A REGIÃO SEMIÁRIDA COM O MAIOR NÚMERO DE HABITANTES DO MUNDO

Petrolina e Juazeiro

Na região do deserto do Saara, conforme comentado em post anterior, vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas dentro de uma área com 9,2 milhões de km². Na Região do Semiárido brasileiro vivem 23,5 milhões de pessoas numa área com 925.043 km², equivalente a 10% do Saara. Antes de nos aprofundarmos nestes números e demonstrarmos o problema da superpopulação no nosso semiárido, é importante informar que a região do Saara não é formada apenas pelas gigantescas dunas de areia mostradas nos antigos filmes da Legião Estrangeira francesa. No Saara existe um enorme mosaico de ecossistemas diferentes, que vão de campos de savanas às dunas de areia, incluindo-se áreas de semiárido muito parecidas com a nossa caatinga, oásis verdejantes no meio do nada, vales profundos onde correm pequenos rios e até altas montanhas com picos nevados – sempre chove um pouco por todos os lados e de vez em quando até cai neve em alguns lugares do Saara.

O semiárido brasileiro possui um enorme rebanho com todos os tipos de animais domésticos pastando nos limitados campos, caatingais, brejos, tabuleiros e outras formas múltiplas de vegetação que formam um imenso mosaico de ecossistemas. O nosso bom e velho Rio São Francisco atravessa e divide ao meio toda esta região semiárida – tudo o que acontece nestes sertões afeta, direta ou indiretamente a grande bacia hidrográfica do grande rio. Todas as práticas de agricultura e pecuária, mineração, extrativismo dos mais diversos, ocupações urbanas de tamanhos diferentes, enfim – todos os usos e abusos ambientais que se desenvolveram por todos os cantos da região do semiárido, são encontradas também nas margens de todos os riachos e rios que alimentam o Velho Chico: é por isto que tenho falado tanto de toda esta região.

A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região. O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e de 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. Algo entre 15% e 20% destes rebanhos vivem na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

Das mais de 15 milhões de pessoas que vivem dentro da região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, pelo menos 30% vivem dentro da região do semiárido nordestino, o que representa quase o dobro da população que vive na região do deserto do Saara e transforma o nosso semiárido no mais habitado de todo o mundo. A exceção de municípios como Petrolina em Pernambuco (vide foto), com 338 mil habitantes, e Juazeiro e Barreiras na Bahia, com 200 mil e 138 mil habitantes respectivamente, a bacia hidrográfica do Velho Chico nos domínios do semiárido é formada por centenas de municípios com populações abaixo dos 40 mil habitantes, distribuídos em pequenas cidades, vilas e povoados dispersos por uma gigantesca região. Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio; há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores; os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer; para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos da extensa bacia hidrográfica do Rio São Francisco no semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações.

Essa superexploração dos recursos naturais do semiárido se refletem no Rio São Francisco – a redução sistemática no volume dos caudais do rio é indicativo do uso intensivo das águas nas centenas de afluentes da bacia hidrográfica; o assoreamento que se vê por todos os recantos ao longo do seu curso mostra que as matas ciliares de todos esses afluentes sofrem com o intenso desmatamento, com práticas agrícolas insustentáveis e com mineração descontrolada nas terras ao longo das suas margens; a baixa qualidade das suas águas mostra que cidades e vilas captam grandes volumes de águas frescas e limpas dos rios e devolvem esgotos sem qualquer tipo de tratamento – resíduos sólidos de todos os tipos, despejados por essas vilas e cidades em lixões improvisados, sempre acabam alcançando as águas de algum afluente e chegam por fim na grande calha do São Francisco.

O Rio Colorado, que recebeu uma imensa quantidade de obras de canais de irrigação e represas para o armazenamento e regularização das suas águas antes que se permitisse a instalação de milhões de habitantes para colonizar e ocupar as terras semiáridas do Sudoeste americano, está literalmente secando pelo uso abusivo das suas águas. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco, ao contrário, vem absorvendo e sustentando ao longo de séculos gigantescos contingentes de pessoas e de rebanhos sem qualquer planejamento ou obras de infraestrutura – não poderia se esperar outra coisa senão a destruição e o desaparecimento lento de suas águas. Quando constatamos hoje que o nível da represa de Sobradinho no Norte da Bahia está em pouco mais de 15% de sua capacidade total de armazenamento, não podemos simplesmente jogar a culpa na falta de chuvas – é necessário que se inclua na equação todos esses usos e abusos das águas e ecossistemas em toda a bacia hidrográfica do Velho Chico.

Todos esses problemas, porém, não ocorrem simplesmente na região do semiárido nordestino – eles começam longe, já nas cabeceiras dos rios na região das Geraes. Trataremos disto no próximo post.

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