AS IMPRESSIONANTES “TERRAS PRETAS DE ÍNDIO” DA AMAZÔNIA

Terra Preta de Índio

A imprensa internacional tem dedicado grandes espaços nos seus noticiários para falar das queimadas na Amazônia e na transformação da maior floresta equatorial do mundo numa pilha de cinzas. De acordo com muitas dessas publicações, a derrubada e a queima da floresta têm como objetivos garantir a expansão das frentes agrícolas e pecuárias do país. Essa aritmética mágica – quanto mais terra disponíveis maior será a produção agropecuária, não “fecha” quando se fala em solos amazônicos. Os solos locais não são os melhores do mundo para práticas agrícolas e pecuárias.

Os solos naturais da Amazônia são dos tipos arenosos e argilosos, muito pobres em nutrientes – a imponência da vegetação da grande floresta pode até passar uma impressão diferente. O segredo da Amazônia está na grossa camada de húmus formado pelo acúmulo de folhas e árvores caídas, e também pela decomposição dos corpos de animais mortos – ou seja, é a própria floresta que gera os nutrientes que sustentam a floresta, numa espécie de “moto perpétuo”. Se uma grande área da floresta for derrubada para a criação de pastagens ou campos agrícolas, em poucos anos essa camada superficial de nutrientes se esgota e a terra se torna improdutiva. 

Além da necessidade de solos férteis para a prática de uma agricultura sustentável na Amazônia no longo prazo, essa produção depende também de disponibilidade de água e de luz solar incidindo diretamente sobre os solos. Água na Amazônia não costuma ser problema – a região possui a maior rede hidrográfica do mundo e também conta com uma das maiores precipitações anuais do planeta. Já a insolação dos solos, isso é um grande problema – a densa cobertura vegetal, com árvores de grande porte, retém a maior parte da luz solar e só uma pequena parte dessa radiação atinge os solos da Floresta Amazônica. Uma das poucas formas de se resolver esse problema e garantir a adequada insolação dos solos para a prática de uma agricultura de alta produtividade, que garanta o abastecimento de grandes populações, só é possível com a derrubada e queima de grandes extensões da mata, liberando assim a irradiação solar direta.

Para muita gente, a Amazônia, a maior floresta equatorial do mundo, é um dos últimos lugares intocados do planeta e sua preservação é fundamental para o futuro da humanidade. A Floresta Amazônica é sim fundamental para o controle do clima e das chuvas em grande parte do continente americano, uma função que tem grande repercussão no clima global. Porém, para a decepção de muita gente, ela não é uma floresta intocada: há cerca de 4 mil anos atrás, grande parte da floresta estava sendo queimada para a formação de grandes campos agrícolas, que eram necessários para sustentar grandes populações indígenas. E as evidências desse processo de ocupação humana estão por todos os lados, nas chamadas terras pretas de índios

Na década de 1870, exploradores e naturalistas que viajavam por diferentes partes da Amazônia passaram a observar extensas manchas de solo escuro e profundo, de excepcional fertilidade. Com o passar dos anos e com desenvolvimento de novos estudos sobre esses solos escuros, descobriu-se que os teores de carbono nessas áreas eram muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média era de 20 a 30 gramas. Esses solos também se destacavam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. Esses solos não eram naturais, mas sim criados artificialmente por seres humanos e passaram a ser conhecidos como terras pretas de índios

Nos últimos anos, esses solos escuros da Amazônia têm despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica e as mais importantes revistas da área no mundo como a Nature e a Science têm publicado diversos artigos sobre esse assunto. Em 2006, citando um exemplo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), dedicou um simpósio a esse assunto: Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas). Os cientistas querem entender a origem e quais foram os processos usados para a criação de solos de tamanha fertilidade, usados até hoje por comunidades da região para a produção de alimentos. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas terras pretas permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos. Conseguir recriar os mecanismos de criação da terra preta de índio poderá ser uma excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra.

Para que vocês percebam a importância do tema, os pesquisadores calculam que as terras pretas ocupem entre 1% e 10% de toda a área da Floresta Amazônica, o que significa que, pelo menos, uma quantidade equivalente de floresta foi queimada no passado para a liberação dessas áreas para a formação desses solos e a prática da agricultura. Essas terras foram formadas por índios pré-colombianos, ou pré-cabralinos como eu prefiro chamar, que começaram a desenvolver esse trabalho na mesma época em que os primeiros núcleos maias estavam sendo formados na América Central – talvez até haja uma ligação entre esses grupos. Da mesma forma que há mistérios na origem desses índios, também não se sabe o que aconteceu com eles. 

Conforme essas manchas de terra preta foram sendo abandonadas, talvez por causa da migração das populações para outras regiões, a Floresta voltou a crescer e escondeu essas manchas de terra por vários séculos. A Floresta Amazônica possui uma alta capacidade de regeneração, uma característica que passou a ser chamada de autopoiese, a capacidade de seres vivos e ecossistemas de produzirem a si próprios. Isso significa que a Floresta Amazônica pode ter uma parte destruída por alguma força ou evento externo e, mesmo assim, em poucos anos ela consegue recuperar sozinha áreas completamente desmatadas e degradadas.

Existe um senão nessa grande capacidade de regeneração da Floresta: qualquer vestígio arqueológico dessas antigas tribos acabou encoberto pela vegetação, pelas camadas de húmus e por sedimentos carreados pelas chuvas e enchentes nos meses de verão. Não é incomum que pesquisadores encontrem fragmentos de cerâmica e outros vestígios de antigas ocupações humanas a profundidades de 10 metros. Considerando-se que a Amazônia tem mais de 5 milhões de km² de superfície, podemos supor que existe muita coisa a ser descoberta nos próximos anos.

As populações ribeirinhas dos rios da Amazônia herdaram esse grande patrimônio dos povos antigos e são as que mais se beneficiam dessas terras pretas, que são utilizadas para produção das suas culturas de subsistência e também de excedentes de produção para a venda. As margens dos rios concentram as maiores quantidades de manchas de terra preta na Amazônia, onde a grande fertilidade dos solos e a pouca necessidade de preparo para o plantio sempre funcionaram com um atrativo para a fixação dessas populações. 

A Amazônia é realmente fascinante e ainda nos reserva inúmeras surpresas. 

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