AS ÁGUAS, AS MARGENS E AS ENCANTARIAS DOS RIOS DA AMAZÔNIA

Remédios da Amazônia

Quando criança, eu associava a farinha de mandioca aos nordestinos, um dos maiores grupos de migrantes da cidade de São Paulo. Para meu espanto, aos quinze anos de idade, conheci a primeira fábrica de farinha de mandioca da vida, não no Nordeste, mas na Ponta das Taquaras, na época um vilarejo próximo de Camboriú – Santa Catarina. Tocada por uma família de descendentes de alemães, essa fábrica mudou para sempre meu entendimento sobre o assunto. Ao longo dos anos, fui conhecendo outros centros de produção e venda do produto em todas as regiões do país. Arte complexa que nos legaram os indígenas, a produção das farinhas assumiu cores e sabores regionais e deu alma à culinária brasileira de norte a sul, de leste a oeste, de nordeste a sudeste. Na região Amazônica, porém, a farinha de madioca é simplesmente algo essencial.

Um dos mais bonitos e interessantes mercados de farinhas do Brasil fica dentro do Mercado Ver-o-Peso, na cidade de Belém do Pará. Ali existe uma infinidade de tipos de farinhas: mais finas, mais grossas, seca, d’água, de biju, brancas, amarelas, cada uma com um sabor e uma diferente gama de aplicações nos mais diferentes e deliciosos pratos – ali me disseram que comida amazônica que se preza, leva farinha de mandioca como ingrediente. Morando na região, não demorou muito para perceber que aquilo era a mais pura verdade: a farinha de mandioca é tão fundamental para a população da Amazônia quanto o trigo é para as populações de ascendência europeia e árabe das regiões Centro, Sudeste e Sul do país. Certa vez ouvi uma história – os índios podem até conseguir pescar com muita facilidade, mas se não tiver farinha de mandioca para acompanhar o peixe, eles não comem.

E quem ensinou os índios a fazer a farinha de mandioca? Se você pesquisar, vai encontrar dezenas de lendas diferentes, onde algum evento mágico, uma entidade do rio ou da mata ou uma divindade, mostrou aos índios como extrair as tóxinas da planta e a fazer o preparo deste alimento básico tão importante para todos nós.

De acordo com o grande antropólogo e educador Darcy Ribeiro, as Matrizes Étnicas da população brasileira são assentadas sobre um tripé: europeus, africanos e indígenas. Na região da Amazônia, apesar de encontrarmos elementos europeus e africanos nessa Matriz Étnica, o predomínio cultural é, sem dúvida nenhuma, o elemento indígena. Essa dependência pela farinha de mandioca, que é muito mais acentuada que no resto do Brasil, é apenas um dos aspectos mais visíveis desse elemento indígena na vida e no dia a dia da Amazônia. 

No mesmo Mercado do Ver-o-Peso, e em tantos outros das cidades da Bacia Amazônica, você poderá experimentar outra dose do elemento indígena da Amazônia, desta vez na forma de receitas místicas: visitando algumas das inúmeras bancas que vendem os ditos “remédios populares“. Dor de dente, reumatismo, pressão alta, diabetes, alergias, fígado ou coração fracos – há um remédio feito com produtos das águas e das matas da Amazônia para tudo. Mas não para por aí – há tratamentos para olho gordo, quebranto, chama-mulher/chama-marido (vide foto), ziquezira (seja lá o que seja isso) e tantos outros “males da alma e do espírito”. Um destes remédios populares, a mágica gordura do peixe-boi da Amazônia, eu conhecia desde a minha infância – no centro comercial do meu bairro na cidade de São Paulo, havia um camelô que vendia uma pomada que continha esse ingrediente. Esse camelô fazia toda uma performance na rua, falando das propriedades “mágicas” do remédio – a apresentação era acompanhada por uma cobra e por um lagarto, que “lutavam” em um determinado momento do “show”… 

