CUBA: TERRA DA “REVOLUCIÓN”, DOS ”HABANOS PUROS” E DO “JEITINHO”

Havana

Uma expedição espanhola comandada por Cristóvão Colombo chegou na Ilha de Cuba em 1492, logo após ter descoberto a Ilha de São Domingo, batizada de Hispaniola. Colombo batizou a ilha com o nome de Juana, como uma homenagem à filha dos Reis Católicos da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Inicialmente, Colombo imaginou que a ilha fosse uma península do continente americano – foi somente em 1509, que o explorador Sebastián de Ocampo conseguir circunavegar todo o território e comprovar se tratar de uma ilha. 

Logo após desembarcar em terra, Colombo organizou e dividiu seus homens em grupos para explorar a ilha. Dois desses homens, Rodrigo de Jerez e Luís de Torres, ficaram vários dias fora e, quando retornaram, fizeram um relato dos mais curiosos a Colombo – os índios taínos “tinham tochas nas mãos e ervas das quais inalavam fumaça, ervas secas dentro de uma folha, igualmente seca… acesas na ponta, eram chupadas ou aspiradas, o que lhes entorpece a pele e é quase intoxicante, e dizem que dessa forma jamais sentem fadiga“. Acidentalmente, esses dois espanhóis descobriram o produto que faria a ilha famosa em todo o mundo – os charutos cubanos. 

Com o avanço das conquistas nas Américas Central e do Sul, os espanhóis descobriram que o plantio do fumo (Nicotiana tabacum) e o hábito de fumar faziam parte da cultura de diversas tribos indígenas americanas. Levado para a Europa, o fumo conquistou apreciadores no Velho Continente, o que criou uma forte demanda por esse novo produto das Américas. A região de Pinar del Rio, em Cuba, foi rapidamente identificada como a que possuía as melhores terras, além das condições de clima e ecológicas para a produção das melhores folhas de fumo. Os mundialmente famosos “habanos puros” tem suas folhas produzidas exclusivamente nessa região. 

Como aconteceu na maioria das ilhas do Mar do Caribe, a Ilha de Cuba também seria transformada em uma grande produtora de açúcar. As primeiras mudas de cana de açúcar desembarcaram na ilha em 1511, mas Cuba só se tornaria uma grande produtora de açúcar apenas no século XVIII, dividindo espaços com as plantações de fumo. 

Apesar da história da chegada da cana e da produção do açúcar lembrar muito o que aconteceu na Ilha de São Domingo e na Jamaica, em Cuba a situação foi um pouco diferenciada. Nessas duas ilhas, onde os recursos naturais são mais limitados, os engenhos de processamento do açúcar utilizavam a queima do bagaço da cana como combustível para as caldeiras de refino do melaço. Relembrando o que já comentamos em uma postagem anterior, era necessária a queima de até 20 kg de lenha ou outro combustível para a produção de um único quilograma de açúcar

Em Cuba, a maior ilha do Mar do Caribe, a aparente disponibilidade inesgotável de recursos florestais deixou os engenhos locais muito parecidos com os engenhos da região Nordeste do Brasil – essas instalações utilizavam lenha colhida nas florestas para gerar a energia dos processos de produção do açúcar. Essa característica criou duas frentes de desmatamentos: a primeira, derrubando florestas a ferro e a fogo para a abertura de campos para o cultivo da cana, e outra derrubando matas para a obtenção de lenha. 

À semelhança dos grandes engenhos do Nordeste brasileiro, os produtores cubanos abandonavam as suas terras ao primeiro sinal de esgotamento dos solos e partiam para a derrubada de novos trechos de matas, liberando “terras virgens” para a criação de novos campos agrícolas. Essa prática, que foi responsável pela destruição do trecho nordestino da Mata Atlântica aqui no Brasil, também colaborou muito para a devastação das florestas cubanas. Segundo os últimos levantamentos divulgados pelo Governo local, restam apenas 28,6% das matas nativas originais de Cuba

O Arquipélago de Cuba é formado por mais de 1.500 pequenas ilhas e ilhotas, sendo que a Ilha principal tem uma área total aproximada de 105 mil km², pouca coisa maior que o Estado de Pernambuco. O território da Ilha de Cuba possui um formato alongado, com cerca de 1.200 km de comprimento e com uma largura média de 130 km. A população do país é de 11,2 milhões de habitantes. 

Como aconteceu em grande parte das ilhas do Mar do Caribe, Cuba passou a sofrer grande influência dos Estados Unidos, principalmente depois da independência da Espanha em 1898. Os cubanos se envolveram em três conflitos armados contra o domínio espanhol a partir de 1868, só logrando êxito na terceira tentativa, onde contaram com apoio dos Estados Unidos.  

