A SECA E A LENTA AGONIA DO BENJAMIM GUIMARÃES

BENJAMIM GUIMARÃES

Durante grande parte do século XIX e início do século XX, os navios movidos a vapor tiveram uma enorme importância para a navegação mundial, percorrendo rotas em mares, rios e lagos. No rio Mississipi, o maior rio da América do Norte, os vapores tiveram uma importância ímpar, tendo se transformado numa espécie de símbolo da região – muitos de vocês já devem ter assistido algum filme americano onde apareceu algum destes navios. A principal característica dos lendários vapores do Mississipi é a roda de pás, um enorme mecanismos de propulsão que chegava a pesar 25 toneladas. Um dos principais portos de chegada e saída destas embarcações no rio Mississipi era a famosa cidade de Nova Orleans. No período áureo da cidade, entre 1830 e 1860, era possível encontrar até 30 vapores alinhados nas docas do rio. Nos dias atuais, ainda existem diversos destes “vapores” modernizados realizando passeios turísticos pelo Velho Mississipi.

Um dos últimos navios a vapor com estas características fabricado nos Estados Unidos em 1913 e que chegou inclusive a navegar no Mississipi, acabou sendo enviado para o Brasil, onde inicialmente navegou pelos rios da região Amazônica. Na metade da década de 1920, o vapor foi comprado por uma empresa de Minas Gerais, a Júlio Guimarães. A embarcação foi desmontada e transportada para a cidade de Pirapora, norte de Minas Gerais, onde foi remontada no porto fluvial da cidade. O vapor foi rebatizado com o nome de Benjamim Guimarães, numa homenagem ao pai do proprietário da empresa. Durante as décadas seguintes, o Benjamim Guimarães passou a realizar viagens regulares ao longo do rio São Francisco e principais afluentes, transportando passageiros e carga. A rota mais importante do vapor ligava a cidade de Pirapora a Petrolina e Juazeiro, na divisa de Pernambuco e Bahia. A população ribeirinha rapidamente batizou o vapor com o nome de “gaiola”, nome que pode ser encontrado na literatura, nas poesias, nos cordéis, na música e no folclore regional.

Com capacidade para transportar até 170 pessoas, entre passageiros e tripulantes, o Benjamim Guimarães consumia o equivalente a um metro cúbico de lenha a cada hora. A embarcação possui 44 metros de comprimento, 8 metros de largura e 8 metros de altura, divido em três pisos, sendo a parte baixa ocupada pela casa de máquinas, caldeira, banheiros e uma área reservada para passageiros de classe mais baixa. No segundo piso se encontram os doze camarotes da primeira classe; na parte superior, um bar e uma grande área coberta. Embarcações a vapor da classe do Benjamim Guimarães com casco de baixo perfil são adequadas apenas para a navegação em rios e lagos, não sendo usados, por razões de segurança, para navegação em águas com ondas ou ventos fortes.

Se você pesquisar, vai descobrir histórias de diversas embarcações a vapor que navegaram por diversos rios do interior do Brasil – nenhuma se aproximou da notoriedade, popularidade e charme do vapor Benjamim Guimarães. Diferente de outras embarcações, o Benjamim Guimarães não seguia um protocolo mais rígido em suas viagens, parando apenas nos portos programados. Conforme a necessidade, o vapor parava em portos menores, atendendo as demandas da população ribeirinha, tanto no transporte de passageiros quanto de cargas. As viagens entre Pirapora e Juazeiro duravam entre 3 e 5 dias. Contam algumas lendas que, numa certa viagem, o bando de Lampião e de seus temidos cangaceiros se encontrava na região de Juazeiro no momento da chegada do Benjamim Guimarães. Virgulino Ferreira, o Lampião, pretendia abordar o vapor para roubar a sua carga. Avisado do perigo, o capitão do vapor mudou o local do desembarque – ele conduziu o vapor na direção de Petrolina, do outro lado do rio São Francisco.

Uma outra história, esta muito real, foi a valorosa participação do vapor na Segunda Guerra Mundial. Foi o Benjamim Guimarães um dos principais responsáveis pelo transporte de militares brasileiros originários de cidades do interior de Minas Gerais e da Bahia. Transportados até a região de Juazeiro e Petrolina, os militares seguiam por outros meios até o litoral de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, onde serviram no patrulhamento da costa ou seguiram em direção a Europa para servir nos fronts da Guerra pela FEB – Força Expedicionária Brasileira.

Ao longo de mais de cem anos de serviços no Brasil, o vapor Benjamim Guimarães já teve vários donos. Nos anos de 1940, a empresa Navegação e Comércio do São Francisco comprou o vapor. Pouco depois, a empresa foi incorporada à Companhia Indústria e Viação de Pirapora. Em 1955, todas as empresas de navegação foram encampadas pela União e o vapor Benjamim Guimarães, junto com outras trinta e uma embarcações, foi transferido para o Serviço de Navegação do São Francisco, passando depois para a Companhia de Navegação do São Francisco. Em cada uma destas fases, a embarcação foi usada para o transporte de cargas e de passageiros, com configurações com primeira, segunda e até terceira classe.

Com o avanço das rodovias e o uso cada vez maior dos caminhões e ônibus para o transporte de cargas e de passageiros, a navegação no rio São Francisco entrou em decadência. O vapor passou a ser usado apenas em passeios turísticos. Em 1985, o Benjamim Guimarães foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico devido ao seu valor histórico e cultural. Neste mesmo ano, a embarcação, já bastante deteriorada por mais de setenta anos de serviço, passa pela primeira reforma. Em outubro de 1986, o vapor volta a navegar exclusivamente para fins turísticos no trecho Pirapora – São Francisco – Pirapora, num percurso total de 460 km.

Durante uma viagem em 1995, o vapor apresentou falhas na caldeira e no casco – por ordem da Capitania dos Portos de Minas Gerais, seu uso foi interditado até que passasse por uma reforma completa que corrigisse estes e uma série de problemas de segurança. Recolhido ao porto, o vapor ficou quase dez anos parado. Após passar por uma reforma e restauração completa, realizada com a supervisão do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico, o vapor Benjamim Guimarães voltou a navegar em 2004.

Nos últimos anos, as viagens do velho vapor começaram a rarear. Não foi pela idade avançada, pela falta de passageiros ou pela falta de carinho da população. A navegação pelas águas do rio São Francisco passou a apresentar riscos para a embarcação – a redução cada vez maior do volume de água do rio e a formação de grandes bancos de areia nos períodos cada vez mais intensos de seca forçaram o Benjamim Guimarães a passar cada vez mais tempo atracado no porto. A última vez que o Benjamim Guimarães navegou foi no início de 2016, quando “atuou” como um dos personagens da novela Velho Chico. Na trama da novela, o vapor era chamado de “gaiola encantado” – a personagem Encarnação tinha visões de antigos passageiros já mortos. Desde essa época, a forte seca que se instalou no Norte de Minas e sertão da Bahia fez as águas do rio São Francisco abaixarem ainda mais. Ao largo da cidade de Pirapora, o São Francisco parece um filete de água cercado por inúmeros afloramentos de pedra do fundo do rio.

Além da enorme saudade do apito do vapor Benjamim Guimarães em suas viagens ao longo do Velho Chico, a população “barranqueira” sente falta da boa e tradicional moqueca de peixe, especialmente de surubim, cada vez mais difícil de se achar nas poucas águas que restaram no rio…

Oremos a São Pedro e a São Francisco. Amém!

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