AS BOIADAS DO SERTÃO E AS GUERRAS DO NORTE

Rio São Francisco

“Faixa com a largura média de 30 quilômetros, ora se estreitando entre o mar e os tabuleiros da zona agreste, ora se alargando em várzeas, brejos e colinas ondulantes, sem nunca ultrapassar, no entanto, a largura máxima de 80 quilômetros. Zona de solo rico e profundo e com uma relativa abundância de chuvas, era primitivamente recoberta por um revestimento de floresta do tipo tropical, não tão luxuriante e cerrada como a floresta úmida amazônica, mas por isto mesmo muito mais fácil de se deixar penetrar e conquistar pelo homem… O solo da região, em sua maior parte do tipo massapê — terra escura, gorda e pegajosa, que recobre em espessa camada porosa os xistos argilosos e os calcários do Cretáceo — é de uma magnífica fertilidade. Solo originariamente de qualidades físico-químicas privilegiadas, com uma grande riqueza de humo e de sais minerais. O clima tropical, sem o excesso de água da região amazônica, com um regime de chuvas, de estações bem definidas, também contribui favoravelmente para o cultivo fácil e seguro de cereais, frutas, verduras e leguminosas de uma grande variedade. A própria floresta nativa tinha uma excepcional abundância de árvores frutíferas, e outras, trazidas e transplantadas de continentes distantes, se aclimataram muito bem, inteiramente a gosto do novo quadro ecológico, e aí continuaram produzindo, como em suas áreas naturais.”

Essa é uma descrição da chamada Zona da Mata Nordestina, que você encontra no clássico livro “Geografia da Fome” de 1947, obra do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973) – em diversas viagens, eu percorri cada quilômetro do trecho entre Mangue Seco, no Norte da Bahia, e Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte e, confesso, só encontrei algo parecido com essa descrição em alguns poucos fragmentos florestais que sobreviveram – da Mata sobrou muito pouco. Há mais de 300 anos que a antiga paisagem sucumbiu ao avanço dos canaviais. A indústria do açúcar no litoral nordestino destruiu a mata, matou ou expulsou os índios, e também condenou as boiadas ao exílio nos sertões do semiárido e do alto sertão. Nas palavras de João Capistrano de Abreu:  “O açúcar matou o índio.”

Diferente da exuberância da Zona da Mata, onde os solos férteis e a abundância da água proporcionavam fartura de alimento e excelentes sítios para a criação dos bois, os sertões desconhecidos representaram um desafio diário na luta pela sobrevivência. Essa migração forçada levou a uma evolução artificial, criando os bois magros do sertão e o sertanejo forte que a tudo resiste – ao clima, à fome e à sede. As sucessivas secas que se desenrolarão na região ao longo dos séculos vindouros mostrarão a força e a resistência desse nordestino.

O avanço das boiadas pelo sertão teve muitos outros percalços além do clima extremo e da terra difícil: os embates com índios – primeiro com os naturais dos sertões, depois, com os grupos que fugiram do litoral e se instalaram naquelas terras. As grandes boiadas invadiam as terras ocupadas por diversas nações indígenas e avançaram vorazmente sobre os limitados recursos naturais do meio. As melhores terras do sertão eram aquelas localizadas ao longo dos poucos cursos d’água perenes, especialmente no grande vale do Rio São Francisco; e eram justamente essas terras as mais densamente povoadas pelos grupos indígenas do sertão nordestino.

Grandes conhecedoras dos limites ecológicos do semiárido, que para os índios era muito mais importante do que qualquer limite físico da área do seu território (tradicionalmente, as culturas indígenas não demonstram uma preocupação com a posse da terra, mas sim com o uso dos recursos oferecidos pela terra), essas tribos reagiram com hostilidade contra os invasores; num segundo momento, estes índios descobriram que a caça aos bois era muito mais vantajosa do que a caça aos animais silvestres da caatinga e, em muitos casos, até passaram a tolerar a presença dos invasores. Embates entre sertanejos e índios serão frequentes ao longo do período colonial e, em diversos momentos, o Governo Geral optará pela contratação de bandeirantes paulistas para “pacificar territórios” (traduzindo: matar os índios mais violentos e escravizar os mais mansos); esses movimentos ficarão registrados na história dos paulistas como As Guerras do Norte. Após a pacificação dos territórios, muitos destes bandeirantes abandonarão a vida nômade de sertanistas e irão se estabelecer como fazendeiros nas terras do vale do São Francisco, passando a lidar com a lucrativa e tranquila criação de bois.

Uma imensa faixa da Mata Atlântica desapareceu no período e o sertão teve de absorver as atividades pastoris de bovinos, caprinos, ovinos e de muares, as quais, concorrendo por espaço com a cana, foram expulsas para o sertão. Também teve que absorver populações que ficaram sem espaço no litoral – aqui entram centenas de milhares de indígenas que viram suas matas serem tomadas e destruídas pelas lavouras de cana. Populações que se desenvolveram e cresceram em todos os confins do semiárido nordestino pagaram com inacreditável sofrimento humano e, repetidas vezes, com a própria vida pela ganância daqueles que não permitiram sua permanência nas áreas luxuriantes do litoral.

Escravos fugidos das senzalas, mulatos rejeitados, índios aculturados e fugitivos de toda a ordem, brancos aventureiros, excedentes populacionais dos engenhos, bandeirantes paulistas cansados da vida nômade e aventureira – o sertão começou a receber gentes em quantidades cada vez maiores, que foram se “aconchegando” e ficando. A soma de todas essas diferentes gentes iniciou a geração – no ventre das mulheres indígenas (é importante lembrar que havia pouquíssimas mulheres brancas ou negras nos primeiros séculos da colonização do Brasil), de toda a população dos sertanejos nordestinos. E o vale do Rio São Francisco se transformou no berço que acolheu toda essa gente dos sertões.

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