OS INDÍGENAS “QUEIMADORES” DE FLORESTAS

Coivara

Há algumas semanas atrás, uma notícia correu o mundo e se transformou no embrião de toda essa crise sobre as queimadas na Amazônia – a morte do cacique Waiãpi no Amapá. Segundo essa “notícia”, um grupo de garimpeiros invadiu a reserva dos indígenas e matou o cacique com requintes de crueldade. Essa notícia passou a ser divulgada primeiro por políticos locais e depois por políticos a nível federal. Não tardou, essa notícia passou a circular por todo o mundo e chegou a ser comentada por autoridades da ONU – Organização das Nações Unidas, onde o Brasil foi acusado de genocídio contra as populações indígenas. Passada a histeria inicial, investigações feitas pela Polícia Federal, inclusive com a exumação e exames periciais no cadáver, comprovaram que o cacique morreu afogado e, ao que tudo indica, não passou de uma grande “fake news“.

A questão das populações indígenas, não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo, é bastante delicada e, frequentemente, está associada a problemas de devastação de áreas naturais e invasão de terras indígenas. No imaginário popular, o indígena é um exemplo da vida em harmonia com a natureza e de respeito ao meio ambiente. Essa imagem vem em grande parte da literatura, como é o caso do indigenismo brasileiro do século XIX, de textos de filósofos europeus como no mito do “bom selvagem” de Rousseau, e também da famosa Carta do Chefe Seattle.

Para tristeza de muita gente, lamento informar que essa imagem idealizada nem sempre condiz com a realidade histórica – aqui nas Américas há registros históricos e geológicos de grandes queimadas realizadas por povos indígenas – do Alasca, ao Norte, até a Terra do Fogo, ao Sul do continente. Essas queimadas eram sistemáticas e tinham como objetivo a abertura de campos agrícolas e criação de áreas para caça de animais silvestres.

As primeiras notícias sobre o encontro de europeus com populações indígenas nas Américas remontam ao ano 1000, quando a expedição viking de Leif Eriksson chegou as costas da Terra Nova, no Leste do Canadá. Os nórdicos fundaram uma colônia – Vinland, na região conhecida hoje como L’Anse-aux-Medows. Essa colônia sobreviveu até o ano de 1012, quando foi destruída por ataques de indígenas. As ruinas de Vinland foram encontradas por arqueólogos canadenses em 1962 e hoje fazem parte de um parque nacional.

As sucessivas expedições europeias que passaram a vasculhar as terras do Novo Mundo a partir dos últimos anos do século XV, se surpreendiam cada vez mais com a grande quantidade de indígenas que encontravam por todo o continente. Existem diversas fontes históricas que citam números entre 90 e 112,5 milhões de indígenas vivendo em todo o continente americano aos tempos dos descobrimentos. Tzevedan Todorov, um famoso linguista e filósofo búlgaro, trabalha com uma cifra de 70 milhões de habitantes.

Aqui no Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro falava de uma população indígena na casa de 1 milhão de índios – outros historiadores trabalham com números entre 2 e 4,8 milhões de habitantes, vivendo em aldeias que chegavam a abrigar dezenas de milhares de índios. Sustentar populações tão grandes pescando com flechas nos rios ou plantando pequenos roçados de milho e mandioca é algo que beira a utopia. Por questões óbvias de sobrevivência, essas nações indígenas eram obrigadas a se valer das tecnologias disponíveis para aumentar as áreas de produção agrícola e dos campos de caça. Muitos autores chamam isso de “Ecologia do Fogo”, o que nada mais é que a realização de grandes queimadas nas matas.

Ainda não existe um consenso científico sobre a origem das populações indígenas das Américas. As teses mais aceitas falam de grandes ondas migratórias terrestres vindas da Ásia a partir do Estreito de Bering, entre 15 e 20 mil anos atrás. Ondas de imigrantes vindos por mar também podem ter chegado às nossas terras a partir de ilhas do Oceano Pacífico e da África. Existem muitas especulações e poucos dados concretos.

