OS GRANDES AQUÍFEROS DO BIOMA CERRADO

Aquíferos do Cerrado

Em nossa última postagem falamos da importância da vegetação do bioma Cerrado na recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos de água. Caracterizada por possuir grandes sistemas de raízes, muitas vezes bem maiores do que a parte visível da planta na superfície, a vegetação do Cerrado passou por um longo processo evolutivo, adaptando-se perfeitamente às condições dos solos e às reservas de água subterrâneas. Nos períodos de seca, essas raízes longas permitem que as plantas captem a água armazenada a grandes profundidades no solo; quando chega o período das chuvas, essas raízes facilitam a infiltração da água no solo, permitindo a recarga dos aquíferos e lençóis subterrâneos. Esse sistema natural de armazenamento de água no Cerrado brasileiro é fundamental para a alimentação de algumas das mais importantes bacias hidrográficas do país

Aquíferos são formações ou grupos de formações geológicas constituídas por rochas porosas e permeáveis que permitem o armazenamento de grandes volumes de águas das chuvas – essas águas alimentam as nascentes de rios e também podem ser captadas em poços semi-artesianos e artesianos para abastecimento de populações humanas. Apesar de serem apresentados sempre no singular, essas formações são agrupadas na forma de sistemas de aquíferos interligados, que se estendem por grandes áreas geográficas. A região do Cerrado brasileiro possui três grandes e importantes aquíferos: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani.  

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais, porém, sua área natural de recarga abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. Está inserido dentro da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, alimentando nascentes de importantes afluentes do rio. As águas desse aquífero são consideradas de boa qualidade e se encontram em profundidades entre 50 e 100 metros. Poços de captação retiram grandes volumes de água deste aquífero para uso no abastecimento de diversos municípios no Norte de Minas Gerais e no Sul da Bahia. 

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². Este sistema de aquíferos têm importância fundamental na regularização da vazão de rios que nascem na região e que correm na direção do Rio São Francisco e que são fundamentais para o abastecimento de cidades e uso em sistemas de irrigação. 

As águas dos aquíferos Urucuia e Bambuí são estratégicas para a Região do Semiárido, pois são elas que garantem a perenização de importantes rios da região em épocas de seca prolongada, quando diversos rios menores literalmente secam. Uma característica importante deste sistema de aquíferos é que suas águas se concentram em baixas profundidades e estão sujeitas a contaminação por atividades agropecuárias e destruição da vegetação nativa, o que também compromete a recarga de águas. Outra fonte importante de problemas é a superexploração das águas para fins de irrigação, especialmente na região do Cerrado baiano, uma das frentes agrícolas que mais tem crescido nos últimos anos. 

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da região amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos

Oito Estados brasileiros abrigam trechos do aquífero Guarani: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas áreas de ocorrência do aquífero no Brasil, que compreendem 70% da área total da formação, vive uma população estimada em, pelo menos, 30 milhões de habitantes (o mapeamento da área total do aquífero é atualizada constantemente). O aquífero tem 50% de sua extensão em terras brasileiras concentrada em áreas do Cerrado.

Cidades do interior de São Paulo são as maiores utilizadoras de águas captadas no aquífero Guarani, a exemplo de Ribeirão Preto, cidade que retira toda a água utilizada para seu abastecimento de poços alimentados pelo aquífero. Aqui eu coloco um testemunho pessoal: meus avós e tios eram sitiantes em Lutécia, um município da região Oeste do Estado de São Paulo, região onde existem inúmeros afloramentos do aquífero Guarani: no sítio do meu avô existiam, pelo menos, 5 nascentes de água, que saía do solo aos borbotões – era uma imagem maravilhosa (uso o tempo passado por que meus avós são falecidos e o sítio foi vendido para um vizinho). 

Os aquíferos são reservas de água estratégicas, responsáveis pelo fornecimento de até 90% das águas que formam os caudais dos rios da região do Cerrado, especialmente na época da estação da seca. Apesar de serem aparentemente abundantes, as águas dos aquíferos dependem da recarga periódica nas estações das chuvas, quando a vegetação natural do Cerrado permite a infiltração da água no solo. A substituição intensa da vegetação nativa por plantações, especialmente de soja e milho, aumenta grandemente o fluxo de águas na superfície do solo, levando à grandes perdas por evaporação em prejuízo aos aquíferos, provocando reduções importantes na produção de água nas nascentes das bacias hidrográficas da região.  

É fundamental que se encontre um ponto de equilíbrio entre as atividades agropecuárias e a preservação das matas nativas do Cerrado como forma de se garantir a tradicional abundância das águas na região. A redução das reservas de água desses aquíferos colocará tanto a produção agropecuária quanto a vazão de importantes bacias hidrográficas no mais completo colapso. 

Infelizmente, alguns sinais desse colapso já são visíveis – nós falaremos disso na próxima postagem. 

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