OS PROBLEMAS NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA EM MADAGASCAR

Madagascar e os problemas no abastecimento de água

A escassez e a falta de acesso a fontes de água potável é um dos maiores problemas ambientais do nosso planeta na atualidade. A destruição e queima de florestas para a expansão de campos agrícolas e formação de pastos para a criação de animais, a exploração comercial de madeiras, a mineração e o uso de lenha e carvão como combustíveis estão entre as principais causas da redução dos caudais de importantes cursos d’água, o que afeta centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Mudanças no clima global já sentidas em diversas regiões do mundo e estão agravando ainda mais esses problemas. 

De acordo com informações do WWC – Conselho Mundial da Água, na sigla em inglês, cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo não tem acesso a água. As regiões em situação mais crítica estão na Ásia, África e América do Sul. Na Ásia, as estimativas falam de 554 milhões de pessoas, ou 12,5% da população, sem acesso a fontes confiáveis de água potável. Na África subsaariana são mais de 319 milhões de afetados e na América do Sul são 50 milhões de pessoas

Na Ilha de Madagascar, sobre a qual falamos na última postagem, 52% da população, que atualmente está na casa dos 24 milhões de habitantes, não tem acesso a fontes de água potável e/ou são abastecidas precariamente com água contaminada, uma situação que, em termos percentuais, é uma das mais graves do mundo na atualidade. Ironicamente, a Ilha de Madagascar possui um clima predominantemente tropical, com fortes e abundantes chuvas nos meses de verão, que despejam um volume total de 835 bilhões de m³ de águas pluviais sobre o território a cada ano. Fazendo uma conta rápida, são quase 3.500 m³ de água para cada habitante da ilha a cada ano. 

Se o problema não é a disponibilidade de água, o que é o grande problema em grande parte do mundo, o que então está acontecendo com a Ilha de Madagascar? Vamos entender o problema. 

Relembrando rapidamente o Ciclo da Água, é o calor do sol o grande “motor” que espalha a água doce por todo o mundo. A cada ano, um volume de aproximadamente 383 mil km³ de água evapora dos oceanos. Isso equivale a uma lâmina com 1.06 metro de espessura de toda a água dos oceanos do mundo. Esse imenso volume de água na forma de vapor é espalhado por todo o globo terrestre e cerca de 25% dessa água é precipitada na direção dos solos na forma de chuva, gelo, neve, granizo e orvalho, entre outras. A Ilha de Madagascar, conforme mostramos, recebe uma parcela generosa dessas precipitações. 

Essa é, entretanto, apenas uma parte do mecanismo – a água das chuvas precisa infiltrar nos solos para abastecer os lençóis freáticos, aquíferos e outros reservatórios subterrâneos de água, que fornecerão ao longo de todo o ano a água que alimenta os riachos, ribeirões e rios de um território. É aqui onde se encontram os principais problemas de Madagascar – mais de 80% da vegetação nativa da Ilha já foi destruída devido as atividades humanas.  

Sem a cobertura vegetal, os solos perdem a permeabilidade, ou seja, a capacidade de permitir a infiltração da água. A maior parte das águas pluviais então corre com violência sobre os solos desnudos, provocando erosão e assoreamento dos corpos d’água, e correndo diretamente na direção do oceano, sem deixar reservas para os meses de seca. 

Esse cruel mecanismo está afetando a vida de milhões de pessoas por todo o país e, muito pior, os desmatamentos em Madagascar não param. Segundo previsões de autoridades do Governo local, toda a cobertura florestal da Ilha poderá estar destruída até o ano de 2060, caso nada seja feito para frear o ritmo dos desmatamentos

A situação é mais grave na parte Sul da Ilha de Madagascar, onde os solos rochosos são menos permeáveis e permitem a infiltração de quantidades menores de água. Com o assoreamento e a destruição de grande parte dos pequenos cursos d’água da Ilha, a escavação de poços se transformou na principal fonte para o abastecimento de vilas e comunidades por toda a Ilha. Essa alternativa, entretanto, vem apresentando dois grandes problemas: sem a recarga dos lençóis freáticos e aquíferos, os poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores.

Também existem sérios problemas de contaminação dos poços – a população não dispõe de sistemas minimamente eficientes para a dispersão dos esgotos sanitários (não há como falar de tratamento de efluentes em Madagascar) e as águas servidas (ou seja, os esgotos) poluem a água dos poços, a chamada contaminação cruzada. 

Os problemas no abastecimento de água e na dispersão dos esgotos domésticos cobram seu preço na saúde das populações. De acordo com dados de 2011 da ONU – Organização das Nações Unidas, a taxa de mortalidade infantil em Madagascar é alta – são cerca de 60 mortes de crianças para cada 1.000 nascimentos. Também mostram que 56% das crianças estão desnutridas, 65% apresentam problemas no crescimento e 12% estão gravemente desnutridas. As principais causas de internação e de mortes de crianças com menos de 5 anos são as doenças respiratórias e gastro-enterológicas, além da malária. Metade da população de Madagascar tem menos de 15 anos de idade e a expectativa de vida de um malgaxe não supera os 50 anos de idade

A situação já complicada de Madagascar tende a ficar ainda pior – mudanças climáticas no Oceano Índico estão provocando importantes mudanças nos padrões das chuvas no Leste e Sul da África e também no Sul da Ásia. A Ilha de Madagascar, que está localizada no Oceano Índico ao largo da costa do continente africano, está no centro dessas mudanças e poderá sofrer tanto com fortes secas quanto com tempestades cada vez mais violentas. 

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016.  

Ou seja – um grande problema global, que são as mudanças climáticas, está sendo amplificado localmente em Madagascar devido a todo um conjunto de atividades humanas desastrosas. O que, por si só, já seria ruim, está ficando ainda pior. 

Pobre Madagascar! 

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