ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE OS INCÊNDIOS FLORESTAIS NA AUSTRÁLIA

Incêndio-Austrália

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Apesar da localização do país ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é Subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico – uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma grande área no Sudeste do país tem um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção). De todos os continentes habitados, o australiano é considerado o mais seco do mundo – é justamente esse clima seco que tem favorecido a incidência dos grandes incêndios florestais que desde setembro vem assolando o país. 

Outra forma de avaliar as diferenças drásticas nos climas dos dois países pode ser observado na disponibilidade de água: o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessa água se encontra na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália, ao contrário, dispõe de cerca de 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de irregulares, caem em volumes muito pequenos. Como se não bastassem todos esses problemas, o país enfrentou uma fortíssima estiagem generalizada entre os anos 2000 e 2009

Essa combinação de clima extremamente seco, pouca disponibilidade de água e de altas temperaturas nesse verão, com máximas superando a marca dos 40° C, transfomaram a Austrália num verdadeiro “inferno” na Terra nesses últimos meses. Incêndios florestais vêm devastando grandes extensões de matas, especialmente no Sul, Sudeste e Leste do continente. O fogo destruiu centenas de casas e já matou cerca de 27 pessoas. Para os animais domésticos e selvagens, a situação é quase apocalíptica – segundo cálculos de especialistas, perto de 500 milhões de animais já morreram vítimas do fogo, da fumaça e da destruição dos seus habitats

Uma das notícias mais surpreendentes, que comentamos na última postagem, fala dos ataques de gatos “selvagens contra animais debilitados nas áreas incendiadas. Várias regiões da Austrália sofrem com a superpopulação de gatos, que trocaram a vida doméstica pelas florestas – esses gatos atacam e matam pássaros, pequenos mamíferos, répteis e anfíbios. Desde 2015, o Governo estuda planos para eliminar, pelo menos, 2 milhões desses gatos selvagens, que se transformaram em uma verdadeira praga ambiental no país. 

Após uma longa sequência de más notícias, informações vindas do país dão conta que as chuvas de verão finalmente começaram a chegar em faixas do Leste e Sul do continente, ajudando a controlar e até mesmo a extinguir alguns focos de incêndios. Em regiões onde as águas ainda não chegaram, milhares de militares e voluntários continuam trabalhando arduamente no combate ao fogo. Curiosamente, a maioria das vozes de ambientalistas, artistas, políticos e famosos que se levantaram na defesa da Amazônia brasileira, que meses atrás também sofreu com inúmeros focos de incêndios, desta vez ficaram calados e nada tem falado sobre a tragédia da Austrália. 

Os números já apurados pelas autoridades ambientais do país sobre as consequências desses incêndios para o meio ambiente são assustadoras – cerca de 327 espécies de plantas e animais protegidos pela legislação foram fortemente afetados pela tragédia. Alguns habitats chegaram a ter impressionantes 80% de suas áreas destruídas pelas chamas

A Austrália é o continente mais isolado do mundo e sua vida animal e vegetal passou por intensas mudanças evolutivas, assumindo características únicas. Desde o século II da era cristã circulavam lendas por toda a Europa falando de uma terra misteriosa na parte Sul do planeta – terra australis incognita, ou, terra desconhecida do Sul. Legiões romanas estacionadas em regiões longínquas da Ásia, muito provavelmente, ouviram relatos sobre essa terra distante de povos locais, que por sua vez, haviam ouvido esses relatos de outros povos.  

As terras austrais do continente só veriam o desembarque de navegadores europeus, portugueses e holandeses, no início do século XVII – esses primeiros exploradores rapidamente descobriram as dificuldades de se encontrar água nessa terra recém descoberta e focaram suas atenções em outras terras mais verdejantes do Sudeste Asiático. Oficialmente, a Austrália foi descoberta e reclamada em nome da Coroa Inglesa pelo capitão James Cook em 1770. Os ingleses ficaram fascinados com os animais absolutamente únicos que encontraram nessas terras, especialmente os cangurus, os ornitorrincos e as équidnas. 

Essa fauna e flora únicas da Austrália, que desde o século XVIII vêm sofrendo fortes impactos com a colonização do país e com a introdução de espécies exóticas, desde vez está sofrendo com a destruição em larga escala de habitas pelas chamas. Levantamentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente do país colocou em situação de extrema vulnerabilidade 272 espécies de plantas, 16 mamíferos, 14 sapos e 9 aves, além de 4 espécies de peixes, 4 insetos e uma aranha. Todas essas formas de vida são autóctones do Outback australiano e não são encontradas em qualquer outra parte do mundo

Até o momento, os incêndios destruíram cerca de 100 mil km², uma área pouco maior que a do Estado de Pernambuco. Somente no Estado de Nova Gales do Sul, a região mais habitada do país e onde se encontram cidades importantes como Sydney e Camberra, as chamas destruíram cerca de 50 mil km², uma área cerca de cinco vezes maior do que a que foi queimada na Amazônia em 2019. Além dos imensos prejuízos à vida animal e vegetal, as cinzas dos incêndios atingiram diversos reservatórios de água da região, o que prejudicou muito o já complicado abastecimento de água em diversas cidades. 

As gravíssimas consequências desses incêndios florestais, que vão ficar mais claras apenas a médio e longo prazo, vêm se somar a uma verdadeira infinidade de problemas ambientais já vividos pelo país. Apesar de não aparecer com muita ênfase nos noticiários internacionais, a Austrália é um dos países em pior situação de degradação ambiental no mundo. O país sofre imensamente com espécies invasoras, com o avanço dos desmatamentos para a criação de campos agricultáveis, com a mineração em larga escala e, mais recentemente, com os graves problemas criados pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global. 

Falaremos disso na nossa próxima postagem. 

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