A REDUÇÃO DOS CAUDAIS DO RIO SÃO FRANCISCO

Seca no rio São Francisco

Uma das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras é a do rio São Francisco, ou simplesmente, o nosso bom e Velho Chico. Se você fizer uma pesquisa nos arquivos aqui do blog, vai descobrir que o Velho Chico é campeão absoluto em postagens, o que, de alguma maneira, demonstra a importância que damos a este rio. Entre outros problemas, como assoreamento, poluição, redução de espécies de peixes e obstáculos à navegação, a redução dos caudais do rio São Francisco é talvez o mais alarmante. A destruição de áreas do bioma Cerrado, especialmente pelo avanço das fronteiras agrícolas, está entre as principais causas dessa redução do seu volume de águas. 

A bacia hidrográfica do São Francisco, rio que tem uma extensão total de 2.830 km, abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica interessante da bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras. 

O Rio São Francisco nasce, oficialmente, no município de Medeiros na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Em regiões de serra, especialmente nos domínios do Cerrado, existem inúmeros vertedouros de água ou nascentes nas encostas, que vão se juntando e formando diversos rios importantes do Brasil. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado por muitos de “berço das águas”, assunto que tratamos em postagem anterior. 

Bem à moda mineira, o Rio São Francisco desce discretamente as encostas da Serra da Canastra recebendo contribuições de inúmeros pequenos cursos de água e, conforme vai ganhando corpo e volume, vira para o Norte, na direção do Estado da Bahia. Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, será um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda, com destaque para alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitaí, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia.  

No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco que já estão chegando ao Estado da Paraíba, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará  e do Rio Grande do Norte – apesar de não ser a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, o São Francisco tem a mais importante pelo “conjunto da obra”. 

A cobertura vegetal do Estado de Minas Gerais vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. O avanço da fronteira agrícola nas últimas décadas, onde destacamos as culturas da soja e do milho, acelerou enormemente esse processo e os seus reflexos no rio São Francisco são evidentes (vide foto). É importante lembrar que a preservação da cobertura vegetal é fundamental para a proteção das nascentes e essencial para a recarga dos aquíferos. Dos três biomas originais do Estado de Minas Gerais, o Cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas do Cerrado e as acentuadas perdas de área dessa vegetação é o fator que mais produz reflexos negativos no rio, notadamente a redução dos volumes de água em nascentes desse bioma. 

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas, são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Eles são, simplesmente, as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica – o Velho Chico, pela imensa população das cidades e regiões que dele dependem, pelo clima e aridez de grande parte das terras que atravessa e também pela sua importância na história e na economia do Brasil, merece destaque entre todos os demais rios brasileiros. 

Apesar de tudo isso, o Velho Chico é um dos mais maltratados rios brasileiros, sofrendo de todos os tipos de males: desmatamento de matas ciliares – especialmente a perda das famosas veredas dos contos de Guimarães Rosa, contaminação das suas águas com rejeitos de um sem número de mineradoras, despejo de esgotos in natura e de todos os tipos de resíduos, assoreamento intenso, represamento das águas para geração de eletricidade, além do uso cada vez maior de suas águas para alimentar sistemas de irrigação. Como se não bastasse isso tudo, observa-se nitidamente uma mudança climática que está alterando os padrões de chuva em parte da sua bacia hidrográfica, que recebe cada vez menos água para alimentar um rio cada vez mais explorado – o resultado é um corpo d’água cada vez mais seco e enfraquecido, cada vez mais necessário para o abastecimento e usos na região com menor disponibilidade de recursos hídricos do país. 

A sobrevivência do rio São Francisco dependerá, em grande parte, de trabalhos técnicos para a preservação e recuperação de áreas florestais em regiões de nascentes, de veredas, matas de galeria e ciliares – especialmente na região do Cerrado. Isso demonstra, de forma cristalina, o quão importante é o bioma Cerrado e serve de alerta para a sua preservação. 

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