O PIONEIRISMO DE DELMIRO GOUVEIA E A CONSTRUÇÃO DA PRIMEIRA USINA HIDRELÉTRICA DO NORDESTE EM 1913

Delmiro Gouveia

Delmiro Gouveia, um ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros, foi um pioneiro da industrialização no Brasil, visionário e empreendedor. Entre suas realizações, destaca-se a construção do primeiro “shopping center do país – o Mercado Modelo Coelho Cintra, da cidade do Recife, inaugurado em 1899. Também foi o idealizador e construtor da primeira usina hidrelétrica do Nordeste – Angiquinho, inaugurada em 1913 no rio São Francisco. 

Delmiro Gouveia nasceu em Ipu, no Ceará, em 1863, mas sua família mudou para o Estado de Pernambuco em 1868. Ele começou a trabalhar como cobrador de trem urbano aos 15 anos de idade, chegando a ocupar posteriormente o cargo de chefe de estação no Recife. Depois passou a atuar como despachante em um armazém de algodão. Em viagem ao interior de Pernambuco em 1883, se interessou pelo comércio de peles de cabra e de ovelhas, atividade com a qual começou a obter grande sucesso comercial e assim pode iniciar a construção do seu império. Em 1896 fundou a empresa Delmiro Gouveia & Cia e passou a contratar os melhores funcionários das empresas concorrentes. Seu sucesso empresarial despertou a ira dos poderosos locais. Em 1900, por causa de disputas políticas com o Governador do Estado de Pernambuco, seu Mercado Modelo foi incendiado pela polícia e, temendo pela sua segurança, Delmiro Gouveia abandonou a cidade do Recife e mudou-se para a cidade de Pedras, no interior de Alagoas.

Em 1912, Delmiro Gouveia iniciou os planos para a construção de uma grande fábrica de linhas de costura, que até então eram importadas da Inglaterra e monopolizadas no mercado por uma única empresa com a marca Linhas Corrente. Ele negociou uma série de incentivos com o Governo de Alagoas, incluindo-se a posse de terras devolutas, isenção de impostos e a permissão para construir uma pequena usina hidrelétrica nas proximidades da Cachoeira de Paulo Afonso no rio São Francisco, num local conhecido como Queda do Angiquinho.  

O rio São Francisco, relembrando rapidamente a sua história geológica, surgiu a partir de uma grande depressão que se formou no solo entre os terrenos altos do Planalto Central, a Oeste, e a Cordilheira do Espinhaço a Leste. Essa depressão começou a receber as águas drenadas de uma extensa região geográfica, águas essas que passaram a correr rumo ao Norte. A história do rio também foi marcada pelo afundamento de um gigantesco bloco rochoso, num processo conhecido em geologia estrutural como graben ou fossa tectônica.  

Esses eventos geológicos criaram um grande lago interior, que durante vários milhões de anos foi uma espécie de “mar” nos sertões do Nordeste. Gradativamente, as águas desse lago encontraram um ponto de escoamento através de uma grande massa de rochas. O processo erosivo que se seguiu resultou na formação dos famosos cânions do rio São Francisco e da Cachoeira de Paulo Afonso, o caminho que as águas criaram na sua busca pelo Oceano Atlântico. 

Para coordenar o projeto da hidrelétrica, Delmiro Gouveia contratou o engenheiro italiano Luigi Borella, além de engenheiros e técnicos franceses. Segundo contam algumas histórias, esses estrangeiros ficaram assustados quando chegaram até o local da obra e se depararam com o profundo cânion onde seria construída a casa de força da usina. Dizem que os “gringos” tentaram debandar do local, mas foram “educadamente” convencidos por jagunços armados a embarcar em uma espécie de elevador de cordas e assim desceram a encosta para conhecer o local das obras. 

