DA MARMELADA À POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS

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Poucos devem saber, mas a marmelada foi um dos primeiros produtos “exportados” de São Paulo para o resto do Brasil, em especial para a região das Minas Gerais nos tempos áureos da mineração do ouro. A indústria açucareira foi, por quase 200 anos, a base econômica do Brasil colonial, especialmente na região Nordeste. Em São Paulo, representado na época pelas capitanias de São Vicente e de Santo Amaro, a cultura da cana-de-açúcar não foi muito bem-sucedida naquela época: a planície litorânea entre a Serra e o mar limitava muito a área agricultável e os constantes ataques de corsários e piratas, como os famosos Thomas Cavendish e Joris Van Spielbergen, resultaram na destruição dos engenhos. À revelia da política colonial portuguesa, os selvagens paulistas se refugiaram no Planalto de Piratininga e passaram a se dedicar à busca do ouro e pedras preciosas, na caça dos “negros da terra” e na produção e venda de ferramentas de ferro, tecidos grosseiros de algodão, chapéus de feltro e alimentos como a marmelada, a farinha, o toucinho e carne de porco salgada, rapadura, além da boa e velha cachaça (conhecida entre nós como “caninha paulista”).

Após a consolidação das áreas mineradoras na região das Geraes, descobertas pelos bandeirantes nos últimos anos do século XVI e primeiras décadas do século XVII, a venda de produtos e víveres se tornou um negócio extremamente rentável para os paulistas. Tropas de burros completamente carregadas seguiam de São Paulo para as Geraes e se vendia tudo – inclusive os burros. A marmelada, acondicionada em caixinhas de madeira, era uma iguaria muito apreciada e disputada pelos mineiros (que mais tarde seriam os nossos Mineiros). A produção dessa marmelada de caixinha se perdeu em São Paulo, mas sobrevive em outras regiões como no Estado de Goiás.

E por que lembrar da lendária marmelada de caixinha a essa altura de nossa história? Porque é um produto que evoca uma época em que nossa sociedade produzia uma quantidade insignificante de resíduos sólidos. Essa marmelada era preparada artesanalmente nas antigas fazendas do Planalto de Piratininga, onde se produzia de tudo, desde o açúcar e o marmelo até as embalagens de madeira de caixeta – as sobras da produção eram transformadas em adubo para as plantações e os restos de madeira ardiam no fogo sob os tachos de cobre das cozinhas. O consumidor final da marmelada nas Geraes se fartava com o doce e guardava a caixa de madeira para os usos mais diversos, indo desde um local fresco para o armazenamento do fumo-de-rolo ou alimentos até uma embalagem para o transporte e armazenamento das pepitas de ouro que porventura encontrasse. Era uma sociedade extremamente carente de bens e de produtos, onde nada se perdia – tudo se reciclava ou se reutilizava.

Seguindo numa linha histórica a partir do início de nossa história colonial, quando o volume de resíduos sólidos era muito próximo de zero, percebe-se um crescimento bastante lento no volume desses resíduos até a década de 1960, quando o plástico começa a aparecer nas lixeiras domésticas. É a partir desta década que se observa uma mudança na curva de produção de resíduos sólidos, que passa a crescer num ritmo mais forte, chegando nos dias atuais a mais de 1 kg de resíduos sólidos por habitante/dia. Porém, sempre há um porém, o crescimento do volume de resíduos de nossas cidades não foi acompanhado de uma evolução à altura dos mecanismos de gestão pública dos resíduos sólidos – houve uma explosão do número de lixões de todos os tipos para absorver o crescimento dos resíduos coletados; outro tanto desses resíduos, sem um sistema regular de coleta, passou a ser descartado nas ruas, terrenos baldios, rios e lagos. Nossas cidades passaram a viver e conviver com o lixo sob a égide de uma suposta vida moderna.

Para reorganizar e disciplinar a gestão dos resíduos sólidos, foi lançada em 2010 a Política Nacional dos Resíduos Sólidos – PNRS, através da Lei nº 12.305/10. Essa nova Política tem como objetivo principal o enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos.

Vamos falar mais sobre isso nos próximos posts. Uma Política tão importante e tão necessária tem de ser bem conhecida por todos e não pode acabar em marmelada.

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