UM BREVE RESUMO DA HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

Amazônia

Nesses últimos dias, a Floresta Amazônica ganhou uma notoriedade jamais vista na história da humanidade. Fotos e vídeos de focos de incêndio na Floresta começaram a se espalhar pela internet e pelas redes de televisão, surgindo imediatamente clamores como “nossa Amazônia está pegando fogo e tudo vai virar cinzas”, “a maior floresta do mundo está em chamas”, ou ainda “o pulmão do mundo está sendo destruído”. Como bom ambientalista e pessoa extremamente preocupada com o futuro do planeta, acho que todos e quaisquer esforços para preservar o meio ambiente e garantir o futuro das novas gerações são bem vindos. Fora isso, o que tenho visto é muita histeria e falta de informações. 

A maior floresta do planeta, para começo de conversa, não é a Floresta Amazônica – muitos poderão ficar decepcionados com essa informação. Essa posição é ocupada pela Taiga, também chamada de Floresta Boreal ou Floresta de Coníferas. Esse bioma circunda toda uma faixa de terras do planeta no Hemisfério Norte, englobando a Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia e Norte do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca. Somando-se toda a extensão do bioma, chega-se a uma área total de 15 milhões de km² ou três vezes o tamanho da Floresta Amazônica. Se a Floresta Amazônica, como muitos estão dizendo por aí, é o pulmão do mundo e gera 20% do oxigênio do planeta, a Taiga, matematicamente falando, gera outros 60% – quem precisa das algas dos oceanos e dos demais sistemas florestais do mundo para fazer isso

Diferente também do que muita gente por esse mundo afora pode estar pensando, a Amazônia não surgiu do nada nesses últimos poucos dias. A Bacia Amazônica e a Floresta Amazônica são o resultado de um longo processo geológico iniciado há mais de 160 milhões de anos. Estou falando da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana.  

Sem entrarmos em maiores detalhes, a América do Sul, a África, a Índia, a ilha de Madagascar, a Austrália, a Antártida, a Nova Zelândia, a Nova Guiné e a Nova Caledônia, entre outras ilhas menores, formavam, em um passado distante, um único supercontinente conhecido como Gondwana. Há cerca de 160 milhões, o movimento das placas tectônicas, também conhecido como Tectônica Global, começou um processo de fragmentação e movimentação das partes deste supercontinente, formando a configuração atual dos continentes do nosso Planeta Terra. 

O nosso continente, a América do Sul, é formado por uma grande placa tectônica conhecida como Placa Sul-Americana. Para que você entenda o que é uma placa tectônica, peço que imagine uma grande jangada flutuando sobre a água – uma placa tectônica tem um comportamento similar a esta jangada, porém, trata-se de um gigantesco bloco de rocha flutuando sobre o magma, uma camada de rochas derretidas, com temperaturas acima de 1.500 °C, que envolve o núcleo do Planeta. Toda a superfície do Planeta é formada por placas tectônicas – são 15 placas principais e 40 sub-placas menores (as famosas Ilhas Malvinas estão sobre uma sub-placa). Quando teve início o processo de fragmentação e separação de Gondwana, a Placa Sul-Americana começou a se separar lentamente da Placa Africana – a velocidade desta separação é de, aproximadamente, 3 cm a cada ano.  

O avanço da Placa Sul-Americana rumo ao Leste não aconteceu livremente – conforme a América do Sul foi sendo empurrada pelas forças geológicas que a separavam da África, o grande bloco continental foi de encontro às placas tectônicas que estão do outro lado – a Placa de Nazca e a Placa do Pacífico. O choque desses blocos de rochas originou a Cordilheira dos Andes. A Placa Sul-Americana avançou sobre as bordas das Placas de Nazca e do Pacífico, o que provocou a elevação dos terrenos e a formação das montanhas dos Andes. Estudos geológicos indicam que esse evento teve início há cerca de 40 milhões de anos e o soerguimento dos terrenos foi concluído em “apenas” 4 milhões de anos.  

A Cordilheira dos Andes é uma das mais extensas cadeias montanhosas do mundo, se estendendo por quase 8 mil km desde a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente, até o Norte da Colômbia, acompanhando toda a costa ocidental da América do Sul. A altitude média das montanhas é de 3.500 metros acima do nível do mar, com alguns picos chegando próximo dos 7 mil metros, como no caso do Aconcágua, na Argentina, que tem uma altitude de 6.962 metros. A largura média da Cordilheira é de 240 km, com alguns pontos na Bolívia e no Peru com largura de 600 km. 

