UMA BREVE HISTÓRIA DO AÇÚCAR, OU O NASCIMENTO DA “SUICKERLAND”

Casarões-coloridos-do-Recife-antigo

É impossível falar do grau de degradação dos rios de Pernambuco, particularmente do Capibaribe e Ipojuca, que integram a lista dos 10 rios mais poluídos do Brasil, sem fazer uma revisão histórica do impacto da indústria açucareira desde os tempos Coloniais até os nossos dias. Acompanhem uma rápida apresentação da história do açúcar e de sua chegada as terras brasileiras:

A cana-de-açúcar que nós que conhecemos aqui no Brasil, a saccharum officinarum, é originária da Índia e resulta da hibridização de diversas espécies nativas do Sudeste asiático, incluindo espécies da própria Índia, da China, Nova Guiné, Filipinas, Malásia entre outras. Foram os indianos que desenvolveram o processo de produção e refino do açúcar. A palavra açúcar vem do sânscrito çakkara. Os árabes adaptaram a palavra para súkkar e posteriormente os gregos para sáckcharon. A palavra saccharum é a transcrição latina do vocábulo grego. Nas principais línguas da Europa ocidental e países nórdicos é bastante fácil perceber que a palavra árabe seguiu o caminho dos mercadores: açúcar, azúcar, azucre, sucre, azukre, sucre, suggar, siúcra, zucchero, suiker, zucker, sukker, socker, sukke, sykur e sokeri, respectivamente em português, espanhol, galego, catalão, basco, francês, inglês, irlandês, italiano, holandês, alemão, dinamarquês, sueco, islandês, norueguês e finlandês.

A cultura da cana-de-açúcar se estendeu primeiro da Índia para a Pérsia meridional e depois para a península da Arábia. Posteriormente, foram os árabes que difundiram a cana-de- açúcar à medida que ampliavam as suas conquistas territoriais, primeiro no Egito e norte da África, no ano 709, para o Sul da Espanha, no ano 711 e depois para Sicília em 827. Não tardou muito para que a alta sociedade da Europa ficasse “viciada” em açúcar, um produto extremamente caro, vendido em gramas nas melhores boticas das grandes cidades do Velho Continente. A venda em boticas, nomes das antigas farmácias, tem sua explicação: o açúcar era considerado uma droga com ótimos resultados no tratamento de doenças do estômago e dos olhos – o uso na culinária veio depois. O açúcar chegou em terras portuguesas no século XII, quando o rei Dom João I arrendou terras na região do Algarve para um comerciante genovês iniciar o plantio da cana-de-açúcar. Durante centenas de anos, o plantio da cana-de-açúcar, a produção e o refino do açúcar ficou restrito a um grupo pequeno e muito poderoso de empresários e comerciantes, especialmente italianos e alemães, que lucravam muito com a venda do produto.

Com o avanço das naus portuguesas pelo Oceano Atlântico e a descoberta das ilhas da Madeira e do Arquipélago de Cabo Verde nas primeiras décadas do século XV, Portugal percebeu que estes novos territórios apresentavam condições ideais para o plantio da cana e a produção do açúcar. O Governo português fez altos investimentos na compra de equipamentos para a moagem e o refino do açúcar, na contratação de técnicos especializados na operação e manutenção dos equipamentos e também na capacitação de pessoal para o trabalho nos engenhos. Em poucas décadas, o pequeno reino do Oeste da Europa, que já dominava como nenhum outro as técnicas da navegação oceânica, entrou no mercado europeu como um concorrente de peso ante os comerciantes que monopolizavam a produção e a venda do açúcar havia gerações. Após o descobrimento do Brasil em 1500, os portugueses perceberam rapidamente o imenso potencial de produção açucareira ao longo de sua fabulosa costa e não poupariam esforços na busca do posto de maior produtor de açúcar do mundo.

Em Pernambuco, Duarte Coelho implantou o primeiro engenho, provavelmente, em 1535 sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda. Entretanto, alguns historiadores afirmam que já em 1526 Pernambuco e Itamaracá produziam açúcar. Em 1576, Pero de Magalhães Gândavo, historiador e cronista português, lançou o livro História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, onde fez um recenseamento do número de engenhos de açúcar em operação no Brasil: na Capitania de Pernambuco já existiam 23 engenhos movidos a bois ou a água, com produção de 50 a 70 mil arrobas de açúcar (no Brasil e no Portugal a época, a arroba equivalia a 14,688 kg).  No livro História Geral do Brasil, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen afirma existir, entre os anos de 1580 e 1590, 66 engenhos em Pernambuco. Sejam quais forem os números reais, eles mostram que houve um crescimento vigoroso da produção e que Portugal amealhava um grande lucro com a venda do açúcar. Aliás, foi essa prosperidade econômica criada pelo açúcar a responsável por transformar o pequeno reino do Portugal, na época com pouco mais de 2 milhões de habitantes, numa das mais poderosas nações mundiais dos séculos XVI e XVII.

Esse sucesso todo, é claro, incomodou a concorrência. Pernambuco passou a ser conhecida na Holanda, que já era na época uma potência mercantil, como Suickerland: a terra do açúcar. Os comerciantes holandeses estavam perdendo muito dinheiro para Portugal no comércio do açúcar e decidiram implementar uma guerra comercial pelo domínio do mercado. Essa guerra comercial não é exatamente aquela ensinada nos manuais modernos de administração e marketing – falamos aqui de esquadras de galeões flamengos equipados com centenas de canhões e com milhares de mercenários armados até os dentes avançando contra os engenhos da costa Nordeste do Brasil. Sob o comando de uma empresa privada, a Companhia das Índias Ocidentais, esses holandeses já haviam tentado ocupar Salvador em 1624, uma ocupação que durou um ano, e depois, entre os anos de 1630 e 1654, conseguiram ocupar uma extensa área do Nordeste a partir da cidade do Recife. Finalizada a ocupação, surge uma das figuras mais emblemáticas da história do Brasil – o conde Maurício de Nassau (1604-1679), chefe executivo de operações da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil.

Apesar de ter representado um desastre econômico e político para Portugal, a ocupação holandesa teve consequências relativamente positivas para os senhores de engenho brasileiros e também para a população. Os mercadores holandeses tinham interesse em garantir o controle de uma das principais fontes produtoras do mundo e, assim, garantir o suprimento contínuo de açúcar, resultando em altíssimos lucros com a comercialização. A cidade do Recife, que na chegada dos invasores flamengos nada mais era do que um amontado de casebres de pau a pique com telhado de palha, passou por uma verdadeira revolução urbanística, arquitetônica (vide foto), artística e cultural sob o comando do conde Maurício de Nassau; os barrancos e manguezais que cobriam as margens do rio Capibaribe deram lugar a margens muradas e urbanizadas, com pontes, praças e dezenas de pontos para o embarque e desembarque de passageiros que faziam passeios de barco pelo rio – surgia a “Veneza brasileira”.

Vamos detalhar todas as melhorias feitas por Nassau na cidade do Recife e no rio Capibaribe no próximo post.

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11 Comments

  1. […] A triste sina das capivaras, que também é estendida a toda a fauna aquática ou semi-aquática que habitava a calha do Capibaribe – peixes, crustáceos, répteis, mamíferos e aves, está ligada diretamente à herança (no pior sentido da palavra) deixada pela cultura da cana-de-açúcar dos tempos coloniais, quando a cidade do Recife era o centro político e econômico da atividade açucareira do Brasil Colônia. […]

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