredores de Mariana em Minas Gerais, receberam uma notificação de alerta de um vazamento na contenção da barragem. Esses profissionais se dirigiram rapidamente ao local e se apressaram em iniciar os procedimentos para esvaziar o reservatório a fim de conter o vazamento.

Todos os esforços foram em vão – menos de uma hora depois, a barragem entrou em colapso e aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais e lama começaram a vazar, provocando o maior acidente ambiental da história do Brasil

A verdadeira onda de lama e rejeitos que desceu pela calha do córrego Santarém atingiu primeiro Bento Rodrigues, um vilarejo localizado a aproximadamente 2,5 km da barragem. Subdistrito de Mariana e localizado a cerca de 35 km do centro, Bento Rodrigues tinha há época perto de 600 moradores e aproximadamente 200 casas.

A maior parte do vilarejo foi destruída pela onda de lama, que também atingiu em cheio Paracatu de Baixo e outros vilarejos ao longo da calha do rio Gualaxo. A lama chegou ao rio Doce por volta das 18h30 minutos e dali foi se espalhando ao longo dos 650 km de curso do rio até chegar na sua foz no Oceano Atlântico alguns dias depois. 

Além da destruição de vilarejos e a contaminação da maior parte do curso do rio Doce com lama e rejeitos minerais, o “acidente” deixou, oficialmente, 16 mortos e 1 pessoa desaparecida. Nas palavras da Promotoria do Meio Ambiente de Minas Gerais: 

“Não foi acidente. Não foi fatalidade. O que houve foi um erro na operação e negligência no monitoramento.” 

O volume de lama, minérios como ferro e manganês, além de outros resíduos minerais, que vazou da barragem equivale a dez vezes o volume de água da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro ou 80% do volume armazenado na Represa Guarapiranga em São Paulo. Entre outros estragos, a maioria das edificações de Bento Rodrigues foram soterradas e pelo menos 1.500 hectares de vegetação de mata ciliar foi arrancada das margens dos rios Gualaxo e do Carmo, afluentes que deságuam no Rio Doce.  

A onda de destruição só não foi maior por que a barragem Candonga, da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conseguiu segurar grande parte da onda da lama e entulhos, que nesse ponto atingiu 17 metros de altura. A lama gradativamente passou a se misturar com as águas do rio Doce e, depois de apenas cinco dias, já era percebida na foz no Oceano Atlântico, na cidade de Linhares, Espírito Santo (vide foto). A proprietária e responsável pelas operações da barragem é a Samarco Mineração S.A., uma empresa formada pela associação da Vale S.A. e da empresa australiana BHP Billiton Brasil LTDA. 

Com suas nascentes nas vertentes da Serra da Mantiqueira e na Cordilheira do Espinhaço, a bacia hidrográfica do rio Doce ocupa uma área total de 83 mil km² entre o Leste do Estado de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo. A bacia hidrográfica está totalmente inserida dentro dos domínios do bioma Mata Atlântica. De corpo d’’água com qualidade mediana, principalmente por causa de problemas criados pela mineração, o rio Doce saltou de uma hora para outra para o posto de 10° rio mais poluído do Brasil. 

O trecho mineiro da bacia hidrográfica do rio Doce responde por 86% da área total. Ele ocupa uma área de mais de 71 mil km², o que corresponde a 12,2% da área do Estado de Minas Gerais. No Espírito Santo, a área ocupada corresponde a mais de 11 mil km² ou cerca 25% da área total do Estado. O curso total do rio Doce é de 853 km. 

Antes de ser abatido por essa verdadeira tragédia, o rio Doce era o mais importante manancial de abastecimento da região Leste do Estado de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo. A população dos municípios atravessados pelo rio ultrapassa um milhão de habitantes, o que nos dá uma ideia do impacto desse vazamento de lama e rejeitos no abastecimento das cidades.  

De acordo com informações do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, as águas do rio Doce abrigavam uma importante ictiofauna, com mais de 80 espécies descritas de peixes, sendo que 11 dessas espécies já eram classificadas em risco de extinção e 12 espécies eram endêmicas do rio – caso populações desses peixes não tenham conseguido se refugiar nos diversos afluentes do rio, elas estarão perdidas para sempre.  

Além de peixes, as águas do rio eram abrigo de diversas espécies de crustáceos de água doce, anfíbios, répteis, aves, plantas e toda a infinidade de vida que se pode imaginar habitando a calha de um grande rio. Milhares de pescadores e famílias de ribeirinhos tiravam seu sustento e alimentos das águas do rio Doce, o que só faz aumentar os impactos da tragédia. 

