UMA BREVE HISTÓRIA DO RIO SÃO FRANCISCO

Nascentes na Serra da Canastra

Rios não surgem prontos da noite para o dia. Eles são o resultado de longos processos geológicos que se desenrolaram por milhões de anos. No caso do rio São Francisco, podemos traçar a gênese de sua história até cerca de 2 bilhões de anos atrás. Grande parte da região onde se encontra a bacia hidrográfica do rio São Francisco já foi um grande deserto e ficava no centro do antigo supercontinente de Gondwana. Era um deserto de areias planas, com dunas pequenas e sem nenhuma vegetação.  

Naquele período, conhecido na geologia como Paleoproterozoico (na escala do Tempo Geológico refere-se ao período entre 2,5 e 1,6 bilhão de anos atrás), o clima da região era extremamente árido e chovia muito pouco – quando chovia, porém, eram verdadeiras tempestades, que formavam fortes enxurradas e carreavam grandes quantidades de sedimentos. Nessa região existia uma grande cadeia montanhosa que tinha cerca de 800 km de extensão e 500 km de largura.  

Relembrando, Gondwana era um antigo supercontinente formado pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas. Devido à movimentação das Placas Tectônicas (pesquise sobre a Deriva dos Continentes), esse supercontinente começou a se fragmentar há cerca de 165 milhões de anos e a movimentação dos “fragmentos” levou a atual configuração do mapa mundi

A separação da América do Sul da África trouxe junto a cadeia montanhosa que citamos, que se quebrou em diversos pedaços devido à movimentação da Placa Sul-americana. Esses “pedaços” acompanharam a movimentação dos terrenos e formaram diversos relevos que nos são bastante familiares: Serra da Mantiqueira, Serra do Mar e Serra da Canastra, entre outras, além de uma longa sequência de serras entre os Estados de Minas Gerais e Bahia, conhecida como Serra ou Cordilheira do Espinhaço e que tem cerca de mil quilômetros de extensão. Grande parte dessas formações rochosas formam o que é conhecido como Cráton do rio São Francisco

Se você viajar por estradas mineiras e baianas, é muito improvável que você encontre placas indicando a Cordilheira ou Serra do Espinhaço. Essa extensa formação rochosa é mais conhecida pelos nomes dos seus trechos: Serra de-Deus-te-livre ou Serra de Ouro Branco, Serra do Cipó, Serra dos Cristais, e Chapada Diamantina, entre outras. Esses relevos são cobertos por diferentes tipos de vegetação e possuem inúmeras nascentes de águas. 

Os grandes blocos rochosos que formam esses relevos são bem antigos e constituídos por rochas extremamente resistentes, tendo sobrevivido a dezenas de milhões de anos de processos erosivos das chuvas, ventos e geleiras (apesar de hoje vivermos em uma zona de clima essencialmente tropical, em longos períodos de tempo no passado já convivemos com eras glaciais muito frias e com grandes formações de geleiras aqui no território brasileiro). 

Serras e cordilheiras funcionam como divisores de águas: as águas das chuvas e das fontes de água que surgem nesses relevos correm em diferentes direções acompanhando a declividade dos solos e formando rios. Por força da gravidade, a água sempre procura terrenos cada vez mais baixos até conseguir chegar, na grande maioria dos casos, até o oceano.

Como exceções a essa regra existem casos como o do Mar Morto, no Oriente Médio, localizado em uma profunda depressão que está abaixo do nível do mar, e algumas bacias hidrográficas endorreicas como o Delta do rio Okavango na África Austral, onde a água acumulada “se perde” por evaporação. 

Ao redor da Cordilheira do Espinhaço, podemos citar dois exemplos de rios que se formaram nas “duas faces” do relevo: a Leste, temos o rio Doce, que tem algumas de suas nascentes mais distantes na Serra da Mantiqueira e que corre primeiro rumo ao Norte e depois para o Leste, com sua foz no litoral do Estado do Espírito Santo.

Outro exemplo é o nosso rio São Francisco, que tem suas principais nascentes na Serra da Canastra (vide foto) e que segue através de uma longa depressão a Oeste da Cordilheira do Espinhaço rumo ao Norte, atravessando o Norte de Minas Gerais e todo o Estado da Bahia, para só depois virar rumo ao Leste e seguir na direção de sua foz na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe

Um evento fundamental que não podemos deixar de fora dessa super reduzida história do rio São Francisco foi o “nascimento” do Oceano Atlântico. Conforme as grandes massas de terra da América do Sul e da África foram se separando e a largura do Atlântico foi aumentando, os volumes de umidade criados pela evaporação das águas do Oceano também foram aumentando.

As correntes de ventos, que também surgiram em função do surgimento do Oceano Atlântico, passaram a espalhar de forma progressiva essa umidade pelos continentes. Esses ciclos de chuvas foram fundamentais para o surgimento e evolução de florestas como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, aqui na América do Sul, e a Floresta do Congo, na África. 

Na região central do território onde hoje está o Brasil, os ciclos regulares das chuvas e as características cristalinas dos solos levou ao surgimento de grandes aquíferos, que se tornariam fundamentais para a formação das mais importantes bacias hidrográficas do país. Essa região desenvolveu um tipo de vegetação com características muito particulares e quase que exclusivamente brasileira – o Cerrado. As nascentes dos rios que se surgiriam nessa extensa região seriam fundamentais para a formação do rio São Francisco. Cerca de 2/3 dos atuais caudais do rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado. 

Um outro tipo de vegetação tipicamente brasileira que surgiu em uma parte importante da bacia hidrográfica do São Francisco foi a Caatinga. Ocupando uma área com pouco menos de 1 milhão de km² na região do Semiárido Nordestino e do Norte de Minas Gerais, a ecologia da Caatinga é formada por plantas e animais altamente adaptados para um clima semiárido, sujeito a frequentes temporadas de fortes secas. O São Francisco, o maior e mais importante rio que atravessa a região, sempre teve um papel fundamental para todas as formas de vida do bioma. 

O vale do rio São Francisco se formou ao longo de uma extensa depressão entre a Serra da Canastra e a Serra Geral de Goiás a Oeste e a Cordilheira do Espinhaço a Leste. Neste trecho, as altitudes variam entre 1.000 e 1.300 metros acima do nível do mar. No Médio Vale do São Francisco, essa depressão é cercada por relevos como a Serra da Tabatinga e a Chapada do Araripe. Ao longo de inúmeras eras, as águas foram escavando rochas e formando a calha atual do Velho Chico. 

Durante o longo processo de formação da calha do rio São Francisco, as águas pluviais e os caudais dos inúmeros rios que foram surgindo formaram diversos lagos, onde se destaca um grande lago que se formou numa grande fossa tectônica no Norte do Estado da Bahia. O principal testemunho que restou desse lago são os grandes paredões que formam o canyon (ou canhão, a palavra portuguesa equivalente) do rio São Francisco. As águas desse lago subiram até atingir o topo dessas rochas e, muito lentamente, passaram a escavar um canal de passagem para concluir a sua jornada rumo ao Oceano Atlântico. 

A história geológica do rio São Francisco, é claro, é muito mais complexa do que mostramos aqui. Porém, esse resumo dá uma ideia da sucessão de eventos e dos muitos milhões de anos que foram necessários até o Velho Chico chegar à sua configuração atual. Também mostra a importância de se conservar e usar seus recursos da maneira mais racional e sustentável possível. 

Um grande rio é, simplesmente, insubstuível.

 

OS ALTOS E BAIXOS DO LAGO DE SOBRADINHO

Lago de Sobradinho

O Lago de Sobradinho, no rio São Francisco, é um dos maiores lagos artificiais do mundo e uma espécie de “termômetro” que indica como anda a saúde do nosso Velho Chico. O lago foi formado em meados da década de 1970 e faz parte do complexo da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, a mais importante geradora de energia elétrica da Região Nordeste. Na sua capacidade máxima de armazenamento, o Lago de Sobradinho pode apresentar um espelho d’água com mais de 4,2 mil km².

De acordo com dados do dia 15/07/2020 do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o Lago de Sobradinho está com 88,8% de sua capacidade, o maior volume de água registrado desde 2012. As outras duas grandes represas do rio São Francisco – Três Marias e Itaparica, também estão esbanjando saúde com 88,66% e 84%, respectivamente. Depois de vários anos de chuvas irregulares e abaixo da média histórica, a bacia hidrográfica do rio São Francisco voltou a receber ótimos volumes de águas nesses últimos meses.

Em dezembro de 2019, o nível do reservatório se encontrava com apenas 25% da sua capacidade. Já no início do último mês de março, o nível de Sobradinho superava a marca dos 50% e, muito melhor, em diversos momentos o reservatório passou a receber volumes diários de água equivalentes a 1% da sua capacidade máxima. Esse excepcional volume de águas permitirá a plena operação da usina hidrelétrica por vários meses e também garantirá a captação dos grandes volumes de água necessários para o Sistema de Transposição das águas do rio São Francisco em direção aos sertões de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.

Notícias tão boas assim relativas ao rio São Francisco e ao Lago de Sobradinho, infelizmente, não são tão frequentes. Ao contrário – nos últimos quatro anos, desde que iniciamos as postagens diárias aqui no blog, as publicações referentes a Sobradinho sempre foram preocupantes, demonstrando claramente a situação de degradação da bacia hidrográfica do rio São Francisco.

Em meados de novembro de 2017, citando um exemplo da caótica situação de Sobradinho, o nível do reservatório estava em 2,8%, o mais baixo desde a formação do Lago. Cerca de um mês depois, graças à chegada do período das chuvas, o nível do reservatório subiu um pouco e atingiu a marca de 4,16%. A postagem publicada há época afirmava que “Sobradinho ainda estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas já respirava sem aparelhos”.

