BAMBUÍ, URUCUIA E GUARANI: OS GRANDES AQUÍFEROS DO CERRADO BRASILEIRO

Veredas

Conforme já comentado em post anterior, as áreas de Cerrado concentram nascentes de rios que abastecem 8 das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras. Antes de tratarmos destas bacias hidrográficas, é importante analisarmos os sistemas de aquíferos que alimentam os grandes rios da região.

Aquíferos são formações ou grupos de formações geológicas constituídas por rochas porosas e permeáveis que permitem o armazenamento de grandes volumes de águas das chuvas – essas águas alimentam as nascentes de rios e também podem ser captadas em poços semi-artesianos e artesianos para abastecimento de populações humanas. Apesar de serem apresentados sempre no singular, essas formações são agrupadas na forma de sistemas de aquíferos interligados, que se estendem por grandes áreas geográficas. A região do Cerrado brasileiro possui três grandes aquíferos: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani. Vamos analisar esses aquíferos:

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais, porém sua área natural de recarga abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. Está inserido dentro da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, alimentando nascentes de importantes afluentes do rio. As águas deste aquífero são consideradas de boa qualidade e se encontram em profundidades entre 50 e 100 metros. Poços de captação retiram grandes volumes de água deste aquífero para uso no abastecimento de diversos municípios no Norte de Minas Gerais e no Sul da Bahia.

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². Este sistema de aquíferos têm importância fundamental na regularização da vazão de rios que nascem na região e que correm na direção do Rio São Francisco e que são fundamentais para o abastecimento de cidades e uso em sistemas de irrigação.

As águas dos aquíferos Urucuia e Bambuí são estratégicas para a Região do Semiárido, pois são elas que garantem a perenização de importantes rios da região em épocas de seca prolongada, quando diversos rios menores literalmente secam. Uma característica importante deste sistema de aquíferos é que suas águas se concentram em baixas profundidades e estão sujeitas a contaminação por atividades agropecuárias e destruição da vegetação nativa, o que também compromete a recarga de águas. Outra fonte importante de problemas é a superexploração das águas para fins de irrigação, especialmente na região do Cerrado baiano, uma das frentes agrícolas que mais tem crescido nos últimos anos.

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da região amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos.

Oito Estados brasileiros abrigam trechos do aquífero Guarani: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas áreas de ocorrência do aquífero no Brasil, que compreendem 70% da área total da formação, vive uma população estimada em, pelo menos, 30 milhões de habitantes (o mapeamento da área total do aquífero é atualizada constantemente). O aquífero tem 50% de sua extensão em terras brasileiras concentrada em áreas do Cerrado. Cidades do interior de São Paulo são as maiores utilizadoras de águas captadas no aquífero Guarani, a exemplo de Ribeirão Preto, cidade que retira toda a água utilizada para seu abastecimento de poços alimentados pelo aquífero.

Os aquíferos são reservas de água estratégicas, responsáveis pelo fornecimento de até 90% das águas que formam os caudais dos rios da região do Cerrado, especialmente na época da estação da seca. Apesar de serem aparentemente abundantes, as águas dos aquíferos dependem da recarga periódica nas estações das chuvas, quando a vegetação natural do Cerrado permite a infiltração da água no solo. A substituição intensa da vegetação nativa por plantações aumenta grandemente o fluxo de águas na superfície do solo, levando a grandes perdas por evaporação em prejuízo aos aquíferos, provocando reduções importantes na produção de água nas nascentes das bacias hidrográficas da região. É fundamental que se encontro um ponto de equilíbrio entre as atividades agropecuárias e a preservação das matas nativas do Cerrado como forma de se garantir a tradicional abundância das águas na região.

Continuamos no nosso próximo post.

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11 Comments

    1. Caro Antônio: O Aquífero Urucuia se extende por toda a região Leste do Estado da Bahia, ocupando uma área entre 76 mil e 120 mil km², dependendo do critério adotado. Ele alimenta, naturalmente, vários afluentes do rio São Francisco na Bahia como os rios Preto, Grande e Arrojado. Existem alguns poços cadastrados que têm uma produção de água que chega a 500 m³ por hora – mesmo que usassemos centenas de poços destes para despejar sua água no rio São Francisco, seria insuficiente para aumentar signficativamente a sua vazão – o caudal médio do rio é de 3 mil m³ por segundo. O maior problema do rio é que mais de 75% das suas águas vêm de nascentes no Estado de Minas Gerais, que sofrem com a degradação das matas, especialmente na região do Cerrado. É necessária a realização de um grande plano de reflorestamento em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco para se recuperar a produção de água nas nascentes. Espero ter ajudado como minha resposta.

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