A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS TROPICAIS NA AMÉRICA CENTRAL, OU RELEMBRANDO DOS “INDÍGENAS QUEIMADORES DE FLORESTAS”

Ruínas Maias

Um dos maiores problemas ambientais do planeta na atualidade é a destruição de florestas em larga escala. Muito se fala da destruição da Floresta Amazônica, que muitos afirmam erroneamente se tratar do pulmão do mundo. Porém, florestas tropicais em todo o mundo sofrem do mesmo mal: em grande parte da África, em especial em Madagascar, no Sudeste Asiático, onde destacamos a Indonésia e a Malásia, além das Filipinas, entre outros países do Sudeste Asiático.  

E esse não é um problema exclusivo das florestas tropicais – a taiga, a floresta boreal ou das coníferas, maior sistema florestal do mundo (três vezes maior que a Floresta Amazônica), chega a sofrer desflorestamentos até dez vezes maiores que a Amazônia a cada ano, principalmente na Rússia, e raramente se ouvem notícias dando conta disso. 

As densas florestas tropicais da América Central, infelizmente, não fogem dessa realidade. Grande parte da antiga cobertura florestal nativa da região já cedeu espaço para plantações de cana de açúcar, bananas e, mais recentemente, para a palma da Guiné. Apesar de países como a Costa Rica e Belize terem conseguido frear e até reverter os desmatamentos, a situação continua caótica em países como o Panamá, a Nicarágua e a Guatemala.  

Por mais surpreendente que possa parecer, essa intensa destruição de florestas na região já aconteceu em um passado distante e as consequências ambientais desencadeadas levaram à destruição de grandes civilizações como a dos Maias. Vamos entender isso. 

Quando o conquistador espanhol Hernán Cortés desembarcou nas costas da Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano) no México com seu pequeno exército em 1519, ele rapidamente passou a ouvir notícias dos indígenas locais que falavam de grandes cidades de pedra escondidas no meio da selva (vide foto). Contando com pouco mais de 600 soldados, Cortés imaginou que suas forças não teriam a menor chance de vitória contra um inimigo, aparentemente, tão poderoso.  

Com o passar do tempo, os espanhóis descobriram que essas fabulosas cidades haviam sido abandonadas há muito tempo atrás. Essas eram as ruínas da já decadente Civilização Maia. Sem encontrar maiores resistências, Cortés e seus homens marcharam na direção da Cidade do México, onde protagonizariam uma das maiores vitórias militares da história – a derrota do Imperador Montezuma e a conquista do Império Asteca. 

O México e toda a América Central assistiram ao nascimento e decadência de diversas grandes civilizações pré-Colombianas, onde destacamos os Olmecas, os Teotihuacanos, os Astecas e os Maias, entre outras. Os primeiros assentamentos Maias na região datam de 1.800 a.C. O auge dessa civilização, chamado pelos historiadores de Período Clássico, ocorreu entre os anos 250 e 950 d.C., quando a população pode ter chegado à casa dos 13 milhões de habitantes.  

Chichén-Itzá

Então, sem mais nem menos, o grande Império Maia, que se estendia por toda a Península de Iucatã, Guatemala, Belize e partes da Costa Rica e de El Salvador, começou a se fragmentar. Grandes cidades como Copán, Chichén Itzá, Tulum, Tikal, Palenque, Xunantunich e Calakmul, foram abandonadas apressadamente e surgiram cidades-estados menores, sem um grande poderio militar e político, e também sem um governo central. Até o final do século XVII, os invasores espanhóis destruiriam os últimos focos de resistência dos Maias. 

Várias teorias foram surgindo, numa tentativa de explicar o colapso do Império Maia: superpopulação, invasão por povos estrangeiros, colapso de rotas comercias, revolta de populações camponesas, doenças epidêmicas, mudanças climáticas, esgotamento de solos e caça excessiva de megafauna. Uma hipótese levantada há vários anos atrás, a de uma grande seca regional, ganha cada vez um maior espaço nos meios científicos. Um estudo recente, desenvolvido por cientistas da Universidade de Cambridge e da Universidade da Flórida demonstrou a intensidade dessa seca.  