Cerca de seis meses antes dessas postagens, já alertávamos sobre a situação crítica do reservatório – em junho daquele ano, o nível das águas estava em 15% e em queda. Nas regiões de Petrolina, em Pernambuco, e de Juazeiro, na Bahia, famosas pela grande produção de frutas em sistema de irrigação, os produtores já demonstravam grande preocupação com o recuo das águas do Lago de Sobradinho. As mangueiras das bombas de captação de água estavam sendo aumentadas quase que diariamente – lembro de alguns casos onde esse aumento forçado das mangueiras chegou a 2 km.

A construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho ocorreu numa época em que estava em voga o chamado “desenvolvimento a qualquer custo”. Sob a alegação que o bem estar coletivo era o mais importante, grandes obras de engenharia e de infraestrutura eram feitas sem estudos de impacto ao meio ambiente e sem maiores preocupações sociais. Essa fase foi bastante agravada aqui no Brasil durante o chamado Regime Militar ou regime de exceção, como muitos preferem chamar, que se estendeu de 1964 até 1985. Alegando questões de Segurança Nacional, muitas dessas obras se valiam do uso da força de todo o aparato de repressão do Governo.

Para a formação do gigantesco Lago de Sobradinho, cerca de 75 mil pessoas tiveram de ser remanejadas de suas terras e casas, grande parte “na marra”. Um verdadeiro marco dessa saga sertaneja é relembrado na música “Sobradinho”, de Sá, Guarabyra e Zé Rodrix. A letra fala das cidades de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso e Sento Sé, que tiveram partes ou a totalidade de suas áreas urbanas inundadas durante o enchimento do reservatório em 1974.

Muito mais do que serem desapropriados de suas terras e propriedades, essas populações ressentem da forma como esse processo foi conduzido. Frequentemente eu recebo mensagens de algum desses desalojados, onde se comenta, por exemplo, a diferença na qualidade das terras agrícolas que foram oferecidas como “compensação” – em oposição às terras férteis da beira do rio São Francisco, muitos agricultores foram transferidos para regiões no meio do Semiárido, com baixa disponibilidade de água e com solos duros e ressequidos, onde a prática agrícola é quase inviável.

Outra reclamação frequente foram os valores pagos como indenização para muitos, dinheiro que foi insuficiente para comprar terras de boa qualidade. Uma prática que foi muito frequente durante a construção de Sobradinho foram as compras de terras por corretores imobiliários com “bons amigos” na CHESF – Companhia Hidrelétrica do rio São Francisco, empresa responsável pelas obras. Esses espertalhões sabiam com antecedência as áreas que seriam desapropriadas e também os valores que seriam pagos em indenizações aos proprietários.

Com muita habilidade e boa conversa, esses “corretores” abordavam os proprietários e ofereciam valores extremamente baixos pelas terras. O fio da conversa era: o enchimento da represa vai cobrir suas terras e você vai perder tudo – melhor ganhar pouco do que perder muito! Analfabetos de “pai e mãe”, como dizemos no meu bairro, e sem maiores informações, muita gente acabou caindo nessa conversa. Depois, com a apresentação da escritura de posse das propriedades, esses “corretores” recebiam as indenizações reais pagas pela CHESF. Muita gente ficou milionária com esse golpe.

Um outro lado desse “golpe” do Lago de Sobradinho dizia respeito às futuras margens do reservatório. Propriedades rurais que se encontravam a dezenas de quilômetros do rio São Francisco em terras áridas e que não tinham um grande valor, passaram a ser compradas a preços baixos por gente que conhecia o projeto e que sabia onde ficariam os limites do espelho d’água. Anos depois, com o Lago já formado, muitas dessas valorizadas propriedades foram transformadas em marinas, hotéis, clubes e em fazendas dedicadas à produção irrigada.

Os planejadores estatais dos tempos do Regime Militar e os gananciosos que se aproveitaram do drama desencadeado a partir da construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, entretanto, não se preocuparam com a preservação ambiental da bacia hidrográfica do rio São Francisco. Muito mais do que os pesados investimentos para a construção de uma grande barragem para o represamento, o Lago dependerá sempre da chegada dos caudais do rio para a manutenção do seu nível de águas.

Conforme comentamos na postagem anterior, a maior parte das nascentes dos rios formadores do São Francisco se encontram em áreas do Bioma Cerrado. Desde a década de 1970, quando foram desenvolvidas variedades de soja e milho adaptadas às características dos solos e climas do Cerrado, esse bioma passou a assistir uma feroz e implacável derrubada de suas matas para a formação de campos agrícolas. Sem a sua cobertura vegetal, os aquíferos e lençóis subterrâneos de águas do Cerrado não são recarregados adequadamente e os volumes de águas das nascentes diminuem a cada ano que passa.

O resultado de todo esse conjunto de agressões ambientais se mostra em vazões cada vez menores no rio São Francisco e em níveis cada vez mais instáveis no Lago de Sobrinho. O que estamos assistindo hoje – um Lago quase cheio, é uma exceção à regra.

Vamos detalhar tudo isso em novas postagens.

UM “VELHO” CHAMADO “CHICO”, OU FALANDO DO RIO SÃO FRANCISCO

Rio São Francisco

Nas últimas postagens falamos da verdadeira saga em que se transformaram as obras do projeto de Transposição das águas do rio São Francisco. Imaginado ainda em meados do século XIX, nos tempos do reinado de Dom Pedro II, o projeto só começou a tomar forma em 2007, com a promessa de conclusão das obras em 2012. Depois de incontáveis feitos e malfeitos, desvios de dinheiro e superfaturamento de obras, o projeto vem se arrastando e agora há promessas de conclusão das obras até 2021. Os custos saltaram dos R$ 4,5 bilhões iniciais para mais de R$ 12 bilhões até agora. 

Fugindo um pouco desse “lado negro” das obras, existe um aspecto muito importante do projeto que acaba ficando em um segundo plano – a degradação ambiental do rio São Francisco, o manancial responsável pelo fornecimento de toda a água usada na Transposição. Chamado carinhosamente de “Velho Chico” por alguns e de “rio da integração nacional” por outros, o São Francisco está sofrendo com a destruição de áreas de matas em suas nascentes e tributários, com o assoreamento criado por atividades agrícolas e mineradoras, com a poluição e com a redução dos seus caudais, entre muitos outros problemas. 

Com aproximadamente 2.830 km de extensão, o rio São Francisco tem suas nascentes na Serra da Canastra, no Oeste de Minas Gerais, e de lá segue por um longo curso através de áreas do interior do Brasil até chegar na sua foz entre os Estados de Alagoas e Sergipe. As águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal.  

Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco chegarão com força até dezenas de cidades no interior dos Estados da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Apesar de não ser a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, a do rio São Francisco poder ser considerada a mais importante pelo “conjunto da obra”. 

As nascentes dos principais rios formadores da bacia hidrográfica do rio São Francisco ficam dentro dos domínios do bioma Cerrado. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado por muitos de “berço das águas”. Nas últimas décadas, conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, o Cerrado foi transformado na principal fronteira agrícola do Brasil e a intensa derrubada de matas nativas para a criação de campos cultiváveis tem afetado as nascentes de todas essas bacias hidrográficas. 

A importância do Cerrado para o rio São Francisco pode ser facilmente comprovada na formação dos seus caudais de águas – cerca de 37% da bacia hidrográfica do rio fica dentro de terras do Cerrado Mineiro e essa região responde por 75% das águas despejadas na calha do São Francisco. Explicando de uma forma bem simples: se as nascentes dos rios do Cerrado pararem repentinamente de despejar suas águas na calha do rio São Francisco, o volume de águas do rio se reduzirá a apenas 25% do seu volume total. 

Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, o rio São Francisco recebe contribuições de 168 afluentes (ou rios tributários) – são 90 na margem direita e 78 na margem esquerda. Entre esses rios, destacam-se os rios das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitai, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia. No total, a bacia hidrográfica do rio São Francisco ocupa uma área de 641 mil km² ou cerca de 6,5% do território brasileiro. Apesar de estar muito longe do tamanho da bacia Amazônica, as águas do Velho Chico atravessam grande parte da região do Semiárido Nordestino – daí vem a sua grande importância. 

A “descoberta” oficial da foz do Rio São Francisco se deu no dia 4 de outubro do ano de 1501, quando uma expedição exploratória comandada pelo navegador Américo Vespúcio fazia o primeiro mapeamento da costa brasileira. O rio foi batizado em homenagem a São Francisco de Assis, santo homenageado nesta data pelo calendário da Igreja Católica. Segundo o relato desses primeiros exploradores, a força da correnteza do rio era tão intensa que suas águas doces avançavam até 4 quilômetros mar adentro. Esse fato também é relatado por antigos capitães de navios mercantes que entravam pelo canal do Rio São Francisco em direção da cidade de Penedo, no Estado de Alagoas. 

Parte dos indígenas que viviam nas margens do São Francisco chamavam o rio de Opará, nome que pode ser traduzido como “grande como o mar” ou “rio-mar. Outras tribos usavam o nome Pirapitinga, que significa “rio onde se pesca o peixe da casca branca”. Ambos os nomes indígenas expressam a importância das águas do rio São Francisco para essas antigas comunidades indígenas, o que não mudou nada ao longo do tempo para inúmeras comunidades ribeirinhas e cidades que surgiram ao longo das margens do rio. 

