A USINA HIDRELÉTRICA DE XINGÓ E SEUS IMPACTOS SOCIAIS E AMBIENTAIS

UHE Xingó

A famosa Cachoeira de Paulo Afonso, onde foi construído o Complexo Hidrelétrico homônimo e sobre o qual tratamos em postagem anterior, marca o início do trecho final do rio, conhecido como Baixo São Francisco. A região da Cachoeira também marca o início de um longo trecho onde o rio se afunila em um profundo e extenso cânion, com mais de 60 km de extensão. A Usina Hidrelétrica de Xingó, localizada entre os Estados de Alagoas e de Sergipe a cerca de 65 km a jusante da Cachoeira de Paulo Afonso, foi idealizada de forma a se aproveitar dessa extensa formação geológica para a inserção de seu lago. 

A barragem da hidrelétrica de Xingó tem uma altura máxima de 140 metros e forma um reservatório de águas profundas ao longo de grande parte do cânion. A formação do reservatório de Xingó transformou esse trecho do rio São Francisco num dos mais extensos cânions navegáveis do mundo. Essa característica transformou a região num importante centro turístico regional, com empresas oferendo variados pacotes de passeios de barco, com direito a mergulhos nas águas do Velho Chico. 

A potência instalada atual da hidrelétrica de Xingó totaliza 3.162 MW, o que a coloca na lista das maiores unidades geradoras do Brasil. A usina possui 6 grupos geradores e possui a previsão para a instalação de mais 4 grupos. A hidrelétrica é operada pela CHESF – Companhia Hidrelétrica do rio São Francisco e seu primeiro grupo gerador iniciou suas operações em 1994. Xingó é responsável por cerca de 30% da energia elétrica gerada na Região Nordeste e já foi considerada uma das mais modernas e eficientes usinas hidrelétricas do mundo

Apesar da sua inquestionável importância estratégica, que garantiu a autossuficiência na geração de energia elétrica da Região Nordeste, a construção de uma usina do porte de Xingó gerou inúmeros impactos sociais e ambientais. Além da desapropriação de centenas de pequenas propriedades rurais, a construção de Xingó provocou a demolição da Velha Canindé, um vilarejo com cerca de 130 residências, onde a maior parte das construções eram feitas de taipa e barro batido. Grande parte dos habitantes da cidade foram transferidos para a vizinha Canindé do São Francisco

Uma das características do Baixo rio São Francisco era a existência de ciclos de cheia nos períodos de chuva, quando as águas avançavam pelas margens e formavam uma extensa planície alagável. Essas planícies eram fertilizadas naturalmente com os sedimentos carreados pelas águas do rio e formavam áreas de extrema fertilidade. As populações ribeirinhas se valiam dessa “dádiva da natureza” para o cultivo de culturas de subsistência como milho, abóbora, feijão-de-corda, melancia, tomate, coentro, fava, quiabo e, principalmente, arroz. A produção nestas áreas não dependia de chuvas e ótimos índices de produtividade eram possíveis até em anos de forte seca

O ciclo de cheias do rio São Francisco se iniciava no final de novembro e se estendia até o final do mês de março, quando tinha o início do plantio do arroz e das demais culturas associadas. Os ribeirinhos preparavam a terra para o plantio antes do início das cheias – com a inundação, a terra era adubada naturalmente pelas águas do rio. Assim que as águas baixavam, os ribeirinhos realizavam o plantio das mudas de arroz e de outras culturas, preparadas previamente em canteiros localizados junto às suas residências. Esse sistema de produção cíclica se repetiu durante várias décadas até que, com a construção de sucessivas barragens de usinas hidrelétricas ao longo da calha do rio São Francisco, as cheias anuais passaram a diminuir gradativamente. Após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó, as cheias praticamente desapareceram. 

A vazão média histórica das águas do Rio São Francisco na foz no Oceano Atlântico era de 2.943 metros cúbicos por segundo, o que assegurava ao rio uma extraordinária energia para empurrar e manter as águas salgadas do mar distantes da calha do Velho Chico. As sucessivas agressões ambientais, ao longo de séculos de ocupação das margens de todos os rios que formam a bacia hidrográfica, tiveram como consequência uma redução gradual dos caudais, o que gradativamente se refletiu na redução do volume e na energia das águas que chegam na foz do Rio. Em anos recentes, em função da forte seca que assolou várias regiões do Brasil, a vazão média do rio chegou a cair para 600 metros cúbicos por segundo devido ao controle de vazão das usinas hidrelétricas. Ao longo de todo o século XX, especialmente devido à construção de diversas barragens de usinas hidrelétricas, a redução dos caudais aumentou significativamente, tornando ainda mais crítica a luta das águas do Velho Chico contra o avanço contínuo das águas do mar

Com o fim das planícies alagáveis no Baixo rio São Francisco, a cultura de arroz nessas lavouras de subsistência praticamente desapareceu, afetando a vida de milhares de ribeirinhos. Com o fim das cheias anuais, a produção do cereal passou a depender do uso de sistemas de irrigação, um luxo inalcançável para a grande maioria dos agricultores pobres. Para complicar ainda mais a situação, o controle das vazões do rio São Francisco nas barragens das usinas hidrelétricas deu início a ciclos de intrusão salina na calha do rio, especialmente nas regiões mais próximas da foz. Conforme já comentamos em postagens anteriores, os fortes caudais do rio São Francisco no passado podiam ser detectados até a 4 km mar adentro. Sem a força dessa forte correnteza devido ao controle da vazão do rio, a água do mar passou a entrar pela calha do São Francisco. 

Um sintoma visível dessa salinização das águas do baixo Rio São Francisco são os relatos cada vez mais frequentes, feitos por ribeirinhos e pescadores, que tratam do avistamento e captura de tubarões em trechos do rio cada vez mais distantes da foz. A alta salinidade da água que permite a sobrevivência de tubarões, é fatal para os seres humanos. A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 gramas por litro – já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro; as águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 gramas/litro e abaixo de 30 gramas / litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do Rio São Francisco em trechos próximos da foz. O consumo de água salobra pelos habitantes da região tem afetado a saúde de muita gente. 

No povoado de Potengy, que pertence ao município de Piaçabuçu em Alagoas, temos um exemplo desses problemas: pesquisa realizada por agentes de saúde da comunidade constatou que houve um aumento de 36% no número de moradores hipertensos acompanhados pelas autoridades de saúde. A água captada pela empresa de abastecimento local é retirada diretamente do Rio São Francisco e os processos de tratamento utilizados não conseguem retirar o excesso de sal da água – esse mesmo problema afeta dezenas de cidades nas margens do baixo Rio São Francisco. Para conseguir água fresca, muitos moradores do povoado são obrigados a se deslocar por 7 quilômetros para retirar água de uma cacimba (espécie de poço aberto no solo). A salinidade das águas do Rio São Francisco está afetando gradativamente os aquíferos locais, que produzem água cada vez mais salobra. 

Até uma das atividades femininas mais típicas das mulheres ribeirinhas da região – a lavagem de roupas nas águas do rio, cada vez mais é uma coisa do passado: as roupas ficam mal lavadas e o sal estraga os tecidos, dizem elas. Para os moradores locais, é cada vez mais revoltante ver águas tão importantes se tornando cada vez mais “imprestáveis” para os usos mais comuns do seu dia a dia. 

Quando as águas de um grande trecho de um dos rios mais importantes do país não se prestam nem para lavar roupa, é sinal que há muita coisa errada. Isso acontece hoje no rio São Francisco e a Usina Hidrelétrica de Xingó, infelizmente, deu sua contribuição em mais essa tragédia social e ambiental. 

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