E o que tudo isso tem a ver com os rios da Bacia Amazônica ou com a Floresta Amazônica?  

Antes do “nascimento” da Cordilheira dos Andes, toda a região Norte da América do Sul era uma extensa planície alagável. Em alguns trechos, as águas do Oceano Atlântico (que era bem menor do que nos dias atuais) invadiam as terras e avançavam pelo continente. Os rios que haviam se formado até então corriam no sentido Leste. Conforme os terrenos da região onde encontramos atualmente a Cordilheira dos Andes começaram a ser soerguidos, ou seja, foram sendo elevados pelo choque entre as Placas tectônicas, houve primeiro uma interrupção no fluxo das águas para o Leste e um lento e gradual refluxo no sentido Oeste.  

Alguns dos principais rios formadores da bacia Amazônica com nascentes nos Andes, surgiram junto com a formação da grande cadeia montanhosa. Muitas das nascentes desses rios têm origem no degelo das neves e geleiras que se formam nas grandes altitudes. Estima-se que o rio Amazonas, ou o curso original daquele que viria a ser este rio, se formou há aproximadamente 16 milhões de anos. Esse rio corria na direção Oeste, desaguando nas águas de um grande lago, que se formou numa depressão no centro da região onde encontramos a Floresta Amazônica hoje. Foram necessários 6 milhões de anos para que as águas desse lago lentamente começassem a fluir no sentido Oeste, quando a grande calha do rio Amazonas foi se consolidando e se transformando no ponto central de drenagem de toda a bacia hidrográfica. Entre 6 e 10 milhões de anos atrás, a formação geológica da Cordilheira dos Andes se estabilizou e, desde então, vem mantendo as mesmas características.  

Todas essas longas e intensas modificações geológicas dos solos de toda essa extensa região foram acompanhadas de mudanças climáticas regionais e mundiais. Grandes massas de nuvens carregadas com grandes volumes de água passaram a se concentrar numa faixa ao longo da linha do Equador e transformaram essa região numa das mais chuvosas do mundo. Plantas das mais diferentes espécies passaram a colonizar os solos da região e a se adaptar a um ciclo de vida que se alterna entre um período de muita chuva e a outro de seca. Uma grande diversidade de animais da antiga fauna de Gondwana também passou a viver na região, com muitas espécies evoluindo e se adaptando para uma vida nesse novo ambiente que estava surgindo. 

Por volta de 3 milhões de anos atrás, foi formado o Istmo do Panamá, uma ponte de terra que uniu as Américas do Sul e do Norte (existem diversos estudos diferentes que datam essa formação entre 6 e 20 milhões de anos). Esse caminho permitiu a migração de uma infinidade de espécies animais e vegetais (lembrando aqui que várias espécies de animais são dispersoras de frutos e sementes) do Hemisfério Norte em direção ao Sul.  

Bem mais recentemente, há cerca de 15 mil anos atrás, grupos humanos fizeram esse mesmo caminho e passaram a colonizar a América do Sul, especialmente a região da Amazônia. Esses povos passaram a basear seu estilo de vida, de alimentação, de colheita extrativista e produção agrícola, religioso e familiar no ciclo das águas e nos ritmos da Floresta Amazônica. Outros povos, que se instalaram nas regiões das montanhas e nos altiplanos andinos, desenvolveram culturas e modos de vidas completamente diferentes.   

Com o processo de colonização das Américas, quando povos da Europa e da África passaram a migrar para nossas terras, aqueles que se dirigiram para a região Amazônica acabaram por absorver os costumes e as tradições dos indígenas da Floresta. Mesmo divididos pelas fronteiras artificiais entre os diferentes países, todos os habitantes da Bacia Amazônica têm estilos de vida e hábitos muito próximos.   

A Amazônia é o resultado de toda uma somatória de processos físicos, geológicos, biológicos, meteorológicos e humanos, entre muitos outros, o que levou à formação da maior floresta equatorial do mundo, que ocupa uma área com mais de 5,5 milhões de km². Esse impressionante ecossistema abriga dezenas de milhares de espécies animais, vegetais, bactérias, fungos, etc, grande parte ainda não descrita pela ciência. A rede hidrográfica local, a Bacia Amazônica, é a maior do mundo e concentra cerca de 20% de toda a água doce do planeta. Somente no trecho brasileiro da Floresta Amazônica vive uma população de mais de 20 milhões de pessoas.  

A complexidade da Amazônia é gigantesca e, nem de longe, poderia ser mostrada em postagens nas redes sociais onde se mostram apenas alguns focos de queimadas. 

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