Ainda falando em peixes, o rio São Francisco e toda a sua bacia hidrográfica já foram considerados os mais abundantes em pescados do Brasil e as atividades pesqueiras sempre foram importantes para o trabalho e alimentação das populações locais. Os registros indicam que já foram encontradas 158 espécies de peixes em suas águas, sendo muitas dessas espécies endêmicas. Entre as principais espécies de peixes do rio São Francisco destacam-se o curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro, o pirá e, sobretudo, o surubim, peixe considerado símbolo do rio. Aiás, a postagem aqui do blog onde falamos do surubim é a campeã absoluta em visitações. 

Apesar de tudo isso, o Velho Chico é um dos mais maltratados rios brasileiros, sofrendo de todos os tipos de males: desmatamento de matas ciliares – especialmente a perda das famosas veredas dos contos de Guimarães Rosa, contaminação das suas águas com rejeitos de um sem número de mineradoras, despejo de esgotos in natura e de todos os tipos de resíduos, assoreamento intenso, represamento das águas para geração de eletricidade, além do uso cada vez maior de suas águas para alimentar sistemas de irrigação.  

Como se não bastasse isso tudo, observa-se nitidamente uma mudança climática que está alterando os padrões de chuva em parte da sua bacia hidrográfica, que recebe cada vez menos água para alimentar um rio cada vez mais explorado – o resultado é um corpo d’água cada vez mais seco e enfraquecido, cada vez mais necessário para o abastecimento e usos na região com menor disponibilidade de recursos hídricos do país. 

Um rio não é apenas um rasgo ou depressão no solo, através da qual as águas drenadas de toda uma região escorrem rumo ao oceano. Rios alimentam e sustentam comunidades inteiras de seres vivos – plantas, animais e pessoas, são fontes de trabalho, renda, transporte e de muitas histórias e lendas. Os rios são as veias que irrigam e mantém a vida em todos os recantos de sua bacia hidrográfica. E o rio São Francisco é tudo isso.

O nosso Velho Chico merece destaque entre todos os demais rios brasileiros: pela imensa população das cidades e regiões que dele dependem, pelo clima e aridez de grande parte das terras que atravessa e também pela sua importância na história e economia do Brasil.

Continuaremos na próxima postagem. 

A TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO – UM SONHO ANTIGO

Seca no semiárido

Aos tempos da chegada dos primeiros exploradores portugueses às costas brasileiras no início do século XVI, uma densa floresta cobria o trecho litorâneo do país desde o Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte. Falo aqui da Mata Atlântica, um bioma que já cobriu 1,3 milhão de km² ou o equivalente a 15% do território do Brasil. Ao longo do litoral do Nordeste, a Mata Atlântica formava uma faixa de floresta que variava de 60 a 80 km de largura. 

O trecho nordestino da Mata Atlântica foi praticamente dizimado ao longo dos três primeiros séculos da colonização do Brasil – em seu lugar surgiram os grandes canaviais. Para piorar a situação da região, os plantadores de cana de açúcar do litoral expulsaram os criadores de bois e suas boiadas para o interior do Nordeste – os canavieiros acusavam os bois de comer os brotos da cana de açúcar. Foi assim, falando de um jeito muito resumido, que a região do Semiárido Nordestino e seus recursos naturais limitados passaram a conviver com grandes rebanhos de bois, cabras, carneiros, burros e cavalos, além de gente, muita gente

O Semiárido Brasileiro é a região semiárida mais densamente povoada do mundo – são cerca de 25 milhões de pessoas vivendo em uma área com cerca de 900 mil km². Para efeito de comparação, o Saara, o maior deserto do mundo com seus 9,2 milhões de km², sustenta uma população de 2,5 milhões de pessoas. Lembro aqui que o Saara não é formado apenas pelas dunas de areia mostradas nos filmes da Legião Estrangeira francesa – grande parte do Saara possui características muito similares à nossa Caatinga

Comecei a postagem de hoje mostrando esses dados para podermos falar de um grande problema brasileiro – a baixa disponibilidade de recursos hídricos no Semiárido Nordestino e o drama multissecular da seca na região. O Semiárido enfrenta períodos cíclicos de secas com excepcionais proporções – notas de antigos cronistas, testemunhas oculares, médicos e jornalistas, além de registros dos governos, falam de grandes secas em 1744, 1790, 1846, 1877, 1915, 1932, 1951 e 1979. Entre 2012 e 2015, o Semiárido viveu uma estiagem comparável à grande seca de 1915, evento que acabou imortalizado na literatura brasileira décadas depois com a publicação do romance O Quinze, de Rachel de Queiróz. 

Todos estes registros falam das penúrias e sofrimentos vividos pelos sertanejos, vitimados pela sede e pela fome, forçados a migrar para outras terras, quando milhares caíram desfalecidos pelos caminhos dos sertões. Um pequeno trecho de um antigo relatório oficial de um órgão do governo nos dá uma ideia da perplexidade criada pelo evento climático extremo: 

“Em 1932, o ano começou com poucas chuvas em janeiro. A seca havia se generalizado abrangendo uma área até hoje não superada: parte do Maranhão e o Piauí até a Bahia, ao sul do rio Itapicuru foram atingidos, numa extensão de 650.000 km², onde habitava uma população de 3.000.000 de pessoas.” 

De acordo com registros históricos, a ideia de realizar uma obra de engenharia que permitisse a transposição das águas do Rio Francisco na direção de áreas assoladas por secas frequentes remonta a meados do século XIX, época do reinado de Dom Pedro II. Nesta época, apesar das boas intenções dos idealizadores, o projeto não poderia ser realizado por falta de tecnologias e recursos de engenharia adequados – citando um único exemplo: a tecnologia para bombear a água a grandes alturas com o uso da eletricidade só estaria disponível 50 anos depois. 

A discussão acerca de um sistema de transposição voltou a ser considerada nas décadas de 1940, época do Governo Vargas, e 1980, no Governo do Presidente João Batista de Figueiredo. Em 1994, durante o Governo do Presidente Itamar Franco, foi iniciado um estudo sobre os potenciais hídricos das bacias hidrográficas do Semiárido nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, estudos que prosseguiram durante o Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.  

Em 2007, já no Governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, um projeto de transposição das águas do Rio São Francisco começou a ser implantado, com obras sendo executadas por batalhões especializados em engenharia do Exército Brasileiro e por construtoras privadas. Depois de inúmeros atrasos, suspeitas de fraude e superfaturamentos, o primeiro trecho do Eixo Leste do Sistema de Transposição do Rio São Francisco foi inaugurado oficialmente no início de março de 2017 pelo Presidente Michel Temer, que havia assumido o Governo após o impeachment da Presidente Dilma Rousseff em 2016. 

Projeções oficiais do Governo Federal estimavam que, quando as obras do projeto estivessem totalmente concluídas, o Sistema de Transposição das águas do rio São Francisco poderia atender até 12 milhões de pessoas nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, levando as águas do Rio São Francisco para uma extensa área do Semiárido. Infelizmente, como todos sabemos, as coisas não saíram exatamente como muitos haviam sonhado ao longo de muitas gerações. 

Orçadas inicialmente em R$ 4,5 bilhões e com previsão de conclusão em 5 anos, as arrastadas obras do Projeto de Transposição entraram num nada seleto conjunto de obras superfaturadas e mal feitas, onde o principal objetivo dos governantes e autoridades de plantão era o desvio de verbas públicas. Os poucos trechos inaugurados, rapidamente passaram a apresentar problemas de vazamentos de água, estações de bombeamento estavam trabalhando com capacidade muito abaixo do projetado e grandes trechos de canais foram abandonados inconclusos. De acordo com os últimos levantamentos, os custos das obras já superaram a barreira dos R$ 12 bilhões

Desde que assumiu o Governo em 2019, o Presidente Jair Bolsonaro vem pregando a continuidade e conclusão de obras federais que estavam paradas, o que inclui as obras do projeto de Transposição. Em 26 de junho último foi inaugurado um novo trecho do Sistema e as águas do Velho Chico agora estão chegando ao Estado do Ceará. Repetindo o que disse na última postagem, os nordestinos que sofrem com o drama da seca não são nem de direita nem de esquerda – são seres humanos que precisam de água.  

A chegada dessas águas aos sertões do Semiárido não vão resolver o problema da seca, mas poderão ajudar muito. Existe um limite para a quantidade de água que pode ser retirada da calha do rio São Francisco e o próprio Sistema de Transposição tem seus limites. A chegada das águas a toda uma infinidade de pequenas cidades e vilas espalhadas pelos sertões dos Estados atendidos pelo projeto também vai depender da conclusão de um sem número de pequenas obras de canais, adutoras e açudes.  

Essas obras complementares serão de responsabilidade de Estados e Municípios, que como se sabe, costumam não ter recursos suficientes para isso e dependerão da liberação de verbas do Governo Federal. Aqui se abre todo um “leque” de chances para se desviar dinheiro público nessas obras e muitos políticos locais já sonham em “encher seus próprios bolsos”. Será preciso ficar atento e fiscalizar o uso dessas verbas com “lupa”. 

Apesar de todas as dificuldades que ainda serão enfrentadas ao longo desse caminho, é preciso que se continue a perseguir o sonho de acabar, ou ao menos amenizar, as agruras provocadas pelas fortes estiagens no Semiárido Nordestino. E o mínimo que precisa ser feito é se concluir o Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco seja quais foram as cores partidárias de quem está sentado na cadeira da Presidência da República. 

