RIO DAS VELHAS, O 6° RIO MAIS POLUÍDO DO BRASIL

Rio das Velhas

A Região Metropolitana de Belo Horizonte se apresenta como a terceira maior aglomeração urbana do Brasil, com uma população total de aproximadamente 6 milhões de habitantes. A Região é o centro político, financeiro, comercial e cultural do Estado de Minas Gerais, concentrando aproximadamente 40% do PIB estadual e 25% da população do Estado. Toda essa grandiosidade numérica se concentra nos arredores de um rio poluído e malcheiroso que é, ao mesmo tempo, o principal manancial de abastecimento de água e o principal corpo hídrico receptor dos esgotos da população da Região Metropolitana – o rio das Velhas. Não por acaso, o rio das Velhas é classificado como o 6° rio mais poluído do Brasil.

A água do rio das Velhas é captada a montante da região, ou seja, antes das águas se aproximarem da Região Metropolitana, em um trecho onde a água apresenta condições de qualidade mais favoráveis. A água tratada e potabilizada é distribuída para a população e, após o uso, é devolvida para a bacia hidrográfica do Rio das Velhas com muito esgoto in natura, despejados em afluentes como o Ribeirão Arrudas e Ribeirão do Onça. Esta situação se repete em centenas de rios que abastecem pequenas e médias cidades de todo o Brasil, onde a água dos rios é tratada da mesma maneira. Grandes volumes de esgotos são lançados  no leito de rios como o das Velhas, se misturando aos resíduos da mineração, da agricultura e ao lixo gerado nas cidades, degradando cada vez mais os caudais que chegam aos grandes rios. Estamos falando demoradamente destes temas nesta sequência de postagens, onde apresentamos situações exatamente iguais em rios como o Tietê, em São Paulo, rio Iguaçú, no Paraná, rios Capibaribe e Ipojuca em Pernambuco, entre muito outros.

O Rio das Velhas é hoje um corpo hídrico altamente poluído e malcheiroso, especialmente a jusante da Região Metropolitana de Belo Horizonte, apresentando altos volumes de esgotos nas suas águas barrentas e em tons vermelhos, cores resultantes da grande quantidade de resíduos de mineração, atividade econômica das mais importantes do Estado de Minas Gerais e causadora de inúmeros problemas ambientais. O alto grau de assoreamento da calha do rio das Velhas também é marcante. Não custa lembrar que o rio das Velhas é o mais extenso e um dos mais importantes afluentes do rio São Francisco, de longe o mais importante rio da região Nordeste – o São Francisco e toda a população das cidades ao longo de suas margens sofrem com a redução cada vez maior do volume de suas águas, com o assoreamento da calha e com a redução dos estoques de peixes. A destruição de afluentes importantes como o rio das Velhas está na raiz dos problemas do nosso Velho Chico.

A história de Minas Gerais se confunde com a própria história do rio das Velhas – durante o histórico Ciclo do Ouro, o rio foi um dos principais eixos da mineração na região central de Minas Gerais, ligando a cidade de Ouro Preto, antiga capital da Província e onde fica a nascente do rio, e também importantes cidades como Sabará e Santa Luzia ao Rio São Francisco. O sertão nordestino se transformou num grande fornecedor de carne e outros alimentos no período da mineração na região das chamadas Geraes e o vale do rio São Francisco era a principal rota de acesso, tanto por caminhos marginais quanto por embarcações fluviais. Esse intenso vai e vem de pessoas e de mercadorias nas águas dos rios São Francisco e das Velhas levou ao surgimento de inúmeras vilas e povoados ao longo de suas margens, que ao longo dos séculos se transformaram em importantes municípios com forte vocação em mineração e em diversos setores industriais.

A bacia hidrográfica do Rio das Velhas abrange 34 municípios, com destaque para grandes cidades como Belo Horizonte, Contagem, Betim, Nova Lima e Lagoa Santa. A Região tem forte concentração industrial – somente nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e do Onça existem mais de 3.100 indústrias, das quais metade são consideradas poluidoras, uma vez que as indústrias não realizam um adequado tratamento dos efluentes. Além dos esgotos industriais, as águas recebem enormes quantidades de esgotos domésticos e resíduos da mineração, além de resíduos sólidos descartados de forma inadequada pelas cidades.

Com o fim do chamado Ciclo do Ouro, houve um longo período de decadência nas cidades mineiras, que pouco a pouco foram encontrando um novo caminho. O sub solo rico em minerais ferrosos e a forte tradição em atividades de mineração, herdadas dos áureos tempos do ouro, criaram as bases para uma economia que só se fortaleceu com o início da industrialização do país, onde ferro e aço estão na base da cadeia produtiva. A intensa extração mineral cobrou seu preço em Minas Gerais: a mineração sem maiores preocupações com o meio ambiente provocou enormes estragos nos rios da região, incluindo-se aqui o rio das Velhas, que sofreu (e ainda sofre) com o carreamento de sedimentos e resíduos da mineração. A fundição dos metais exige grandes quantidades de energia, tradicionalmente gerada pela queima de carvão mineral; na falta de grandes fontes de carvão (só existem minas de carvão na região Sul do Brasil), as fundições e siderúrgicas de Minas Gerais sempre se valeram do carvão de origem vegetal, o que levou à destruição de grandes extensões de matas, com consequências diretas na destruição de inúmeros cursos d’água – o rio das Velhas sofreu e ainda sofre muito com essa destruição da cobertura vegetal.  Vamos explorar todos estes temas ao longo de várias postagens.

Finalizando, uma pequena ironia do destino: a cidade de Ouro Preto, além de toda a sua importância para a história do Brasil, é um marco importante na história do saneamento básico no Brasil – foi uma das primeiras cidades brasileiras a implantar um sistema de águas e esgotos com estações de tratamento, a partir da década de 1870. O Museu da Inconfidência que fica na cidade tem entre suas peças em exposição algumas curiosas manilhas de esgotos antigas, feitas em pedra sabão, datadas do século XVIII. Infelizmente, essa iniciativa pioneira do saneamento básico em Ouro Preto não avançou e os cuidados com as preciosas águas dos muitos rios da região ficaram muito aquém do que seria esperado – o rio das Velhas é um desses.

Continuamos no próximo post.

 

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s