“O SERTÃO VAI VIRAR MAR”, OU FALANDO DAS OBRAS DE TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO

Transposição das águas do rio São Francisco

No último dia 26 de junho, o Presidente da República inaugurou um importante trecho do Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco, que agora está levando as águas do Velho Chico na direção do sofrido Estado do Ceará. Independentemente de ideologia A ou B, essa obra é fundamental para uma região que há séculos vem sendo marcada pelas sucessivas secas. As redes sociais estão cheias de fotos de sertanejos nadando nos canais, o que realmente nos dá a impressão que uma parte da profecia de Antônio Conselheiro (1830-1897), o líder religioso do Arraial de Canudos, se cumpriu – “o sertão vai virar mar…” 

O trecho do projeto que foi inaugurado faz parte do Eixo Norte e envolve um túnel e uma estação de bombeamento entre o Reservatório de Milagres, no interior do Estado de Pernambuco, e o município de Penaforte, no Estado do Ceará. Apesar da importância ímpar da obra para o povo sertanejo, os Governadores dos Estados do Ceará e de Pernambuco não compareceram a cerimônia sob alegações das mais esfarrapadas. Na minha modesta opinião, quem depende dessas águas para sobreviver não é nem de direita, nem de esquerda – é gente da seca! 

Com uma área de pouco mais de 148 mil km² e com uma população de 9 milhões de habitantes, o Ceará é o único Estado nordestino totalmente inserido dentro do bioma Caatinga. A temporada de chuvas dura em média quatro meses a cada ano e, praticamente, toda a vegetação e a fauna são adaptadas para um clima semiárido. O Estado do Ceará convive há séculos com problemas de falta de água e grandes secas. Registros históricos e observações de cronistas de época falam de grandes estiagens no Estado em 1744, 1790, 1846, 1877, 1915 e em 1932.  

Uma das mais devastadoras secas a atingir o Ceará foi a grande estiagem entre os anos de 1877 e 1879, quando se calcula que metade da população do Estado acabou morrendo vitimada pela fome e sede. Essa grande tragédia coincidiu com o início do Ciclo da Borracha na Amazônia – dezenas de milhares de cearenses foram recrutados para os trabalhos de coleta do látex e produção das pélas de borracha no meio da Floresta Amazônica. Conforme já tratamos em outras postagens, essas pessoas trocaram a fome na Caatinga pela miséria na Amazônia. 

Outra notória seca no Ceará foi a de 1915, que teve como testemunha ocular a fabulosa escritora Rachel de Queiróz. A grande tragédia humana e ambiental marcou a vida da então adolescente, que anos mais tarde seria transformada em uma das obras primas de nossa literatura – o romance “O Quinze”. 

Além de fatores geográficos e ambientais, a seca na região do Semiárido Nordestino tem uma grande parcela de contribuição humana. Desde os primeiros anos da colonização do Brasil, boiadas expulsas do litoral canavieiro passaram a penetrar pelos sertões da região. Na falta de grandes áreas de pastagens para o gado, os boiadeiros criaram o hábito de queimar grandes extensões dos caatingais para a formação de novas áreas de pastagens.  

Além do gado vacum, os sertões passaram a assistir também ao crescimento de rebanhos de animais de pequeno porte, onde destacamos as onipresentes cabras e bodes. Diferente de outros animais domésticos, as cabras e os bodes cavam os solos em busca das raízes das plantas nos momentos de falta de pastagens, um comportamento que se reverte na degradação e desertificação dos solos. O grande botânico de origem sueca Albert Loefgren (1854-1918) estudou profundamente o assunto e escreveu:

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

O bioma também sofreu profundos danos com a abertura de áreas para prática de agricultura, fornecimento de madeira para a construção civil e para a produção de carvão, de lenha para as cozinhas, entre outras agressões. Dados recentes dos órgãos ambientais afirmam que metade do Bioma Caatinga já não existe mais e essa sua destruição têm impactos na amplificação dos efeitos naturais das secas e em processos de desertificação de solos. Proporcionalmente, o Ceará é o Estado do Nordeste que mais perdeu vegetação de caatinga. 

A somatória de todas essas características físicas e humanas torna o Estado do Ceará um dos mais problemáticos quando o assunto é a segurança hídrica da população. A chegada das águas do rio São Francisco ao Estado, uma ideia que foi proposta inicialmente durante o reinado de Dom Pedro II ainda no século XIX, deveria ser um motivo de festa para todos – é lamentável a partidarização “burra” de uma data tão importante para todos. 

As obras do Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco foram iniciadas em 2007 e, desde o começo, foram extremamente politizadas. O orçamento inicial para a conclusão de todas as obras foi calculado em R$ 4,5 bilhões e havia a promessa de se concluir os trabalhos num prazo de 5 anos. O que seriam obras para salvar cerca de 12 milhões de sertanejos do drama multissecular da fome e da sede rapidamente foi transformado em uma “máquina para o desvio de verbas públicas”. A velha máxima da “indústria da seca” nunca foi tão verdadeira

Como resultado direto da gestão fraudulenta que tomou conta do projeto, trechos com construção precária e superfaturados passaram a ser inaugurados apenas com objetivos de propaganda política e sem a menor condição de funcionar adequadamente. O Eixo Norte é um exemplo – as três estações de bombeamento de água que já haviam sido inauguradas em gestões presidenciais anteriores estavam operando com apenas uma bomba e com apenas 10% da capacidade prevista no projeto (a foto que ilustra essa postagem mostra isso). Já os gastos com obras saltaram dos R$ 4,5 bilhões previstos para a bagatela de R$ 12 bilhões

O Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco prevê um total de 477 km de obras, onde se incluem canais, túneis, aquedutos e estações de bombeamento. O projeto é dividido em dois Eixos: o Norte, com cerca de 260 km de extensão, e o Leste, com outros 217 km.  Quando todas as obras estiverem concluídas, as águas atenderão uma população de 12 milhões de habitantes nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará

A ideia básica do projeto é complementar o abastecimento de água nas localidades atendidas, criando reservas para uso nos momentos de crise ao longo das fortes estiagens. Um aspecto importante das obras é o de permitir o desenvolvimento de agricultura irrigada ao longo dos canais, como aliás já existe ao longo das margens do rio São Francisco, onde os destaques são Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia. Essa região é grande produtora de frutas para exportação e de vinhos de ótima qualidade. 

O sofrido São Francisco é um dos mais importantes rios do Brasil. Desde o início de nossa colonização, as águas do Velho Chico vêm sendo fundamentais para a penetração nos sertões e para a dessedentação das grandes boiadas que passaram a ocupar o semiárido. Como grande parte de suas nascentes ficam em regiões do Cerrado, o rio passou a apresentar uma redução dos seus caudais nas últimas décadas – o avanço da agricultura nesse bioma e a destruição das matas nativas estão na origem desse problema. 

As salvadoras águas do rio São Francisco que tem feito a festa dos sertanejos estão ameaçadas. Nas próximas postagens vamos falar um pouco sobre isso e também detalhar mais as obras do projeto de Transposição. 

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