As únicas cores que os sertanejos nordestinos querem ver é o azul e o verde das águas… 

“O SERTÃO VAI VIRAR MAR”, OU FALANDO DAS OBRAS DE TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO

Transposição das águas do rio São Francisco

No último dia 26 de junho, o Presidente da República inaugurou um importante trecho do Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco, que agora está levando as águas do Velho Chico na direção do sofrido Estado do Ceará. Independentemente de ideologia A ou B, essa obra é fundamental para uma região que há séculos vem sendo marcada pelas sucessivas secas. As redes sociais estão cheias de fotos de sertanejos nadando nos canais, o que realmente nos dá a impressão que uma parte da profecia de Antônio Conselheiro (1830-1897), o líder religioso do Arraial de Canudos, se cumpriu – “o sertão vai virar mar…” 

O trecho do projeto que foi inaugurado faz parte do Eixo Norte e envolve um túnel e uma estação de bombeamento entre o Reservatório de Milagres, no interior do Estado de Pernambuco, e o município de Penaforte, no Estado do Ceará. Apesar da importância ímpar da obra para o povo sertanejo, os Governadores dos Estados do Ceará e de Pernambuco não compareceram a cerimônia sob alegações das mais esfarrapadas. Na minha modesta opinião, quem depende dessas águas para sobreviver não é nem de direita, nem de esquerda – é gente da seca! 

Com uma área de pouco mais de 148 mil km² e com uma população de 9 milhões de habitantes, o Ceará é o único Estado nordestino totalmente inserido dentro do bioma Caatinga. A temporada de chuvas dura em média quatro meses a cada ano e, praticamente, toda a vegetação e a fauna são adaptadas para um clima semiárido. O Estado do Ceará convive há séculos com problemas de falta de água e grandes secas. Registros históricos e observações de cronistas de época falam de grandes estiagens no Estado em 1744, 1790, 1846, 1877, 1915 e em 1932.  

Uma das mais devastadoras secas a atingir o Ceará foi a grande estiagem entre os anos de 1877 e 1879, quando se calcula que metade da população do Estado acabou morrendo vitimada pela fome e sede. Essa grande tragédia coincidiu com o início do Ciclo da Borracha na Amazônia – dezenas de milhares de cearenses foram recrutados para os trabalhos de coleta do látex e produção das pélas de borracha no meio da Floresta Amazônica. Conforme já tratamos em outras postagens, essas pessoas trocaram a fome na Caatinga pela miséria na Amazônia. 

Outra notória seca no Ceará foi a de 1915, que teve como testemunha ocular a fabulosa escritora Rachel de Queiróz. A grande tragédia humana e ambiental marcou a vida da então adolescente, que anos mais tarde seria transformada em uma das obras primas de nossa literatura – o romance “O Quinze”. 

Além de fatores geográficos e ambientais, a seca na região do Semiárido Nordestino tem uma grande parcela de contribuição humana. Desde os primeiros anos da colonização do Brasil, boiadas expulsas do litoral canavieiro passaram a penetrar pelos sertões da região. Na falta de grandes áreas de pastagens para o gado, os boiadeiros criaram o hábito de queimar grandes extensões dos caatingais para a formação de novas áreas de pastagens.  

Além do gado vacum, os sertões passaram a assistir também ao crescimento de rebanhos de animais de pequeno porte, onde destacamos as onipresentes cabras e bodes. Diferente de outros animais domésticos, as cabras e os bodes cavam os solos em busca das raízes das plantas nos momentos de falta de pastagens, um comportamento que se reverte na degradação e desertificação dos solos. O grande botânico de origem sueca Albert Loefgren (1854-1918) estudou profundamente o assunto e escreveu:

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

O bioma também sofreu profundos danos com a abertura de áreas para prática de agricultura, fornecimento de madeira para a construção civil e para a produção de carvão, de lenha para as cozinhas, entre outras agressões. Dados recentes dos órgãos ambientais afirmam que metade do Bioma Caatinga já não existe mais e essa sua destruição têm impactos na amplificação dos efeitos naturais das secas e em processos de desertificação de solos. Proporcionalmente, o Ceará é o Estado do Nordeste que mais perdeu vegetação de caatinga. 

A somatória de todas essas características físicas e humanas torna o Estado do Ceará um dos mais problemáticos quando o assunto é a segurança hídrica da população. A chegada das águas do rio São Francisco ao Estado, uma ideia que foi proposta inicialmente durante o reinado de Dom Pedro II ainda no século XIX, deveria ser um motivo de festa para todos – é lamentável a partidarização “burra” de uma data tão importante para todos. 

As obras do Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco foram iniciadas em 2007 e, desde o começo, foram extremamente politizadas. O orçamento inicial para a conclusão de todas as obras foi calculado em R$ 4,5 bilhões e havia a promessa de se concluir os trabalhos num prazo de 5 anos. O que seriam obras para salvar cerca de 12 milhões de sertanejos do drama multissecular da fome e da sede rapidamente foi transformado em uma “máquina para o desvio de verbas públicas”. A velha máxima da “indústria da seca” nunca foi tão verdadeira

Como resultado direto da gestão fraudulenta que tomou conta do projeto, trechos com construção precária e superfaturados passaram a ser inaugurados apenas com objetivos de propaganda política e sem a menor condição de funcionar adequadamente. O Eixo Norte é um exemplo – as três estações de bombeamento de água que já haviam sido inauguradas em gestões presidenciais anteriores estavam operando com apenas uma bomba e com apenas 10% da capacidade prevista no projeto (a foto que ilustra essa postagem mostra isso). Já os gastos com obras saltaram dos R$ 4,5 bilhões previstos para a bagatela de R$ 12 bilhões

O Projeto de Transposição das águas do rio São Francisco prevê um total de 477 km de obras, onde se incluem canais, túneis, aquedutos e estações de bombeamento. O projeto é dividido em dois Eixos: o Norte, com cerca de 260 km de extensão, e o Leste, com outros 217 km.  Quando todas as obras estiverem concluídas, as águas atenderão uma população de 12 milhões de habitantes nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará

A ideia básica do projeto é complementar o abastecimento de água nas localidades atendidas, criando reservas para uso nos momentos de crise ao longo das fortes estiagens. Um aspecto importante das obras é o de permitir o desenvolvimento de agricultura irrigada ao longo dos canais, como aliás já existe ao longo das margens do rio São Francisco, onde os destaques são Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia. Essa região é grande produtora de frutas para exportação e de vinhos de ótima qualidade. 

O sofrido São Francisco é um dos mais importantes rios do Brasil. Desde o início de nossa colonização, as águas do Velho Chico vêm sendo fundamentais para a penetração nos sertões e para a dessedentação das grandes boiadas que passaram a ocupar o semiárido. Como grande parte de suas nascentes ficam em regiões do Cerrado, o rio passou a apresentar uma redução dos seus caudais nas últimas décadas – o avanço da agricultura nesse bioma e a destruição das matas nativas estão na origem desse problema. 

As salvadoras águas do rio São Francisco que tem feito a festa dos sertanejos estão ameaçadas. Nas próximas postagens vamos falar um pouco sobre isso e também detalhar mais as obras do projeto de Transposição. 

OS CICLONES QUE TÊM ATINGIDO A REGIÃO SUL DO BRASIL

ciclone-bomba

Um assunto que vem dominando os telejornais há vários meses é a unipresente epidemia da Covid-19, doença viral que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas em todo o mundo e que, literalmente, destruiu a economia de muitos países. Esse é um tema bastante preocupante e que vem exigindo uma série de esforços individuais e coletivos para a sua superação. 

Dentro desse quadro delicado de acontecimentos, passamos a ouvir notícias nos últimos dias sobre ciclones na região Sul do Brasil, eventos climáticos que têm causado destruição e dor em muitas cidades em Santa Catarina, Paraná e no Rio Grande do Sul. Vamos tentar explicar o que está acontecendo. 

A Terra, essa grande massa de rochas e águas em que todos nós vivemos, se comporta como uma verdadeira “máquina planetária”, lidando com quantidades gigantescas de energia. Com seus movimentos de rotação e translação ao redor do Sol, a superfície do planeta (tanto as partes secas quanto os oceanos) acumula diferentes quantidades de calor. Parte importante dessa energia vai para o núcleo quente do planeta, formado por uma massa derretida de ferro e níquel.  

Outra parte significativa dessa energia se distribui entre a superfície das terras e dos mares, além da atmosfera. É justamente as diferenças entre as quantidades de energia (ou de calor) entre esses todos esses elementos que formam as correntes marinhas e de ar. Essas diferentes correntes formam a base dos fenômenos climáticos mais corriqueiros de nossas vidas como os ventos e as chuvas, assim como os eventos climáticos extremos como furações, tufões, tempestades, tornados e ciclones, entre outros. 

Um ciclone é formado a partir de uma grande perturbação na atmosfera terrestre. A depender da região do planeta onde ocorre esta perturbação, o evento receberá os nomes de Ciclone Tropical, que ocorre numa faixa ao longo da linha do Equador, ou Ciclone Extratropical, que ocorrem numa faixa de latitudes entre 30° e 40° nos Hemisférios Norte e Sul. O ciclone que atingiu a região Sul do Brasil se formou a partir da associação de frentes frias que vem do Sul do continente com uma queda repentina da pressão atmosférica.  

Explicando de uma forma bastante simplificada, a diferença de pressão (e, consequentemente, de temperatura) entre uma área central, conhecida como “olho do ciclone”, e as áreas ao redor forma o que é conhecido como força de gradiente de pressão, o que pode resultar em ventos com velocidade de até 300 km/h. Explicando de um jeito bem simples – esses fortes ventos são formados pelo deslocamento em alta velocidade do ar entre as áreas de alta pressão na direção das áreas de baixa pressão. 

