A AMAZÔNIA QUE QUEREMOS

A Amazônia que queremos

No último mês de agosto, no auge do período da seca na Amazônia, imagens e vídeos de queimadas começaram a circular em redes sociais de todo o mundo. Foi quando os maiores “especialistas” mundiais em Amazônia começaram a falar que a maior Floresta Equatorial do mundo estava em chamas e sendo transformada em cinzas pelos brasileiros. Como “nunca dantes na história da humanidade”, vozes começaram a se levantar em defesa da Amazônia por todos os lados – a mais retumbante foi a voz de Emmanuel Macron, Presidente da França, que inclusive falou do uso de forças militares contra o Brasil.  

Em seus discursos inflamados, que tinham como objetivo melhorar a sua imagem junto ao seu próprio eleitorado francês, Macron chegou a usar a expressão a “nossa Amazônia”, além de chamar o Presidente brasileiro de “mentiroso” e de espalhar aos quatro ventos que a Amazônia deveria ser administrada por uma organização internacional (controlada pelas grandes potências mundiais, é claro). Felizmente, Macron acabou como uma voz isolada e dirigentes de países importantes como o Presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, e Boris Johnson, Primeiro-Ministro da Inglaterra, reafirmaram a soberania do Brasil sobre o trecho brasileiro da Amazônia.

Outra voz que ganhou grande destaque foi a da jovem sueca Greta Thunberg, que há algum tempo havia iniciado sua jornada de protestos em prol do meio ambiente. Todas as sextas-feiras, a garota faltava as aulas e ia protestar em frente ao Parlamento da Suécia. A Destruição da Floresta Amazônica, que erroneamente era chamada de “pulmão do mundo”, passou a ser um tema recorrente nos seus discursos. Muitos dos apoiadores de Greta imaginavam que a jovem era uma das mais fortes candidatas ao Prêmio Nobel da Paz de 2019. 

Se a gritaria dos defensores internacionais da Amazônia foi grande, do lado dos nacionalistas brasileiros não foi menor. Antigos fantasmas da Hileia Amazônica, uma velha doutrina que pregava a criação de um organismo internacional para a gestão de toda a Amazônia, voltaram a assombrar as casernas dos militares e gabinetes dos políticos em todo o país. Discursos nacionalistas inflamados, que há muito não se ouviam em nossas terras, pregavam incessantemente a nossa soberania sobre a Floresta Amazônica e sobre os seus fabulosos volumes de recursos minerais. Em resumo – nunca tanta gente falou tanta besteira sobre a Amazônia em tão pouco tempo, dentro e fora do Brasil. 

A escalada retórica, que parecia levar a uma guerra do Brasil contra o resto do mundo, felizmente, arrefeceu. Coincidência ou não, as notícias sobre as queimadas e a eventual transformação da Floresta Amazônica em cinzas sumiram dos principais telejornais internacionais logo após a divulgação do nome do ganhador do Prêmio Nobel da Paz –Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro da Etiópia. A chegada da temporada de chuvas na Região Norte também deu a sua contribuição, reduzindo significativamente as queimadas e ajudando as equipes civis e militares que combatiam heroicamente as chamas. 

Ao longo de uma sequência de 50 postagens, apresentamos um breve resumo da história da Amazônia, o longo processo de conquista e povoamento de suas terras, a abertura de estradas e a criação de grandes projetos de desenvolvimento regional, as suas riquezas naturais, assim como abordamos muitos dos seus atuais problemas. Diferente do mundo dos contos de fadas que muitos estrangeiros sonham – a de uma grande floresta virgem, a Amazônia é o lar de perto de 25 milhões de brasileiros – se incluirmos nessa conta as populações dos demais países Amazônicos, falamos de algo como 50 milhões de pessoas vivendo nos domínios dessa grande Floresta. Todas essas pessoas precisam “ganhar a vida” e agressões às matas, às águas e aos solos da Amazônia passaram a ser frequentes

Grande parte dos problemas atuais da Amazônia derivam das muitas políticas públicas que foram criadas ao longo de muitas décadas para uma rápida ocupação do território. Agricultores sem-terra de todo o Brasil foram estimulados a migrar para a Amazônia, com a promessa de recebimento de lotes de terra para trabalhar. Uma das condições para a posse definitiva dessas propriedades era o desmatamento de, pelo menos, metade da área e o uso da terra para fins produtivos. Transferindo para as paisagens Amazônicas as mesmas técnicas de cultivos dos solos usadas em suas regiões de origem, esses migrantes atacaram a floresta com unhas, dentes, machados e motosserras, fazendo exatamente o que os dirigentes do país esperavam – a Amazônia passou a ser colonizada em larga escala

A coivara, uma antiga técnica usada por agricultores de todo o país e com origens indígenas, passou a ser utilizada para a formação de campos agrícolas na Amazônia. A mata, depois de derrubada e seca, é queimada, ao mesmo tempo em que as cinzas carbonizadas das madeiras passam a fertilizar precariamente os solos pobres da região. Essas tradicionais queimadas, que em tempos de seca forte podem literalmente fugir do controle, se tornaram uma espécie de nova tradição Amazônica. Neste ano, particularmente mais seco que o normal, essas queimadas fugiram a qualquer controle e acabaram colocando o nosso país no radar dos intervencionistas internacionais. 

Longe de qualquer paranoia de ambientalistas radicais e de discursos políticos intervencionistas, precisamos, todos nós brasileiros, chegarmos a um consenso para definirmos qual é a Amazônia que queremos. Eu acredito que a busca por tecnologias e mecanismos que permitam o uso sustentável da Floresta Amazônica seja uma espécie de consenso geral. Mas é preciso ir mais longe – é preciso conversar com a população que vive atualmente nos domínios da Amazônia para saber o que eles pensam. 

Para os ambientalistas do Leblon e de Copacabana no Rio de Janeiro ou da região dos Jardins em São Paulo, que vivem em apartamentos confortáveis, com inúmeros aparelhos de ar condicionado e que tem uma boa renda mensal, é bem fácil falar da proteção da Floresta Amazônica. Já para aqueles que são obrigados a trabalhar sob uma atmosfera sufocante de mais de 40° C, expostos a grandes enxames de mosquitos transmissores de doenças tropicais como a malária e a febre amarela, sem as menores infraestruturas de saúde, saneamento básico, educação e segurança, condição em que se encontra grande parte da população que vive na Amazônia, a “coisa” é bem diferente. Sem as suas fontes de sustento na agricultura e na pecuária, no garimpo, no extrativismo e em outras atividades econômicas da Região, como é que essas pessoas vão sobreviver?

Como tudo o que se relaciona com a Amazônia, esses problemas e essas dúvidas são superlativos, não havendo qualquer espaço para soluções improvisadas, propostas por gente que nunca pôs os pés na Região. Daqui para a frente, será preciso muita cabeça fria e a busca por soluções ambientalmente adequadas, socialmente justas e, principalmente, economicamente viáveis para a Amazônia.

Encerrando, faço votos que essas soluções também contemplem as florestas equatoriais e tropicias da África, da América Central e do Sudeste Asiático, que sofrem de males muitos parecidos com os que afligem a nossa Floresta Amazônica. Além dessas, florestas boreais como a Taiga, a maior floresta do mundo, também sofrem com a extração silenciosa de grandes volumes de madeira e parece que nenhum dos grandes ambientalistas e importantes políticos do mundo está vendo isso.

PS: Se você quiser saber mais sobre as propostas para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, recomendo o excelente livro de Samuel Benchimol – ZÊNITE ECOLÓGICO E NADIR ECONÔMICO-SOCIAL, da Valer Editora.

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