OS GIGANTESCOS IMPACTOS SOCIAIS CRIADOS PELAS OBRAS DA USINA HIDRELÉTRICA DE SOBRADINHO

Pilão Arcado

Durante os primeiros três séculos da história oficial do Brasil, a Região Nordeste foi a mais explorada economicamente do país e forneceu gigantescos volumes de produtos de alto valor comercial para a nossa antiga Metrópole, o Reino de Portugal. O principal produto de exportação de nossa economia colonial era o açúcar, cujo principal centro produtor se localizava na faixa costeira do Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte. Para a produção do açúcar, o trecho Nordeste da Mata Atlântica foi impiedosamente destruído, liberando terras para o plantio da cana e fornecendo a lenha usada nos engenhos de produção do açúcar. Em menor escala, a região também produzia aguardente e fumo, produtos que eram usados na troca por negros escravizados no continente africano. 

Enquanto os engenhos e as plantações de cana-de-açúcar floresciam no litoral, os criadores de gado e suas boiadas foram expulsos e buscaram refúgio nos sertões. A região do Semiárido Nordestino, quando comparada a exuberância da Mata Atlântica, apresenta uma série de limites físicos para sustentar grandes rebanhos animais, especialmente quando concentrados em áreas muito pequenas. Os sistemas florestais nativos da Região formam um verdadeiro mosaico, com os mais diversos tipos de vegetação, que, tradicionalmente, são agrupados em três grandes grupos – o Agreste, a Caatinga e o Alto Sertão, com plantas adaptadas ao clima e aos baixos volumes de água disponíveis. Para sustentar seus rebanhos, os criadores passaram a queimar a vegetação nativa, forçando assim a expansão artificial das áreas de pastagens para os rebanhos. 

Esses ciclos de forte exploração dos recursos ambientais na Região Nordeste no passado estão na raiz da pobreza social e na limitada capacidade de produção econômica que encontramos nos sertões nordestinos hoje – a super exploração dos recursos naturais no passado cobra hoje o seu preço. O ciclo de instalação de grandes usinas hidrelétricas na região, iniciado com a construção das usinas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso ainda no final da década de 1940, foi, na minha opinião, uma forma de ajudar a Região Nordeste a iniciar um processo de recuperação econômica e social em relação às regiões mais desenvolvidas do país. Os bons níveis de crescimento econômico da Região nas últimas décadas provam que as escolhas foram acertadas. Infelizmente, como todos sabemos, a construção de grandes usinas hidrelétricas gera inúmeros problemas sociais e ambientais – Sobradinho é um grande exemplo disso. 

A construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho na década de 1970 foi decidida, junto com tantas outras grandes obras de infraestrutura, nos gabinetes do Governo Militar, sem consultar o povo, sem maiores preocupações com meio ambiente ou com os impactos negativos que o represamento do Rio São Francisco poderia produzir no futuro. Sobrava dinheiro no mercado internacional para empréstimos para os países em desenvolvimento e os planejadores oficiais da pátria tinham centenas de projetos faraônicos prontos para serem colocados em prática.  Alguma autoridade com o peito cheio de medalhas tomou a decisão e disse “faça-se”. Ninguém questionava uma ordem dessas naquela época. 

Calcula-se que 12 mil famílias, o que corresponde a aproximadamente 70 mil pessoas, tiveram de ser removidas das áreas que seriam alagadas após a formação do Lago de Sobradinho. Essa população foi remanejada para outras regiões do semiárido baiano e pernambucano. Quatro cidades localizadas dentro da área de inundação da represa – RemansoSento-Sé, Casa Nova e Pilão Arcado (vide foto), tiveram as suas áreas urbanas transferidas para outras regiões – as ruínas das antigas casas, igrejas, mercados e demais construções sumiram sob as águas quando o lago encheu.  

A propaganda oficial da época enalteceu a capacidade das empresas de engenharia brasileiras, falou dos milhares de Mega Watts de energia elétrica que seriam gerados em prol do desenvolvimento da Região Nordeste e outras coisas na linha da “patriotada”. Eu era adolescente na época e, sinceramente, não lembro de ter ouvido falar do drama social de dezenas de milhares de pessoas que, de uma hora para outra, tiveram de abandonar as suas terras e casas, para dar lugar as águas de uma represa. 

Os cantores Sá e Guarabyra lançaram na época uma música de protesto contra a construção da represa, que falava da expulsão dos moradores e da destruição das cidades. O nome da música, bastante oportuno aliás, é Sobradinho – um pequeno trecho: 

Adeus Remanso, Casa Nova, Sento Sé 
Adeus Pilão Arcado, vem o rio te engolir 
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira 
Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir 
Vai ter barragem no salto do Sobradinho 
E o povo vai se embora com medo de se afogar 
O sertão vai virar mar… 

Eu já trabalhei em algumas obras viárias e de saneamento básico, onde o projeto exigia a desapropriação de imóveis dentro da área urbana – este é um processo lento, burocrático e cheio de idas e vindas, que normalmente é feito por pessoas e empresas especializadas no assunto. Sempre que surge a notícia de desapropriação de imóveis para uma obra pública, os preços dos imóveis no local aumentam de preço de maneira “milagrosa”, surgem escritórios de advocacia especializados para defender o direito dos moradores, entre outros percalços. Às vezes, alguns projetos acabam sendo mudados de forma a se fugir de alguma desapropriação difícil. Em áreas rurais as negociações costumam ser um pouco mais fáceis. Na década de 1970, em pleno regime militar, não havia tempo para muita conversa – se foi decidido que a obra seria feita naquele lugar, o mais sensato era arrumar as malas e aceitar os termos do acordo. O progresso e o bem-estar da nação estavam em primeiro lugar. 

Nos sertões da Bahia e de Pernambuco, longe dos olhos do grande público, a máquina governamental usou de toda a sua força (além das falcatruas privadas sobre as quais comentei na minha última postagem), para expulsar milhares de pequenos agricultores de suas terras (calcula-se que 80% dos desapropriadas eram de áreas rurais). Esses agricultores acabaram dispersos por todo o semiárido, instalados em terras de qualidade muito inferiores às margens férteis do Rio São Francisco. Nas áreas urbanas que seriam alagadas, os planejadores construíram novos imóveis em terrenos mais altos e transferiram os moradores – se havia alguma relevância histórica, artística ou arquitetônica nas antigas cidades, azar delas. Passados quase quarenta anos da conclusão das obras da barragem de Sobradinho, ainda existe muita mágoa, tristeza e luta por compensações morais e econômicas por parte desses antigos moradores, organizados em diversos movimentos sociais. 

Existe um outro lado nesta história, comum a outras barragens construídas em todos os cantos do país – quem tem acesso privilegiado e antecipado a informações sobre uma obra de barragem, além de saber quais serão as áreas que serão inundadas, sabe também quais serão as terras que, após a formação do lago, terão localização e vista privilegiada com a frente voltada para as águas. Pequenas propriedades em zonas áridas e distantes do Rio São Francisco foram arrematadas por baixos preços por “empreendedores” com bons amigos no governo – após o enchimento do lago, as áreas agora supervalorizadas pelo fácil acesso as águas, foram transformadas em plantações irrigadas, fazendas de lazer, pesqueiros, hotéis fazendas, marinas entre outras ocupações privilegiadas. Quem tem bons amigos, tem “tudo”. 

Quando falamos em Sustentabilidade, não há como separar os problemas ambientais, sociais e econômicos – Sobradinho que o diga. 

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