Entre os dias 30 de junho e 1º de julho, parte da região Sul do Brasil foi atingida por um forte ciclone extratropical, chamado de ciclone-bomba em função da extrema velocidade em que se desenrolou a sua formação. De acordo com dados da rede de estações meteorológicas da EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a velocidade do vento no Sul do Estado atingiu a marca de 168 km/h. Em Urupema, na Serra Catarinense, os ventos atingiram 126 km/h; em Itajaí chegaram a 121 km/h. Outras 50 estações meteorológicas no interior do Estado registraram velocidades entre 89 e 117 km/h

A área de incidência desse ciclone se estendeu entre o Paraná e o Rio Grande do Sul, causando enormes estragos, inclusive em Curitiba. No total foram mais de 200 cidades atingidas, deixando um saldo de 13 mortos e um prejuízo material de centenas de milhões de reais. De acordo com informações divulgadas pelas concessionárias de energia elétrica da Região Sul, esse ciclone provocou a maior destruição de redes de transmissão de energia elétrica da história.

Os efeitos desse ciclone-bomba foram sentidos em todo o interior dos Estados da Região Sul e também no litoral do Estado de São Paulo. Um novo ciclone, com intensidade menor, atingiu os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul no dia 8 de julho, provocando muita chuva e alagamentos. 

Os Estados da Região Sul do Brasil, além de São Paulo, Mato Grosso do Sul e a região do Triângulo Mineiro, e também as regiões contíguas nos países vizinhos, formam um extenso corredor onde há grande probabilidade de formação de fortes vendavais. Essa região, aliás, é considerada como o segundo maior “Corredor de Tornados” do mundo, só ficando atrás do Meio-Oeste dos Estados Unidos e dos seus famosos twisters.  

Massas de ar frio vindas da Patagônia, no sul do Continente, e massas de ar quente vindas da Amazônia e do Oceano Atlântico, costumam se encontrar na região. O encontro de duas dessas massas de ar, com diferentes temperaturas e com a rotação dos ventos em sentidos opostos pode gerar, como resultante, uma terceira massa de ar com uma grande concentração de energia – essa é a origem dos fortes vendavais. 

Os vendavais compreendem ventos com velocidades entre 50 e 102 km/h, o que corresponde a valores entre 7 e 10 na Escala de Beaufort (esses valores são aproximados porque essa Escala usa a unidade Milhas para a velocidade). Nessas faixas da Escala, os ventos vão de moderados a muito fortes. Esses ventos são gerados pelo deslocamento violento de uma massa de ar e normalmente estão associados aos sistemas formadores de tempestades.

Ventos com velocidade entre 103 e 119 km/h são chamados de ciclones extratropicais e, quando a velocidade dos ventos supera a casa dos 120 km/h, eles passam a ser chamados de ciclones tropicais ou furacões.  

Essa escala de velocidade de ventos foi criada originalmente em 1810 pelo hidrógrafo irlandês Sir Francis Beaufort, a partir de observações feitas no mar pelos navios da Marinha Inglesa. Os valores da Escala correspondem ao número de rotações de um anemômetro, um equipamento que mede a velocidade do vento. Essa Escala foi aprimorada e, no final de década de 1830, foi padronizada para uso em todos os navios da Marinha Real Inglesa. Ao longo da década de 1850, ela se tornou popular e passou a ter outros usos não militares.  

Com o avanço da tecnologia e com a disponibilidade de imagens de satélite cada vez mais precisas, os meteorologistas têm conseguido estimar com maior probabilidade as áreas onde podem ocorrer fortes tempestades e vendavais. Com a devida antecedência, essas informações podem ser repassadas para as populações através de noticiários de TV e de internet, ajudando assim a minimizar os impactos e a salvar vidas. 

As famosas e tão propaladas Mudanças Climáticas Globais, conjunto de mudanças no clima do planeta que estão sendo produzidas, entre outras causas, pela destruição maciça de florestas e pela poluição atmosférica, podem estar por trás do aumento da frequência e da incidência de fortes ciclones na Região Sul. Aqui é importante lembrar que ainda não há certeza científica absoluta sobre isso.

Em 2004, a mesma região foi atingida pelo Catarina, o primeiro furacão já registrado no Brasil. Esse furacão destruiu cerca de 1.500 casas e danificou outras 40 mil. A produção agrícola foi uma das atividades mais prejudicadas há época – a tempestade destruiu 85% da produção de bananas e 40% das plantações de arroz em mais de 14 municípios da região. O Catarina deixou um saldo de 11 mortos, 518 feridos e prejuízos calculados em mais de R$ 1,2 bilhão

Apesar do aparente aumento da frequência e da intensidade desses fenômenos, a Região ainda não conta com um eficiente sistema de alerta antecipado da chegada de novos ciclones e tempestades fortes, como acontece em países como os Estados Unidos. Se as Mudanças Climáticas, ao que tudo indica, vieram para ficar, precisamos também ficar preparados para as suas consequências. 

A julgar pelo que temos assistido, os ciclones passarão a fazer parte de “nossas paisagens” e de nossas vida daqui para a frente. 

O MÉXICO E SEUS 10% DE REMANESCENTES FLORESTAIS

Desmatamentos no México

Aproveitando o embalo dessa série de postagens sobre os imensos problemas ambientais e sociais da América Central continental e das ilhas do Mar do Caribe, precisamos falar do México, grande país caribenho localizado na América do Norte. 

O México divide com El Salvador e Haiti a nada honrosa posição de países com maior devastação florestal do mundo. Calcula-se que resta apenas 10% da cobertura florestal original no país. Considerando que nós brasileiros já conseguimos destruir cerca de 92% da Mata Atlântica, o feito dos mexicanos parece coisa de “amador”. Porém, existe uma diferença brutal no prazo em que os dois países “realizaram esse feito”. 

A destruição em larga escala da Mata Atlântica começou na década de 1530, época em que começou a colonização efetiva do Brasil. Se você se lembrar das aulas de história, vai recordar das famosas Capitanias Hereditárias e do Ciclo do Açúcar, principalmente na Região Nordeste. De lá para cá, já se foram quase 500 anos e se desenrolaram diversos ciclos econômicos para atingirmos essa trágica marca de destruição da floresta.

Já no México, as florestas conseguiram chegar ao século XX razoavelmente bem conservadas – a destruição da cobertura florestal acelerou brutalmente a partir da década de 1930. Somente entre os anos de 1980 e 2000, o México perdeu quase 10 milhões de hectares de florestas, um valor equivalente a 19,44% da área total de suas florestas em 1980. Entre os anos de 2001 e 2017, foram perdidos ao menos 3,2 milhões de hectares, o que correspondeu a 6% das florestas remanescentes. Ou seja – os mexicanos têm sido muito mais efetivos que nós brasileiras quando o assunto é desflorestamento de “velocidade”. 

O México, ou oficialmente, os Estados Unidos do México, tem uma área superficial de 1,97 milhão de km² e conta com uma população de 125 milhões de habitantes. Geopoliticamente, o país faz parte da América do Norte, porém, devido à colonização espanhola e ao uso majoritário da língua castelhana, o país tem grande afinidade com as Américas Central e do Sul, sendo englobado na chamada América Latina, onde ocupa a segunda posição em tamanho da economia, só ficando atrás do Brasil. 

Até onde já foi possível confirmar cientificamente, as primeiras populações humanas chegaram ao território mexicano há cerca de 21 mil anos atrás. Resquícios arqueológicos indicam que os povos indígenas locais iniciaram a prática da agricultura há cerca de 9 mil anos com a domesticação do milho, até hoje o principal alimento do país e de grande parte dos países latino americanos. 

Um ponto de destaque da história do México foi o surgimento de grandes civilizações indígenas a partir do segundo milênio antes de Cristo, povos esses que rivalizavam cultural e cientificamente com outras grandes civilizações da Ásia, África e Europa no período. Há época da chegada dos primeiros espanhóis ao Novo Mundo em 1492, as civilizações americanas já tinham quase 4 mil anos de história (vide foto).  

Entre esses povos destacam-se os olmecas, toltecas, teotihuacanos, maias, zapotecas, mixtecas e, em especial, os astecas. Estimativas históricas sugerem que a população do México antes da conquista pela Espanha estava entre 6 e 25 milhões de habitantes. 

Diferentemente da ideologia naturalista que vigorou durante muito tempo, esses indígenas mexicanos e centro americanos não viviam em “perfeita harmonia” com a natureza, sobrevivendo da pesca, da caça e coleta de frutas nas matas. Muito ao contrário – esses povos eram experts em derrubar e queimar áreas florestais para a abertura de grandes campos agrícolas para o plantio de milho e outros alimentos. Aqui há uma questão lógica envolvida – não se consegue alimentar populações com milhões de indivíduos pescando e caçando com arco e flecha. 

Existe ainda um outro complicador – essas civilizações não possuíam o arado e ferramentas metálicas para trabalhar a terra. Praticando uma agricultura neolítica, esses povos se valiam de ferramentas de madeira e de pedra para preparar a terra e produzir alimentos, o que pressupõe uma baixa produtividade. Há época da chegada dos primeiros espanhóis na Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano), grandes cidades dessas civilizações pré-colombianas foram encontradas desertas e engolidas pelas florestas, que voltaram a crescer com vigor. 

Após a conquista do Império Asteca por Hernán Cortês e a morte do Imperador Montezuma no início do século XVI, a varíola e outras doenças trazidas pelos conquistadores espanhóis devastaram grande parte das populações indígenas do México. Os sobreviventes sofreram um intenso processo de aculturação e a conversão forçada ao cristianismo. O México só voltaria a ter uma grande população no século XX. Lamentavelmente, foi essa tragédia humana que ajudou muito na preservação da biodiversidade do país até décadas bem recentes. 

A parte Sul do México, de clima predominantemente tropical, era coberta por uma densa floresta com características bastante similares à Floresta Amazônica. Conforme comentamos em postagem anterior, após a formação do Istmo do Panamá, uma ponte de terra que uniu as grandes massas de terras das Américas do Norte e do Sul, formou-se um corredor biológico através do qual houve uma grande migração de espécies – animais e vegetais, nos dois sentidos.  

