A IMPORTÂNCIA DO BIOMA CERRADO

Tamanduá-bandeira

Se você fizer uma pesquisa nos arquivos deste blog, irá encontrar dezenas de postagens onde falamos do Cerrado e de sua importância ambiental para grande parte do território brasileiro. Porém, apesar de toda essa importância, o Cerrado não é o mais fotogênico bioma do Brasil – quem conhece a Floresta Amazônica ou já visitou alguns dos fragmentos sobreviventes da Mata Atlântica, onde existe uma altíssima concentração de espécies vegetais e animais de todos os tipos e tamanhos, poderá duvidar de toda essa importância dada a um bioma formado por árvores raquíticas, campos limpos e sujos, com solos reconhecidamente de baixa fertilidade. 

O que o Cerrado tem de tão importante afinal? 

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2 milhões de km², somente ficando atrás da Floresta Amazônica, que ocupa uma área de 5,5 milhões de km² em 9 países – 60% da Floresta Amazônica fica em território brasileiro, ocupando cerca de 22% do território nacional. A área do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves florestais (ou manchas de Cerrado) no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. Neste espaço territorial encontram-se as nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul como a Amazônica, Tocantins/Araguaia, Paraguai, Paraná e São Francisco, o que resulta em um elevado potencial aquífero e favorece a sua biodiversidade

Com uma área tão grande, o Cerrado se apresenta sob diferentes formações florestais. Segundo o livro Fitofisionomias do Bioma Cerrado, publicada em 1998 por J. F. Ribeiro e B. M. Walter, a vegetação do Cerrado pode ser dividida em três grupos principais (outros autores dividem o bioma de forma diferente):  

Florestas: onde a vegetação é dividida em Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca e Cerradão (que é uma savana florestada);  

Savanas: onde se encontra a formação Cerrado, os Parques de Cerrado, os Palmeirais e as Veredas; 

Campos: grandes extensões cobertas por Campos Limpos, Campos Sujos e os Campos Rupestres. 

Esses diferentes sistemas florestais abrigam uma grande biodiversidade de espécies animais: já foram catalogadas mais de 1.500 espécies entre mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, além de insetos e moluscos. As espécies mais carismáticas são o lobo-guará, o tamanduá-bandeira (vide foto), o tatu-bola, o cervo-do-pantanal, o cachorro-vinagre, a onça-pintada e a lontra. 

Essas formações florestais do Cerrado, conforme comentamos no início deste texto, não apresentam nada que pareça tão excepcional assim. Se você estiver atravessando uma região de Cerrado numa viagem por uma estrada, verá árvores de médio porte com no máximo 15 metros de altura (em áreas úmidas, na beira de rios, essa altura poderá chegar a 25 metros), muitos campos sujos repletos de grandes formigueiros e campos limpos, cobertos por uma vegetação alta de gramíneas. Aliás, se você estiver fazendo essa viagem na época da seca, aí é que você não ficará nem um pouco admirado com as paisagens. 

A grande importância do bioma Cerrado está justamente em uma parte da vegetação que você não vê: as raízes ou sistemas radiculares da vegetação. Grosso modo falando, nós podemos comparar uma árvore do Cerrado com um iceberg, aquelas grandes montanhas de gelo que flutuam nos oceanos e que, de vez em quando, causam danos nos navios – a maior parte do gelo do iceberg está embaixo d’água. As árvores do bioma, que normalmente se apresentam raquíticas, com troncos retorcidos e folhas pequenas, na verdade se mostram como plantas gigantescas quando se passa a observar o tamanho de suas raízes, que em muitos casos chegam a atingir dezenas de metros de profundidade

Os solos pobres do bioma Cerrado guardam uma fabulosa riqueza: inúmeros aquíferos e lençóis subterrâneos de água, que alimentam algumas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil como as do rio Paraná, São Francisco e Tocantins/Araguaia. Alguns dos maiores e mais importantes aquíferos do país estão localizados em regiões de Cerrado: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani (esse parcialmente). A evolução da vegetação do Cerrado se deu justamente no sentido de permitir que as longas raízes das plantas conseguissem acessar essa água do subsolo. Mas há um outro detalhe extremamente importante: quando chega o período das chuvas, são esses sistemas de raízes longas dessas vegetações os principais responsáveis pela infiltração da água no subsolo e a recarga dos sistemas de aquíferos e reservas subterrâneas de água

Com o avanço da fronteira agrícola pelas regiões de Cerrado, grande parte dessa vegetação nativa foi derrubada e substituída por plantações de soja e milho, além da criação de áreas de pastagens para alimentação de rebanhos. As raízes curtas dessas plantas não têm, nem de longe, as características da vegetação original do bioma: a água da chuva não consegue penetrar através das inúmeras camadas do solo e assim chegar aos aquíferos subterrâneos – não há uma recarga adequada das reservas subterrâneas. E sem a água dos aquíferos, as nascentes de muitos rios estão, literalmente, secando. 

Na próxima postagem falaremos mais sobre esse problema. 

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