Os rios da Bacia Amazônica, que ao longo de algumas dezenas de postagens mostrei em seus aspectos físicos, históricos e ambientais, tem uma dimensão que foge completamente ao entendimento de quem não é Amazônida: a cultura regional tem como base a “poética do imaginário, onde os rios são o habitat de mitos e deuses”. Os rios da Amazônia são formados de águas, margens e encantarias, onde existe uma mistura de fatos reais e imaginários – a “farmacologia”, os ingredientes e os preparos de cada um desses remédios populares é uma prova disso. São saberes e crenças ancestrais dos indígenas que foram absorvidos pelas populações que foram chegando e se instalando nas margens dos rios e nas matas, que acabaram fundindo suas próprias crenças e saberes com aqueles locais – surgiram assim as encantarias da Amazônia. Mas há muito mais: 

Em meados de dezembro de 2017, publiquei uma postagem onde tratei dos problemas que a poluição dos rios está causando a algumas espécies de golfinhos de água doce. O baiji (Lipotes vexillifer), uma espécie de golfinho que habitava as águas da bacia hidrográfica do rio Yangtzé na China, é uma das grandes vítimas da poluição das águas e provavelmente está extinto desde 2007. Falei também de outras espécies destes golfinhos, onde se incluem as espécies da Amazônia: o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), o boto cinza ou tucuxi (Sotalia fluviatilis), além das sub-espécies boto-boliviano (Inia boliviensis) e o boto-do-araguaia (Inia araguaiensis). Tecnicamente falando, o texto está completo. 

Dentro do imaginário da Amazônia, falta ao texto um dos aspectos mais importantes dessa classe de mamíferos da ordem dos cetáceos: o boto é uma criatura mágica, que em noites de lua cheia se transforma em um homem. Ele sempre se apresenta vestido com roupas brancas e nunca tira o chapéu da cabeça (que é para esconder o furo de “respirar” que ele tem na nuca). Segundo os ribeirinhos, uma das formas de se reconhecer um boto é o andar, que é um tanto desengonçado. Essas lendas dizem que quando uma moça solteira fica grávida, o pai da criança é um boto

Por mais fantasiosa que lhe pareça essa conversa, navegando pelos rios da Amazônia você encontrará inúmeros ribeirinhos, que algumas vezes são chamados de modo depreciativo como “barranqueiros”, que jurarão para você que viram um destes botos ou que conhecem alguma moça, muitas vezes da própria família, que teve um filho do boto. Entrarão nessas conversas curupiras, mapinguaris, iaras, pedras encantadas e curvas de um determinado trecho do rio e outros lugares com algum elemento sagrado. 

Essas encantarias são patrimônios culturais imateriais que não aparecem nas planilhas de custos, por exemplo, de uma barragem de uma usina hidrelétrica em projeto ou construção em um dos rios da Amazônia, mas que tem um alto valor para as populações locais. A perda de qualquer uma dessas entidades ou lugares “mágicos” é, absolutamente, irreparável… 

Um exemplo de como esse processo de mitificação funciona na Amazônia é o chamado Pedral do Lourenço ou do Lourenção, um imenso conjunto de afloramentos rochosos na calha do rio Tocantins, nas proximidades da cidade de Itupiranga, no Sul do Estado do Pará, sobre o qual falamos em uma postagem anterior. Contam os antigos do local que Lourenço era um homem um tanto recluso, que todos os dias ia pescar em uma das pedras da formação – certo dia, ele escorregou nas pedras e se afogou nas águas turbulentas do rio. A pedra onde este homem pescava acabou recebendo seu nome, que depois acabou sendo usado para designar toda a formação rochosa – Pedral do Lourenço. Assistindo a alguns vídeos sobre o local durante a redação da postagem, observei que cada morador entrevistado contava uma história um tanto diferente sobre o Pedral – fatos aparentemente reais sobre o tal Lourenço eram misturados com lendas locais, transformando um aparente fato histórico em uma nova encantaria.  

Agora um pouco de realidade – o Pedral do Lourenço é um enorme obstáculo para a navegação no rio Tocantins – uma empresa de engenharia venceu uma licitação pública para realizar obras de demolição de uma faixa do afloramento rochoso, criando assim um canal de navegação. A pergunto que eu faço – a população local foi consultada para falar sobre os impactos dessa obra no “panteão” de encantarias que residem no Pedral? 

Nos rios da Amazônia é assim que as coisas funcionam: fatos diários dos mais comezinhos podem, de uma hora para outra, virar “magia”, mito ou encantamento… 

A força dessas encantarias é tão grande, que o texto técnico do jornalista desaparece, sendo preciso apelar para a narrativa do escritor… 

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