A “ECOLOGIA” DO FOGO, OU FALANDO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

Incêndio no Cerrado

Caso você tenha prestado atenção nos noticiários nesse último mês, com certeza vai se recordar de inúmeras matérias falando das altas temperaturas no verão deste ano do Hemisfério Norte. Temperaturas superiores aos 40° C se tornaram “comuns” em extensas áreas da Europa, América do Norte e Ásia. No Sul de Portugal, na região do Algarve, chegaram a ser divulgadas notícias que davam conta de temperaturas na casa do 46° C – esse patamar de temperaturas, encontrando com certa facilidade em algumas áreas de deserto, estão muito acima das médias climáticas dessas regiões. E uma das graves consequências dessas altas temperatura é o aumento da frequência e da intensidade dos incêndios florestais. Na última postagem, inclusive, reproduzimos um artigo que comentava a solução da administração do Presidente americano Donald Trump para o combate aos incêndios florestais – aumentar a exploração madeireira e, assim, se conseguirá controlar melhor os grandes incêndios florestais nos Estados Unidos. 

O fogo é uma das forças da natureza e sua fúria e energia vêm, há milhões de anos, ajudando a modelar as paisagens naturais de nosso planeta. Originalmente, os incêndios florestais eram provocados por erupções vulcânicas, que lançavam pedras incandescentes a quilômetros de distância em áreas cobertas por matas, onde o fogo poderia se iniciar e destruir grandes volumes de vegetação. Também poderiam ter sua origem nos raios que atingiam árvores secas ou ainda pelos raios solares sol, que teriam o poder de iniciar o fogo incidindo sobre folhas secas. Um exemplo do poder desses incêndios é o Cerrado brasileiro (vide foto), onde a ação do fogo nos últimos 25 milhões de anos forçou as espécies vegetais a evoluirem  – algumas plantas se adaptaram tanto às queimadas frequentes que suas sementes dependem do fogo para germinar. Espécies animais que vivem nesses habitats também se adaptaram e desenvolveram suas estratégias de fuga e sobrevivência durante esses grandes eventos catastróficos. 

Evidências fósseis indicam que o ser humano se utiliza do poder do fogo há aproximadamente 500 mil anos. Incialmente, esses humanos criavam suas fogueiras a partir de madeiras em chamas ou por meio de brasas coletadas em matas onde incêndios de origem natural se alastraram. Com o passar do tempo, os humanos desenvolveram suas próprias técnicas para a criação do fogo e passaram a ter domínio pleno desse grande “poder” da natureza. Diversos estudos evolutivos afirmam que o uso do fogo na preparação dos alimentos foi um elemento fundamental para a evolução anatômica do ser humano – a carne preparada no fogo ficava mais macia e fácil de comer, eliminando assim a necessidade de mandíbulas extrafortes e dentes grandes, como aqueles encontrados em fósseis de hominídeos como o homo erectus, espécie que viveu entre 1,8 milhão e 300 mil anos atrás. O aumento do consumo de proteínas também teria sido fundamental para o maior desenvolvimento do cérebro humano – ou seja, segundo esses estudos, nós, seres humanos modernos, devemos muito do que somos ao uso do fogo por nossos ancestrais

As técnicas agrícolas e o uso do fogo também têm ligações bastante antigas: a queima de áreas cobertas por vegetação vem sendo usada a milhares de anos para a formação de campos agrícolas. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a agricultura é, em grande parte, uma prática que se realiza em campos abertos como as estepes e as várzeas dos grandes rios, locais onde a agricultura foi desenvolvida inicialmente. Áreas cobertas por florestas, a grosso modo, não eram adequadas para as práticas agrícolas e o fogo acabou sendo usado como uma eficiente “ferramenta” para a remoção dessa vegetação e formação dos campos agrícolas. Foi assim que antigas áreas cobertas originalmente por florestas na Ásia, Europa e nas Américas foram transformadas artificialmente pelo fogo em campos. 

Um exemplo recente (falando em termos históricos) do uso do fogo para a alteração de uma paisagem ecológica aqui no Brasil foram as grandes queimadas de áreas da Caatinga no sertão nordestino para a formação de pastagens para o gado, fato citado em inúmeras postagens aqui deste blog. Expulsos do litoral pelos grandes senhores dos canaviais, os criadores de bois passaram a buscar espaços nas áreas de caatinga dos sertões. A fim de aumentar artificialmente as áreas de campos com pastagens para os animais, esses criadores de gado passaram a queimar sistematicamente as áreas com vegetação de caatinga. Muitos dos efeitos da seca e da desertificação de terras nessas regiões (por falta de estudos anteriores não é possível se afirmar exatamente o tamanho desses impactos) se deveu ao uso dessas práticas. 

Encerrando esta postagem, peço que prestem atenção nesse relato de Euclides da Cunha (1866-1909), militar e escritor brasileiro, autor de um dos grandes livros sobre a nossa história: Os Sertões. Nesse relato, Euclides da Cunha se refere a essas queimadas nas áreas dos caatingais nas primeiras décadas do século XIX: 

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.” 

Continuaremos falando sobre os impactos do fogo sobre as matas, as águas e os solos na próxima postagem. 

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