Produtores rurais das propriedades lindeiras também perderam a principal fonte de captação da água utilizada na irrigação das lavouras e dessedentação dos animais. É sabido que até 70% das águas de um manancial são utilizadas para fins agrícolas e agropecuários – a tragédia que se abateu sobre o rio Doce tirou destes produtores o acesso a esta água.

A salvação da lavoura e da pecuária foram as pequenas minas de água e riachos, que brotam por todos os cantos – estudos indicam a existência de mais de 300 mil nascentes em toda a bacia hidrográfica do rio Doce. Mais do que nunca, a preservação destas nascentes passou a ser vital para todos. 

Passados exatos 5 anos desde a tragédia, o rio Doce ainda continua um corpo d’água cheio de problemas e grande parte das populações ribeirinhas ainda tem dúvidas sobre o seu futuro. Um desses casos é a cidade de Baixo Guandu, no Espírito Santo, que até hoje não pode captar as águas do rio para uso no seu abastecimento. Centenas de pescadores artesanais da cidade perderam seus empregos – as peixarias locais só vendem peixes de água salgada pois a população tem receio que os peixes de água doce tenham sido pescados no rio Doce. 

A produção de cerâmica, um dos mais tradicionais artesanatos da cidade, também entrou em franca decadência. Com medo da contaminação por metais pesados, os artesãos deixaram de usar a argila de ótima qualidade que era retirada das margens do rio Doce e em seu lugar passaram a comprar argila vinda de outras fontes. Essa argila alternativa chega cheia de impurezas e os artesãos reclamam de perdas entre 20 e 30% nas peças produzidas. Muitos profissionais acabaram sendo obrigados a mudar de profissão. Histórias semelhantes são encontradas em cidades ao longo das margens de todo o rio Doce. 

Inúmeros processos judiciais foram abertos e dezenas de multas milionárias foram aplicadas contra a Samarco Mineração e suas empresas controladoras. Com uma justiça lenta e cheia de brechas e possibilidades de recursos, os processos se arrastam e o pagamento das multas é sempre protelado. A empresa criou a Fundação Renova, que tem como principal objetivo remediar os danos causados ao rio Doce e suas populações ribeirinhas. Apesar de todos os esforços efetivos e de muita propaganda, a Fundação Renova ainda está muito longe de conseguir compensar todos os prejuízos e danos causados ao meio ambiente e as populações do rio Doce. 

Posso até ser pessimista demais, mas acredito que será necessário mais de um século ou quatro gerações humanas para se recuperar o rio Doce de todos esses estragos. Sinceramente, espero estar errado. 

Continuremos na próxima postagem.

A VIDA VOLTA AO RIO CUBATÃO, OU O RETORNO DOS GUARÁS-VERMELHOS

Em meados da década de 1980, Cubatão era reconhecida como a cidade mais poluída do mundo e passou a ser chamada de o “Vale da Morte”. As razões para isso, que apresentamos resumidamente na última postagem, foram a instalação de um polo petroquímico na região e a política de desenvolvimento a qualquer custo há época. A falta de uma política e de uma rígida legislação de meio ambiente ajudou a amplificar os problemas. 

Para que todos tenham uma ideia da situação caótica que imperava na região – de acordo com dados da Cetesb – Companhia Ambiental de São Paulo, de julho de 1984, o rio Cubatão recebia despejos diários de 64 toneladas de poluentes. Essa conta não incluí os volumes de poluentes carreados para o canal do rio pelas águas pluviais e percolados a partir das águas subterrâneas. Além das águas, a poluição do ar, calculada há época em 40 toneladas/dia de gases tóxicos e material particulado, e dos solos também era altíssima. A situação ambiental do munícipio era desesperadora. 

Todo esse caldeirão de problemas ambientais tinha reflexos diretos nos mais de 100 mil habitantes do município. Entre os muitos problemas de saúde apresentados pela população, alguns eram alarmantes. Foi observado um aumento no número de moradores com doenças pulmonares e, o mais grave: um número recorde de crianças recém-nascidas com anencefalia (sem cérebro). Estudos feitos em um lote de amostras de sangue de 500 moradores constatou que 35% estavam intoxicados por poluentes – chegava a hora de se tomar alguma atitude a fim de frear a poluição em Cubatão

A redenção de Cubatão e de toda a sua população começou em 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo Neves foi eleito Presidente da República indiretamente por um Colégio Eleitoral, pondo fim a 21 anos de Governos Militares autoritários. Entre as muitas mudanças trazidas pela democracia estava o fim da censura dos meios de comunicação – depois de muito tempo, os brasileiros passariam a saber o que verdadeiramente estava acontecendo no seu país. Não demorou muito para as trágicas notícias sobre a situação de Cubatão começarem a ganhar espaços nas manchetes. 

