A CRESCENTE ESCASSEZ DE ÁGUA EM CUBA

Falta de água em Havana

Na nossa última postagem falamos de alguns dos principais problemas ambientais da Ilha de Cuba, onde destacamos a destruição de remanescentes florestais para a retirada de madeira e também da caça predatória de animais silvestres para abastecer o mercado negro de carnes do país. Esses dois problemas estão acabando com a biodiversidade de Cuba.

Se existe uma única palavra que pode definir Cuba como nenhuma outra ela seria “escassez“. Falta de tudo na Ilha: madeira, carnes, sabão, eletricidade, peças de reposição e combustível para carros, caminhões e motos; alimentos, entre muitas coisas mais. Os cubanos, assim como nós brasileiros, criaram “jeitinhos para tudo” e vão tocando a vida da melhor maneira possível. 

Um elemento essencial cuja escassez não para de aumentar na Ilha é a água. No início desse ano, citando apenas um exemplo, cerca de 1 milhão de habitantes de Havana ficaram até um mês sem receber uma única gota de água em suas torneiras e dependendo de caminhões pipa. Uma das regiões mais afetadas foi a Cidade Velha, mais conhecida como La Habana Vieja

De acordo com informações da chamada “Imprensa Cubana Livre”, dirigida por refugiados cubanos de Miami – Estados Unidos, cerca de 70% das tubulações da rede de água dessa região da cidade está deteriorada. A infraestrutura de La Habana Vieja e de outras regiões tradicionais da capital do país são anteriores à Revolução Cubana, encerrada em 1959. Tubulações de ferro fundido costumam ter uma vida útil na casa dos 50 anos, o que nos dá uma ideia da quantidade de água que é perdida em inúmeros vazamentos

Os problemas relacionados aos recursos hídricos em Cuba, entretanto, são bem mais complexos. Conforme comentamos em postagem anterior, perto de 70% da cobertura vegetal nativa da ilha desapareceu após cinco séculos de produção de cana de açúcar e tabaco. A presença de cobertura vegetal, como sabemos, é essencial para a infiltração da água das chuvas nos solos e recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos, reservas de água que alimentam as nascentes de rios, riachos e córregos.  

Sem esse processo, os corpos d’água só apresentarão bons volumes de água durante o período das chuvas – ao menor sinal de seca, a água simplesmente desaparece. Em ilhas como Cuba, onde os territórios são pequenos e as bacias hidrográficas costumam ser pouco extensas, a velocidade em que a redução dos caudais se processa é muito grande, o que agrava ainda mais o problema. 

As ilhas do Mar do Caribe estão entre as áreas com maior escassez de água do mundo. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, dos 36 países do mundo com maior escassez de água na atualidade, 7 estão no Caribe e Cuba, maior país insular e que possui a maior população entre todas as ilhas está no topo dessa lista

Como acontece na maioria dos países do mundo, a maior parte das águas superficiais disponíveis em Cuba são usadas pela agricultura. De acordo com dados de 2008, 65% da água disponível no país era usada em sistemas de irrigação – na maioria dos países esse volume está próximo de 80%. Agora, um dado interessante para ajudar a entender o tamanho do problema da escassez de água em Cuba – de um total de 6,2 milhões de hectares de área agrícola do país, menos de 500 mil hectares são irrigados. 

Segundo informações do Panorama de Uso da Terra de 2015, um informe do Governo Cubano, a maioria dos sistemas de irrigação em operação na Ilha são obsoletos e desperdiçam grandes volumes de água. Os planos do Governo local eram de duplicar a área irrigada até 2020, o que sem a troca dos sistemas de irrigação atuais por outros sistemas mais modernos como o micro gotejamento, é virtualmente impossível por falta de água

Plantações irrigadas costumam apresentar uma produtividade média até 30% maior que os cultivos tradicionais. Esse incremento na produção seria muito bem-vindo em um país que gasta mais de US$ 2 bilhões ao ano com a importação de alimentos básicos e que vem apresentando gravíssimos problemas de desequilíbrio em sua balança comercial desde o colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991 e que era a grande parceira comercial de Cuba. 

O país também depende da produção e exportação de produtos de origem agrícola, onde os maiores destaques são o açúcar, o rum e os famosos charutos “habanos puros”. Nessa situação, há uma tentação natural das autoridades em “forçar a mão” para disponibilizar a maior parte dos recursos hídricos para a agricultura, reduzindo proporcionalmente os volumes disponibilizados para a população. Esse desequilíbrio, aparentemente, chegou ao seu limite e a população tem feito grandes protestos diante da sistemática falta de água em suas torneiras (vide foto). 

Uma solução usada tradicionalmente em países com baixa disponibilidade de recursos hídricos superficiais é a perfuração de poços para a captação de águas em lençóis subterrâneos profundos. Em Cuba, essa solução não é eficaz – a ilha é extremamente alongada e estreita, não existindo praticamente nenhum ponto do território distante mais de 50 km do mar. A perfuração maciça de poços vai aumentar consideravelmente os riscos de salinização das reservas de água ainda existentes. Conforme comentamos na última postagem, cerca de 1 milhão de hectares de terras agrícolas do país já sofrem com processos de salinização

Além, da destruição da cobertura vegetal do país e do grande desperdício de água na agricultura, Cuba e outras ilhas do Mar do Caribe vêm sofrendo fortemente com as mudanças climáticas e com alterações nos tradicionais padrões de chuva. Com clima tropical, as Ilhas caribenhas sempre conviveram com duas estações climáticas bem definidas – uma forte temporada de chuvas, equivalente ao inverno da nossa Amazônia, e um verão quente e seco.  

Fenômenos naturais com o El Niño e La Niña tem afetado esse ciclo natural e provocado fortes secas. Outro sério problema enfrentado na região é o aumento da intensidade e da frequência dos furacões, o que tem causado enormes estragos nas ilhas. Um exemplo recente foi o Furacão Matthew, que em 2016 causou enormes estragos no Haiti, Jamaica, Cuba, República Dominicana e Bahamas, além dos Estados Unidos. Outro foi o Furação George, que em 1998 atravessou o Caribe e causou grande destruição na República Dominicana, Haiti, Porto Rico, Antígua e Barbuda, São Cristóvão e Névis, Cuba e Estados Unidos. 

Existem várias soluções técnicas para amenizar o problema de escassez de água em Cuba – desgraçadamente, todas irão demandar pesados investimentos. Essas soluções incluem a troca das redes de distribuição de água nas grandes cidades, o que diminuiria grandemente as perdas. Outra solução é adoção de sistemas para o reúso de água – em Israel, onde a disponibilidade de água ainda é menor do que em Cuba, as águas servidas são usadas em sistemas de irrigação altamente eficientes. A construção de usinas de dessalinização da água do mar, como é feito por exemplo em Curaçao, é um outro caminho para aumentar a oferta de água no país. 

Infelizmente, enquanto os “companheiros revolucionários” ainda derem as cartas em Cuba, nenhuma dessas ideias poderá sair do papel. Sem dinheiro, sem água e com burocratas socialistas mandando no país, a situação em Cuba ainda vai piorar muito antes que qualquer sinal de melhora surja no horizonte. 

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