OS ÍNDIOS E OS SERTÕES, OU OS BANHOS DA “MOURA ENCANTADA” NAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO

Moura encantada

Quem costuma acompanhar as minhas postagens já deve ter percebido que eu sempre coloco palavras como “descoberta” e “descobrimento”, quando relacionadas é claro com a chegada dos europeus às Américas, entre aspas. Essa é uma espécie de protesto em defesa dos milhões de indígenas americanos que aqui viviam antes da chegada dos primeiros exploradores do Velho Mundo. Em minha modesta opinião, se tivermos de usar esses termos em algum texto que seja para se referir aos indígenas, os verdadeiros descobridores do Novo Mundo. 

Existem muitas dúvidas sobre o tamanho real das populações indígenas que habitavam as três Américas há chegada da expedição de Cristóvão Colombo em 1492. Isolados nessa parte do mundo por dezenas de milhares de anos, os habitantes do Novo Mundo não tinham imunidade às mais triviais doenças que circulavam entre as populações da Europa, Ásia e África. Falamos aqui de doenças comuns como gripe, varíola e sarampo. O que sabemos com certeza é que, menos de um século depois do primeiro contato com os exploradores, mais de 80% das populações indígenas morreriam vítimas dessas e de outras doenças. 

As estimativas sobre as populações indígenas americanas vão de cifras entre 8,4 milhões de habitantes até uma população equivalente à da Europa em 1.500 – cerca de 112,5 milhões de habitantes. No México, citando um exemplo mais conhecido, havia cerca de 25 milhões de indígenas vivendo há época da chegada de Hernán Cortés – um século depois, os censos indicam que essa população caiu para apenas 1 milhão de habitantes. 

As terras brasileiras também estavam cheias de indígenas há época da chegada da expedição de Pedro Álvares Cabral em 1.500. As estimativas falam entre 1 e 5 milhões de indígenas vivendo em todo o nosso território, divididos em diferentes povos e grupos linguísticos. Esses vários grupos tiveram comportamentos diferentes em relação aos “estrangeiros”. 

Muitos grupos indígenas tupis simpatizaram de imediato com os portugueses e rapidamente se prontificaram a ajudá-los nos trabalhos de derrubada e transporte do valioso pau-brasil  (Paubrasilia echinata) – estimativas falam do corte de 75 milhões de árvores ao longo de 300 anos. Também ajudaram na caça de animais para a retirada das peles e na coleta de “drogas do sertão”, plantas com características similares a muitas das especiarias compradas no Oriente como pimentas e outros temperos – os mercadores vendiam esses genéricos em Portugal como “autênticos temperos da Índia”. Lembrando das antigas aulas de história nos tempos do ensino fundamental, eram esses índios que “trabalhavam em troca de espelhinhos e miçangas”. 

Outros grupos, como os ferozes botocudos do Sul da Bahia, Espírito Santo e Leste de Minas Gerais, lutaram bravamente contra os invasores e resistiram o quanto puderam. Algumas aldeias isoladas desses povos só foram “amansadas” no início do século XX. Um terceiro grupo de povos indígenas, simplesmente, resolveu abandonar o litoral para se embrenhar pelos sertões, tentando ficar o mais longe possível dos colonizadores. Essa foi a origem de muitas tribos dos sertões nordestinos e das margens do rio São Francisco

Um dos casos mais surpreendentes de fuga indígena foram os tupinambaranas, uma tribo indígena que vivia na região de Pernambuco e que fugiu de lá logo após a chegada dos portugueses. Esses índios seguiram continente adentro na direção de Mato Grosso, seguindo depois para a região de Rondônia e, por fim, se fixaram em uma ilha no rio Amazonas. Essa saga durou vários anos e foram percorridos mais de 5.600 km. Eram perto de 60 mil indígenas no começo dessa jornada e só uma parte conseguiu chegar viva ao seu destino final.

Conforme comentado na última postagem, as mulheres indígenas tiveram um papel fundamental na gestação, literal, do povo sertanejo e brasileiro em geral. Nas sucessivas levas de colonizadores europeus e de escravos africanos que desembarcavam no Brasil dos primeiros séculos, as mulheres eram absoluta minoria – talvez 5% dos contingentes humanos que aqui desembarcavam.  