Graças às pressões e demandas populares reprimidas que se seguiram à abertura democrática, as coisas começaram a mudar em nossa sociedade. O Programa de Controle da Poluição de Cubatão, que foi criado pelo Governo de São Paulo em 1984, ganhou fôlego e as coisas começaram a sair do papel. Foi criada a Comissão Especial da Serra do Mar e uma série de programas para a recuperação de Cubatão começaram a andar. Vejam alguns desses planos: 

– Programa de Controle da Poluição das Águas, que resultou no controle de 100% das fontes industriais e de grande parte dos esgotos domésticos lançados nos corpos d’água do município. Graças a esse Programa, sistemas de controle foram implantados em todas as fontes de poluição identificadas, com reflexos diretos nos ecossistemas aquáticos e na pesca; 

– Programa de Controle da Poluição Atmosférica: permitiu o controle de 98,8% das fontes de poluição do ar, fazendo com que as indústrias instaladas no Polo Industrial instalassem filtros e equipamentos de controle, num investimento superior a U$ 1 bilhão. Esse programa forçou as indústrias a modernizarem seus equipamentos e sistemas de produção, utilizando tecnologias mais modernas e menos poluentes, controlando e monitorando as emissões em tempo real; 

– Programa de Gerenciamento de Riscos com ações preventivas (estudos de análise de risco, implantação de sistemas de monitoramento e controle, treinamentos, entre outros) e planos de ações emergenciais, permitindo o gerenciamento de todos os recursos disponíveis para atender situações de emergências ambientais e de contenção de vazamentos de produtos químicos; 

Os resíduos industriais gerados no município passaram a ser controlados e gerenciados com rigor pela Cetesb, que também iniciou um programa de identificação de áreas de despejo irregular de resíduos, com identificação e responsabilização das empresas, que seriam obrigadas a arcar com a recuperação ambiental destas áreas; 

– Programas de contenção das encostas da Serra do Mar, com implantação de projetos para a proteção das drenagens de águas pluviais e de revegetação de um trecho da Mata Atlântica, por meio de plantios manuais e de semeaduras aéreas, quando foi testado com sucesso um novo sistema de lançamento de sementes com o uso de um helicóptero; 

– Através da CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, em parceria com a Prefeitura de Cubatão foram construídos diversos conjuntos habitacionais na cidade, possibilitando a transferência de populações das áreas de riscos e das proximidades das áreas industriais. 

Dados da Cetesb, referentes ao ano de 2010, mostram que as águas do rio Cubatão tiveram uma redução de 93,8% no nível de poluentes, sendo 93% de redução da DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio, 90% de redução na carga de resíduos sólidos, 97% de redução no lançamento de metais pesados, 80% nos fenóis e 96% nos fluoretos. A totalidade das fontes geradoras de poluentes nas indústrias foi controlada e passou a ser monitorada em tempo real.  

O rio Cubatão ainda apresenta uma série de problemas, mas a situação atual é infinitamente melhor do que foi há algumas décadas atrás. Esgotos in natura ainda são despejados na calha do rio, que também sofre com o despejo e carreamento de resíduos domésticos descartados irregularmente pela população. O lodo que recobre boa parte do fundo da calha do rio ainda está saturado com metais pesados dos antigos despejos industriais, porém ainda não existe uma maneira segura de remover esses resíduos sem criar maiores problemas ambientais. 

As antigas populações caiçaras que viviam no delta do rio Cubatão há muito tiveram de se mudar para outras regiões. Mesmo com a visível melhoria das condições ambientais das águas, o consumo de peixes e frutos do mar originários desse local não são recomendados pelos órgãos de vigilância sanitária – assim como acontece com o lodo do fundo do rio, os solos desses manguezais ainda concentram grandes volumes de poluentes e metais pesados.

Apesar de alguns problemas persistentes, as mudanças no meio ambiente e na qualidade de vida da população de Cubatão são impressionantes, especialmente para aqueles que conheceram o antes e o depois da região. Uma amostra das mudanças: em 1984 foram decretados 17 vezes os Estados de Alerta e ou de Emergência no município – a partir de 1995 esse número caiu para zero.  

Em um mundo ideal, que imagino eu ser uma meta de todos, a história de Cubatão não deve ser repetida. Todos os cuidados devem ser tomados para conseguir estabelecer um perfeito equilíbrio entre o desenvolvimento econômico, a equidade social e a preservação ambiental. Esse é o tal do “desenvolvimento sustentável”. 

Para encerrar, uma das imagens mais marcantes da recuperação ambiental do rio Cubatão foi a volta dos guarás-vermelhos (Eudocimus ruber). A cor das penas dessas aves (vide foto) tem origem em substâncias químicas presentes nos moluscos encontrados nas águas dos rios e dos manguezais e que formam a base da sua dieta. Quanto mais vistosa é a cor vermelha das aves, melhor a saúde do meio ambiente.