LEMBRANDO DO ACIDENTE DE MARIANA, OU SALGADAS LÁGRIMAS PARA UM RIO DOCE

Acidente em Mariana

O dia 5 de novembro é uma data de tristeza e de reflexão sobre a importância das águas e do meio ambiente – há exatos três anos, a Barragem de Fundão, em Mariana, Estado de Minas Gerais, rompeu e houve o vazamento de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, especialmente resíduos de ferro, manganês, chumbo, cádmio e outros metais pesados. Esse volume de rejeitos equivale a dez vezes o volume armazenado na Lagoa Rodrigo de Freitas, na cidade do Rio de Janeiro, ou 80% do volume da represa Guarapiranga, na cidade de São Paulo

A onda de lama e de rejeitos minerais avançou impiedosamente, arrebentando e soterrando tudo e todos que encontrava pela frente. Mais de duzentas e cinquenta edificações do distrito de Bento Rodrigues foram soterradas; pelo menos 1.500 hectares de vegetação de mata ciliar foi arrancada das margens dos rios Gualaxo e do Carmo, afluentes que deságuam no Rio Doce. A onda de destruição só não foi maior por que a barragem Candonga, da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conseguiu segurar grande parte da onda de lama e de entulhos, que nesse ponto atingiu 17 metros de altura.

Dezenove pessoas, entre funcionários da mineradora e moradores de Bento Rodrigues, morreram em consequência do desastre.  Essa tragédia é considerada como o maior desastre ambiental já ocorrido no Brasil e o maior acidente com barragens de rejeitos de mineração do mundo. A foto que ilustra essa postagem foi tirada no dia seguinte ao rompimento da barragem no Distrito de Bento Rodrigues e foi destaque em publicações jornalísticas em todo o planeta.

Passados três anos da tragédia, muitos dos problemas ainda persistem e falta muita coisa a se fazer para recuperar a calha do Rio Doce. As empresas controladoras da Samarco Mineração, a brasileira Vale S.A. e a australiana BHP Billiton Brasil Ltda, receberam dezenas de multas dos mais diversos órgãos ambientais de todos os níveis de Governo e, até hoje, nenhuma dessas multas foi paga – as empresas recorreram de todas as multas. Como forma de desenvolver e implementar ações de recuperação ambiental e de indenização às vítimas da tragédia, foi criada a Fundação Renova, que alega já ter gasto cerca de R$ 4,5 bilhão nessas ações de reparação. 

Os exames de laboratório realizados em amostras de água coletadas ao longo de todo o trecho de 650 km desde os dos rios Gualaxo e do Carmo, até a foz do rio Doce no Oceano Atlântico na altura da cidade de Linhares, no Espírito Santo, mostram que houve uma redução nos níveis de metais pesados, porém, ainda se encontram em níveis superiores aos limites estabelecidos pela legislação. A origem do problema está no grande volume de resíduos de rejeitos minerais decantados no fundo da calha do rio – serão necessárias várias décadas, quiçá séculos, para que a correnteza do rio consiga, naturalmente, revolver e transportar esses resíduos na direção do Oceano.  

Enquanto isso não acontecer, os 39 municípios cortados pelas águas do Rio Doce continuarão enfrentando problemas na captação de água para o abastecimento de populações e usos em agricultura e pecuária; milhares de pescadores também continuarão impedidos de trabalhar, uma vez que peixes e crustáceos que vivem nas águas do rio apresentam altos níveis de contaminação. 

De acordo com informações do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, as águas do rio Doce abrigavam uma importante ictiofauna, com mais de 80 espécies descritas de peixes, sendo que 11 dessas espécies já eram classificadas em risco de extinção e 12 espécies eram endêmicas do rio – caso populações desses peixes não tenham conseguido se refugiar nos diversos afluentes do rio, elas estarão perdidas para sempre. Além de peixes, as águas do rio eram abrigo de diversas espécies de crustáceos de água doce, anfíbios, répteis, aves, plantas e toda a infinidade de vida que se pode imaginar habitando a calha de um grande rio.  

Além dos incalculáveis prejuízos causados ao meio ambiente e às populações ribeirinhas, a paralisação das atividades da mineração está causando enormes prejuízos financeiros aos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, afetando também o emprego de milhares de trabalhadores. De acordo com um estudo encomendado a uma empresa de consultoria por uma das controladoras da Samarco, os primeiros 12 meses de paralisação das atividades representaram uma perda de receitas de R$ 8,3 bilhões.  

Ao longo dos próximos 10 anos, essa perda de receitas poderá atingir a cifra de R$ 46,7 bilhões.  Quando se fala em perda de empregos, estamos falando de 14,5 mil empregos perdidos em Minas Gerais, 4 mil no Espírito Santo e mais de 19 mil em todo o Brasil. Em termos de arrecadação de impostos para os Estados de Minas Gerais, Espírito Santo e para o Governo Federal, o valor poderá alcançar a cifra de R$ 10 bilhões em 10 anos. Todos saíram perdendo com essa pavorosa tragédia! 

Para encerrar, repito as palavras que foram publicadas na postagem do dia do primeiro aniversário desse “acidente” em 2016: 

“O que é um rio? 

Água doce que corre por um vale será a resposta fria de um atlas. 

Se você olhar com um pouco mais de atenção no mesmo atlas vai encontrar toda uma escala de definições para água doce: riacho, ribeiro, córrego, ribeirão, riachão e, finalmente, um rio. 

Para um pescador é seu local de trabalho, de onde retira o sustento da sua família; 

Para o barqueiro é mais do que um local de trabalho – o rio é o seu segundo lar (para alguns é o primeiro); 

O agricultor vê o rio como um parceiro, que empresta parte das suas águas para fazer brotar do chão os alimentos; 

Para as cidades, a água do rio é a fonte da vida, que sacia a sede, lava e leva embora tudo o que não presta; 

Para o romântico, o rio é a saudade que leva para longe todas as lembranças dos amores perdidos… 

Talvez o rio seja a soma de tudo isso e muito mais – é a fonte de todas as vidas! 

Mas, e quando o homem destrói o rio? 

A água deixa de ser doce, o pescador não tem onde trabalhar, o barqueiro encalha, o agricultor fica sozinho, as cidades desabastecidas e o romântico a morrer de amor em toda a sua a sua melancolia… 

Ficam somente as lágrimas salgadas e a triste lembrança da doçura de suas águas de outrora… “

 

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