Com a falta de mulheres de suas respectivas etnias (acho esse termo bem mais adequado que raças), brancos e negros se valiam da parceria e dos casamentos com as “moçoilas” indígenas. A diversidade étnica dos brasileiros vem daí. No livro “O povo brasileiro”, do antropólogo Darcy Ribeiro, você encontrará uma maravilhosa descrição desse processo. 

Existiu um componente mítico entre os portugueses e que foi fundamental para essa aproximação com as mulheres indígenas que é muito pouco comentado – falo aqui da lenda da “moura encantada”. Essas criaturas mágicas são espíritos com poderes sobrenaturais, presentes no folclore de Portugal, da Galícia e de todo o Norte da Espanha e Oeste da França, regiões que foram habitadas no passado por populações celtas.  A imagem que ilustra essa postagem mostra a estátua da lendária Moura Floriples, em Olhão – Portugal

Essas populações ancestrais eram conhecidas como mouros pelos antigos ibéricos. Os muçulmanos que invadiram a Península Ibérica e que fomos ensinados a chamar de mouros, eram na realidade os mauris do Norte da África, onde existe um país que, bem por acaso, se chama Mauritânia ou “terra dos mauris”. A Igreja Católica, propositalmente, fez uma fusão entre os mouros e os mauris a fim de combater muitas lendas heréticas que ameaçavam o predomínio religioso da Igreja na Península Ibérica. Surgiu assim o mouro muçulmano “genérico”. 

As antigas lendas celtas falavam de espíritos travestidos na forma de lindas mulheres, que se banhavam nos rios e encantavam os homens. Perceba que existe uma grande semelhança com as antigas lendas das sereias. Originalmente loiras, essas mulheres passaram a ser descritas com cabelos e olhos escuros como as lendárias princesas árabes e com corpos “bem formados”. As “mouras encantadas” povoavam os sonhos dos homens ibéricos. Como acontecia em toda boa lenda, existia também uma entidade oposta – a “moura torta”, uma bruxa feia e má. O texto a seguir, que descreve como nenhum outro essa lenda, é de Gilberto Freire e foi retirado do antológico livro “Casa-Grande e Senzala”:

“Moura-encantada, tipo delicioso de mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual – sempre de encarnado, sempre penteando os cabelos ou banhando-se nos rios ou nas águas das fontes mal-assombradas.” 

Quando os primeiros exploradores portugueses desembarcaram em terras brasileiras, os marinheiros rapidamente ficaram encantados com a “beleza” das mulheres indígenas, que “com os seus cabelos negros e longos, e corpos gordos” eram a imagem perfeita das míticas “mouras encantadas” das histórias que ouviam desde a sua infância. Os primeiros brasileiros que nasceram, filhos de um pai português e de uma mãe indígena, foram resultado desse encantamento e não necessariamente frutos de ataques e abusos sexuais como algumas fontes históricas podem sugerir. 

Outro processo, esse bem histórico, que ajuda a entender os primeiros tempos da colonização do Brasil é o chamado cunhadismo – um homem branco que tomasse uma mulher índia como esposa passava a ser considerado como um “irmão” pelos outros homens da tribo. Ou seja, todos os índios daquela tribo passavam a ser, imediatamente, seus cunhados. E ter uma “família” grande era fundamental para ajudar em trabalhos como a derrubada, corte e transporte de milhares de toras de pau-brasil. 

Apesar da extrema receptividade de muitas tribos indígenas aos colonizadores que chegavam as suas terras, os até então desconhecidos vírus invisíveis das doenças que citamos se espalhavam entre os nativos e, em muitos casos, dizimavam tribos inteiras. Parte importante do chamado “genocídio dos povos indígenas” que encontramos em muitos livros de história tiveram suas origens em atos involuntários como esses. 

Não queremos aqui, em hipótese alguma, minimizar os gravíssimos problemas que foram enfrentados pelos povos indígenas das Américas ao longo dos últimos séculos da história. Ao contrário – queremos ressaltar a sua importância na formação do povo brasileiro, especialmente dos sertanejos nordestinos e das populações do vale do rio São Francisco, regiões que foram fundamentais para a posterior colonização de todo o Brasil

E dentro de todo esse grande universo histórico e mítico, foram muitos os encontros de homens de origem Lusa com as muitas “mouras encantadas” das margens e águas do rio São Francisco. 

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