Espécies de plantas e animais sul-americanos passaram a colonizar as terras da América Central, chegando até o Sul do México, onde muitas evoluíram e prosperaram como novas espécies. Essa densa floresta tropical cobria aproximadamente 15% do território mexicano. Em terras mais altas e em cadeias montanhosas, a vegetação predominante era de origem norte-americana, com abundância de bosques de coníferas. Esse tipo de vegetação cobria cerca de 20% do território do país. Grande parte do território mexicano é formado por solos e climas árido e semiárido. 

A biodiversidade que se formou no país é uma das mais impressionantes do mundo – de acordo com as estimativas científicas, cerca de 34% da fauna que habita as florestas mexicanas são endêmicas. Existem cerca de 1.500 espécies de mamíferos, mais de 1.000 espécies de pássaros, além de centenas de espécies de répteis, anfíbios e peixes, entre outras. O país abriga mais de 30 mil espécies de plantas, onde o grande destaque são os cactos – metade das espécies conhecidas no mundo estão no México

No ano de 1900, a população do México era de apenas 13,9 milhões de habitantes. Após o tumultuado período da Revolução Mexicana, que se estendeu entre os anos de 1910 e 1920, com cerca de 900 mil mortos nos conflitos, o país entrou em um forte período de prosperidade econômica entre os anos de 1930 e 1980. A taxa de fertilidade chegou próxima de 6 filhos por mulher, houve uma grande redução na mortalidade infantil e também um aumento da expectativa de vida da população

Como consequência direta desse grande crescimento populacional, onde o número de mexicanos aumentou quase 10 vezes, o país passou a assistir uma forte pressão sobre as áreas florestais. Essa pressão foi exercida pela agricultura, que precisava de quantidades cada vez maiores de campos para a produção de alimentos para a população e para a produção de commodities agrícolas para exportação como o milho e a soja, além da mineração e a coleta e processamento de madeira para a indústria, construção civil e exportação. Também não foram desprezíveis os desmatamentos para a ampliação de cidades, construção de obras de infraestrutura e de saneamento básico, entre outras

Sem a devida gestão das autoridades do país, bastaram poucas décadas para a quase completa destruição da cobertura florestal do México e o aparecimento de todo o “pacote de problemas” associados – redução de caudais e destruição de rios e outros corpos d’água, secas em algumas regiões e enchentes descontroladas em outras, erosão e perda de solos agrícolas, entre muitos outros. 

Há pouco mais de 10 anos, consciente da situação caótica em que se encontravam as florestas do país, o Governo do México passou a desenvolver inúmeros programas de recomposição de áreas florestais e de estímulo ao plantio de florestas comerciais. Centenas de milhões de mudas de árvores já foram plantadas e muitos milhões mais estão sendo planejadas. Essas importantes medidas chegaram um tanto atrasadas – calcula-se que perto de 12% da biodiversidade do país ou já foi perdida ou está em vias de desaparecer

Como eu sempre costumo afirmar nas minhas postagens, é fundamental lutar pela preservação da Floresta Amazônica, a maior florestal tropical do mundo. Entretanto, existem outras importantes florestas tropicais em todo o mundo, tão importantes e fundamentais como a Amazônica, que estão sucumbindo diante dos olhos do mundo e sem provocar a mesma paixão provocada pela grande floresta sul-americana. As florestas do México são um exemplo dessa passividade. 

OS ANIMAIS AMEAÇADOS NA REGIÃO DO MAR DO CARIBE, OU VOCÊ CONHECE O SOLENODONTE?

Solenodonte

De acordo com algumas teorias científicas, um grande meteoro atingiu a Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano), no México, há cerca de 65,5 milhões de anos atrás. Esse evento desencadeou uma série de alterações climáticas globais que resultaram na extinção dos dinossauros e na morte de, pelo menos, 75% das espécies vivas do planeta, tanto animais como vegetais. Curiosamente, uma pequena espécie de mamífero que vivia a poucas centenas de quilômetros de Iucatã conseguiu sobreviver à hecatombe planetária e chegou até os nossos dias. Falo aqui do solenodonte, um animal aparentado com as toupeiras e os musaranhos. 

Conhecidos popularmente como almiqui, esses animais só são encontrados nas ilhas de Cuba e de São Domingo no Mar do Caribe. O solenodonte-de-Cuba (Solenodon cubano) e o solenodonte-do-Haiti (Solenodon paradoxus) são muito parecidos e ambos estão em risco iminente de extinção. A espécie cubana (vide foto), inclusive, chegou a ser declarada extinta em 1970. Anos depois, felizmente, alguns animais foram encontrados em um fragmento de mata isolado no extremo Oeste de Cuba.  

Os almiqui podem atingir um comprimento de corpo de até 32 cm, além de contar com uma cauda com aproximadamente 20 cm. A espécie tem hábitos noturnos, sendo um dos poucos mamíferos venenosos existentes no planeta. A espécie, que conviveu com os dinossauros e sobreviveu a uma das maiores extinções em massa de espécies da história, hoje está perigosamente ameaçada pelos intensos desmatamentos e a fragmentação das matas onde tem seus habitats. 

Ainda falando em Cuba, um dos animais locais mais ameaçados é o crocodilo-cubano (Crocodylus rhombifer), uma espécie de réptil nativa da ilha. O animal só é encontrado atualmente na região do Pântano de Zapata, na Ilha de Cuba, e na Ilha da Juventude. A espécie habitou outras ilhas da região no passado e fósseis desse crocodilo já foram encontrados nas ilhas Caymans e Bahamas. 

O crocodilo-cubano é uma espécie de pequeno a médio porte, que pode atingir até 2,3 metros de comprimento e um peso médio de até 80 kg. Existem relatos antigos (e talvez bem exagerados) de espécimes capturados que tinham até 3,5 metros de comprimento e 215 kg de peso. Além da intensa destruição dos seus habitats, a espécie sofre com a caça predatória – a carne do animal é vendida no mercado negro cubano com preços entre US$ 5.00 e US$ 7.00 por kg. 

Uma espécie marinha que já foi abundante em todo o Mar do Caribe e que praticamente desapareceu dessas águas é o manatee ou peixe-boi-marinho (Trichetus manatus). No passado, os peixes-boi-marinhos eram encontrados desde o litoral do Estado da Georgia, na costa Leste dos Estados Unidos, até o litoral do Estado do Rio de Janeiro aqui no Brasil. No Mar do Caribe, a espécie era encontrada numa extensa faixa que atravessa as Bahamas, as Grandes e as Pequenas Antilhas. Essa espécie é “prima” do peixe-boi-da-Amazônia.

Assim como aconteceu no litoral do Brasil, esses animais foram intensamente caçados ao longo de séculos para aproveitamento da sua carne, que segundo os relatos tem o mesmo sabor da carne bovina, e do seu grosso couro. Os peixes-boi-marinhos desapareceram da maioria das ilhas caribenhas há mais de um século. O litoral e as regiões pantanosas do Sul do Estado americano da Flórida estão entre os últimos refúgios dos manatees

Atualmente, uma das maiores ameaças a esses animais são os choques com embarcações, principalmente barcos de pesca, lanchas turísticas e motos aquáticas. A ilha de Gadalupe, um território da França no Caribe, é um exemplo da luta pela preservação da espécie. As autoridades ambientais locais estão se empenhando para a reintrodução da espécie, inclusive com apoio do Brasil.  

Nosso país “emprestou” alguns peixes-boi-marinhos que viviam em tanques do CMA – Centro de Mamíferos Aquáticos, de Itamaracá, em Pernambuco. Os animais foram levados para o Parque Nacional de Guadalupe, onde estão sendo desenvolvidos projetos de reprodução da espécie em cativeiro. Os franceses pretendem soltar os eventuais filhotes nas águas e manguezais ao redor da ilha, de onde desapareceram há cerca de 100 anos. 

A geografia única do Caribe levou à evolução de espécies dentro de um processo conhecido na biologia como endemismo – espécies animais e vegetais originárias das áreas continentais ficaram isoladas nas diferentes ilhas por milhões de anos, levando ao surgimento de uma infinidade de espécies únicas e exclusivas de cada ilha. Um exemplo da riqueza biológica e dos riscos vividos pelas espécies pode ser observado na pequena ilha de Barbados. 

Entre as espécies mais representativas da fauna da ilha está o macaco-verde (Cercopithecus aethiops sabaeus), uma espécie de origem africana (vide foto abaixo), que foi introduzida e se adaptou perfeitamente à ecologia da ilha. Também encontramos o veado-mateiro e a cutia, espécies tipicas da América do Sul que, em algum momento de baixa do nível do oceano em um passado distante, conseguiram migrar para a ilha através de “pontes de terra”. Outra espécie é o jacaré caiman, originário das Américas Central e do Sul, que tem populações isoladas em diversas ilhas caribenhas.

Macaco-verde de Barbados

O Governo local criou uma reserva ecológica para tentar salvar essas espécies – a Barbados Wildlife Reserve. Para muitas espécies locais, como o guaxinim-de-Barbados (Procyon gloveralleni), a extinção chegou muito antes dessa consciência de preservação. 

Um exemplo notável da pressão ambiental sofrida por espécies do Mar do Caribe foi a que se abateu sobre as focas-monge-das-Caraíbas (Monachus tropicalis), um animal extinto há mais de 80 anos. Populações dessas focas eram encontradas em áreas litorâneas continentais do Mar do Caribe desde a Península de Iucatã, no México, até o sul da Flórida, nos Estados Unidos, além das Grandes e Pequenas Antilhas, entre outras ilhas da região. 