Entre os indígenas, existem várias lendas sobre as suas origens. Uma das mais simpáticas é a dos Hopi, indígenas do Sudoeste dos Estados Unidos – por ordem dos deuses, o texugo e o coelho estenderam uma pele de búfalo sobre o chão e colocaram duas espigas de milho no meio. Esse couro foi enrolado de forma a permitir que o vento circulasse pelo seu interior – o homem e a mulher surgiram dessas espigas de milho. Nas Américas do Norte e Central, o milho foi o alimento mais tradicional das populações indígenas, o que justifica essa simpática lenda da criação dessas populações. Um dos grandes exemplos da  importância da agricultura nativa e da produção do milho é encontrada nos primórdios da colonização americana.

A colonização efetiva dos Estados Unidos começou em 1620, quando desembarcaram os  primeiros colonos que chegaram ao país no lendário navio Mayflower. Sem suprimentos para sobreviver ao inverno, esses primeiros colonos protestantes foram socorridos pelos indígenas locais, que forneceram alimentos – principalmente milho e carne de caça. Esse gesto de boa vontade levou à criação em 1621 do dia de Ação de Graças, Thanksgiving em inglês, o mais importante feriado dos norte-;americanos. Esses colonos observaram que os indígenas tinham enormes plantações em clareiras abertas na mata a partir de grandes queimadas. Conforme a fertilidades dos solos diminuía, os índios se mudavam para outras regiões, onde a mata era incendiada e novos campos agrícolas eram abertos.

Em áreas do interior do continente, os relatos históricos falam de grandes queimadas para a abertura de campos de caça. Nessas áreas, onde surgiam grandes pastagens, gigantescos rebanhos de búfalos ou bisões-americanos (Bison bison) se reproduziam e eram caçados com maior facilidade pelos indígenas de diversas tribos. De acordo com estudos científicos feitos na região das Pradarias, um extenso ecossistema formado por campos limpos na região Central dos Estados Unidos, que lembra muito os Pampas Sul-Americanos, essas áreas foram expandidas artificialmente pelas queimadas dos indígenas ao longo da história.

Na América Central, região que abrigou as grandiosas civilizações Maia, Asteca e Tolteca, grandes trechos da floresta tropical foram queimados para a construção de grandes cidades – algumas delas chegaram a abrigar populações na casa de 1 milhão de habitantes como Tenochtitlan e Copán, e para a formação de campos agrícolas. Quando os primeiros exploradores espanhóis desembarcaram no continente nas primeiras décadas do século XVI, muitas dessas cidades já estavam em ruínas. Uma das hipóteses  científicas para o desparecimento dessas populações foram grandes secas que se abateram sobre a região por causa da degradação ambiental.

Na América do Sul, é claro, essa mesma técnica foi largamente utilizada, tanto por povos de grande desenvolvimento cultural como os Incas das regiões Andinas, quanto por populações nativas de florestas como a Amazônica. Um exemplo dessa herança deixada pelos indígenas brasileiros na agricultura é a coivara (vide foto), o uso do fogo para a preparação dos solos para o plantio de culturas de subsistência. Desde as primeiras décadas da colonização do Brasil, essa técnica foi adotada por todas as populações, de origem europeia, africana e mestiças, e passou a fazer parte dos usos e costumes da população brasileira.

A coivara consiste na derrubada inicial da vegetação arbustiva e arbórea, que é deixada para secar ao sol por algum tempo. Depois de seca, essa vegetação é queimada, onde se faz ao mesmo tempo a limpeza do terreno e uma adubação elementar a partir das cinzas  das madeiras queimadas. Grande parte das queimadas que ocorrem hoje na Amazônia tem origem no uso inadequado da coivara em áreas com vegetação seca por causa do verão amazônico. A coivara foi intensamente utilizada na época do Ciclo do Açúcar, especialmente na Região Nordeste, e contribuiu muito para a devastação de extensas faixas da Mata Atlântica.

Mas foi justamente na região da Floresta Amazônica o local onde grandes queimadas foram feitas pelos indígenas em tempos Pré-Colombianos ou Pré-Cabralinos, com o objetivo de criar grandes campos para o cultivo de alimentos. Os registros “fósseis” dessas grandes queimadas estão por todos os lugares da Amazônia e se apresentam na forma das chamadas “terras pretas de índio“.

Vamos falar disso na nossa próxima postagem.

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