SUPERPOPULAÇÃO DE BICHOS E GENTES NO SEMIÁRIDO NORDESTINO

Cabra sertaneja 4

Na sequência de postagens publicadas no último mês, foram apresentados vários casos de corpos hídricos em diversas partes do mundo em estresse (ou stress) extremo, onde a combinação de alterações climáticas, superexploração das águas e destruição dos biomas está resultando em situações de colapso: o Mar de Aral e o Lago Chade praticamente desapareceram; o Mar Morto que já perdeu 40% de suas águas; falamos dos riscos iminentes que ameaçam o maravilhoso delta do rio Okavango; do Lago Poopó que secou completamente e do Lago Titicaca que lentamente começa a secar e preocupa os bolivianos e peruanos; nos Estados Unidos, mostramos o caso do Rio Colorado, o mais importante da região Sudoeste do país, que apresenta um volume de água cada vez menor para atender uma demanda que não para de crescer. Partindo desses exemplos, passamos a analisar a situação do nosso Rio São Francisco, que sofre intensamente com toda uma série de problemas ambientais, indo desde a redução no volume dos caudais até o assoreamento de canais, desaparecimento de inúmeras espécies de peixes, contaminação das águas por rejeitos de mineração e esgotos, entre outras agressões ambientais. Uma das causas que está na raiz dos problemas ambientais que ameaçam o Velho Chico é a superpopulação de bichos e gentes em sua bacia hidrográfica, um problema com origens históricas e que não para de aumentar em nossos dias.

Repetindo o que já falamos por diversas vezes, o povoamento da região do semiárido começou nas primeiras décadas da colonização do Brasil, quando os bois foram expulsos da região dos canaviais – uma carta régia publicada pelas autoridades da colônia previa sérias penalidades à criação de gado a menos de 60 quilômetros do litoral. Expulsos da costa, homens e bois foram penetrando sertões a dentro, descobrindo em poucos anos o vale do Rio São Francisco, que viu suas margens ficarem cheias de fazendas e de boiadas. Nas estradas criadas para levar as boiadas para venda no litoral, foram surgindo pequenos povoados e, em poucas décadas, todos os recantos dos sertões estavam cheios de gentes e de rebanhos. Os criadores perceberam já nos primeiros anos que os escassos campos entre os caatingais eram insuficientes para suprir a alimentação dos animais e se começou a prática de queimar as árvores para se aumentar, artificialmente, as áreas de campos. Com o crescimento dos rebanhos por toda a região do semiárido, essa prática se generalizou e já provocou alterações em mais de 70% da área da caatinga; em diversas regiões estão surgindo manchas de desertificação devido a superexploração dos solos provocada pelo excessivo número de rebanhos. O número de habitantes no semiárido também cresceu enormemente – quanto maior o número de habitantes e de animais, maior a pressão ecológica sobre a vegetação e as águas do bioma. Para que você entenda o que é essa pressão ecológica, vamos demonstrar o exemplo do custo ambiental para a criação de animais:

De acordo com informações de especialistas em zootecnia e em agronomia, é necessário 1 hectare de pastagem para atender as necessidades nutricionais de 5 a 15 kg de peso vivo – isso significa que uma cabra com um peso de 60 kg vai necessitar de, pelo menos, 4 hectares ou 40 mil m² de pastagem para sobreviver – isso corresponde a área de 4 campos de futebol no padrão FIFA. Essa grande área é necessária para que o ambiente tenha tempo para se recuperar, ou seja, enquanto a cabra come a vegetação em um lado deste campo, a vegetação do outro lado terá tempo para crescer e se regenerar. Um boi magro, para efeito de comercialização, tem um peso de 360 kg e vai necessitar de uma área de pastagem bem maior – 24 hectares ou 244 mil m². Observe que este cálculo foi feito usando o valor mais baixo do consumo – 5 kg de peso vivo/hectare: o valor mais alto é três vezes maior. Se você por acaso já teve oportunidade de viajar pela região do semiárido nordestino, lembrará de ter visto rebanhos com dezenas e mais dezenas de cabras, bodes, carneiros e bois pastando em área bem menores do que a recomendação dos especialistas, o que lhe dá uma ideia da sobrecarga no bioma.

Existe um diferencial importante no comportamento dos animais que precisa ser demonstrado neste exemplo: em situações extremas, quando as fontes de alimentação se esgotam, bovinos e caprinos tem atitudes distintas. Pelas suas características físicas, os bovinos só conseguem comer o que está ao alcance de sua boca: quando não conseguem acessar estes alimentos, os bois passam fome. Com os caprinos, a coisa é diferente: depois que a grama ou as ervas rasteiras foram completamente consumidas, os caprinos cavam o solo na busca de qualquer vestígio de raiz; escaladores habilidosos, os caprinos conseguem chegar aos mais surpreendentes lugares no alto de encostas, rochas ou árvores, consumindo até a última folha ou ramo de vegetação disponível. Os caprinos também conseguem comer as cactáceas cobertas de espinhos sem maiores dificuldades. Esse consumo até a exaustão extrema da vegetação é o primeiro passo para a desertificação de um solo.

Pessoas também tem todo um conjunto de necessidades fundamentais de água e alimentos e, como são infinitamente mais inteligentes do que as cabras e os bois do sertão. Em situações de extrema escassez vão utilizar de todas as suas habilidades e energias para explorar o meio ambiente ao máximo para conseguir satisfazê-las. E olhe que estamos falando de um universo de mais de 23 milhões de habitantes na região do semiárido.

No próximo post vamos falar destas populações humanas do semiárido.

10 Comments

  1. […] A partir do século XVIII, com descoberta das minas de ouro na região das Geraes e o grande afluxo de gentes para os trabalhos de pesquisa, mineração e transporte do metal rumo ao litoral, as águas e as margens do rio São Francisco se transformariam em caminhos de entrada e saída dos sertões. As grandes boiadas se transformariam numa importante fonte de alimentação para os mineradores e aventureiros, seguindo o curso do rio São Francisco a caminho dos sertões das Minas Gerais. De “desertão”, palavra que está na origem de sertão, a bacia hidrográfica do rio São Francisco foi ficando cada vez mais povoada.  […]

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