Foca-monge-das-Caraíbas

O primeiro relato sobre as focas-monge se deve a Cristóvão Colombo, que em 1493 fez anotações sobre a espécie em seu diário de bordo, descrevendo-a com o nome de “lobo-do-mar”. Colombo enfatizou o tamanho dessa foca, que podia chegar aos 2,4 metros de comprimento e mais de 130 kg de peso, imaginando as suas múltiplas “utilidades” para as populações humanas. As focas-monge foram impiedosamente caçadas ao longo dos séculos devido à sua valiosa pele, considerada excelente para a fabricação de botas, gordura e também pela sua carne.  

Na costa dos Estados Unidos, os pescadores acusavam essas focas de dizimar os cardumes de peixes e, sempre que avistavam um espécime atiravam para matar. A espécie, que era endêmica e abundante em todo o Mar do Caribe, não suportou toda essa pressão – o último exemplar vivo da foca-monge-das-Caraíbas foi avistado em 1932

Além desses exemplos citados, cada uma das diferentes ilhas do Mar do Caribe possui centenas de espécies de animais, insetos, peixes, moluscos, crustáceos, árvores e plantas endêmicas, todas altamente ameaçadas de extinção por causa da devastação da cobertura florestal e de corpos d’água, poluição, super exploração turística de praias e recifes de coral, desastres naturais, entre outras ameaças. 

Cada uma dessas espécies foi um triunfo da evolução e resultado de processos que se desenrolaram ao longo de milhões de anos de isolamento. O desaparecimento de qualquer uma delas é uma perda irreparável para toda a humanidade e pode significar também o desaparecimento de outras espécies – animais e vegetais, interdependentes. 

Um simples e pequeno beija-flor que desaparece de uma ilha, por exemplo, pode significar o fim de alguma espécie de árvore que tem suas flores polinizadas pela ave, além de ameaçar diversas outras espécies – animais e vegetais, que dependam e/ou vivam nessa árvore. Cada uma das ilhas caribenhas possui diversas espécies de beija-flores endêmicos, o que nos dá uma ideia dos riscos ambientais envolvidos. Multiplique esses riscos em razão das inúmeras espécies endêmicas em cada uma das ilhas.

A situação em todo o Caribe é muito grave, mas para muita gente, onde se incluem ecologistas e Governos, é só a “devastação” da Floresta Amazônica que importa.

PS: Hoje é dia do 4ª Aniversário do Blog.

AS PEQUENAS ANTILHAS E SEUS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS

Montserrat

Nas últimas postagens falamos dos problemas sociais e ambientais que estão assolando as Grandes Antilhas, as maiores ilhas do Mar do Caribe. São elas Cuba, a maior ilha caribenha, São Domingo, dividida entre a República Dominicana e o Haiti, a Jamaica e também Porto Rico, ilha que recentemente foi elevada à condição de 51º Estado Norte-americano. 

Além dessas ilhas principais, o Mar do Caribe é polvilhado por outras ilhas menores como as Bahamas, as Caymans, as Ilhas Turks Caicos, além de um longo arco de ilhas menores chamadas popularmente de Pequenas Antilhas. Esse arco de ilhas se limita ao Norte com a Ilha de Porto Rico e se estende rumo ao Sul na direção da costa da Venezuela. Essas ilhas são divididas em dois grupos principais – as Ilhas de Barlavento e as Ilhas de Sotavento, além das Ilhas de Barbados, Trinidad e Tobago e Ilhas do Norte da Venezuela – Aruba, Curaçao e Bonaire, pertencentes aos Países Baixos, além do Arquipélago Venezuelano. 

Para a maioria das pessoas, as ilhas caribenhas são uma espécie de “paraíso centro-americano do turismo”, com maravilhosas praias de areias brancas, águas transparentes que vão do verde-esmeralda ao azul-turquesa, recifes de corais cheios de vida e uma infinidade de passatempos e esportes para se curtir em merecidas férias. Entretanto, a realidade da vida no Mar das Caraíbas está muito distante dessas imagens estereotipadas.  

O Mar do Caribe e suas ilhas estão entre as regiões mais ameaçadas do mundo – cerca de 90% dos ecossistemas locais já foram destruídos/comprometidos por ações humanas. Completando o quadro trágico, a região está entre as mais afetadas pelas mudanças climáticas, onde se incluem longos períodos de secas, além de uma incidência cada vez mais frequente de furacões e tempestades tropicais

As ilhas caribenhas foram sendo “descobertas” em sequência a partir da chegada da expedição de Cristóvão Colombo em 1492 ao Novo Mundo. Ao longo várias novas expedições, Colombo e outros exploradores espanhóis foram descobrindo as demais ilhas caribenhas e reivindicando a sua posse em nome da Coroa da Espanha.  

Aqui é importante lembrar que a posse dessas ilhas foi corroborada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre os Reinos de Portugal e Espanha com a intermediação do Vaticano. Esse tratado estabeleceu um meridiano imaginário que dividiu o Novo Mundo entre Portugal e Espanha – a cidade de Belém do Pará fica bem próxima da posição aproximada desse meridiano. Todas as descobertas no Mar do Caribe pertenciam por direito à Espanha. 

A história colocou um ingrediente novo na equação que mudou os destinos de muitas dessas ilhas – a Reforma Protestante iniciada em 1517 na Alemanha por Martinho Lutero. As teses levantadas por Lutero passaram a questionar a autoridade até então absoluta da Igreja Católica, tanto religiosa quanto política.  

A consolidação de grandes grupos protestantes em países como Inglaterra, França, Holanda, Alemanha e Dinamarca teve reflexos nas ilhas caribenhas. Esses protestantes não estavam obrigados a seguir as orientações do Papa e, dentro das possibilidades, passaram a disputar os territórios espanhóis nas Américas e no Caribe. 

Pouco a pouco, muitas das ilhas caribenhas foram sendo conquistadas por grupos/empresas desses países “protestantes” e, atendendo aos grandes interesses comerciais da época, essas ilhas foram transformadas em grandes plantações de cana de açúcar, tabaco, cacau e especiarias, além de fornecer madeira e outros materiais. Esse uso das terras para fins agrícolas, é claro, resultou em grande devastação das florestas nativas dessas ilhas. 

A grande demanda por mão de obra para os trabalhos nessas ilhas transformou o Mar das Caraíbas num efervescente mercado para a venda de escravos africanos. A mão de obra dos indígenas dos diferentes grupos que habitavam as ilhas sucumbiu em poucas décadas, atingida por doenças trazidas pelos europeus e para as quais esses nativos não tinham imunidade. Poderosos grupos empresariais europeus passaram a se dedicar à lucrativa atividade de tráfico de escravos, que floresceu entre os séculos XVI e início do século XIX.  

A partir do século XIX, a escravidão foi sendo abolida em todas as ilhas e teve início uma série de movimentos pró-independência, que resultaram no nascimento de várias nações livres. Outras ilhas continuaram como possessões de países da Europa e também dos Estados Unidos. Apesar das diferenças históricas e políticas, todas essas ilhas mantém um alto grau de dependência da agricultura e enfrentam problemas semelhantes. 

Para não nos estendermos muito na análise dos problemas de todas as ilhas, vamos mostrar apenas algumas das ilhas. Comecemos pela Ilha de Guadalupe, um departamento ultramarino da França. A agricultura sempre foi a base da economia de Guadalupe, especialmente a produção e a exportação de açúcar e bananas. Há vários anos, porém, os rendimentos com essas exportações não têm sido suficientes para sustentar os 400 mil habitantes da ilha.  

A produção local de alimentos, por exemplo, não consegue atender as necessidades da população e a ilha precisa importar cerca de 10 mil toneladas de alimentos a cada ano. A salvação da “lavoura”, no sentido literal, vem sendo o turismo, atividade que ganha cada vez maior importância na economia local. 

A Dominica é outra ilha que sempre dependeu muito da produção agrícola, especialmente da produção e exportação de bananas. Nas últimas décadas, o Governo local passou a estimular uma diversificação das culturas agrícolas e a Dominica passou a produzir café, babosa, patchouli, flores e frutas como manga, goiaba e mamão. Desde 2006, o crescimento econômico da ilha tem sido fortemente influenciado pelo turismo e setor de serviços. 

Barbuda é outro exemplo de ilha caribenha que passou a depender economicamente do turismo. A economia da ilha sempre foi baseada na agricultura, principalmente de culturas como a cana de açúcar, algodão e frutas como mamão, goiaba, laranja, abacaxi e limão. Com o crescimento da população, os rendimentos gerados por essas culturas passaram a ser insuficientes para manter a balança de pagamentos e as receitas com o turismo e os setores de serviços passaram a ganhar importância. 

Como um último exemplo, vou citar a pequena ilha de Montserrat, que durante vários séculos foi uma grande produtora de açúcar. A partir de 1869, se valendo de uma crise vivida naquele momento pela indústria do açúcar, uma grande empresa passou a comprar terras na ilha e passou a plantar limoeiros e a produzir suco de limão, o que se tornou uma fonte de renda importante para a ilha.  

Em 1995, Montserrat foi surpreendida com o surgimento de um grande problema: o vulcão Soufrière Hills despertou de um longo período de inatividade e entrou em erupção (vide foto). Derramamentos de lava atingiram cidades e campos agrícolas como mostrado na figura abaixo, criando paisagens surreais. O evento forçou a evacuação de cidades e áreas agrícolas – toda a população acabou concentrada na parte Norte da ilha, o que corresponde a 40% do território. Todo o restante da ilha é considerado uma área de exclusão e não pode ser usado, principalmente para fins agrícolas, por razões de segurança. 

