UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS DESMATAMENTOS NO ESPÍRITO SANTO, OU AINDA FALANDO DAS FORTES CHUVAS DE JANEIRO

Cafezais no Espírito Santo

As chuvas desse mês de janeiro também deixaram um enorme rastro de destruição e de mortes no Espírito Santo – mais de 12 mil pessoas foram diretamente atingidas em 27 municípios do Estado desde o último dia 17. De acordo com as informações oficiais são 10.573 desalojados e 1.898 desabrigados – 10 pessoas morreram, incluindo 2 crianças. A região mais fortemente atingida foi o Sul do Estado

Assim como aconteceu no Estado de Minas Gerais, o Espírito Santo também passou por um intenso processo de desmatamento. De acordo com informações do Atlas dos Ecossistemas do Espírito Santo, edição de 2008, quando a Vila do Espírito Santo, atual cidade de Vila Velha, foi fundada em 1535, cerca de 87% do território capixaba era coberto por florestas de Mata Atlântica. Nos dias atuais, as estimativas falam de uma cobertura vegetal remanescente de apenas 8%. Conforme comentamos na postagem anterior, os desmatamentos são uma das principais causas das enchentes e de todas as tragédias associadas. 

Diferente do que aconteceu em outros Estados da faixa costeira do Brasil, o Espírito Santo teve uma história bastante singular e uma ocupação territorial bastante tardia. Uma das razões para isso foi a presença dos perigosos índios aimorés, mais conhecidos como botocudos, numa faixa de terras entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo. Outro fator que merece destaque foi a política de “Areas Prohibidas” da Coroa Portuguesa, que tinha o objetivo de dificultar o acesso de aventureiros ao território das Minas Gerais durante o Ciclo do Ouro. Vamos entender essas histórias: 

A colonização do Brasil teve início na década de 1530, quando foi iniciado o processo de povoamento da costa e implantação das grandes plantações de cana-de-açúcar e dos engenhos para a produção do valioso açúcar, instalações que sempre eram complementadas com uma casa-grande para o usineiro e sua família e uma ou várias senzalas para os escravos. Os principais pólos de produção do açúcar há época se concentravam na faixa litorânea do Nordeste, entre a Bahia e a Paraíba, no Norte fluminense e no litoral de São Paulo

No sul da Bahia e no Espírito Santo foram criadas 3 Capitanias Hereditárias com o objetivo de desenvolver atividades açucareiras. Eram elas as Capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Esses empreendimentos não vingaram devido aos constantes ataques dos índios botocudos, que além de muito ferozes, eram antropófagos. Esses índios eram nômades e eram estimados em 30 mil indivíduos há época. 

Pero de Magalhães Gândavo, historiador e cronista português que preparou em 1576 um dos primeiros relatórios oficiais sobre nosso país – Tratado da terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos de Brasil, descreveu assim os aimorés: 

“Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra.” 

Existem inúmeros relatos, principalmente de religiosos, descrevendo os ataques dos índios aymorés a vilas e engenhos, onde matavam a maioria dos colonizadores e destruíam todas as construções. Incapazes de conter a fúria dos aymorés, as Autoridades Coloniais optaram por deixar um grande “vazio” no mapa do litoral entre a região de Ilhéus, na Bahia, e a Vila do Espírito Santo.  

Em 1693, quando foram feitas as primeiras descobertas de ouro na região das Minas Geraes por bandeirantes paulistas, a notícia se espalhou por toda a colônia rapidamente. Milhares de aventureiros abandonaram seus trabalhos na indústria açucareira e se embrenharam nos sertões em busca do ouro. O rio Doce, que nasce na Serra da Mantiqueira e tem afluentes com nascentes próximas à região de Ouro Preto, um dos principais centros auríferos do período, e foz no litoral capixaba nas proximidades da cidade de Linhares, tinha grande potencial para se transformar numa das mais importantes vias de penetração ao interior do território e escoamento da produção de ouro – não o foi por causa da maciça presença de índios aymorés nas suas margens. O rio São Francisco e a Estrada Real, também chamada de Caminho do Ouro, que vai de Minas Gerais até o Estado do Rio de Janeiro, se tornaram as únicas opções viáveis. 

