OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DE UM BIOMA CHAMADO CAATINGA

Caatinga

A Caatinga é o único bioma ou sistema florestal totalmente brasileiro, com plantas e animais perfeitamente adaptados a um clima sujeito a longos períodos de estiagem (vide foto). A Caatinga ocupa uma área com aproximadamente 1 milhão de km² dentro da região conhecida por Semiárido Brasileiro. Apesar de todo esse orgulho por sua brasilidade, a Caatinga figura na primeira posição entre os nossos biomas mais ameaçados – mais de 50% de sua área original já foi perdida e a parte restante segue sob forte ameaça. Grande parte dessa destruição foi feita por queimadas propositais, que tinham como objetivo o aumento das áreas de campos para o pastoreio de bois, cabras, bodes, ovelhas e outros animais. A história da destruição da Caatinga é bastante rica e didática. Conhecê-la vai ajudar você a entender a relação entre fogo, solos e águas, e, de quebra, entender o problema da desertificação de solos. 

Para quem não está acostumado, a visão da vegetação de caatinga completamente seca e sem uma única folha verde é algo desesperador. Em duas ocasiões diferentes, em anos de forte estiagem nos Estados de Pernambuco e de Sergipe, eu passei por essa angustia – muito calor, ar extremamente seco, uma poeira fina sob os pés que se levantava como uma nuvem a cada passo e um tom ocre monocromático por todos os lados. Em contraste a toda essa desolação (pelo menos no meu ponto de vista) sertanejos simpáticos e muito hospitaleiros, que se esforçavam em me receber em suas casas da melhor maneira possível. A paisagem que eu via ali fazia parte das suas vidas e era algo temporário – assim que as chuvas chegassem, e elas sempre chegam, seu mundo mudaria rápida e completamente. 

A Região do Semiárido (ou Domínio da Caatinga) compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 30 milhões de pessoas habite a região. A Caatinga é uma região semiárida única no mundo, sendo considerado o bioma brasileiro mais ameaçado e já transformado pela ação humana (o Cerrado “corre” para tomar essa primeira colocação). Engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do estado de Minas Gerais, também de clima semiárido, é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas

A vegetação, em função do clima e dos tipos de solos, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. Pela sua maior extensão e importância, vamos nos concentrar nas zonas da Caatinga. Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do sertão é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água: quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade. Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias após as primeiras chuvas pinta o chão da Caatinga de verde, a cor da esperança, e faz surgir toda uma infinidade de flores coloridas – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix

As primeiras expedições exploratórias organizadas nos pioneiros tempos do período colonial, as bandeiras (não foram só os paulistas que organizaram essas expedições), não encontraram ouro ou qualquer tipo de pedras preciosas – acharam uma vegetação e um clima “muito inóspitos e bem diferentes do luxuriante litoral, e também repleto de índios perigosos” – essa é uma descrição aproximada do que aparece nos relatórios das expedições e que foram encaminhados ao Governador Geral. Nenhuma expedição geográfica ou científica foi organizada naqueles primeiros tempos – é por isso que ninguém sabe ao certo a extensão original da Caatinga e o quanto desse bioma já foi destruído ou alterado. Relatos dispersos de alguns viajantes solitários e religiosos que se aventuram por esses sertões, citam algumas matas e rios de bom porte, porém, sem maiores informações, é difícil saber se essas informações se referem mesmo a áreas da Caatinga ou a faixas interioranas da Mata Atlântica. 

Durante muito tempo, somente os escravos africanos que conseguiam escapar das senzalas dos grandes engenhos de cana-de-açúcar do litoral é que se aventuravam pelos sertões dos caatingais nordestinos. Surpreendentemente, muitos acabaram acolhidos pelos indígenas e passaram a viver livremente em suas tribos. Foi, porém, um outro trabalhador incansável dos canaviais, parceiro de vida de muitos desses escravos, que acabou expulso das terras do litoral e que acabou encontrando um lugar para viver nos campos ralos das matas de caatinga – falamos dos bois (gado vacum para sermos mais precisos). 

Os bois foram trazidos para as terras brasileiras para trabalharem como animais de carga nos canaviais. As canas cortadas precisavam ser transportadas para os engenhos em carroças e eram os bois os responsáveis pela força bruta; onde não era possível o uso de moendas de cana movidas pela força hidráulica dos rios, eram esses bois que faziam as engrenagens trabalharem. O abate de bois para o consumo de sua carne era, nesse período, uma “utilidade” secundária para os animais. Com o passar dos anos e com o crescimento vegetativo das boiadas, esses animais passaram de aliados a vilões. 

Explicaremos tudo isso e a sua relação com as queimadas da caatinga e os problemas de solo e água na nossa próxima postagem. 

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