A SOJA, AS MATAS E OS SOLOS

Soja

Desde os primeiros tempos do Brasil colonial, nossas terras vêm se prestando aos mais diferentes usos agrícolas: cana-de-açúcar, café, algodão, laranja, cereais de todos os tipos. A cada avanço das frentes agrícolas, diferentes biomas acabaram sucumbindo sob o fogo e o avanço das plantações. Nenhuma cultura agrícola, entretanto, avançou tão rapidamente em nosso país como a soja. E este fenômeno não se deu apenas em terras brasileiras: a soja avançou por diferentes países como Índia, Estados Unidos, Argentina, Paraguai e, nas últimas décadas, por diversos países africanos. Ao contrário de culturas tradicionais como o trigo, a cevada e o centeio, que gastaram milhares de anos para conquistar o mundo, a soja o fez em menos de um século. Vamos tentar entender um pouco disso:

A soja surgiu originalmente na China há cerca de 5 mil anos atrás, a partir do cruzamento de duas espécies selvagens de grãos. O grão resultante desse cruzamento, com alto teor de gordura e proteína, rapidamente caiu no gosto popular e passou a ser um ingrediente fundamental na culinária chinesa na forma de óleos e molhos. Foi ao longo do século XX que a soja começou a ganhar o mundo, tendo sido plantada inicialmente nos Estados Unidos, onde o grão se adaptou rapidamente ao clima, muito similar ao da China. No Brasil, a soja começou a ser plantada inicialmente no Rio Grande do Sul, única região de clima próximo ao Temperado. 

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, realizou diversos trabalhos de pesquisa com a soja, conseguindo climatizar e adaptar o grão às condições de clima do Brasil. O grande êxito da EMBRAPA, porém, foi conseguir adaptar a soja às características de solo do Cerrado brasileiro, feito que transformaria o país no segundo maior produtor do grão. O Cerrado sempre foi considerado um bioma pobre, com solos improdutivos – aliás, foi graças a essa “pobreza” que o bioma conseguiu atravessar pela maior parte da história do país praticamente intocado: foi a adaptação da soja às terras com alto teor de alumínio do Cerrado a principal responsável pela devastação do bioma a partir de meados da década de 1970. 

Brasil e Estados Unidos disputam, cabeça a cabeça, a posição de maior produtor mundial de soja, que em 2017 atingiu a cifra de 351,3 milhões de toneladas, em uma área de mais de 120 milhões de hectares ao redor do globo. A produção dos Estados Unidos atingiu a cifra de 117,2 milhões de toneladas (33,4% da produção mundial) com uma área plantada de 33,4 milhões de hectares. A produção do Brasil atingiu a cifra de 113,9 milhões de toneladas (32,4% da produção mundial), com uma área plantada de 33,9 milhões de hectares. Apesar da altíssima produtividade das lavouras brasileiras, nosso país peca pela falta de uma infraestrutura adequada para o escoamento da produção, feita basicamente por caminhões em rodovias com péssimas condições de conservação. Nas épocas de colheita, é comum a formação de gigantescas filas de carretas nas rodovias e nos acessos aos portos, com queima de grandes volumes de combustível, muita poluição e perda de produtividade. 

O Estado do Mato Grosso é o maior produtor brasileiro de soja. Na safra 2016/2017 sua produção atingiu a cifra de 30,5 milhões de toneladas, com uma área plantada de 9,3 milhões de hectares. Na segunda colocação encontramos o Estado do Paraná, com uma produção de 19,5 milhões de toneladas e o Rio Grande do Sul com uma produção bem próxima, atingindo a cifra de 18,7 milhões de toneladas. Em termos percentuais, Mato Grosso lidera o ranking nacional com 26,8% da produção de soja, com o Paraná na segunda colocação com 17,1% e o Rio Grande do Sul na terceira colocação com 16,4%. 

Cerca de 41,5% da soja produzida no Brasil ou 47,2 milhões de toneladas são destinadas ao mercado interno, especialmente usada na produção de óleo, margarinas e gordura vegetal, além da produção de ração e farelo para alimentação animal. Perto de 51,6 milhões de toneladas serão exportadas in natura, especialmente para a China, responsável pela compra de mais de 65% da produção brasileira, e para a União Europeia, responsável pela compra de 11,6% de nossa produção. O Brasil é considerado o maior exportador mundial de soja, com os Estados Unidos, Argentina e Paraguai vindo na sequência

Apesar desses números grandiosos, a cultura da soja causa inúmeros problemas ambientais por todo o país, especialmente por causa do avanço das culturas contra as matas, destruição de solos, contaminação e assoreamento de rios, perda de biodiversidade animal e vegetal em várias regiões, contaminação de terras e águas com resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos, entre outros problemas. 

Nas próximas postagens vamos explorar alguns desses problemas, especialmente aqueles ligados aos solos e as águas. 

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