A QUEIMA DA CAATINGA NORDESTINA PARA A FORMAÇÃO DE CAMPOS DE PASTAGEM

Caatinga

Para quem não é sertanejo da gema, especialmente os nascidos nas regiões sul e sudeste, falar em caatinga traz imediatamente à memória as imagens de árvores retorcidas e secas, cercadas de gado magro e secura por todos os lados. No meu caso, essa imagem foi formada quando criança, primeiro pela leitura do livro, depois assistindo ao filme Vidas Secas, um clássico de nossa literatura – a saga do personagem Fabiano e de sua família fugindo da seca, seguidos de perto pela cachorra Baleia, foi marcante. Essa imagem caótica e idealizada da seca na região da caatinga fica ainda mais difícil de ser entendida quando se ouvem os relatos das belezas e da fartura do mesmo sertão pelas palavras dos muitos sertanejos que vivem nas grandes cidades, especialmente em São Paulo, lar de uma das maiores concentrações de nordestinos por quilômetro quadrado em todo o mundo. Vamos tentar mostrar o que é a Caatinga e os seus problemas:

A Região do Semiárido (ou Domínio da Caatinga) compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 23,5 milhões habite a região (dados de 2014). A Caatinga é uma região semiárida única no mundo, sendo, provavelmente, o bioma brasileiro mais ameaçado e já transformado pela ação humana. Engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do estado de Minas Gerais, também de clima semiárido é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas.

A vegetação, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. Pela sua maior extensão e importância, vamos nos concentrar nas zonas da caatinga. Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do sertão é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água: quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade. Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias pinta o chão da caatinga de verde, a cor da esperança – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix. A foto que ilustra este post mostra uma área da caatinga no Rio Grande do Norte após uma boa temporada de chuvas.

Conforme já comentado em postagens anteriores, os conflitos entre bois e canaviais resultou na expulsão das boiadas rumo ao sertão nordestino, um ecossistema extremamente rico em espécies animais e vegetais adaptadas a uma condição climática específica e com estoques de recursos hídricos bem inferiores aos da Zona da Mata. A chegada de imensos rebanhos de bois, um animal de grande porte e com grandes necessidades calóricas e de água, teve impacto imediato na caatinga, que mostrou não possuir recursos naturais suficientes para absorver e manter tal volume de criaturas. Percebendo desde cedo que faltavam pastagens para tantos bois, esses primeiros boiadeiros adotaram uma prática nefasta do ponto de vista ambiental: grandes queimadas foram feitas na região dos caatingais com o objetivo de ampliar os horizontes e permitir a ampliação das áreas de campo – ou seja, aumentar as áreas de pastagens para a criação e engorda de rebanhos de bois, cabras, bodes, ovelhas e de toda espécie de equinos e muares. Simples assim.

É praticamente impossível saber a condição da região da caatinga antes da chegada das grandes boiadas – nunca houve nenhuma grande expedição cientifica aos sertões para estudos da flora e da fauna nos primeiros tempos da colonização. As primeiras expedições exploratórias que alcançaram o sertão Nordestino, ainda nos primeiros tempos da colonização, buscavam especialmente ouro e pedras preciosas. Encontraram uma terra de clima e vegetação bastante diferente da luxuriante vegetação da Mata Atlântica litorânea, tribos indígenas hostis e nenhuma evidência de ouro ou pedras preciosas. O que se pode afirmar com absoluta certeza é que a aridez extrema que encontramos em algumas partes da região do semiárido atualmente não é natural – foi provocada e/ou ampliada pelas ações humanas ao longo dos últimos séculos. Preste atenção neste depoimento de Euclides da Cunha (1866-1909):

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.”

Diferente dos desmatamentos na Zona da Mata nordestina e mineira, onde há um volume muito maior de chuvas, a destruição de grandes trechos da caatinga provocou um menor carreamento de sedimentos para a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Porém, a destruição dos caatingais e a superexploração dos solos na formação de pastagens criou um outro gravíssimo problema: a desertificação e a erosão dos solos arenosos pelos ventos.

Falaremos disto no próximo post.

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