Estudando resíduos minerais dissolvidos em diversas camadas de sedimentos do fundo de um lago da região, os cientistas conseguiram traçar o padrão meteorológico do período de decadência do Império Maia, entre 800 e 1.000 d.C. A análise dos dados permitiu verificar uma redução média na precipitação entre 41 e 54%, sendo que em alguns períodos a redução chegou a 70%. A umidade relativa do ar diminuiu entre 2 a 7%. Essa seca contínua pode ter afetado intensamente a produtividade agrícola, especialmente a cultura do milho, o mais importante alimento consumido pela população.  

É aqui que chegamos a um aspecto da agricultura praticada pelos maias que nos soará bastante familiar: o fogo era usado para abrir espaços nas matas para a formação de campos agrícolas, onde o milho era semeado diretamente no solo carbonizado. Apesar de possuírem avançados conhecimentos em matemática, astronomia, arquitetura e outras ciências, e de possuir um sistema de escrita que rivalizava com as mais importantes línguas europeias, os Maias não possuíam ferramentas metálicas – especialmente arados, fato que colocava a sua agricultura em padrões pré-históricos.  

O uso do fogo como uma ferramenta da agricultura não foi uma exclusividade dos povos indígenas da América Central – existem evidências arqueológicas dessa prática entre outros grupos indígenas americanos desde o Alasca, no Extremo Norte, até a Terra do Fogo, no Extremo Sul. Na Amazônia brasileira, por exemplo, encontramos grandes manchas da chamada “terra preta de índio”, um sinal claro do uso dessa prática em toda a região vários séculos antes da chegada dos primeiros europeus às Américas. 

Usando ferramentas rudimentares de madeira e sem o uso de técnicas para a preparação dos solos, a produtividade das culturas agrícolas desses povos era muito baixa. A necessidade de alimentar uma grande população levava a inúmeros excessos e à queima de quantidades cada vez maiores de florestas (isto é uma das hipóteses) para a criação de campos agrícolas.  

Uma característica física marcante das planícies da Península de Iucatã e de outras partes do território dos Maias é a falta de grandes rios – os nativos dependiam exclusivamente das fortes chuvas anuais para encher seus reservatórios de água para uso no abastecimento das cidades e na irrigação de lavouras. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o solo fértil é uma combinação de matéria orgânica, água, ar e resíduos minerais – a perda de qualquer um destes componentes compromete a fertilidade e até mesmo a integridade física dos solos.  

Com a provável queima de grande parte da cobertura florestal, os solos das regiões sob domínio dos Maias foram perdendo a capacidade de reter volumes expressivos de água, o que comprometeu a capacidade dos solos em reter nutrientes e resultou em sucessivas perdas de safras e em inevitáveis ciclos de fome. Sem conseguir sustentar as grandes populações das cidades, o Império desmoronou como um “castelo de cartas”. Os sobreviventes desse colapso social se valeram de sucessivas ondas migratórias na busca por novos meios de sobrevivência. 

Existem diversos outros fatores ambientais e climáticos que podem ter contribuído para essa situação crítica, mas a intervenção humana nas florestas de toda a região, com certeza, teve uma importante participação no colapso do Império Maia. Com o passar do tempo, novas peças desse verdadeiro quebra-cabeça serão encontradas e chegaremos cada vez mais perto de respostas concretas sobre as causas do fim dessa grande civilização. 

As florestas voltaram a crescer sobre as terras devastadas da Península de Iucatã e dos países vizinhos, encobrindo as ruínas das grandes cidades e os monumentos da antiga Civilização Maia. Notícias de novas descobertas arqueológicas na região são frequentes. Nos diversos países da América Central existem populações indígenas de origem Maia, que ainda conservam a língua e alguns costumes dessa antiga civilização. Eles são herdeiros de um passado de glórias, porém sem um grande futuro pela frente.  

Com a destruição contínua das florestas na região, sobrará muito pouco para as novas gerações desses povos. 

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