O Tratado de Paris, assinado em 1898, encerrou a guerra de independência, mais conhecida como Guerra Hispano-Americana, quando a Espanha abriu mão de Cuba, Porto Rico e das Filipinas. Os norte-americanos permaneceriam formalmente em Cuba até 1902, mas o seu intervencionismo se estenderia até 1909, quando o país efetivamente deixou o país, não sem antes garantir a posse da polêmica base naval de Guantánamo no Sul da Ilha. Indiretamente, porém, o norte-americanos manteriam uma forte influência econômica sobre Cuba, o que só terminou no final da Revolução Cubana em 1959. 

O uso inconsequente dos solos e a destruição intensa da cobertura florestal na Ilha de Cuba desencadearam dois dos maiores problemas ambientais da ilha na atualidade – a erosão e a alta acidez dos solos. Processos erosivos afetam perto de 2,5 milhões de hectares da ilha, especialmente nas regiões onde a produção de cana é mais intensa.  

Outros 3,4 milhões de hectares de solos têm apresentado altos níveis de acidez, onde a principal causa é falta de rotação das culturas agrícolas, que se limitam a cana de açúcar e ao fumo. Completando o quadro, mais de 1 milhão de hectares de solos sofrem com a salinização. Juntos, esses problemas afetam mais de 60% do território de Cuba. 

Um outro problema grave, que já foi reconhecido até pelo Governo comunista da ilha, é a acelerada perda de biodiversidade. Entre as causas principais estão a destruição de áreas florestais e a perda de habitats. Existe, porém, outros problemas que são bem típicos de Cuba: a caça de animais silvestres e a pesca excessiva, atividades ilegais que surgiram como forma de compensar as deficiências do sistema de “cadernetas de racionamento” criado pelo regime socialista cubano. 

Eu estive em Cuba há alguns anos atrás e, numa das minhas andanças longe das vistas dos “agentes de turismo oficiais”, eu fui de moto até uma cidadezinha mais afastada. Num açougue dessa comunidade, verifiquei que só havia uma única bandeja com pescoços e cabeças de frango – todas as demais bandejas da gondola estavam vazias. Tentei conversar com alguns dos desconfiados moradores, que não sei por que cargas d’água achavam que eu era canadense, que sem querer confirmar, mas confirmando, disseram que aquilo era normal por lá. 

Pois bem – existe um poderoso mercado negro para venda de carnes em Cuba. Espécies silvestres como tartarugas cabeçudas, tartarugas verdes e tartarugas de pente, crocodilos e manatees (peixe-boi marinho), entre outras espécies ameaçadas de extinção, além de peixes e crustáceos marinhos, são caçados e/ou pescados clandestinamente, e tem suas carnes vendidas “por fora do sistema”.  

O quilo da carne de tartaruga ou de crocodilo, citando um exemplo, é vendido nesse mercado negro por valores entre US$ 5.00 e US$ 7.00, o que é muito caro para os padrões cubanos. Mesmo assim, as pessoas fazem um grande esforço econômico para comer uma proteína de qualidade de vez em quando. Numa visita a um restaurante fino de Havana, eu passei por uma situação curiosa que ilustra como funciona esse mercado negro. 

Ao parar nesse restaurante para almoçar, descobri que só serviam carne de frango. Como eu sou alérgico a essa carne, eu falei com o maitre e, pagando módicos US$ 15.00, consegui pedir um belo e suculento filé “bovino” (usei aspas por que só tenho certeza de se tratar de uma carne vermelha). Para infelicidade geral dos cubanos pobres, é assim que as coisas funcionam por lá. 

Outra fonte de problemas é a demanda reprimida por madeiras na ilha, onde há falta do material para a fabricação de móveis elementares como cadeiras, mesas e sofás, para a construção civil e até mesmo para a fabricação de caixões para se enterrar os mortos. Os remanescentes florestais de Cuba são sistematicamente invadidos por madeireiros clandestinos, que derrubam as melhores árvores e levam os troncos para serrarias ilegais por toda a ilha. 

Para se ter uma ideia do tamanho do problema: o Corpo de Guardas Florestais de Cuba aplicou quase 20 mil multas por derrubada ilegal de árvores em 2014, totalizando quase US$ 125 mil, além de apreender mais de 2,2 mil m³ de madeira. A exemplo do que ocorre aqui no Brasil, sabemos que isso é uma fração mínima dos ilícitos cometidos por lá. 

Enquanto os líderes políticos locais só se preocupam com os rumos da “Revolución”, se desenrola uma perda acelerada de espécies animais e vegetais, degradação e perda de solos agrícolas, destruição de fontes de água e de habitats (principalmente costeiros e marinhos) por toda a ilha. 

Esse é o “jeitinho” cubano de tocar a vida. Então, ¡Viva Cuba!   

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