Depois de vencer enormes desafios técnicos, a Usina Hidrelétrica de Angiquinho foi finalmente inaugurada em 26 de janeiro de 1913. A casa de força recebia as águas que desciam de uma altura de 42 metros e acionavam 3 turbinas (vide foto) – uma de 175 kVA, a segunda de 450 kVA e a terceira de 625 kVA. A energia elétrica passou a alimentar a indústria têxtil de Delmiro Gouveia – a Companhia Agro Fabril Mercantil, e também um sistema de bombas hidráulicas que fornecia água para o abastecimento da cidade de Pedras, localizada a 24 km de distância. Nessa época, só havia algum abastecimento de energia elétrica nas principais capitais do Nordeste, com geração a partir de centrais termelétricas a carvão ou via queima de óleos combustíveis 

Ao redor da sua fábrica, Delmiro Gouveia construiu uma vila operária com 200 casas em alvenaria. A partir de seus contatos governamentais, o empresário conseguiu recursos que permitiram a construção de 520 km de estradas, ligando a cidade de Pedras a diversas cidades da região de entorno. Contando ainda com recursos financeiros vindos de sócios norte-americanos de sua empresa, Delmiro Gouveia comprou extensas áreas de terra ao longo das margens do rio São Francisco, garantindo assim a posse da Queda do Angiquinho e das instalações de sua usina hidrelétrica. Todo esse sucesso do empresário passou a gerar inúmeros conflitos e desentendimentos com diversos “coronéis” e grupos políticos da região. 

Da fábrica de Alagoas começaram a sair linhas de costura com a marca “Estrela” para o mercado doméstico e com a marca “Barrilejo” para os mercados da América Latina. Em 1916, a empresa de Delmiro Gouveia produzia cerca de 500 mil carretéis de linha por dia, que eram vendidos no mercado por preços muito inferiores aos carretéis produzidos na Inglaterra pela Machine Cotton, empresa que dominou esse mercado no Brasil e na América Latina por várias décadas. Os industriais ingleses, visivelmente incomodados com o sucesso empresarial de Delmiro Gouveia, fizeram diversas propostas para comprar a sua empresa, sem qualquer sucesso.  

Numa manhã de 1917, enquanto lia o jornal na varanda de sua casa, Delmiro Gouveia foi morto a tiros por pistoleiros. Esse crime até hoje não foi esclarecido, apesar de existir uma lista enorme de suspeitos. Pouco tempo depois, os familiares e herdeiros do empresário não resistiram às pressões e venderam a fábrica para a empresa Machine Cotton. Os ingleses não perderam tempo e rapidamente enviaram ordens para que se destruíssem todas as máquinas e se demolissem todos os prédios da Companhia Agro Fabril Mercantil – essa era a forma mais rápida de se acabar com a sua indesejável concorrência no mercado. Terminava assim o sonho de Delmiro Gouveia de industrializar o sertão do Nordeste. Restou a homenagem que lhe foi prestada pelo Governo de Alagoas – a cidade de Pedras teve seu nome mudado para Delmiro Gouveia.

Foram necessários quase 40 anos para a energia elétrica voltar a ser produzida nas águas da Cachoeira de Paulo Afonso, onde a CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, construiu as Usinas Hidrelétricas de Paulo Afonso I e II, sobre as quais falaremos na próxima postagem. Em 1957, a CHESF comprou a Usina Hidrelétrica de Angiquinho. 

Para se ter uma ideia do pioneirismo de Delmiro Gouveia, a primeira usina hidrelétrica da cidade de São Paulo, a Usina de Parnahyba, foi inaugurada em 1901, apenas 12 anos antes de Angiquinho. Além do curto espaço de tempo entre os dois eventos, é preciso ressaltar que um verdadeiro abismo dividia a efervescente cidade de São Paulo, que colhia na época todos os frutos econômicos gerados pela cafeicultura no Estado, da pequena Pedras, uma cidadezinha perdida nos sertões das Alagoas. Por trás da construção da Usina de Parnahyba estava a Light & Power Company, uma empresa de geração e de distribuição de energia elétrica de capital canadense, que mudaria para sempre os rumos econômicos das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Por trás de Angiquinho, apenas o visionário e empreendedor Delmiro Gouveia. 

Contando com a proximidade e com o grande potencial hidrelétrico do rio São Francisco e da Cachoeira de Paulo Afonso, quem é que pode saber o que estaria reservado para o futuro dos sertões nordestinos se Delmiro Gouveia tivesse tido mais tempo para realizar outros dos seus sonhos? 

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