A DESTRUIÇÃO DO TRECHO PERNAMBUCANO DA MATA ATLÂNTICA

Engenho de Cana

Vou começar a postagem de hoje propondo uma viagem de ficção científica:

Imagine embarcar em um avião ou numa nave espacial que consiga viajar tanto no espaço quanto no tempo e que transporte você, sem que você saiba, até um ponto qualquer do litoral do Estado de Pernambuco na época do descobrimento do Brasil. Você, muito provavelmente, teria um imenso choque ao encontrar uma mata densa e poderosa, que tocava as praias do oceano Atlântico ao Leste e o agreste sertão ao Oeste. Esta paisagem seria tão inusitada e diferente da atualmente existente no litoral pernambucano que, dificilmente, essa opção passaria pela sua cabeça – até arrisco dizer que a primeira ideia que viria a sua cabeça seria de uma praia na Região da Floresta Amazônica. Diferente da paisagem polinésia que encontramos hoje em toda a Região Nordeste, com domínio de intermináveis coqueirais (o coco é de origem asiática e foi introduzido no Brasil a partir de embarcações que traziam as especiarias do Oriente com escalas na região Nordeste), essas praias tinham uma aparência igual a trechos dos litorais das Regiões Sul e Sudeste onde a Mata Atlântica resistiu. Exemplos disto são a Floresta da Juréia, no litoral Sul do Estado de São Paulo, a Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro e o Parque Nacional do Superagui, no litoral do Paraná. Recomendo a você, curioso leitor, que nunca esteve em qualquer uma destas maravilhosas praias, que faça uma pesquisa – tenho certeza que ao ver imagens destes locais você vai ficar chocado com as mudanças ocorridas na vegetação do litoral Nordestino.

A Mata Atlântica era um riquíssimo bioma composto por diferentes sistemas florestais, que cobria uma área equivalente a 1,3 milhão de km² ou 15% do território brasileiro, acompanhando a costa desde o Norte do Rio Grande do Sul até o Sul do Estado do Ceará, com alguns trechos entrando continente adentro e atingindo áreas da Argentina e do Paraguai. A referência à floresta foi feita com o verbo em tempo passado (era) porque restam apenas 7% da cobertura da mata original. Quase dois terços da atual população brasileira vivem em áreas que eram, originalmente, cobertas pela Mata Atlântica – o crescimento das cidades, a mineração, o extrativismo, a agricultura e a pecuária foram os responsáveis pela destruição gradativa desta floresta. Essa destruição sistemática ainda está acontecendo, porém sem maiores repercussões em nossa sociedade. Há poucas semanas atrás, vocês devem lembrar bem, o Governo Federal publicou um atrapalhado decreto que extinguia a RENCA- Reserva Nacional do Cobre e Associados, uma gigantesca área da Floresta Amazônica entre os Estados do Amapá e do Pará. Preocupados com os riscos de destruição da floresta pela mineração, surgiram vozes contrárias por todos os lados, dentro e fora do Brasil; acuado, o Governo Federal resolveu cancelar o decreto. Trechos fragmentados da Mata Atlântica são derrubados, queimados ou destruídos todos os dias e, infelizmente, poucas vozes se levantam para protestar.

O trecho da Mata Atlântica destruído com maior voracidade e velocidade foi justamente o trecho da costa da Região Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte – essa destruição, feita a ferro e a fogo, se deu justamente para a implantação dos grandes canaviais do período Colonial. No Estado de Pernambuco, que já no século XVII era considerado um dos maiores produtores mundiais de açúcar, a velocidade desta destruição foi incomparável. Um relatório do ano de 1620 das Autoridades Coloniais informava que “nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500 mil arrobas de açúcar (equivalente a 7,5 milhões de toneladas), que bastaria para carregar todos os anos 130 a 140 naus.” O relatório prossegue informando a área ocupada com o cultivo da cana-de-açúcar: “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km).” Feitos os devidos cálculos, chegamos a uma área total entre 18 e 21,6 mil km² – para efeito de comparação, a área do Estado de Sergipe corresponde a 22 mil km². E olhem que as primeiras notícias sobre canaviais na Região Nordeste datam do ano de 1535.

Nos séculos XVI e XVII, o açúcar era um dos produtos mais valorizados do mercado mundial – podemos até comparar, grosso modo, com a produção e a venda do petróleo nos dias atuais – um grupo pequeno de países controla a produção e a venda da commodity, num esforço contínuo de manter os preços nos patamares mais altos possíveis. O projeto Colonial de Portugal para a sua grande Colônia em terras brasileiras tinha na produção e exportação do açúcar a sua razão de existência. A destruição de extensos trechos da riquíssima Mata Atlântica, o massacre de milhões de indígenas que viviam nestas áreas e a importação de milhares de escravos negros africanos para o exaustivo trabalho nos campos e engenhos produtores, fazia todo o sentido dentro da lógica da indústria colonial açucareira, tanto em terras brasileiras quanto em outras regiões das Américas.

Tomando como ponto de partida as grandes clareiras deixadas na floresta pela exploração do valioso pau brasil nas primeiras décadas da exploração da costa do Brasil, os empreendedores da indústria do açúcar ateavam fogo na Mata Atlântica, numa técnica agrícola aprendida com os índios – a coivara. Depois, o solo calcinado era preparado para receber as mudas da cana-de-açúcar. A partir desta plantação embrionária, a área cultivável era sistematicamente ampliada radialmente a partir de novas queimadas e pela derrubada da mata – a produção de lenha para uso nos processos de produção do açúcar era indispensável: cada quilo de açúcar produzido era o resultado da queima de 20 quilogramas de lenha. Nas palavras do grande historiador Capistrano de Abreu:

Os engenhos estavam todos na mata, o que se explica pela maior fertilidade dos terrenos bem vestidos, e pela abundância de lenha, necessária às fornalhas em um labor que às vezes durava, dia e noite, oito e nove meses.”

Os férteis solos de massapê, uma grossa camada de húmus formada ao longo de milhares de anos a partir da decomposição de matéria viva no chão da floresta, se perderam rapidamente após a contínua derrubada da cobertura vegetal protetora: as chuvas sistematicamente arrastavam grandes quantidades de solo na direção dos muitos rios da região, destruindo ao mesmo tempo a fertilidade das plantações e os canais dos rios, muitos dos quais praticamente desapareceram em meio ao intenso assoreamento sofrido. Inúmeras espécies de animais como veados, antas, capivaras, cotias, gambás, macacos e incontáveis espécies de aves e pássaros desapareceram, empobrecendo de forma irreversível a biodiversidade das matas e destruindo a fonte de proteína consumida pelas populações mais pobres e pelos escravos, que caçavam vários destes animais para comer. Também desapareceram inúmeras espécies de vegetais, entre essas inúmeras variedades de frutas altamente nutritivas, além de muitas espécies de peixes dos rios. A fome de açúcar do mundo foi saciada a partir da fome dos trabalhadores locais dos engenhos e canaviais nordestinos.

Muitos pensadores chamam este processo de autofagia: “a cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, consumindo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual sua cultura tira toda a vida.” As grandes enchentes do rio Capibaribe, sobre as quais comentamos em nossa última postagem, e de outros rios da Região são, em grande parte, explicadas pela aniquilação praticamente completa da Mata Atlântica no Estado de Pernambuco.

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