Montserrat derramamento de lava

As mudanças climáticas globais estão sendo sentidas nas ilhas do Mar do Caribe através de mudanças nos padrões das chuvas. Graças ao clima tropical de toda a região, o Caribe sempre foi marcado por duas temporadas bastante definidas – uma forte temporada de chuvas, bastante parecida com o nosso inverno amazônico, e uma temporada de seca. A produção agrícola nas diferentes ilhas sempre foi sincronizada com esses períodos. Nos últimos anos, entretanto, fortes secas têm atingido as ilhas e prejudicado a produção agrícola. 

Outro problema que vem crescendo nos últimos anos é a incidência cada vez mais frequente de furacões e fortes tempestades tropicais, que causam danos materiais graves na infraestrutura das ilhas. Além de danos em residências, fazendas e empresas de todos os tipos, esses eventos climáticos extremos causam danos em hotéis e resorts, aeroportos e campos de pouso, marinas e outras estruturas usadas pelo turismo. Os ventos e as fortes ondas também danificam praias e recifes de coral, além de destruir remanescentes florestais. A soma de todos esses problemas afeta fortemente as principais fontes de renda das ilhas e causa enormes prejuízos para a economia locais. 

Muito longe dos paraísos turísticos mostrados nos anúncios das agências de turismo, o Caribe e suas ilhas estão sofrendo com inúmeros problemas ambientais e sociais, que só aumentarão nos próximos anos. 

 

POBRE PORTO RICO

Furacão Maria 2017

A Ilha de Porto Rico, chamada inicialmente de San Juan Bautista pelos espanhóis, foi “descoberta” em novembro de 1493 por Cristóvão Colombo na sua segunda expedição às Américas. Como aconteceu com outras ilhas caribenhas, Porto Rico era densamente povoada por indígenas taínos, que chamavam sua ilha de Borikén. O gentílico popular “boricua”, usado para indicar as pessoas nascidas em Porto Rico, é derivado desse nome indígena. 

Porto Rico é a menor das Grandes Antilhas – a ilha possui apenas 9.100 km², o que equivale a menos da metade da superfície do Estado de Sergipe. A população é estimada em 3,5 milhões de pessoas. Desde 1898, quando foi assinado o Tratado de Paris que encerrou a chamada Guerra Hispano-Americana, Porto Rico passou a ser um Estado Livre associado aos Estados Unidos da América e, bem recentemente, foi elevado à condição de Estado norte-americano. 

O primeiro assentamento espanhol em Porto Rico foi fundado em 1508 por Juan Ponce de Leon, que foi nomeado o primeiro Governador da Ilha. Ponce de Leon entraria para a história por causa de sua busca obsessiva pela lendária Fonte da Juventude, uma saga que já foi tema de muitos livros e filmes como “Piratas do Caribe”.

A história colonial de Porto Rico não é muito diferente das outras ilhas do Mar do Caribe. Após a chegada dos primeiros colonizadores, a ilha acabou transformada em um grande canavial. Os indígenas taínos, que foram usados como mão de obra nos primeiros anos da colonização, morreram em grande quantidade devido a doenças trazidas pelos europeus e já em 1520, escravos africanos começaram a chegar na ilha para assumir os trabalhos na agricultura. 

Também como aconteceu com outras colônias espanholas nas ilhas caribenhas, Porto Rico foi relegada a um segundo plano diante das imensas riquezas geradas pela expropriação dos grandes tesouros dos Impérios Asteca e Inca no continente. Foi somente a partir do ano de 1700, com a ascensão da dinastia Bourbon ao trono da Espanha, que Porto Rico passou a receber maior atenção e maiores investimentos da Metrópole. Estradas começaram a ser construídas por toda a ilha, interligando as diversas cidades que surgiram ao longo da costa, favorecendo cada vez mais o escoamento e o comércio de produtos agrícolas. 

A partir do final do século XVIII, com o início de diversos conflitos emancipacionistas por todas as ilhas do Mar do Caribe, a Espanha passou a se preocupar com a manutenção da posse da Ilha de Porto Rico, que àquela altura já era um importante centro comercial na região. Em 1809, a Espanha reconheceu Porto Rico como uma de suas províncias ultramarinas e seus habitantes passaram a ter direto a eleger, por meio de voto, um representante para o Parlamento Espanhol.  

O Governo espanhol também estimulou a imigração de seus cidadãos para a Porto Rico, como forma de melhorar seus vínculos com a ilha – até o final do século XIX, perto de 450 mil imigrantes, a maioria espanhóis, desembarcaram na ilha. A Espanha também aumentou os seus fluxos comerciais com a ilha, tentando assim manter a posse de uma de suas últimas colônias nas Américas. 

Em julho de 1898, como uma consequência da Guerra Hispano-americana, os Estados Unidos invadiram Porto Rico e por lá ficaram. Após a assinatura do Tratado de Paris, a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas para os Estados Unidos, além de conceder autonomia para Cuba, que se tornou um país independente. A partir de 1917, os porto-riquenhos passaram a ser considerados cidadãos norte-americanos. Em 2017, após um referendo popular, Porto Rico passou a ser o 51ª Estado norte-americano. 

Assim como aconteceu com a grande maioria das ilhas do Mar do Caribe, Porto Rico derrubou a maior parte de sua cobertura florestal com vistas a abertura de campos agrícolas. Como consequência direta dessa prática multissecular, grande parte da ilha sofre há vários anos com longos períodos de seca, um problema que também está ligado as mudanças climáticas e aos efeitos devastadores de sucessivos fenômenos do El Niño e La Niña. Mas nada disso, porém, se compara a uma sequência assustadora de fortes furacões que tem atingido a ilha como uma frequência e intensidade assustadoras. 

Relembrando apenas os furacões que atingiram a ilha em anos recentes: em 2016, o Furacão Matthew passou perto de Porto Rico e assustou muita gente. Em 7 de setembro de 2017, Porto Rico foi atingido pelo Furacão Irma e, poucos dias depois, pelo Furacão Maria no dia 20. O Maria foi a pior tempestade a atingir a ilha em 100 anos, gerando ventos com velocidade acima de 250 km por hora e provocando chuvas torrenciais e alagamentos generalizados. Esse furacão deixou um saldo oficial de 2.975 mortos e dezenas de bilhões de dólares em prejuízos materiais (vide foto).

Essas duas tempestades em sequência destruíram grande parte da infraestrutura de Porto Rico. Em setembro de 2019, a população de Porto Rico se preparou para a chegada do Furacão Dorian, que felizmente perdeu força e não causou maiores prejuízos. O aumento da incidência e da intensidade dos furacões no Mar do Caribe estão ligados às mudanças climáticas globais

Além de destruir casas e edifícios, esses sucessivos furacões têm causado grandes impactos nos remanescentes florestais de Porto Rico. As fortes ondas geradas pelos ventos avançam contra o litoral, destruindo a faixa de areia das praias e danificando a vegetação de áreas de mangue. No interior da ilha, as áreas florestais sofrem com a força intensa dos ventos e muitas árvores acabam sendo derrubadas. 

Imagens de satélite feitas pela NASA – Agência Espacial Norte-americana na sigla em inglês, logo após a passagem do Furacão Maria, mostraram a ilha de Porto Rico praticamente toda devastada e parecida com uma região que sofreu um pesado bombardeio aéreo numa guerra. Calcula-se que cerca de 30 mil pessoas ainda não conseguiram reconstruir suas casas até hoje

Um exemplo claro da devastação deixada pelos furacões pode ser visto na ilhota de Palominito, localizada nas proximidades da famosa Ilha de Palomino. Até cerca de 25 anos atrás, a ilhota era coberta por vegetação e possuía uma grande população de animais. Nos últimos anos, Palominito passou a ser varrida pelas ondas e fica submersa ao longo de grande parte do ano. Foi em Palominito que o pirata Jack Sparrou acabou abandonado num dos filmes da franquia “Piratas do Caribe”.

Um levantamento recente feito em 60% do litoral de Porto Rico constatou que ao menos 1/5 das praias do país estão sofrendo com a forte erosão marinha, criada por ressacas cada vez mais fortes e frequentes entre os meses de novembro e março, além dos estragos deixados pelos furacões. Esse problema afeta diretamente a indústria do turismo, uma das mais importantes atividades econômicas da ilha. Aliás, faz muito tempo que a economia de Porto Rico não anda “bem das pernas”. 

Apesar de ser o mais novo Estado do país mais rico do mundo, os Estados Unidos, a economia de Porto Rico vai de mal a pior. A economia da ilha está em recessão desde 2005, com uma dívida total de mais de US$ 120 bilhões. Para piorar a situação, o Estado vem enfrentando um decréscimo populacional já há vários anos

Em 1950, a população de Porto Rico era de 2,2 milhões de habitantes e continuou crescendo até 2001, quando atingiu um pico de 3,8 milhões de habitantes. Além da redução da taxa de fertilidade, que tem reflexos diretos na população local, cerca de 90 mil porto-riquenhos migram para a área continental dos Estados Unidos a cada ano. A destruição causada pelas sucessivas tragédias climáticas tem desaminado os porto-riquenhos, que cada vez mais optam por recomeçar a vida em Estados com grandes populações “latinas” como a Flórida e o Texas. 

Com o êxodo de parte cada vez mais expressiva da sua população, principalmente jovens, Porto Rico perde parte importante da sua força de trabalho, o que afeta profundamente o crescimento econômico. E a situação que já não é das melhores, tenderá a piorar cada vez mais ao longo dos próximos anos. 

Devastação ambiental, decréscimo populacional e uma longa e perturbadora recessão econômica – essa é a triste sina do cada vez mais pobre Porto Rico.