Apesar da presença dos aymorés no Espírito Santo funcionar como um inibidor para a entrada de aventureiros nas áreas de mineração das Minas Geraes, a Coroa Portuguesa foi além e publicou um decreto limitando o povoamento, as construções e as expedições a uma faixa de 3 léguas (15 km) do litoral. Essa combinação de índios ferozes e acesso controlado ao território, garantiu a perfeita conservação das florestas capixabas até meados do século XIX. 

Por volta de 1850, as primeiras mudas de café chegaram ao Espírito Santo vindas de terras fluminenses. Diferentemente de outros produtos agrícolas, o café é uma planta que apresenta uma série de restrições físicas para o seu cultivo, bastante diferente da cana-de-açúcar ou do algodão, produtos de grande destaque na época. Os limites de temperatura ideais para o cultivo da planta oscilam entre 5 e 33º C. É uma planta muito sensível tanto a geadas quanto ao excesso de calor e insolação. Requer ainda chuvas regulares e bem distribuídas e é muito exigente em relação à qualidade do solo. É uma planta de cultivo permanente, cujo início da produção exige um período entre 4 e 5 anos a partir do plantio das mudas. 

Com o início da produção em larga escala do café para atender à crescente demanda na Europa e Estados Unidos, as matas capixabas começaram a ser derrubadas e grande parte do território foi transformado num imenso cafezal (vide foto). Grandes quantidades de imigrantes, principalmente alemães e italianos, começaram a desembarcar no Estado, iniciando um lento e gradual processo de ocupação de todo o Espírito Santo. Para que todos tenham ideia da lentidão desse processo, estima-se que em 1880, apenas 15% do território capixaba era habitado

Com o avanço dos cafezais e das fazendas, os temidos aymorés, que ainda resistiam ao largo do rio Doce, foram perdendo, não sem muita luta, seus territórios. Além de fazendeiros e colonos fortemente armados, outras tribos indígenas mais “amigáveis” com os brancos também participaram dessa luta. Também precisamos destacar a figura dos bugreiros, caçadores profissionais de índios que ganhavam por “cabeça” abatida e eram contratados por autoridades da Província e por grandes fazendeiros. 

A expansão da cultura do café durou até 1929, época em que teve início a Grande Depressão nos Estados Unidos. Milhões de sacas de café produzidas no Brasil. repentinamente perderam mercado, levando inúmeros produtores e exportadores à falência. A economia do Espírito Santo foi fortemente abalada nessa ocasião. Só em décadas bem recentes é que a cafeicultura se recuperou no Estado, que atualmente é o maior produtor de café conilon do Brasil. Com a crise do café, as matas remanescentes no Estado puderam “respirar” aliviadas por cerca de duas décadas. 

Com a construção da cidade de Brasília, a nova Capital Federal, a partir de 1956, o Espírito Santo se tornou o maior fornecedor de madeira de construção para as suas obras. Para se ter uma ideia do grau de devastação florestal no período, apenas no Norte do Estado existiam perto de 1.500 serrarias em operação. No trecho entre Vitória e Linhares existiam cerca de 120 serrarias produzindo pranchões de madeira e dormentes para ferrovias nessa mesma época. Dados oficias indicam que, em 1959, cerca de 25% da mão de obra capixaba trabalhava na indústria madeireira. O que ainda existia de floresta em pé, foi derrubado nessa época

O resultado de toda essa destruição da cobertura vegetal no Espírito Santo é o que estamos vendo nos noticiários: grandes alagamentos e inundações, desmoronamentos de encostas e gente morrendo. 

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